Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Fanny

FANNY
' A força do Rock feminino '

“Uma das bandas femininas mais importantes do rock americano foi enterrada sem deixar rastro. E essa banda é a Fanny. Elas foram uma das melhores bandas de rock da sua época, por volta de 1973. Eram extraordinárias: compunham tudo, tocavam como ninguém, eram simplesmente colossais e maravilhosas, e ninguém nunca as mencionou. São tão importantes quanto qualquer outra banda que já existiu; simplesmente não era a hora delas. Revivam a Fanny. E eu sentirei que meu trabalho está feito.”

David Bowie escreveu sobre Fanny na revista Rolling Stone – 29/12/99.
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História da Banda

Fanny foi uma banda de rock verdadeiramente pioneira. A sua carreira quebrou barreiras para as mulheres na música rock. Aliás, elas foram praticamente a primeira banda formada somente por integrantes mulheres no rock!

Quatro talentosas mulheres instrumentistas e cantoras de rock que nunca dependeram da sexualidade para fazer música. Auto se descreviam como sendo, antes de mais nada, musicistas e, em segundo lugar, mulheres. Mas o fato de elas serem mulheres, e de terem alcançado um nível de sucesso nunca antes visto para uma banda de rock composta exclusivamente por mulheres, foi uma conquista notável.

Foram também a primeira banda de rock formada exclusivamente por mulheres a gravar um álbum completo para uma grande gravadora, tendo inclusive lançado cinco álbuns por grandes selos. Reconhecida pela imprensa e por seus inúmeros fãs como uma banda incrível ao vivo – nas palavras de Steve Peacock, um dos principais jornalistas musicais do Reino Unido na época, “se você fechar os olhos, é como ouvir os Rolling Stones”.

Foram incansáveis turnês a cada ano. Em uma carreira que se estendeu de 1970 a 1975, elas emplacaram uma série de singles de sucesso e também participaram de gravações em estúdio de alguns artistas lendários. Além de seus muitos shows ao vivo, elas se apresentaram nos principais programas de música e variedades da televisão da época, incluindo The Old Grey Whistle Test, The Sonny and Cher Show, American Bandstand e The Beat Club, o programa de bandas mais famoso da Alemanha.

As quatro interantes originais do Fanny eram June Millington (guitarra e vocal), Jean Millington (baixo e vocal), Alice de Buhr (bateria e vocal) e Nickey Barclay (teclados e vocal). June e Nickey eram os principais compositores da banda, mas Jean e Alice contribuíram significativamente para o repertório da banda e todas as quatro participaram dos arranjos das músicas e da criação de suas performances ao vivo. 

Alguns dos maiores nomes da música da época como, David Bowie, Deep Purple, George Harrison e The Kinks, ficaram tão impressionados com essas quatro roqueiras adolescentes que fizeram questão de promover a banda e contratá-las como banda de abertura.


Apesar do sucesso, as integrantes do Fanny nunca chegaram a ser superestrelas, mas abriram caminho para muitas mulheres no mundo do rock. Quando começaram, a ideia de mulheres jovens como roqueiras era tão impensável quanto a ideia de mulheres terem direito ao voto décadas atrás. 
A banda foi finalmente homenageada com o prêmio "Rockrgrl Women of Valor por sua importante contribuição, que foi celebrado no Berklee College of Music em 20 de abril de 2007 com uma noite de gala que incluiu depoimentos e uma "rockestra" de estudantes do Berklee tocando músicas do Fanny.

As irmãs June e Jean Millington, filhas de um oficial da marinha americana e uma socialite filipina, nascidas nas Filipinas, mudaram-se com a família para Sacramento, Califórnia, em 1961. Cercadas por estranhos em um país desconhecido, elas se dedicaram à música para manter o ânimo e se apresentaram no ensino médio, primeiro como um duo com June no violão e Jean no baixo, e depois formando um quarteto feminino, The Svelts. Sua primeira baterista foi a amiga Brie Berry, que deixou a banda para ter um bebê, mas acabou retornando à música como Brie Brandt e se juntou ao Fanny nos últimos anos da banda.

Os Svelts tocaram em clubes por toda a Costa Oesta banda em Nevada. Após algumas mudanças na formação, Jean e June foram acompanhadas em 1968 pela guitarrista Addie Clement (da banda California Girls) e pela baterista Alice de Buhr, natural de Mason City, Iowa, que se mudou para a Califórnia aos dezessete anos em busca da proverbial fama e fortuna. Nessa formação de quatro integrantes, os Svelts faziam shows pelo Oeste em um ônibus urbano reformado, tocando principalmente covers.

Mais tarde naquele ano, Alice e Addie deixaram os Svelts para fundar outra banda feminina, Wild Honey, e fizeram alguns shows no Meio-Oeste antes de retornarem à Califórnia para se juntarem aos Millingtons. Como Wild Honey, agora tocando covers da Motown, elas foram para Los Angeles em 1969 para "assinar com uma gravadora ou voltar para a faculdade". Quase optaram pela segunda opção – ninguém na indústria musical de Hollywood as levava a sério, e depois de um tempo, as Wild Honey estavam prontas para desistir e voltar para casa. Mas naquela que pensavam ser sua última noite em Los Angeles, elas tocaram em uma noite de microfone aberto no famoso Troubadour Club de Doug Weston, e por acaso a secretária de Richard Perry estava lá, conferindo bandas independentes.

Perry, funcionário da Warner Brothers Records e produtor de destaque,buscava uma banda de jovens mulheres com um rock poderoso, e assim que o Wild Honey fez um teste para ele, não perdeu tempo em convencer o chefão da WB, Mo Ostin, a contratá-las. Na verdade, Perry estava tão certo do potencial do Wild Honey que conseguiu que a banda assinasse com a Reprise Records, subsidiária da WB, sem sequer vê-las – e sem ouvi-las! O Wild Honey, agora um trio (Jean, June e Alice), entrou no Western Recorders com Perry em dezembro de 1969 para trabalhar em seu primeiro álbum de músicas originais. Depois de gravar algumas faixas, porém, tanto a banda quanto o produtor sentiram que faltava algo – um tecladista.

Encontrar uma boa tecladista de rock que fosse jovem e mulher não era tarefa fácil em 1969, a Wild Honey trouxe candidatas a tecladistas de lugares tão distantes quanto Nashville e até mesmo o Canadá, mas ninguém atendia a todos os critérios até encontrarem Nickey Barclay, uma jovem, porém experiente, musicista de estúdio profissional e membro fundadora do Musicians Contact Service, de Sterling Haug, com sede em Los Angeles.


Nickey tornou-se a quarta integrante em janeiro de 1970 e imediatamente começou a gravar com o Wild Honey, trazendo sua experiência em blues, soul e funk para dar ao som da banda uma pegada mais pesada. Mas ela se ausentou por alguns meses para fazer turnê com o Mad Dogs and Englishmen, banda de Joe Cocker que logo se tornaria lendária, participando do álbum ao vivo de sucesso, dos singles e do filme Mad Dogs. Ela retornou ao Wild Honey com alguma hesitação após a turnê – em parte porque Cocker a convenceu de que seria uma boa ideia – e assinou contrato formalmente como membro da banda, finalizando a gravação do que seria o primeiro álbum de Fanny para a Reprise.

Depois que Nickey se juntou à banda e o lançamento do álbum estava iminente, a questão de um novo nome foi levantada – pelas próprias quatro integrantes, por Richard Perry, pela gravadora e pela empresa de gerenciamento, a Blue Peacock Company. Todos sentiam que o que era necessário era um nome feminino, algo curto, memorável e ao mesmo tempo feminino e ousado. Depois de considerar uma série de sugestões, a banda optou pelo nome FANNY, e o resto é história. June explicaria mais tarde: “Nós realmente não pensávamos em [o nome Fanny] como uma bunda, um termo sexual. Sentíamos que era como o espírito de uma mulher nos protegendo.”

Embora o primeiro álbum da banda tenha sido inovador por apresentar todas as notas cantadas e tocadas por mulheres, a imprensa especializada em rock, em geral, não se impressionou. Fanny foi erroneamente vista mais como uma atração passageira do que como musicistas sérias com algo a dizer. Um crítico escreveu que a banda estava "se esforçando demais". Fanny estava abrindo caminho, mas a maioria dos críticos não tinha um ponto de referência, nenhuma base de comparação para julgar um grupo de mulheres tocando rock.

Fanny teria que se tornar seu próprio ponto de referência.

Na Inglaterra, onde a palavra "fanny" é uma gíria para vagina, a banda foi aclamada como feministas ousadas. Mas as integrantes não se consideravam necessariamente feministas, pelo menos não no início; elas eram musicistas em primeiro lugar e mulheres em segundo, vestindo-se mais como os homens e lutando para ganhar credibilidade em um meio dominado por homens. Nickey Barclay comentou mais tarde sobre a imagem física da banda: "Sentíamos a pressão de ter que provar nosso valor. Quando começamos a nos apresentar, subíamos ao palco vestindo o que estávamos usando. Era como se estivéssemos nos desculpando por sermos mulheres, evitando qualquer tipo de glamour ou atratividade no palco. "O visual da banda tornou-se mais feminino e elegante depois que elas provaram seu valor através da árdua rotina de turnês internacionais".

O segundo álbum da banda, Charity Ball, de 1971, foi muito mais bem recebido pela imprensa especializada em rock, chegando a gerar previsões de sucesso estrondoso. A faixa-título alcançou as paradas de singles nos EUA, chegando ao 40º lugar na Billboard em novembro, e a banda fez uma extensa turnê para promover o sucesso. Milhares de fãs em vários continentes compareceram para rir do que se esperava ser um "show de aberrações" e saíram de lá como verdadeiros fãs. A banda ganhou ainda mais credibilidade ao se tornar a banda de abertura favorita de alguns dos maiores nomes da época, mas ao mesmo tempo se consolidou como atração principal em grandes casas de shows.

Se alguém quiser apontar um momento específico em que as portas foram realmente escancaradas para as bandas de rock femininas, basta olhar para o lançamento do terceiro álbum, Fanny Hill, o terceiro LP da banda de 1972. Gravado no Apple Studios dos Beatles em Londres, foi aclamado pela principal imprensa de rock da época como o melhor trabalho da banda até então. 
O álbum apresenta alguns dos melhores momentos de estúdio do grupo e demonstra a maturidade musical adquirida após vários anos de gravações e turnês.

As integrantes estavam se adaptando e aprendendo a equilibrar seus papéis como mulheres e musicistas de rock, mas a pressão começava a cobrar seu preço dentro da banda. Pouco depois do lançamento de seu quarto álbum, a banda entrou em colapso temporariamente devido ao que a escritora Barbara O'Dair** chamou de “tensões internas, desgastes acumulados e os riscos comuns da profissão em um mundo masculino baseado em sexo, drogas e rock and roll”.


Em meio à crescente discórdia, Alice e June deixaram o grupo uma a uma. June foi substituída na guitarra e nos vocais por Patti Quatro, irmã mais velha da sensação pop Suzi; Alice foi substituída na bateria por Brie Brandt, ex-integrante do Svelte. Nickey e Jean optaram por permanecer, e foi essa formação que gravou o último álbum da banda, Rock and Roll Survivors. O disco incluía o single "Butter Boy", que alcançou o 29º lugar na parada de singles da Billboard em fevereiro de 1975, mas quando o single se tornou um sucesso, a banda já não existia mais para promovê-lo.

A carreira do Fanny havia chegado ao fim, mas o legado de seus esforços pioneiros para as mulheres no rock permanece vivo até hoje. Os muitos fãs que viram a banda tocar ao vivo sabiam, e ainda se lembram, que elas arrasavam no palco com muito mais energia do que a maioria das músicas gravadas, produzidas por homens, sugeria. Não é exagero dizer que todas as mulheres influentes no mundo do rock, de Joan Jett a Courtney Love e muitas outras, devem muito ao Fanny por terem aberto as portas e mostrado ao mundo que as mulheres realmente podem arrasar no rock!