Carla Akotirene
- Livro: Interseccionalidade -
A intenção da coleção Feminismos Plurais é trazer para o grande público questões importantes referentes aos mais diversos feminismos de forma didática e acessível. Neste volume, a autora Carla Akotirene discute o conceito de interseccionalidade como forma de abarcar as interseções a que está submetida uma pessoa, em especial a mulher negra. O termo define um posicionamento do feminismo negro frente às opressões da nossa sociedade cisheteropatriarcal branca, desfazendo a ideia de um feminismo global e hegemônico como diretriz única para definir as pautas de luta e resistência. (edição revista em parceria com a Pólen Livros).
Editora: Jandaíra
Data da publicação: 10 julho 2019
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Sobre a autora:
Carla Akotirene, bacharela em serviço social, mestra e doutoranda em estudos sobre mulheres, gênero e feminismo pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) sobre o livro O que é Interseccionalidade? Carla foi a primeira pessoa da sua família a chegar à universidade graças a conquistas que, nem bem se concretizaram amplamente, se encontram ameaçadas. O livro pode nos ajudar a assimilar a dimensão dessas conquistas e ameaças. É também uma das mulheres negras que “rompeu com a passividade das leituras e buscou o movimento da escrita”. Compartilhei esta frase da colunista do Nexo Giovana Xavier, quando ela se referiu a Conceição Evaristo, nossa eleita para a Academia Brasileira de Letras. Carla Akotirene é uma das pessoas que produzem conhecimentos que precisam ser compartilhados, compreendidos e assimilados para que o mundo fique melhor.
O que é Interseccionalidade?
Interseccionalidade é uma ferramenta metodológica disputada na encruzilhada acadêmica. Trata-se de oferenda analítica preparada pelas feministas negras. Conceitualmente ela foi cunhada pela jurista estadunidense, a professora da teoria crítica de raça Kimberlé Crenshaw, no âmbito das leis antidiscriminação. Sensibilidade analítica, a interseccionalidade completa no próximo semestre 30 anos, quando a sua proponente teorizou a sugestão histórica pensada pelo movimento de mulheres negras. É uma ferramenta teórica e metodológica usada para pensar a inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado, e as articulações decorrentes daí, que imbricadas repetidas vezes colocam as mulheres negras mais expostas e vulneráveis aos trânsitos destas estruturas. Infelizmente agora sofre os perigos do esvaziamento, pois caiu no gosto acadêmico das branquitudes. Fala-se muito de feminismo interseccional sem trabalhar o paradigma afrocêntrico, de forma desconexa da origem, fundamento e propostas epistemológicas das feministas negras.
Akotirene: No mestrado eu estudei interseccionalidade no Conjunto Penal Feminino de Salvador. Lá, comprovei que a prisão é um microcosmo de violências amplas, subscrita de conflito entre Lei de Execução Penal de 1984 e Lei Maria da Penha de 2006. Há excesso de mulheres negras encarceradas que não conseguiram negociar com a policia a impunidade quando se opuseram às violências de gênero praticadas contra elas. Há outra parcela presa porque seus maridos as obrigaram a levar drogas ou celulares na vagina para que eles preservassem masculinidades hegemônicas no tocante à sexualidade ou fossem os administradores das galerias e circulação dos bens e serviços. A violência de gênero é sempre o pano de fundo, principalmente quando estamos falando de homicidas de agressores. Defender a prisão não dá conta de perceber toda a variedade de intersecção de classe, raça e território.
Akotirene: Os religiosos do candomblé, no papel de assistência religiosa às internas, diferente dos de outras religiões, são tratados como perigosos, elegíveis às revistas vexatórias do tipo que inspeciona o ânus em busca de entorpecentes, enquanto neopentecostais e católicos incorrem na reprodução do racismo religioso. Nas penitenciárias, como a semântica penitência sugere, as lésbicas e trans hegemônicas estupram as mulheres ladys, sem que estas últimas possam dar queixa usando o recuso da Lei Maria da Penha. Afinal, agressores/agressoras já estão privados de liberdade. Mulheres negras não recebem quaisquer benefício de remissão da pena e indulto sem antes passarem pela seletividade racial nas funções de trabalho. As brancas destinadas ao administrativo, enquanto as negras são mantidas nos trabalhos pesados.
Akotirene: No doutorado estou propondo um estudo comparativo entre as lógicas de racismo e sexismos institucionais nas prisões masculinas e prisões femininas, mais uma vez à luz da interseccionalidade, para compreender os fracassos da lei, das retóricas de militâncias feminista, antirracista e execução penal. A argumentação toda é para comprovar o engodo da ressocialização e dizer que formação técnica de políticas de promoção da igualdade e contra o racismo institucional não serve para a
prisão, haja visto que sem racismo não existiria prisão.
Akotirene: A ideia de racismo institucional concebe que uma instituição não dispõe de atendimento adequado para pessoas negras, então a instituição prisional teria que mudar conjunturalmente pra atender bem os/as usuários/as. O que eu estou afirmando é que o discurso de formação de servidores/as no sentido de prevenir e combater o racismo institucional é engodo, já que a prisão serve para legitimar o Estado Penal, regulador das discriminações raciais. Logo, nenhum/a usuário/a quer uma prisão sem racismo. A prisão é o próprio racismo. Como já nos disse Hamilton e Carmichael: é prática antinegros, e segundo as pesquisadoras Angela Davis, Juliana Borges e Ana Flauzina, o sistema penal precisa da seletividade racial e etiquetamento para poder funcionar bem. É por isto, por exemplo, que o negro desempregado é capturado para trabalhar nas prisões, numa lógica do capital da punição.
Akotirene: Do meu espaço de atuação, vejo que precisamos conseguir engajar processos ativistas para dentro da academia, criar estratégias de disputa de conhecimento fora da matriz Europa Ocidental e Estados Unidos, bem como evitar legitimidades de academistas negras fora do lugar epistêmico para dentro dos movimentos sociais. Digo isso a partir de uma perspectiva descolonial. A Universidade precisa do racismo para investir na continuidade do colonialismo. Vejo pesquisadoras negras autorizadas/legitimadas pelo argumento da visibilidade negra na produção teórica, contudo elas seguem presas às correntes ocidentais. Somos nós, militantes descolonias, que devemos ir pra academia e não os/as acadêmicos/as {mesmo negros/as} usarem a interseccionalidade para respaldo ativista epistemicamente situado do lado Norte Global.
Akotirene: No meu livro demonstro como a interseccionalidade, enquanto ferramenta teórica e metodológica, permite-nos enxergar na colisão das estruturas do racismo, do capitalismo e do cisheteropatriarcado, a interação simultânea das avenidas identitárias. Além do fato de feminismos brancos fracassarem na tentativa de socorrer as vítimas negras, tendo em vista a forma como empregam o racismo nas suas análises e propostas. Igualmente, o movimento negro falhar pelo seu caráter machista, quando apresenta ferramentas metodológicas pensadas para socorrer exclusivamente o homem negro.
Instituto da Mulher Negra
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