Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

domingo, 28 de junho de 2026

Girls With Guitar

Girls With Guitars
' Samantha Fish / Cassie Taylor / Dani Wilde '

O título do álbum praticamente diz tudo: Girls With Guitars é a estreia em estúdio da turnê Blues Caravan, apresentada pela gravadora alemã Ruf Records em toda a Europa em 2011. Como nas edições anteriores, a turnê obteve um sucesso estrondoso em todos os lugares por onde passou. Desta vez, as estrelas são Samantha Fish (guitarra rítmica e vocal), a multi-instrumentista Cassie Taylor (baixo e vocal) e Dani Wilde (guitarra solo e vocal). 

O trio conta com o apoio de Jamie Little na bateria e a participação especial de Mike Zito na guitarra em algumas faixas. Este é um trabalho excelente, com um resultado final altamente satisfatório. Doze canções interpretadas com uma força, intensidade e energia transbordantes, uma energia que te contagiará canção após canção, graças ao gosto refinado, apaixonado e poderoso que elas imprimem em cada música, seja no blues mais puro ou o blues-rock. Um ótimo álbum, repleto de magia e sensualidade.

O trio, Samantha Fish, Cassie Taylor e Dani Wilde começam com "Bitch", dos Rolling Stones, e terminam com "Jet Airliner", da Steve Miller Band, cada uma cantando um verso. O restante do álbum é dedicado a composições originais escritas por uma ou outra das artistas em diversos estilos de blues, e a instrumentação também varia, embora Taylor (filha de Otis Taylor, com quem tocou bastante), como baixista, apareça em quase todas as faixas.

A exceção é também a única faixa solo, a canção folk-blues de Wilde, "Reason to Stay", na qual ela toca Guitarra Dobro. Wilde também assume grande parte dos solos de guitarra, com Fish cantando em suas próprias canções "Come on Home" e "Wait a Minute", bem como em "Move On", de Taylor. Essa alternância cria um bom equilíbrio, e não é surpresa que esse trio tenha feito turnês juntos pela Europa. O álbum ajudou a torná-las mais conhecidas, mas elas não puderam continuar juntas.

FAIXAS:

1. Bitch 
(Mick Jagger / Keith Richards)
2. Satisfy My Soul 
(Cassie Taylor)
3. Mr. Loving Man
(Dani Wilde)
4. We Ain't Gonna Get Out Alive
(Samantha Fish)
5. Reason to Stay
(Dani Wilde)
6. Get Back
(Samantha Fish / Cassie Taylor / Dani Wilde)
7. Come on Home
(Samantha Fish)
8. Leaving Chicago
(Cassie Taylor)
9. Wait a Minute
(Samantha Fish)
10. Move On
(Cassie Taylor)
11. Are You Ready
(Dani Wilde)
12. Jet Airliner
(Paul Pena)

Artistas: Samantha Fish / Cassie Taylor / Dani Wilde
Álbum: Girls With Guitars
Gravadora: Ruf / Karonte
Ano de Lançamento: 2011


sábado, 27 de junho de 2026

Albert Castiglia

Albert Castiglia
' Na esquina do Blues e o Country '

Albert é um Nova Yorquino, filho de mãe Cubana e pai Italiano. Mudou-se com a família para Miami, Flórida, quando tinha cinco anos e começou a aprender guitarra sete anos depois. Descoberto como vocalista pelo bluseiro Junior Wells em 1996, ele se juntou à sua banda de turnê e trabalhou como guitarrista principal de Wells até a morte deste em 1998. Morando em Chicago, Illinois, Castiglia encontrou trabalho com Sandra Hall e fez turnês com ela mesma até o final do século. Em 2002, Castiglia juntou-se a David Shelley no Alligator Alley Allstars, um "supergrupo de blues e raízes" no Alligator Alley, um restaurante e casa de shows "nativos da Flórida" (nomeado em homenagem à pantanosa rodovia).

Castiglia trabalhou com vários artistas, incluindo Junior Wells, Sandra Hall, Aron Burton, Pinetop Perkins, Melvin Taylor, Sugar Blue, Phil Guy, Ronnie Earl, Billy Boy Arnold, Ronnie Baker Brooks, John Primer, Lurrie Bell, Jerry Portnoy, Larry McCray, Eddy Clearwater e Otis Clay.

Albert Castiglia combina blues hardcore com influências de soul, rock e country para um som que agradará tanto aos roqueiros quanto aos puristas do blues. Seu estilo vocal foi comparado ao de Van Morrison.

O álbum 'Righteous Souls' é repleto de participações especiais, trazendo uma variedade rica de covers dos clássicos do blues. Muitas vezes, esses álbuns são concebidos como uma jogada de marketing para atrair o interesse dos fãs de outros artistas, mas felizmente, esse não é o caso desse disco. Righteous Souls, conta com a participação de vários de seus camaradas do blues. Esta não é uma coletânea qualquer, feita sem muita inspiração.

Para começar, as onze faixas incluem quatro composições originais, garantindo a autêntica marca de Castiglia. Além disso, os covers são (em sua maioria) menos conhecidos, o que os torna ainda agradáveis ​​aos ouvidos. E, juntos, eles oferecem uma saborosa gama de blues com diferentes nuances.

Começando pelas composições originais, "Centerline" abre o álbum de forma crua e impactante, com o baixo potente de Jerry Jemmott acompanhando a bateria marcante de Derrick "D'Mar" Martin. A voz insistente de Castiglia é complementada pelo acompanhamento descontraído de Lisa Andersen, e a participação especial de Popa Chubby adiciona ainda mais combustível à chama da guitarra de Albert. E desde o início, parabéns ao produtor/engenheiro Kid Andersen pelo som encorpado.

Adotando uma abordagem diferente, "Mama, I Love You" é um dueto com Kevin Burt que lança um olhar atento sobre a situação da população afro-americana sofrida de violência policial atualmente. "Não faz sentido, não há razão", diz Castiglia, "Para as pessoas pretas, é sempre temporada de caça aberta". E ele sustenta sua raiva com dois solos de guitarra incendiários, o segundo ainda mais vibrante que o primeiro, que também servem para demonstrar que, quando se trata de solos épicos, ele não precisa de ajuda.

A penúltima faixa, "No Tears Left To Cry", é uma balada country com ecos de JJ Cale, com bateria simples complementada por um baixo pulsante como pano de fundo para uma letra melancólica. “Eu não confio na felicidade, nunca confiei e nunca confiarei”, canta Castiglia, enquanto Gary Hoey contribui com – imagino eu – frequentes doses de slide estridente.

Apenas a animada “Till They Take It All Away” fica um pouco aquém das melhores composições de AC, e mesmo assim, ela tem um toque de sarcasmo tanto musical quanto liricamente, enquanto ele reclama de pessoas comuns sendo enganadas. A faixa vem com uma boa dose de guitarra wah-wah, que eu acredito ser contribuição de Ally Venable, que tem uma queda pelo pedal.

Várias das versões cover pendem para o blues de Chicago, duas delas compostas pelo antigo padrinho musical de Castiglia, Junior Wells, e, naturalmente, com contribuições de gaita de Rick Estrin. 'Come On In This House' soa como uma versão mais lenta de 'Howlin' For My Darlin'', de Howlin' Wolf, com a gaita de Estrin crescendo e gemendo ao lado do vocal enfático, rosnado e vibrante de Castiglia. 
Jim Pugh adiciona um piano de bar melodioso, e Kid Anderson mostra seu sotaque country, trazendo um sabor diferente para a guitarra. A faixa de encerramento, 'What My Mama Told Me', tem uma pegada mais country de Chicago, com a gaita estridente de Estrin, os vocais roucos de Castiglia e a contribuição de Monster Mike Welch com solos de guitarra vibrantes, estridentes e afiados como agulhas.

'Get Down To The Nitty Gritty', escrita por Luther 'Snake' Johnson, ex-integrante da banda de Muddy Waters, é pura diversão – uma diversão para cantar cerveja e rebolar, com bateria no contratempo, baixo marcante e riffs de guitarra brilhantes e dispersos. É certamente uma novidade maior do que "You Can't Judge A Book By The Cover". Ainda assim, Rayne Castiglia faz um dueto agradável com seu pai aqui, seu sotaque suave contrastando com o timbre rouco dele, e também há alguns solos de guitarra marcantes, embora eu não esteja convencido de que o convidado Christone "Kingfish" Ingram realmente contribua muito para a música.

"You Were Wrong", do ZZ Hill, apresenta um trabalho de saxofone frenético de Jimmy Carpenter e um solo de órgão arrebatador de Pugh, sobre um baixo hiperativo e um ritmo frenético, mas seu final abrupto sugere uma leve falta de convicção. Não é o caso de "The Dollar Done Fell", de Buddy Guy, uma faixa funk sombria e melancólica com um baixo cavernoso e pulsante e vocais de apoio sensuais de Ms. Andersen, além de diálogos de guitarra entre Castiglia e Josh Smith que começam ágeis e depois se tornam urgentemente conversacionais, refletindo a crise do custo de vida.

Resta, então, o country-soul com toques hispânicos e uma clara influência de Jimmy Buffett em "All Our Past Times", onde Castiglia encontra uma excelente parceira vocal em Danielle Nicole, enquanto dramatizam um casal tentando – talvez – salvar um relacionamento à beira do fim. Pugh adiciona um órgão envolvente, e Joe Bonamassa aparece – claro que sim – para um segundo solo que é bom, mas não acrescenta muito à performance de Castiglia.

Righteous Souls tem momentos muito inspirados, e é um trabalho sólido e estimulante. Eu diria até que poderia tornar o conceito de "convidados especiais" respeitável.






sexta-feira, 26 de junho de 2026

Freddie King


Freddie King
'A história de um gênio da guitarra'

Freddie King foi um músico, cantor e guitarrista fenomenal, autor de clássicos do blues como "Hide Away", "Have You Ever Loved a Woman" e "Going Down". Conhecido por tocar guitarras semi-acústicas da Gibson, e, em particular, a Gibson ES-345, sendo sua guitarra principal uma ES-345 de 1960 em vermelho-cereja. Foi considerado o 15º melhor guitarrista de todos os tempos pela revista norte-americana Rolling Stone.
_____________________________

O início

Frederick Christian nasceu em 3 de setembro de 1934 na cidade de Gilmer, no Texas. Freddie começou a tocar guitarra aos seis anos de idade por incentivo dos próprios pais. Ele adorava e imitava a música de Lightnin' Hopkins e do saxofonista Louis Jordan. Ele foi um guitarrista que levou o blues para outro patamar de virtuosismo. Seu ataque com palheta no polegar e dedeira de metal, sua mão direita disciplinada e feroz, o vibrato que parecia tremer o ar, o timbre encorpado da Gibson e amplificadores fritando — tudo isso compôs uma assinatura sonora inconfundível.

Em 1950, Freddie se moveu com sua família para o sul de Chicago. Lá, aos 16 anos, costumava frequentar bares locais, e ouvia músicos como Muddy Waters, Howlin' Wolf, T-Bone Walker, Elmore James, Sonny Boy Williamson, Little Walter, Otis Rush e Magic Sam. King tocava com uma palheta plástica de polegar e uma palheta de metal para o indicador. Ele atribuiu a Eddie Taylor os ensinamentos sobre o uso das palhetas. A maneira de King usar a alça da guitarra no ombro direito, sendo destro, era única para sua época.

Esse início moldou nele a convicção de que o blues urbano não é apenas volume e distorção: é organização rítmica, economia de notas, enunciação. Com o tempo, Freddie passou a frequentar as sessões, a tocar onde houvesse espaço, afinando o fraseado até o ponto em que sua guitarra se tornou voz principal.

Freddie King se tornou um dos principais artistas do chamado "Chicago Blues" dos anos 50 e 60, que era o principal local na época do desenvolvimento do blues elétrico. Ficou imortalizado entre os três grandes "Kings" do Blues, junto de Albert King e BB King formavam a tríade dos Kings. Eric Clapton que excursionou com ele entre 1974 e 1975 chegou a declarar: "Freddie King foi quem me ensinou como fazer amor com uma guitarra".

As gravações

A década de 1950 foi um período experimental, trabalhou por pequenos selos e gravou singles que circulavam em jukeboxes e estações locais. A virada, no entanto, viria no início dos anos 1960, quando Freddie assinou com a gravadora Federal/King, ali, ao lado do pianista, arranjador e produtor Sonny Thompson, ele lapidou um estilo com excelentes faixas instrumentais, porém com seu vozeirão e um poderoso jeito de cantar rasgado, que muitas vezes precisava até se afastar do microfone.

Em 1961, dois discos sintetizaram essa explosão: “Freddy King Sings” e “Let’s Hide Away and Dance Away with Freddy King”. Um, vocal e visceral; outro, instrumental e dançante. Nesse combo, nasceram ou se consolidaram clássicos como “Hide Away”, “San-Ho-Zay”, “The Stumble”, “Sen-Sa-Shun”, além de vocais como “I’m Tore Down” e “Have You Ever Loved a Woman”. 

Foi nesse momento em que o blues de Freddie atravessou as fronteiras do gueto, chegando às paradas de R&B e, feito raro para um guitarrista de blues, invadindo outros públicos.

A canção “Hide Away” transformou um instrumental de blues em linguagem básica para inúmeras bandas. Seu riff principal, sua ponte estratégica, seu diálogo com frases de outros temas, tudo isso criou uma cartilha para guitarristas que desejavam dizer muito com pouco — e dizer com muito swing. Esse
s instrumentais criaram um novo vocabulário de blues.

Entre as contribuições de Freddie à história da guitarra, seus temas instrumentais talvez sejam os mais influentes. “The Stumble” é sinônimo de ataque com autoridade e curvas harmônicas que desafiam o improvisador a não se perder na música. “San-Ho-Zay” tráz a bateria nas costas, baixo na frente, guitarra conduzindo como um apito de trem, chamando vagão por vagão. “Sen-Sa-Shun” é a lição sobre como repetir sem ser repetitivo, como variar a acentuação e mudar de registro mantendo a pressão rítmica. Esses temas deram ao blues elétrico uma espécie de repertório comum, repetido e reinventado por incontáveis bandas de bar, por power trios psicodélicos, por grupos de soul e até por orquestras de baile.

Quando se diz que Freddie King foi um “rei” ao lado de B.B. King e Albert King, não é formalidade: é um reconhecimento de que cada um definiu um pilar do instrumento. B.B. com seu vibrato cantor e a retórica do bending alto; Albert com os bends de mão invertida e o timbre carregado; Freddie com a mão direita de aço, o balanço, a gana de levar o blues ao seu extremo. A guitarra nunca seria a mesma.

Freddie King merece o mesmo destaque da sua guitarra para com sua voz, de uma textura rouca que sustentava versos de amor, lamentos e muito humor com uma autenticidade rara. Em “I’m Tore Down” e “Have You Ever Loved a Woman”, Freddie sabe segurar a nota, deixar o silêncio trabalhar, e contrapor com as respostas da sua guitarra como um diálogo natural. Seu vocal era o centro emocional do arranjo, capaz de fazer crescer ou diminuir toda a dinâmica da banda.

Freddie King sabia o que queria em relação às guitarras. Preferia usar as Gibson's com um setup que valorizasse os sons médios e incorpados. O segredo, no entanto, não estava no catálogo; estava na técnica híbrida: polegar com palheta, indicador ancorado em dedeira de metal, ataques que permitiam acentos de bateria na mão direita. O resultado é aquele “estalado” que, ao vivo, fazia a guitarra parecer um instrumento de percussão melódica. Some-se a isso um vibrato rápido, nervoso e controlado, e se tem o DNA de uma escola inteira.

'Sua marca registrada: guitarra Gibson Semi-Acústica ES-345.'

A ponte com o rock britânico

Enquanto os estadunidenses descobriam seus heróis do blues, a Inglaterra, no início e meados dos anos 1960, prestava atenção dobrada. O blues britânico viu em Freddie um manual de possibilidades. John Mayall & the Bluesbreakers registraram “Hide Away”; Eric Clapton absorveu a trama rítmica de Freddie como quem aprende a cozinhar um prato básico que funciona sempre. Peter Green, Jeff Beck, Mick Taylor e tantos outros encontraram nessa música um caminho para o rock de alta voltagem. Do outro lado do Atlântico, bandas norte americanas viram no repertório de Freddie uma mina: “Going Down”, tema de Don Nix imortalizado por ele na fase dos anos 1970, tornaria-se ritual de passagem para power trios e guitarristas que queriam provar fogo em palco.

A influência se estendeu por décadas: Stevie Ray Vaughan fez da linguagem de Freddie um alicerce; ZZ Top carregou o groove texano com malícia roqueira; Joe Bonamassa trouxe para a arena a ferocidade do ataque; John Mayer aprendeu com o contraste entre sutileza e explosão. Cada um deles, a seu modo, reconhece em Freddie não apenas uma influência, mas um método.

No fim dos anos 1960 e início dos 1970, Freddie King viveu uma nova curva criativa. Contratado pela Shelter Records, gravou uma sequência de álbuns que atualizou seu som sem diluir sua identidade. O trio de álbuns “Getting Ready...” (1971), “Texas Cannonball” (1972) e “Woman Across the River” (1973) ampliou os arranjos, aproximou o blues do soul e do rock, e apresentou suas canções a uma nova geração de fãs e instrumentistas.

“Getting Ready...” trouxe a versão definitiva de “Going Down”, turbinada para grandes platéias. “Texas Cannonball” reafirmou o apelido que já era marca; é um disco que combina densidade instrumental com refrões que grudam. Em “Woman Across the River”, o songbook de Freddie encontrou cordas, teclados envolventes e um pulso moderno que não traiu o chão do blues. É uma fase em que ele parece caminhar sobre trilhos paralelos: um trilho aponta para a tradição, outro para a radiofonia. O trem, claro, chega inteiro ao destino.

Freddie King era alto de altura e na presença. Em palco, ele domava o volume como quem controla vento: deixava a banda inflar e, de repente, cortava as frequências com um lick que parecia uma sirene. Cantava com expressão facial intensa, movimentava a guitarra como bandeira, e não tinha medo de repetir um motivo até a plateia entender que ali, naquele compasso, estava a mensagem. Seus medleys de instrumentais ensinavam sobre narrativa sem palavras: não era apenas uma sequência de músicas, mas um trajeto com começo, meio, clímax e descanso.

O som de Freddie em ação no palco era diferente do disco: era mais bruto, percussivo e visceral. Isso ajuda a explicar por que tantas versões ao vivo de “Hide Away”, “The Stumble” e “Going Down” seguem disputadas por colecionadores. No palco, ele conseguia o equilíbrio raro entre virtude técnica e generosidade musical: solava muito, mas solava sempre em comunhão com a banda a favor da música.

Vida intensa e o fim precoce

Como tantos artistas do circuito, Freddie viveu uma rotina extenuante de estrada, noites curtas, viagens longas, muito etílicos e refeições improvisadas. Essa vida acelerada cobrou um preço alto. Em 28 de dezembro de 1976, com apenas 42 anos, ele morreu de complicações de saúde. A notícia caiu como tempestade de verão: rápida, pesada, difícil de aceitar. O blues perdia não somente um guitarrista genial, mas um corpo de obra em andamento. Há algo de injusto em pensar o quanto ainda poderia ter sido gravado, o quanto ainda faltava para as plateias do mundo verem de Freddie. Mas há também uma certeza: em 42 anos, ele construiu o suficiente para não passar despercebido.

Discografia de Freddie King

A discografia de Freddie é vasta em coletâneas, sessões e relançamentos. Para quem quer entender a espinha dorsal de sua arte, alguns álbuns formam um mapa de sua consistente carreira.

Freddy King Sings (1961) — A porta de entrada do cantor. “I’m Tore Down” e “Have You Ever Loved a Woman” estão aqui em versões que definem um padrão interpretativo.

Let’s Hide Away and Dance Away with Freddy King (1961) — O songbook instrumental que virou cartilha. “Hide Away”, “San-Ho-Zay”, “The Stumble”, “Sen-Sa-Shun”: cada faixa é um estudo de acentuação.

My Feeling for the Blues (1970) — Elegante, moderno, com arranjos de R&B sofisticado, mostra o cantor em grande forma, preparando o terreno para a fase seguinte.

Getting Ready... (1971) — A arrancada dos anos 1970. A versão de “Going Down” é definitiva e virou ritual de palco para guitarristas do mundo inteiro.

Texas Cannonball (1972) — Título que é selo de origem. Blues, soul e rock numa mesma rotação, evidenciando sua habilidade de conversar com o rádio sem abandonar a raiz.

Woman Across the River (1973) — Produção caprichada, texturas de teclado e uma sequência de canções que provam a capacidade de renovação do repertório.

Burglar (1974) — Expansão de paleta: grooves funkeados, sopros, uma postura à vontade em arranjos mais arejados e urbanos.

Larger Than Life (1975) — Última etapa de estúdio em vida, com confiança de veterano e a guitarra ocupando espaços milimétricos entre backing vocals e teclados.

Para completar o percurso, vale garimpar os registros ao vivo dos anos 1970. É onde a mão direita de Freddie parece falar mais alto que qualquer microfone.

Gravações de artistas influenciados por Freddie King

Ao falar de influência, é preciso distinguir: há quem grave canções de Freddie e há quem adote sua linguagem. Em ambos os casos, a lista é longa e atravessa gerações com versões famosas.

John Mayall & the Bluesbreakers — “Hide Away” virou peça obrigatória do repertório britânico de blues-rock.

Eric Clapton — Releituras de “Hide Away”, “I’m Tore Down” e a apropriação de recursos de acentuação que vêm diretamente de Freddie.

Jeff Beck — “Going Down” tornou-se clímax de shows e gravações, preservando a arquitetura rítmica consagrada por Freddie.

Peter Green & Fleetwood Mac — Versões e citações de seus instrumentais nos palcos, com a economia expressiva que Green herdou do Texas Cannonball.

Stevie Ray Vaughan — Medleys e passagens de “Hide Away” e “The Stumble” aparecem em shows, como homenagens diretas.

ZZ Top — O andar de riffs e a mistura de boogie com blues texano trazem o perfume de Freddie.

The Ventures e bandas instrumentais — “San-Ho-Zay” e congêneres ingressaram no repertório de surf e rock instrumental.

Mick Taylor — O fraseado limpo e a colocação rítmica guardam parentesco com Freddie.

Gary Moore — A combinação de ataque forte com vibrato controlado revela o estudo atento do texano.

Joe Bonamassa — O punch e o cuidado com a dinâmica em arenas são herança clara.

John Mayer — Nos momentos de blues moderno, a alternância entre licks incisivos e espaços respiráveis ecoa Freddie.


A pegada única de Freddie King

Uma análise fria diria que é a mão direita, a palhetada híbrida, o vibrato veloz. Mas há também um fator de decisão musical. Freddie escolhe as notas com pragmatismo; ele não improvisa para mostrar escalas, e sim para resolver uma situação rítmica. Repare como seus temas frequentemente se constroem em motivos curtos que vão ganhando peso ao longo dos compassos. Repare também como ele abre a mão quando canta, deixando a guitarra falar nos espaços, em vez de atropelar as próprias frases. O resultado é música funcional e apaixonante, capaz de arrebatar dançarinos e colecionadores de detalhes harmônicos.

Ouvindo sua discografia com atenção, percebe-se que Freddie não foi só um guitarrista brilhante, mas um excelente tomador de decisões em estúdio. A parceria com Sonny Thompson no início dos anos 1960 soube colocar pianos e sopros sem atrapalhar a guitarra; nos anos 1970, produtores e arranjadores acrescentaram órgãos, cordas, percussões. Em todos os casos, a prioridade foi o pulso. Mesmo quando as texturas se adensam, a música de Freddie continua a respirar como banda — baixo e bateria ditam a conversa, e a guitarra responde.

Por trás da figura imponente e da guitarra reluzente, havia um homem próximo a colegas e fãs. Depoimentos de músicos que conviveram com ele destacam o humor, a generosidade e a disciplina. Freddie podia descontrair totalmente e, no minuto seguinte, pedir foco para afinar a banda. Sabia indicar entradas e saídas com um olhar, conduzia dinâmica de palco como um maestro. É possível que essa dimensão humana explique por que tantos artistas o citam não apenas como influência, mas como referência de profissionalismo. Sua obra é atravessada por temas definitivos e performances inesquecíveis

Um guitarrista de blues não chega ao topo da montanha sozinho. Precisa de um povo e de uma tradição que o sustentem. Quando “Hide Away” começa, o rosto abre um sorriso e a alma entra em posição dançante.
_____________________________



quinta-feira, 25 de junho de 2026

Como o Capitalismo Roubou a COPA?


Como o capitalismo sequestrou a Copa e o sonho de uma criança?

"O que vi nesses últimos 25 anos faz com que me sinta profundamente traído pelas instituições do futebol"

O que acontece dentro do prédio da Fifa, em Zurique, sempre me surpreende. Primeiro, por sua arquitetura. O palácio de vidro de mais de US$ 250 milhões tem alguns andares acima da terra. Mais outros cinco no subterrâneo. Em algumas das salas, aparelhos foram colocados para bloquear os sinais de celular. Por qual motivo o destino do jogo é desenhado tão longe da transparência do escrutínio público?

Mas não é só a estrutura de 37 mil metros quadrados que me impressiona. Numa de minhas visitas ao local, certa vez, uma cena surreal desbancou todas as fronteiras da civilização. Cansados de serem multados pela Fifa por cantos homofóbicos de seus torcedores durante partidas das Eliminatórias para a Copa do Mundo, os cartolas da Conmebol pediram um encontro com o comitê de disciplina da entidade máxima do esporte.

Antes de a reunião começar, no saguão da Fifa, questionei um dos dirigentes – um uruguaio – sobre qual seria a agenda do encontro. A resposta era difícil de acreditar. Segundo ele, a Conmebol iria pleitear que a Fifa suspendesse a aplicação de multas. Sua postura era a de que aqueles cantos homofóbicos não deveriam ser interpretados como ofensas. “Eram apenas uma expressão cultural”, me disse.

Talvez por minha expressão de surpresa ou por meu absoluto silêncio, o cartola tentou se explicar. Segundo ele, torcedores que usam de linguagem homofóbica não são… homofóbicos. Era cultura.

A Fifa não cedeu e as multas continuaram a ser cobradas, ainda que os valores fossem pífios. Mas, no fundo, a absurda pressão por parte dos dirigentes sul-americanos deu resultado. A entidade nunca aumentou a pena, nem transformou suas leis para punir exemplarmente uma ação de uma torcida, jogador ou clube que opte por fazer do futebol um espaço de ataque à dignidade de um outro ser humano.

Assim como na luta contra o racismo, o combate à homofobia e tantas outras discriminações no futebol jamais foi prioridade. Nem quando o mundo inteiro clama por justiça, o amor em sua forma de política pública.

Mergulhando nos estatutos da Fifa e nas centenas de páginas de contratos comerciais de empresas do futebol, descobri que, se houver num estádio de uma Copa do Mundo uma violação comercial, a multa que será aplicada será muito superior a qualquer penalidade que um clube, federação, jogador ou torcedor sofrerá no caso de um ataque à humanidade de uma pessoa.

Se for identificada na arquibancada uma ação de marketing que ameace os donos dos direitos sobre aquele jogo, a punição será mais draconiana do que qualquer ato de racismo ou de homofobia. Vi isso ocorrer na Copa de 2010, quando supostos torcedores da Holanda foram às arquibancadas com fantasias que sugeriam um marketing de emboscada de uma cervejaria que fazia concorrência à patrocinadora oficial.

Descrédito ao esporte:
Em 2007, a Fifa encerrou uma disputa comercial pelo patrocínio das Copas do Mundo, desembolsando US$ 90 milhões para arcar com danos sofridos pela MasterCard. Quase 20 anos depois, a mesma entidade decidiu multar as autoridades de futebol de Israel por apenas US$ 190 mil por não agirem contra o racismo e ataques de seus clubes contra palestinos.

O próprio comitê disciplinar da Fifa admitiu a existência de uma profunda violação por parte de clubes israelenses, em especial o Beitar Jerusalem, por comportamento racista e discriminatório. “Os torcedores têm se envolvido em comportamento racista persistente e bem documentado”, afirmou o relatório sobre os torcedores do Beitar.

“O uso de slogans como ‘puro para sempre’ e os repetidos cânticos de insultos étnicos, como ‘terrorista’, direcionados a jogadores árabes, não são incidentes isolados, mas sim parte de um padrão sistêmico de conduta que ofende as regras básicas de comportamento decente e traz descrédito ao esporte”, constatou. Apesar disso, a punição não passou de um tapa na mão dos autores das violações.

Num futebol transformado em uma multinacional capitalista, o maior pecado não é atacar os direitos humanos, nem exigir democracia. O crime hediondo é quando os interesses econômicos são prejudicados. Isso, sim, é intolerável.

A transformação do futebol num dos grandes negócios do planeta é um fato e todos os números revelam isso. Entre 2019 e 2022, a receita da Fifa bateu todos os recordes, com um total de US$ 7,6 bilhões. Para o ciclo entre 2022 e 2026, a projeção é de um aumento exponencial e uma receita de US$ 13 bilhões. O que mais surpreende é que, há 20 anos, a receita da entidade era de “apenas” US$ 3,2 bilhões.

Isso, porém, é só parte da história. A grande transformação foi a explosão de dinheiro nos clubes europeus, abalando o eixo do poder no esporte. Hoje, os 20 maiores clubes do mundo geram, por ano, US$ 12 bilhões, quase uma Copa do Mundo. Se eles fossem uma economia nacional, superariam o PIB de países inteiros como Libéria, Sudão do Sul, República Centro Africana, Cabo Verde e tantos outros.

Recentemente, o Real Madrid entrou para a história como o primeiro clube a gerar mais de US$ 1 bilhão em receita por ano.

De acordo com um levantamento do Parlamento Europeu, em 2018, a participação do esporte no Produto Interno Bruto (PIB) da UE é de 2,12%, o que corresponde a €$ 279,7 bilhões. Além disso, o esporte emprega quase 3% dos trabalhadores da UE, o equivalente a 5,6 milhões de pessoas, diretamente e indiretamente.

Esse dinheiro, sem dúvida, mudou o futebol. Cada vez mais ricos, esses clubes passaram a exigir um lugar na mesa de definição do esporte, de seu calendário e de suas regras.

Num primeiro momento, esses clubes exigiram que a Fifa reconhecesse seu poder, chantageando com a recusa em liberar um jogador para sua seleção ou, simplesmente, promovendo um boicote contra eventos da entidade.

Naquele momento, há cerca de 20 anos, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, negociou um acordo para remunerar os clubes pelos ganhos que a entidade teria com uma Copa. Primeiro, ele passou a dar um seguro caso um atleta do Barcelona, por exemplo, fosse contundido em um jogo pela Seleção brasileira. Mas os clubes queriam mais.

Anos depois, ele instaurou o pagamento de um verdadeiro aluguel aos times por liberar os jogadores ao Mundial. Quanto mais aquele jogador entrasse em campo numa Copa, mais o clube dele seria recompensado financeiramente.

Para 2026, a Fifa reservou US$ 355 milhões para recompensar times por “emprestar” seus craques para o Mundial. A questão é que esse dinheiro vai alimentar justamente aqueles clubes mais ricos do planeta, e que já são donos dos melhores jogadores. Na Copa de 2022, a Fifa destinou US$ 150 milhões para os clubes europeus por liberarem seus jogadores ao torneio. Quase cem vezes mais do que os clubes brasileiros receberam. E, ainda assim, quase tudo para Flamengo e Palmeiras.

Poder do dinheiro:
A realidade é que, junto com essa explosão financeira, o que também vimos foi a concentração inédita de recursos nas mãos de poucos atores do futebol. Os clubes mais ricos são os que mais acumulam receitas dos torneios. Como consequência, são os mais competitivos e, portanto, ficam ainda mais ricos. O dinheiro, de fato, mata o amor e a competição.

Vimos a distância entre os clubes europeus e do restante do mundo se aprofundar como jamais na história do esporte. Nos últimos 20 anos, o Mundial de Clubes foi vencido apenas por dois clubes de fora da Europa, ambos brasileiros, 
Internacional (2006) e Corinthians (2012).

Segundo um levantamento da Fifpro, a disparidade social é uma realidade. Quarenta e cinco por cento dos jogadores pelo mundo ganham menos de mil dólares por mês. Apenas 2% ganham mais de US$ 720 mil por ano.

A igualdade de gênero é ainda um sonho distante. Aitana Bonmati é hoje a jogadora profissional mais bem paga da história do futebol feminino, com renda anual de €$ 1 milhão. Já Cristiano Ronaldo somou no ano passado mais de €$ 202 milhões.

O que chama atenção ainda é a crescente disparidade até mesmo dentro da Europa. Hoje, no Velho Continente, 70% dos títulos nos últimos cinco anos foram vencidos pelos clubes com mais dinheiro naquela competição. Troféus são, no fundo, disputados por alguns poucos, enquanto a maioria não passa de coadjuvante para torcidas que jamais verão seus clubes campeões.

Hoje, equipes de Bucareste, Belgrado, Porto ou da Holanda deixaram de sonhar com conquistas continentais. O que no futebol a Cortina de Ferro não impediu, durante o auge da Guerra Fria, o capitalismo garantiu neste século 21: a vitória do dinheiro.

Uma prova do poder do dinheiro foi a decisão que determinou como seria realizada a Copa do Mundo de 2026. Lembro-me muito bem da reunião da Fifa que colocou, pela primeira vez, o tema na agenda. Foi em outubro de 2016 e eu estava lá.

Antes do encontro, cada um dos cartolas encontrou, em seu quarto de hotel, um dossiê com todos os detalhes da proposta de elevar o número de seleções de 32 para 48. Num dos trechos, o documento dizia que, caso optassem pela expansão sem precedentes, o nível da competição iria sofrer. Mas, em outra página, um argumento acabaria prevalecendo: com 16 times extras, a receita da Copa – e de cada um daqueles homens que votaria – seria elevada em US$ 1 bilhão.

Entre a grana e a qualidade do torneio, optaram pelos lucros:
Naquele dia, eu comprovei como o futebol havia sido usado como um veículo para o enriquecimento de alguns poucos, às custas do próprio esporte e, claro, da experiência do torcedor.

O que eu vi ao longo desses últimos 25 anos na Fifa foi um sequestro de nossas emoções. Eu, que passei minha infância entre o Morumbi e o Pacaembu, me senti profundamente traído pelas instituições do futebol.

Passei a escrever, em parte, para alertar o garoto que frequentava os estádios nos anos 1980 e 1990 que não renunciasse ao futebol. Que não deixasse de torcer.

Mas que o fizesse de forma consciente. Sabendo por qual motivo aquele jogo estava ocorrendo naquele horário, quem pagava e quem vencia, principalmente fora de campo. Foi essa indignação que me levou a denunciar a estrutura de poder. Não por odiar o futebol. Justamente por amá-lo.

@RevistaLiberta
Matéria: 20/06/2026

Jamil Chade
Jornalista paulistano radicado na Suíça desde 2000 e correspondente na Europa há mais de 20 anos. Com passagens por mais de 70 países, já presidiu a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça, integra a rede de especialistas da Transparência Internacional e colabora com veículos como BBC, CNN, Al Jazeera e France24. Autor de cinco livros — dois finalistas do Prêmio Jabuti — foi eleito duas vezes o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo Prêmio Comunique-se.



quarta-feira, 24 de junho de 2026

Histórias do Blues: Buddy Guy & Junior Wells


Buddy Guy & Junior Wells

Alone & Acoustic
- Paris, 1981 -

Alone & Acoustic é um álbum de blues do lendário guitarrista americano Buddy Guy e do mestre da gaita Junior Wells, apresentando duetos acústicos intimistas gravados durante uma turnê europeia em 1981. O álbum captura a dupla retornando às suas raízes no Sul profundo com performances sem acompanhamento de guitarra, gaita e vocais, misturando composições originais e covers de padrões de blues.

Gravado em 15 de maio de 1981, no Sysmo Studio em Paris, França, foi lançado pela primeira vez na Europa como Going Back antes de seu lançamento na América do Norte pela Alligator Records em 1 de novembro de 1991. Abrangendo 15 faixas, a coleção inclui homenagens a influências como John Lee Hooker e Muddy Waters, como "Boogie Chillen'" e "Rollin' and Tumblin'", juntamente com originais como "Give Me My Coat and Shoes" e "Big Boat (Buddy and Junior's Thing)". Aclamado pela crítica por sua autenticidade crua e energia descontraída, Alone & Acoustic mostra a longa parceria entre Guy e Wells, dois ícones do blues de Chicago que começaram a colaborar na década de 1960.
_____________________________

Colaborações e trabalhos entre os artistas.

Buddy Guy e Junior Wells emergiram como figuras fundamentais na cena do blues de Chicago em meados do século XX, quando o gênero evoluiu de suas raízes no Delta para um estilo elétrico de alta energia, impulsionado por guitarras amplificadas e gaitas, em clubes das zonas sul e oeste da cidade.

Buddy Guy, que chegou a Chicago em 1957 vindo da Louisiana, rapidamente se tornou um guitarrista de destaque, conhecido por seu som inovador e repleto de feedback, gravando singles para a Chess Records e influenciando o "West Side Sound" ao lado de artistas como Otis Rush e Magic Sam. 

Junior Wells, um virtuoso da gaita e vocalista nascido em Memphis que se mudou para Chicago na adolescência, já havia se estabelecido no início da década de 1950, tocando com Muddy Waters e gravando para selos como States e Chief, trazendo uma sonoridade soul e rítmica para o circuito de blues da cidade em locais como o Theresa's Lounge e o Pepper's Lounge. Suas contribuições individuais ajudaram a sustentar o blues de Chicago em meio ao boom do rock 'n' roll, misturando emoção crua com sofisticação urbana. 

A parceria formal da dupla começou em 1965, quando Bob Koester, dono da Delmark Records, os gravou ao vivo no Theresa's Lounge, resultando no álbum de sucesso de Wells, Hoodoo Man Blues, um marco do blues elétrico de Chicago que contou com a guitarra de Guy sob o pseudônimo de "Friendly Chap" devido ao seu contrato com a Chess Records. Essa gravação destacou a dinâmica complementar entre os dois — a gaita vibrante e os vocais roucos de Wells combinados com os solos explosivos e repletos de efeitos de Guy — e marcou o início de mais de duas décadas de trabalho conjunto que revitalizou o interesse pelo blues tradicional. Ao longo do final da década de 1960, eles se apresentaram regularmente em clubes de Chicago e acompanharam outros artistas, consolidando sua reputação como uma dupla poderosa ao vivo em meio à mudança da cena para apresentações em festivais e crossovers com o público do rock. 

Na década de 1970, a colaboração entre Guy e Wells se intensificou por meio de extensas turnês e apresentações de grande repercussão, que consolidaram a química característica da dupla, marcada pela improvisação e pelo talento para o espetáculo. Eles abriram os shows da turnê europeia dos Rolling Stones em 1970, incluindo uma apresentação memorável no Palais des Sports, em Paris, onde Eric Clapton se juntou a eles no palco, apresentando o som característico de Chicago para fãs de rock internacionais e conectando o blues a gêneros emergentes.

Entre as principais apresentações conjuntas, destacam-se o Ann Arbor Blues Festival em 1970, onde apresentaram sets que misturavam clássicos como "Messin' with the Kid", e o Montreux Jazz Festival em 1974, demonstrando seu apelo duradouro em grandes eventos. A parceria rendeu gravações como o álbum de 1972 da Atco, Buddy Guy & Junior Wells Play the Blues, produzido por Clapton e que captura faixas inspiradas em apresentações ao vivo, como "This Old Fool", que enfatiza o trabalho de guitarra incisivo de Guy em detrimento da batida rítmica de Wells. Esses esforços, em meio ao declínio comercial do ecossistema de blues de Chicago, centrado em clubes, ajudaram a dupla a fazer turnês por festivais e teatros, fomentando uma dinâmica que misturava tradição com talento. 

Na década de 1980, Guy e Wells mantiveram sua parceria em turnês, apresentando-se em eventos como o San Francisco Blues Festival de 1986, onde sua interação continuou a atrair público, apesar do status de nicho do blues. Essa longa colaboração, enraizada em décadas de palcos compartilhados, desde bares esfumaçados de Chicago até festivais globais, culminou em sua viagem de gravação a Paris em 1981, reafirmando seu status como embaixadores do blues.

Origens da gravação

Durante a turnê europeia de 1981, Buddy Guy e Junior Wells fizeram uma pausa com sua banda de apoio para gravar uma série de apresentações acústicas em Paris, na França, capturando a essência da química da dupla em um ambiente intimista. Em 15 de maio de 1981, a dupla entrou no Sysmo Studio, onde gravaram uma hora de material usando apenas violão, gaita e vocais, com muitas letras improvisadas espontaneamente durante a sessão. Essa abordagem acústica marcou um retorno consciente às suas raízes no blues, divergindo do som característico do duo, o blues elétrico de Chicago, marcado por instrumentos amplificados e arranjos com conjunto completo. 

Ao dispensar a amplificação e músicos adicionais, Guy e Wells evocaram as tradições rurais despojadas de influências iniciais como John Lee Hooker e Muddy Waters, criando uma intimidade de "varanda" que destacou sua longa parceria. As gravações resultantes foram inicialmente lançadas exclusivamente na Europa ainda naquele ano como Going Back pela Isabel Records, sem planos imediatos para uma distribuição mais ampla, o que levou ao seu arquivamento até que a Alligator Records relançou o material na América do Norte em 1991 como Alone & Acoustic, complementado por cinco faixas inéditas.

As sessões de estúdio

As gravações de Alone & Acoustic aconteceram em 15 de maio de 1981, no Sysmo Studio em Paris, França, durante a turnê europeia de Buddy Guy e Junior Wells. A dupla dedicou um único dia ao projeto, capturando aproximadamente uma hora de material em um ambiente intimista que enfatizou suas raízes minimalistas do blues. As sessões foram produzidas por Didier Tricard. Esta sessão marcou um afastamento das suas típicas performances de alta energia, focando-se, em vez disso, numa interação acústica sem pressa, sem músicos adicionais ou amplificação. Buddy Guy tocava principalmente guitarras acústicas de 6 e 12 cordas, assumindo os vocais em algumas faixas, enquanto Junior Wells contribuía com a gaita e os vocais principais em outras.

Esta configuração diferia marcadamente de suas configurações elétricas usuais, que apresentavam guitarras amplificadas, suporte completo da banda e um som de blues de Chicago mais agressivo; aqui, os instrumentos acústicos permitiam nuances sutis no fraseado e no tom, promovendo uma dinâmica de conversa entre a guitarra e a gaita. A adaptação ao formato acústico não amplificado apresentou desafios em termos de projeção e controle de energia, já que os artistas tiveram que se basear na ressonância natural do ambiente de estúdio, em vez da potência da amplificação elétrica à qual estavam acostumados durante as turnês ao vivo. Apesar disso, a atmosfera descontraída da sessão permitiu a improvisação espontânea, incluindo letras feitas na hora, resultando numa captura crua e autêntica da sua química musical.

As gravações de Alone & Acoustic permaneceram adormecidas por quase uma década após sua captura em Paris, em 15 de maio de 1981, tendo sido lançadas originalmente apenas na França como Going Back pela Isabel Records no mesmo ano. Por volta de 1990-1991, Bruce Iglauer, fundador da Alligator Records, colaborou com a Isabel Records, que forneceu cinco performances inéditas, marcando a primeira vez que o material estaria amplamente disponível fora da Europa. Não houve remixagem; em vez disso, o foco permaneceu na reprodução fiel por meio da masterização feita pelo Dr. Toby Mountain na Northeastern Digital em Southborough, Massachusetts, garantindo que a sensação crua e ao vivo do estúdio da sessão de 1981 fosse preservada sem overdubs ou efeitos adicionais. 

Essa abordagem minimalista de pós-produção alinhou-se com a filosofia da Alligator de destacar a autenticidade acústica da performance de Buddy Guy e Junior Wells, capturando seu blues telepático e improvisado, enraizado nas tradições do Sul profundo e influências como John Lee Hooker e Muddy Waters, como um contraste deliberado ao seu típico som elétrico de Chicago.

Estilo e gênero

Alone & Acoustic exemplifica o estilo acústico do blues através de seus arranjos minimalistas, apresentando apenas o violão de 6 e 12 cordas de Buddy Guy e a gaita de Junior Wells, criando um diálogo íntimo entre os instrumentos sem uma banda completa ou amplificação. Esta abordagem evoca uma sensação descontraída de blues de esquina, com a interação da dupla marcada por expressividade sem esforço, linhas de guitarra percussivas e contrapontos de harmónica de bom gosto que destacam a sua química musical de longa data. As performances incorporam improvisação, incluindo a criação lírica no local, promovendo uma sensação de jam session espontânea semelhante a uma sessão informal. 

Classificado dentro do gênero tradicional do blues de Chicago, o álbum se inspira em influências folclóricas de suas raízes acústicas no sul profundo dos Estados Unidos, reinterpretando clássicos do blues elétrico de artistas como Jimmy Reed e Muddy Waters em um formato totalmente acústico. 

Isto contrasta fortemente com a produção típica de blues elétrico de Chicago de Guy e Wells, que muitas vezes apresenta guitarra vibrante, harmónica amplificada e secções rítmicas robustas, permitindo que o ambiente acústico enfatize elementos crus e fundamentais da tradição. Tematicamente, as letras se concentram em narrativas pessoais, explorando relacionamentos, saudade e lutas cotidianas de uma maneira enraizada nas origens do blues do Delta, como visto em homenagens a figuras como John Lee Hooker e Muddy Waters, juntamente com composições originais como "Give Me My Coat And Shoes" e "Don't Leave Me". Os vocais alternam entre Guy e Wells, interpretados com honestidade e convicção, aumentando a intimidade narrativa do álbum e a conexão com a herança do blues.

As contribuições visuais e de embalagem incluíram o design da capa por Matt Minde, a fotografia da capa por Peter Amft e as fotos da contracapa por Paul Natkin da Photo Reserve.


Impacto cultural

Alone & Acoustic desempenhou um papel notável no amplo renascimento do blues no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, coincidindo com o ressurgimento da carreira de Buddy Guy, que foi impulsionado pelo convite de Eric Clapton para que Guy se juntasse à formação de estrelas do blues no Royal Albert Hall de Londres em 1991. O lançamento do álbum naquele mesmo ano pela Alligator Records capturou Guy e Junior Wells voltando às raízes acústicas, oferecendo um contraponto íntimo à energia do blues elétrico da época e ajudando a sustentar o interesse em formas tradicionais em meio à crescente atenção do público ao gênero. 

A gravação preserva a parceria duradoura entre Guy e Wells, reconhecidos como uma das duplas mais célebres da história do blues contemporâneo, cuja colaboração remonta ao início da década de 1960, incluindo sessões na Chess Records. Documentando uma rara sessão sem acompanhamento de sua turnê europeia de 1981, destaca sua química musical por meio de performances improvisadas e homenagens a influências como John Lee Hooker e Muddy Waters, garantindo que esse aspecto de seu legado permanecesse acessível além de suas apresentações elétricas mais comuns. 

Originalmente lançado na França como Going Back em 1981, o relançamento norte-americano de 1991 pela Alligator adicionou cinco faixas bônus, enquanto a disponibilidade digital em plataformas como iTunes e Amazon a partir de 2003 ampliou ainda mais seu alcance a novos ouvintes. Um relançamento em vinil de 2005 pela Pure Pleasure Records expandiu sua disponibilidade.

Em termos de reconhecimento, o álbum recebeu elogios por sua autenticidade, com a revista Pulse o saudando como "uma revelação... incessantemente divertido" e a Musician chamando-o de "um tesouro". Embora não tenha recebido prêmios específicos, seu lançamento coincidiu com a expansão da base de fãs de Guy durante seu sucesso na década de 1990, incluindo álbuns vencedores do Grammy como Damn Right, I've Got the Blues (1991), o que amplificou o interesse em seus trabalhos anteriores e colaborações como esta.
_____________________________


Lista de faixas

Alone & Acoustic é composto por 15 faixas, que misturam composições originais e clássicos do blues executados em formato acústico, com uma duração total de aproximadamente 59 minutos.

1. Give Me My Coat and Shoes (Buddy Guy) 3:15
2. Big Boat (Buddy and Junior's Thing) (Junior Wells) 5:13
3. Sweet Black Girl (Buddy Guy) 3:34
4. Diggin' My Potatoes (Sunny Joe) 4:28
5. Don't Leave Me (Buddy Guy) 3:42
6. Rollin' and Tumblin' (Traditional) 4:33
7. I'm in the Mood (Bernard Besman, John Lee Hooker) 3:22
8. High Heel Sneakers (Robert Higginbotham) 4:55
9. Wrong Doing Woman (Junior Wells) 2:58
10. Cut You Loose (Mel London) 4:39
11. Sally Mae (Bernard Besman, John Lee Hooker) 2:30
12. Catfish Blues (Traditional) 3:34
13. My Home's in the Delta (McKinley Morganfield) 3:05
14. Boogie Chillen (Bernard Besman, John Lee Hooker) 3:59
15. Medley: Baby What You Want Me to Do / That's All Right (Jimmy Reed / James A. Lane) 5:43