Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 14 de junho de 2025

DiScOs InCrÍvEiS: Milton Nascimento



Milton Nascimento

Milton nos anos 70

Minas - 1975

"Clube da Esquina", um dos principais discos da carreira de Milton Nascimento, indicando a esquina como um conceito fundamental em se tratando da cultura religiosa afro-brasileira, onde se configura uma ideia de passagem, transição, encruzilhada, uma localização suspensa no espaço-tempo, que vai e volta. E é exatamente nesse sentido que se movimenta o fazer artístico de Milton Nascimento e dos integrantes do Clube da Esquina, que participam do álbum Minas, há uma intenção sincrética de resgate profundo da cultura mineira, que se realiza na junção religiosa católica cristã e na cultura africana nagô, em que surgem expressões artísticas populares e das influências externas, como o Jazz (ritmo musical naturalmente negro e que desenvolve uma profunda relação espiritual em determinado momento histórico) e o Rock and Roll.

Desta forma, nessa mescla de vários ritmos e pesquisas culturais, cria-se um estilo único no fazer artístico que contorna esteticamente as músicas do grupo – em Milagre do Peixes (1973) as nuances rítmicas africanas e mineiras são evidentes. Este disco ainda passou pela censura e teve letras suprimidas, o que fez com que Milton permanecesse apenas com a melodia em algumas faixas. Mas que deixou o álbum extremamente profundo.
Capa do álbum

Os coros sempre foram a alma da música de Milton Nascimento. Coros que tocam na alma, enche o peito de boas sensações, inexplicável, provocam nosso ser. O álbum Minas, de 1975, é brilhante! Os arranjos são sofisticados, instrumentações moderna com órgãos sintetizadores, pianos, saxofones e orquestrações a cargo do músico e maestro Wagner Tiso.

A linda melodia de vozes no início da primeira faixa "Minas", nos mostra essa  ambientação de Milton. Esses coros permearão por todo o disco, uma espécie de vinheta, como num Jazz ou Rock Progressivo muitas vezes. "Fé Cega, Faca Amolada" falava mais diretamente o que os jovens daqueles dias queriam ouvir - a urgência de lutar contra a escuridão da ditadura. As estrofes trocadas entre Milton e Beto Guedes vão duelando numa linha de baixo sensacional de Novelli. 

A guitarra de Toninho Horta com efeitos wah wah e os arranjos de piano elétrico e órgão de Wagner Tiso fazem da faixa uma das melhores do disco. A importância das das conversas, discussões e coisas simples da vida é provocada em "Saudade dos Aviões da Panair" (conversas de bar). A instrumentação varia em vários momentos na velocidade e ritmo da música, fazendo a ambientação mudar bastante. 

Os coros da vinheta aparecem no meio da canção terminando num momento bem Free Jazz entre bateria, guitarra e flauta. "Gran Circo" traz uma introdução de muito suspense com os arranjos de  orquestra. A letra traz o drama de viver dos seres humanos. 

O piano e baixo com ótimos arranjos de percussão levam a música para essa possível sensação. A introdução de "Ponta de Areia" traz a sensação de que ouviremos o álbum "Bitches Brew" de Miles Davis, mas o coro e vocalizações mudam a vibe, nos colocam num clima saudosista do autor. Vale destacar o lindo solo de sax soprano de Nivaldo Ornelas e a percussão ambientalista e criativa de Chico Batera. 

Uma faixa muito requisitada de todos os tempos. "Trastevere" traz arranjos arrojados, um instrumental descolado, jazz brasileiro de primeira qualidade. Baixo acústico do Novelli, guitarras cheias de efeitos modernos de Toninho Horta e Beto Guedes e os coros com participações de MPB4, Nana Caymmi, Golden Boys, Joyce, Lizzie e Olívia. Vale lembrar da faixa "Leila (Venha Ser Feliz)", dedicada a artista Leila Diniz. Um instrumental delicioso, no melhor estilo Jazz Fusion e arranjos vocais muito bem trabalhados. 

Edição Abril Coleções
Na faixa "Paula e Bebeto" só o violão e voz de Milton já seriam suficientes para o brilho dessa música. (Qualquer maneira de amor vale a pena, qualquer maneira de amor vale amar), diz a letra. Lindo! A faixa é levada por um arranjo de percussão fantástico, os músicos Beto Guedes, Novelli, Gegê, Tenório Junior e Toninho Horta, juntos, fazem uma ambientação percussiva alucinada. 

Outro destaque fica por conta da versão espetacular de "Norwegian Wood" dos Beatles. John, Paul, Ringo e George não poderiam fazer melhor. O álbum termina com a canção "Caso Você Queira Saber" dos parceiros Beto Guedes e Márcio Borges nos trazendo o espírito Clube da Esquina. O final da música é fantástico, um frenesi total de instrumentos.

Esse disco obteve sucesso gigantesco, recorde de vendas, caiu na graça tanto dos mais velhos, quanto dos mais jovens. Símbolo entre os universitários. Milton Nascimento recebeu vários convites para uma turnê fora do país, mas por receio de voar em aviões, preferiu realizar centenas de shows pelo Brasil. 

Mestre da Música Brasileira !!


Ficha Técnica

Estilo Referência – Música Popular Brasileira

Músicos:
Milton Nascimento - Voz, Violão e Piano
Novelli - Baixo
Beto Guedes - Voz e Guitarra
Toninho Horta - Guitarra e Percussão
Wagner Tiso - Vocal, Órgão, Piano e Orquestração
Nivaldo Ornelas – Bateria, Baixo Acústico, Saxofone, Flauta
Chico Batera - Bateria e Percussão

Faixas:
1. Minas
2. Fé Cega, Faca Amolada
3. Beijo Partido
4. Saudades dos Aviões de Panair (Conversando no Bar)
5. Gran Circo
6. Ponta de Areia
7. Trastevere
8. Idolatrada
9. Leila (Venha Ser Feliz)
10. Paula e Bebeto
11. Simples
12. Norwegian Wood (This Bird Has Flown)
13. Caso Você Queira Saber

Lançamento 1975 – EMI Odeon
Relançamento 2012 – Editora Abril
Produção – Ronaldo Bastos


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