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terça-feira, 9 de junho de 2026

Filosofia Africana: IORUBÁ


Introdução à Filosofia Iorubá

Na filosofia africana não há uma separação entre ser e não ser. Ambos são faces distintas da mesma realidade, habitada por seres visíveis e invisíveis.

Segundo o perfil da autora Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí, publicado na Enciclopédia Mulheres na Filosofia, iniciativa da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), seus estudos constatam que o corpo e a diferenciação de gênero imposta através dele são “o alicerce sobre o qual a ordem social ocidental é fundada”, mas que essa não é uma perspectiva universal, e ela não pode ser utilizada para se pensar a cultura iorubá, em que o corpo não é base de nenhum status social.

A partir dos estudos de Oyěwùmí, esta pesquisa se aprofunda na questão da não centralidade do gênero no pensamento filosófico iorubá e analisa como, em seu lugar, as hierarquias são constituídas a partir da idade, uma categoria que se estabelece de forma muito mais fluida, relacional e coletiva do que o gênero.

É possível pensar uma teoria filosófica da existência na qual o gênero não seja o que constitui o ser. Gênero é um conceito muito utilizado nas ciências humanas, mas, sem uma análise profunda sobre seu significado e lugar no pensamento ocidental, partimos da compreensão de que o gênero é um dado da realidade e, desse modo, o assumimos em pesquisas e estudos sem questionamentos.

Se um dos papéis da filosofia é questionar o significado de algo, a questão sobre o que é gênero precisa ser feita, para que não sejamos pessoas que meramente a discutem sem refletir sobre seu significado, e sem a compreensão de que sua absorção sem questionamentos provoca ruídos quando usada em comunidades não ocidentais.

Precisamos entender que gênero não pode ser abstraído do contexto histórico-social-cultural e de outros sistemas de hierarquia e, assim, usar linguagens teóricas e conceituais que sejam baseadas na realidade, no intuito de apreender seu sentido e papel. Todos os conceitos trazem consigo suas próprias bagagens culturais e filosóficas, muitas das quais se tornam distorções quando aplicadas em culturas diferentes das quais derivam.

A pesquisa reflete sobre a questão do gênero na cultura iorubá a partir dos estudos de Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí sobre a sociedade Oyó-Iorubá do sudoeste da Nigéria no período anterior ao processo colonial.

Seus textos apontam para o fato de que as categorias de gênero não são ontológicas na cultura iorubá, ou seja, não fazem parte da organização de seu pensamento filosófico. A assimilação do gênero como um paradigma estrutural da sociedade vem de imposições coloniais.

A cultura iorubá, organizada através das narrativas dos orixás, é constituída por relações fluidas, situacionais e independentes dos tipos de corpos. O fato de possuir determinada genitália não coloca alguém automaticamente em lugar desigual de poder como os sistemas de gênero fazem.

As hierarquias nessa cultura são na verdade formadas a partir da senioridade: diferentemente das baseadas em gênero — uma categoria individual da identidade sexual do seres —, elas não se referem à anatomia e à disposição dos órgãos sexuais, mas à idade — que não mora apenas no corpo, mas na história que fala do coletivo.

E essa hierarquia é relativa. Dependendo de com quem se está falando, pode-se ser mais velho ou mais jovem. Assim, a posição central da senioridade comunica que o modo de pensar iorubá é não dualizado e se constitui em relação com as divindades, a natureza e a comunidade.

A filosofia africana e seus conceitos devem ser uma fonte na formulação da filosofia, que precisa pensar o ser em relação, e não como algo isolado e excluído da comunidade.

A senioridade, ao fornecer a base de instituições e relações sociais, também reflete a dinâmica entre o corpo (não sexuado), a orí (cabeça, em iorubá) e a idade como balizadora da forma de entender o mundo iorubá, em que cada ser é um “inter/entre ser”, que existe apenas em relação com aquilo que está ao seu redor.

Nesse sentido, o ser não é estático. A partir disso, pode-se pensar em um modo de conceber a existência sem os binarismos que geralmente caracterizam o pensamento ocidental moderno, cuja constituição por oposição concebe uma distinção, frequentemente destrutiva, entre humanos (Seres) e inumanos (Outros) — categorias que geram problemas como sexismo, racismo, xenofobia, etc. 

Na filosofia africana não há uma separação entre ser e não ser. Ambos são faces distintas da mesma realidade, habitada por seres visíveis e invisíveis.

Matéria:

Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí: Filósofa, pesquisadora e professora nigeriana que se debruça sobre a teoria feminista a partir de uma perspectiva pautada nos estudos africanos e pós-coloniais.

Referências:
CARNEIRO, Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Tese (Doutorado em Filosofia da Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2005.

GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 7ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2011.

MIANO, Léonora. Contornos do dia que vem vindo. Tradução de Graziela Marcolin de Freitas. Rio de Janeiro: Pallas, 2009.

OYĚWÙMÍ, Oyèrónkẹ́. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Tradução de wanderson flor do nascimento. 1ª ed. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.

SOMÉ, Sobonfu. O espírito da intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre relacionamentos. Tradução de Deborah Weinberg. São Paulo: Odysseus, 2007.