Amazônia Negra
( Marcela Bonfim )
Livro revela a Amazônia Negra ao entrelaçar imagem, corpo e memória na busca por identidade, pertencimento e reparação histórica.
Contemplado pelo Edital Funarte Retomada 2023 – Artes Visuais, “Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível”, 1º livro de Marcela Bonfim, aborda deslocamentos reflexivos, físicos e subjetivos da autora ao migrar para Rondônia e descobrir a presença negra em território amazônico. Marcela, paulista de Jaú, graduada em Economia na capital, chega a Porto Velho em 2010 para trabalhar nesta cidade e nos momentos livres, em caminhadas aleatórias desvendando seu novo lugar, passa a fotografar as comunidades locais de origem caribenha, quilombolas e indígenas da região, vivência que desperta nela um processo de se expressar pelo seu corpo, sobre o seu corpo e outros corpos de identidades análogas e assim se reconhecer como mulher negra.
Na trajetória desta descoberta, sombras se dissipam perante estigmas, trazendo movimentos de uma distinta Amazônia Negra, entre eles uma potente visualidade que passa a estruturar uma árdua tarefa: entender onde o seu e os outros corpos negros residem e se encaixam nos pilares do sistema dominante, com sua profusão de lugares e elementos exploratórios que foram brutalmente criados e impostos pela história, supostamente civilizatória.
A pesquisa regular de Marcela torna-se um campo de produção de conhecimento sobre a pele escura, provocando uma travessia para uma imagem-corpo-continente impactada no cenário de violações, expropriações e estratégias mercantis que forjaram brutalmente uma inferiorização inexistente para explorá-los comercialmente.
Em um intenso exercício de “pensar por imagens”, Marcela apresenta em seu livro um imaginário de considerações, como ela descreve, sobre corpos escuros – classificados e detidos a partir de uma categorização visual, que foram colocados em uma circunstância imagética propositalmente deformada, onde a existência, física e abstrata, sem mínimo direito a humanidade, foi subjugada com martírios e apagamentos e passou a existir como um mero produto rentável.
Sob uma voraz ótica mercantilista, dirigida ainda hoje pelo patriarcado branco de origem europeia que pilhou esses corpos consolidando alicerces para riquezas, garantias e privilégios duradouros para seus territórios, prática igualmente reproduzida no Brasil, que tem seu patrimônio social e econômico historicamente construído com os frutos de mãos negras.
Com sua estrutura centrada em uma ampla contextualização de um “existir pela imagem”, sendo a “imagem vital”, como não poderia deixar de ser, o livro também é composto por fotografias autorais de Marcela que fazem parte de seu projeto “(Re) conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta”, plataforma multi artística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual com este livro em que se (re)conhece como parte significativa, agora visível, da potente presença da sua cor.
Marcela Bonfim é fotógrafa, economista formada pela PUC-SP e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública pela Universidade Federal de Rondônia. Já atuou como fotojornalista, colunista, palestrante, júri em concursos fotográficos e curadora de exposições em todo o país. Paulista da cidade de Jaú, após passar seu período universitário em São Paulo migrou para Porto Velho em 2010 em busca de emprego. Foi nesta cidade que ela deu início a seu processo de se reconhecer mulher negra. Com uma câmera na mão, muitas ideias na cabeça e toda sua história no corpo, passa a fotografar as populações de origem caribenha, negras quilombolas e indígenas da região. Marcela dedica-se, entre outras coisas, à realização do projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta, uma plataforma multiartística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual com este livro que a leitora e o leitor têm em mãos.


