Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Provocação Histórica: Amazônia Negra


AMAZÔNIA NEGRA 
- histórias do Brasil atravéz das fotos -

Marcela Bonfim, fotógrafa e economista, nascida em Jaú, no interior de São Paulo, em 1983. Sua trajetória sofreu uma guinada em 2010, quando se mudou para Porto Velho, Rondônia, e teve o primeiro contato com a fotografia. Longe do cenário paulista, Marcela passou a documentar homens, mulheres, crianças, jovens e velhos negros em comunidades quilombolas, terreiros de candomblé, festejos religiosos, penitenciárias e no cotidiano amazônico. Seu aclamado projeto, Amazônia Negra, desafia a visão hegemônica que invisibiliza a presença negra na região, destacando a riqueza das diásporas caribenhas e africanas. Seu trabalho já percorreu o Brasil em exposições como (Re)conhecendo a Amazônia Negra e Encruzilhadas da arte afro-brasileira, consagrando-a como uma das vozes visuais mais potentes na reconstrução da identidade negra brasileira.

PROGRAMA
- PROVOCAÇÃO HISTÓRICA -
MARCELA BONFIM
05/08/26

LiTeRaTuRa: Amazônia Negra

 Amazônia Negra 
( Marcela Bonfim )

Livro revela a Amazônia Negra ao entrelaçar imagem, corpo e memória na busca por identidade, pertencimento e reparação histórica.

Contemplado pelo Edital Funarte Retomada 2023 – Artes Visuais, “Amazônia Negra: as imagens da cor do (in) visível”, 1º livro de Marcela Bonfim, aborda deslocamentos reflexivos, físicos e subjetivos da autora ao migrar para Rondônia e descobrir a presença negra em território amazônico. Marcela, paulista de Jaú, graduada em Economia na capital, chega a Porto Velho em 2010 para trabalhar nesta cidade e nos momentos livres, em caminhadas aleatórias desvendando seu novo lugar, passa a fotografar as comunidades locais de origem caribenha, quilombolas e indígenas da região, vivência que desperta nela um processo de se expressar pelo seu corpo, sobre o seu corpo e outros corpos de identidades análogas e assim se reconhecer como mulher negra.

Na trajetória desta descoberta, sombras se dissipam perante estigmas, trazendo movimentos de uma distinta Amazônia Negra, entre eles uma potente visualidade que passa a estruturar uma árdua tarefa: entender onde o seu e os outros corpos negros residem e se encaixam nos pilares do sistema dominante, com sua profusão de lugares e elementos exploratórios que foram brutalmente criados e impostos pela história, supostamente civilizatória. 

A pesquisa regular de Marcela torna-se um campo de produção de conhecimento sobre a pele escura, provocando uma travessia para uma imagem-corpo-continente impactada no cenário de violações, expropriações e estratégias mercantis que forjaram brutalmente uma inferiorização inexistente para explorá-los comercialmente.

Em um intenso exercício de “pensar por imagens”, Marcela apresenta em seu livro um imaginário de considerações, como ela descreve, sobre corpos escuros – classificados e detidos a partir de uma categorização visual, que foram colocados em uma circunstância imagética propositalmente deformada, onde a existência, física e abstrata, sem mínimo direito a humanidade, foi subjugada com martírios e apagamentos e passou a existir como um mero produto rentável.

Sob uma voraz ótica mercantilista, dirigida ainda hoje pelo patriarcado branco de origem europeia que pilhou esses corpos consolidando alicerces para riquezas, garantias e privilégios duradouros para seus territórios, prática igualmente reproduzida no Brasil, que tem seu patrimônio social e econômico historicamente construído com os frutos de mãos negras.

Com sua estrutura centrada em uma ampla contextualização de um “existir pela imagem”, sendo a “imagem vital”, como não poderia deixar de ser, o livro também é composto por fotografias autorais de Marcela que fazem parte de seu projeto “(Re) conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta”, plataforma multi artística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual com este livro em que se (re)conhece como parte significativa, agora visível, da potente presença da sua cor.

Marcela Bonfim é fotógrafa, economista formada pela PUC-SP e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública pela Universidade Federal de Rondônia. Já atuou como fotojornalista, colunista, palestrante, júri em concursos fotográficos e curadora de exposições em todo o país. Paulista da cidade de Jaú, após passar seu período universitário em São Paulo migrou para Porto Velho em 2010 em busca de emprego. Foi nesta cidade que ela deu início a seu processo de se reconhecer mulher negra. Com uma câmera na mão, muitas ideias na cabeça e toda sua história no corpo, passa a fotografar as populações de origem caribenha, negras quilombolas e indígenas da região. 

Marcela dedica-se, entre outras coisas, à realização do projeto (Re)conhecendo a Amazônia Negra: povos, costumes e influências na floresta, uma plataforma multiartística, que envolve produção fotográfica, musical, audiovisual e, agora, também textual com este livro que a leitora e o leitor têm em mãos.

Navegando pela Amazônia !!

Filme: 


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Filosofia Africana

Raízes do Pensamento Anticolonial
Descolonial, contra-colonialismo

Contra-Colonialismo
Texto: Prof. Renato Noguera

A colonização forjou um sistema-mundo contemporâneo, o que nós chamamos hoje de "Norte-global" e "Sul-global". O pensamento anti-colonial, esse pensamento que busca a descolonização ele foi forjado não só nas bibliotecas, mas nas lutas. Eu quero trazer aqui três autores para a gente pensar sobre isso: Aimé Césaire, que nos brindou com um discurso sobre o colonialismo. Albert Memmi, "Retrato do Colonizado". Frantz Fanon, que trouxe "Pele Negra, Máscaras Brancas".

Autores de estudos:
- Aimé Fernand David Césaire (1913 - 2008)
- Albert Memmi (1920 - 2020)
- Frantz Fanon (1925 - 1961)

Cultura e filosofia africana

O que esses autores têm em comum e, nas suas singularidades, tem relação direta quando Césaire, por exemplo, vai apontar que o discurso colonial, ele tem uma mecânica, uma dinâmica de dizer que é necessário ilumnar as trevas. É necessário, de alguma maneira, fazer com essa infância seja contida, essa infância dos povos não europeus. Ele denuncia isso e fala de um movimento NEGRITUDE. Ele vai justamente apontar para as falhas desse discurso, salvacionista, de salvação, em que a europa - ou o ocidente -, de modo mais geral, procuraria salvar os povos não brancos, não ocidentais do seu atraso, da sua falta de civilidade.

Albert Memmi, no "Retrato do Colonizado" (1957), procura apontar essa caricatura que tem relação direta com uma discursividade onde foi necessário que os colonizadores produzissem um discurso que fizesse uma desvalia do colonizado, produzisse, justamente, um tipo de exotiso, que fizesse com que a população, os povos colonizados se achassem em dívida, se achassem não sabedores, com falta de conhecimento, com falta de uma produção real de conhecimento, uma produção de saber, com falta de civilização. Então, o "Retrato do Colonizado", ele aponta, justamente, como foi necessário promover uma SUBJETIVIDADE que tivesse o auto-ódio incluído, para que a colonização pudesse proceder com mais efic[acia. 

Frantz Fanon, lançou "Os Condenados da Terra" (1961), na pedagogia brasileira, principalmente em Paulo Freire, onde a noção de "opressor" e "oprimido" está em diálogo franco, contínuo, direto com a noção de "colonizador" e "colonizado" de Fanon. Ele nos apresenta, justamente um ADOECIMENTO. Fanon, além de filósofo, psiquiatra, teve seu trbalho de conclusão de curso recusado, e, depois, vira um livro, "Pele negra, máscaras brancas" (1952), que vira seu primeiro trabalho emblemático, ele vai denunciar uma patologia da branquitude. Talvez seja Fanon um dos primeiros a apontar, no seu percurso anticolonial, no seu percurso contra o colonialismo, apontar algo que é a produção de uma fantasia da branquitude, que teve que inventar sobre si mesma, um tipo de capacidade extra humana, de recursos sobrenaturais para poder justificar a sua violência. 

Linguagem da Violência

E Fanon, assim como Césaire e como Albert Memmi, nos apontam para a linguagem da violência, como a violência é a linguagem que a metrópole insere na colônia. E é a partir dessa linguagem, que Fanon promove, produz, e vai dizer que é necessário um processo curativo. E esse processo é a revolta, é o direito a se revoltar contra a lógica do colonialismo. O colonialismo, ele vai organizar o sistem-mundo criando, justamente, instâncias onde têm produção do que seria o conhecimento e outras carências que nunca têm isso. E, justamente, uma dinâmica geopolítica de produção, onde os corpos colonizadores são os corpos das senhoras, dos senhores, e os corpos das pessoas colonizadas, são os corpos dos servis.

Essa lógica vai se reproduzindo do ponto de vista geopolítico, ou seja, da maneira como os países se organizam, e vai se reproduzir dentro das colônias. E é justamente contra isso que esses autores, que são ali, fundamentais, porque eles estão, justamente, criando um divisor de águas, que é analisar o sistem-mundo a partir da emegência, do surgimento da modernidade, a modernidade colonial. Isso aparece de maneiras diferentes, distintas, em camadas diversas com Césaire, com Memmi, com Fanon. O que eles percebem é que, a partir do sistema ocidental da modernidade, de um certo iluminismo, esse iluminismo, essa modernidade, ela vai criar uma hierarquia de humanos no planeta, e, entre essa hierarquia, tem aqueles que, de alguma forma, parece que são naturalmente, têm um direito natural ao mando, um direito natural ao comando. E todo exercício argumentativo do projeto colonial é dizer para as colônias que elas são carentes, que elas não têm, que algo falta. É necessário promover um tipo de exercício, um tipo de abordagem da ausência. O que falta? Eles não têm conhecimento, eles são infantis, eles não têm ciência, eles não têm filosofia. 

Movimento Antimanicomial

Fanon observa, no seu trabalho como diretor de manicômio - e ele é um dos fundamentais, é um dos que vai disparar, vai ser um dos precursores -, justamente aquilo que nós chamamos, mais tarde, de "movimento antimanicomial", ele percebe que o adoecimento e a loucura está diretamente ligada ao processo de colonização, e vai dizer para o colonizadoque tudo que el deseja ser, ou o que deve desejar, é ser como o colonizador. E nesse exercício de impossibilidade de se configurar completamente como o colonizador, tem o adoecimento. Daí, esse título, "Pele negra, máscaras brancas", por que? É necessário um tipo de mascaramento, é necessário quase um tipo de servidão voluntária para que seja possível, seja viável se encaixar naquilo que seria o modelo da vida adequada, da vida civilizada. 

O projeto colonial, ele vai instalar uma humanidade de segunda classe, ou seja, ter humanidade de segunda, terceira, quarta classe. E a humanidade de primeira classe, ela é dita, definida como sendo aquela que está ligada à branquitude, está ligada aos valores da cultura ocidental, tendo a europa como esse centro gravitacional de produção de conhecimento, ou desse estágio superior de evolução da  humanidade. 
Césaire, Memmi e Fanon, denunciam isso. E, a partir dessas denúncias,vão surgir abordagens, escolas que vão tornar possível que isso seja combatido de muitas e diversas maneiras. 

Descolonizar o Pensamento

O percurso anticolonial de Césaire, Memmi e Fanon, nos ajuda a descolonizar o pensamento, para que a gente possa pensar com profundidade, é necessário uma descolonização radical das formas de pensar. Esse é um dos primeiros passos para descolonizar a vida e descolonizar o mundo.