Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Cultura do Amor: Albert Schweitzer


Resgatar o respeito irrestrito ao ser humano e a todo ser.

"A ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive"

Já temos constatado neste espaço, a erosão da ética que atinge todos os âmbitos da vida. O mesmo se pode dizer da falta de respeito entre as pessoas, as sociedades e as nações. Fatos gritantes são o desrespeito completo das forças de Israel cometendo genocídio a centenas de crianças inocentes da Faixa de Gaza. O mesmo ocorre no Sudão e em outros lugares de guerra. Tais tragédias pertencem à crise civilizatória atual.

Temos que resgatar o respeito ilimitado como valor fundamental. Não apenas entre os humanos. Com a nova consciência ecológica e as new sciences ligadas á vida, à natureza, ao cérebro e à nova cosmologia, entendida como cosmogênese: o respeito à Terra, à natureza e a todo ser é imperativo, pois todos estão dentro da dinâmica do processo evolutivo e possuem história, certa subjetividade e direitos que devem ser respeitados.

Para esta tarefa, sirvo-me de alguém que, além de médico, dedicou toda a sua vida a pensar o respeito. Refiro-me a Albert Schweitzer (1875-1965), oriundo da Alsácia. Desde cedo, apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra, especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach, por toda a Europa.

Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, principalmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre, no faminto e sedento, resolveu abandonar tudo e estudar medicina.

Formado, em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no Gabão belga, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente numa carta:

“O que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido. Depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja” (Schweitzer, 1994 p. 25-26).

Em seu hospital, especialmente para hansenianos (leprosos) no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles O Respeito Diante da Vida (Ehrfurcht vor dem Leben), que cito no final do artigo.

Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, em especial, para com aqueles que mais sofrem.

Ponto de partida para Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa: ”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que também querem viver” (Wie wir überleben können, 73). À vontade de poder (Wille zur Macht) de Nietszche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver (Wille zum Leben). E continua:

“A ideia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética” (op. cit. p. 52 e 73).

Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir a natureza e todas as formas de vida que se nos apresentam. O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).

Numa palavra: “A ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive” (Wie wir überleben, p. 52 e Was sollen wir tun p. 29).

Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação sucinta, afirma: ”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar” (Was sollen wir tun? op. cit. p. 26).

Dai derivam-se comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando seus ouvintes numa homilia, ele conclama:

“Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo-Poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’”.

Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos, mas também para as mais pequenas das criaturas” (Was sollen wir tun, op.cit. p. 55).

A ética do respeito de Albert Schweitzer une inteligência emocional e cordial num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas.

O maior inimigo desta ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas. O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua humanidade. As Escrituras são claras: ele é feito cuidador e guardador do jardim do Éden, da Terra-Mãe.

Concluímos com a seguinte observação: ou vivemos o respeito incondicional a todo o ser, especialmente ao ser vivo e, em particular, ao ser humano, ou então perdemos a base que sustenta o empenho pela dignidade e pelos direitos humanos.

Outro seria o caminho da modernidade se este ideal fosse assumido como central e não a vontade de potência. Se não respeitarmos todo ser, acabaremos não respeitando o ser humano, homem e mulher, o ser mais complexo e misterioso da criação. Mas também o mais vulnerável, quando pobre, doente e discriminado.

Sem o respeito e a veneração, perdemos também a memória do Sagrado e do Divino, que perpassam o universo e que emergem na consciência humana.

Literatura referida:

– Schweitzer, A., Ehrfurcht vor dem Leben. Grundtexte aus fünf Jahrhunderten, C. H. Beck Verlag, Munique, 1966.
– Kultur und Ethik, C. H. Beck Verlag, Munique 1960.
– Wie wir überleben können. Eine Ethik für die Zukunft, Herder, Freiburg 1994.
– Was sollen wir tun? Verlag Lambert Schneider, Heidelberg 1986

Matéria:
por - Leonardo Boff
12 set 2026
RevistaLiberta