Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 9 de agosto de 2025

Literatura: Livro "Tom Vermelho do Verde"

Tom Vermelho do Verde

Frei Betto 
Editora - Rocco
Edição - 2022

Sinopse:

Baseado em eventos históricos...

Frei Betto ergue sua voz em defesa dos indígenas, perpetuamente esquecidos pela sociedade brasileira e oprimidos pelos grupos que os exploram desde o "descobrimento".

Tom vermelho do verde é um livro de denúncia, mas também um romance histórico que cativa o leitor desde as primeiras páginas e o impressiona com o profundo conhecimento da cultura indígena apresentado pelo autor.

No momento em que os povos originários sofrem pressões para que suas terras sejam exploradas por companhias mineradoras e madeireiras que causam danos ecológicos irreparáveis, Frei Betto nos revela o drama vivido pelos Waimiri-Atroari a partir da construção da rodovia BR-174 em suas terras, na década de 1970. Drama até então conhecido apenas por estudiosos de culturas indígenas e que se prolonga até hoje, cujas consequências não se restringem às vítimas inocentes. Pelo contrário, atinge proporções catastróficas e imprevisíveis à medida que a floresta amazônica é arrasada e seus povos originários são dizimados.

Palco de grandes interesses e muitos conflitos, vítima de cobiça e rapina nacional e internacional, o bioma amazônico e seus mais de uma centena de povos e etnias têm sido vítimas de agressões, massacres, genocídios, mormente a partir do golpe político de 2016, que abriu alas para uma fraudulenta política de devastação e invasões de terras indígenas à partir do governo de Jair Bolsonaro, que intensificou a invasão do capital predatório, iniciada com os governos militares em 1964, na Amazônia.

Trata-se de uma trilha segura para quem quiser percorrer, metaforicamente, os rios e florestas de uma região tão falada e pouco conhecida, sem os exotismos e distorções que quase sempre maculam a literatura feita “na” e “sobre” a Amazônia, tão afetada por seres fantasmagóricos à feição dos íncubos e súcubos transplantados do imaginário do Velho Mundo; ou por hominídeos bestiais em descabeladas aventuras, como no romance “A Amazônia Misteriosa”, do carioca Gastão Cruls (1925); ou por uma escritura grandiloquente, como nos contos de “Inferno Verde”, do pernambucano Alberto Rangel (1908), nos quais a dimensão humana diante da natureza é bastante reduzida, tanto no nível narrativo quanto no nível linguístico, como o prova a excessiva adjetivação do meio físico; ou pela erudição engenhosa do paulistano Mário de Andrade, um “turista aprendiz” como os acima citados, que descola a complexa figura mitológica de Macunaíma de sua origem amazônica e transforma-o, pela via do humor debochado, no degenerado “herói sem nenhum caráter”, que nasce negro, preguiçoso e sensual numa aldeia indígena (!!!) e, após banhar-se em águas encantadas de São Paulo, torna-se branco, louro e de olhos azuis, sendo recebido pela “crítica” como símbolo de um povo em formação.

“Tom vermelho do verde” percorre caminho inverso. Percebe-se, em todo o livro, um esforço, diga-se desde já bem-sucedido, de romper com a visão exótica, deformada e fantasmagórica da “realidade amazônica”, desnudando as intenções e projetos que se ocultam por trás de relações sociais condicionadas por um racismo estrutural e uma ganância sem limites.

Já no título, remete-nos ao sangue da nação Waimiri-Atroari derramado sobre o verdejante solo amazônico, como decorrência do avanço de atividades econômicas ilegais, muitas vezes disfarçadas de missão evangelizadora e humanitária, no rastro da estrada BR-174 (Manaus-Caracaraí), que rasgou o território daquela etnia no início dos Anos 70 do século passado, sob o comando do regime militar que infelicitava o país desde 1964.

Frei Betto e Papa Francisco
Sobre o autor: 
Frei Betto é doutor Honoris Causa em Filosofia pela Universidade de Havana e em Educação pela Universidade José Martí, de Monterrey. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. É frade dominicano, escritor e cronista. Conquistou importantes prêmios literários brasileiros, como o Jabuti, em 1982, pelo livro Batismo de sangue (Rocco). Nesta mesma data, foi eleito Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores, que lhe concedeu, em 1985, o prêmio Juca Pato pelo livro Fidel e a religião.

Dele, a Rocco publicou também: Paraíso perdido; Calendário do poder; A mosca azul; Hotel Brasil; Aldeia do silêncio; Minas do Ouro; A arte de semear estrelas; Um homem chamado Jesus; Começo, meio e fim; Ofício de escrever; Minha avó e seus mistérios; Diário de quarentena; Diário de Fernando; Por uma educação crítica e participativa.

Atuou como assessor especial da Presidência da República e coordenador de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre 2003 e 2004. É assessor de movimentos sociais e educador popular.

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