Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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sábado, 5 de setembro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Black Pantera


BLACK PANTERA
'Continental - 2026'

A banda Black Pantera lança "Continental", seu novo álbum que explora a identidade brasileira através de uma fusão de rock, rap, soul e ritmos regionais. O disco conta com participações especiais e aborda temas como geopolítica e ancestralidade.

Formado por Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (vocal e guitarra) e Rodrigo “Pancho” (bateria), o Black Pantera consolida em ‘Continental’ a fase mais madura e expansiva de sua trajetória. O trabalho amplia a estética pesada apresentada em ‘Ascensão’ (2022) e ‘Perpétuo’ (2024), costurando influências de rap, soul, funk oitentista e ritmos regionais ao hardcore e metal.

O conceito do disco é guiado por uma reflexão geopolítica sobre o Brasil e pela ancestralidade, trazendo depoimentos gravados do geógrafo e pensador Milton Santos (1926-2001). 

Para dar forma a esse mosaico de som e discurso, o trio de Uberaba reuniu um time de participações que conecta diferentes eras e regiões da cultura brasileira e internacional. A diversidade também está nas participações. 

Sandra Sá, aparece em ''Quando Canto'', música atravessada pela ancestralidade e pela ideia de cura através da voz. 

Duquesa, participa de ''Serotonina'', aproximando o Black Pantera de uma das principais vozes do rap contemporâneo.

Derrick Green, vocalista do Sepultura, surge em ''Obsoleto'', reforçando a conexão do trio com o metal e com uma referência que atravessa sua formação. 

Chico César, faz uma participação em ''Banzo'', uma faixa de arrepiar que revela as angústias numa discussão sobre meritocracia.


''É um álbum que fala desses vários gêneros, de vários Brasis'', comenta o baixista e vocalista Chaene da Gama. Ele também destaca a importância da parceria com as cantoras Sandra Sá e Duquesa: ''É especial que as duas convidadas representem gerações distintas, porém complementares, da música brasileira."

Segundo o artista, a presença de Sandra Sá é especialmente simbólica. A banda cresceu ouvindo a cantora, e ''Quando Canto'' pede justamente uma voz que carregue história. A faixa encontra no soul uma extensão natural para o discurso ancestral que atravessa o álbum, sem perder a identidade do trio.

Já a participação de Duquesa, em ''Serotonina'' amplia esse diálogo entre gerações e gêneros. A faixa já fazia referência à rapper antes da parceria acontecer e ganha outro contorno com seu improviso.

O Black Pantera aborda no álbum a imensidão territorial e cultural do país, partindo de vivências pessoais para discutir temas coletivos. Além das colaborações, faixas como “Hórus”, “Negusa Nagast”, “W.P.P.” e “Sic Mundus” mantêm a firmeza da pauta antirracista que marca a trajetória do grupo.

“Continental” (Deck) tem produção de Rafael Ramos, mixagem de Leo Ramos e masterização de Fernando Delgado (à exceção de “Hórus”, masterizada por Chris Gehringer no Sterling Sound). O álbum reforça o papel do Black Pantera como uma das bandas mais expressivas e criativas do rock contemporâneo feito na América Latina.

- Chaene da Gama: “O álbum ‘Continental’ olha para nós mesmos como indivíduos. Quando abordamos a questão da diáspora, lembramos que carregamos milhares de etnias em uma única pessoa. Para além da imensidão de um continente ou da escala no mapa, cada pessoa vive o país de uma maneira. O Brasil que eu vivencio no interior de Minas Gerais é diferente do cotidiano de quem está no extremo Norte ou em uma capital gigantesca. 

O disco vem desse lugar de traduzir nossas vivências, mas de forma ampla. É um trabalho plural e diverso de maneira magistral: tem groove, rap, soul, rock, blues, metal, hardcore e punk funcionando juntos. É assim que vivemos, ouvimos música e respiramos nossa arte.”

Charles Gama: “Eu não diria que é um meio totalmente fechado. Existe um circuito aberto e a experimentação no Brasil vem de longo tempo — bandas há muito tempo misturam metal com forró, batidas eletrônicas ou ritmos tribais. Às vezes o desafio é que o rock não tem o mesmo espaço na grande mídia, como rádio e TV, ficando restrito ao underground.

Existe uma parcela do público purista que realmente não aceita bem a fusão com outros estilos, mas isso nunca foi barreira para o Black Pantera. Em ‘Perpétuo’ a gente já testava essa linguagem e em ‘Continental’ colocamos isso em primeiro plano sem ter medo de nada. A gente queria o gingado do soul e a pressão do hardcore na mesma medida, experimentando sem amarras.”

Rodrigo “Pancho”: “A gente vem quebrando barreiras desde 2016, quando saímos de Uberaba para tocar em Paris antes mesmo de tocar em qualquer capital brasileira. A cada ano e a cada álbum, a banda vence obstáculos, fura bolhas e diversifica os palcos. Para o futuro, queremos continuar ocupando mais espaços, nos firmando em festivais mainstream e entregando trabalhos criativos.”

O Black Pantera nunca pareceu interessado em ficar parado. Em ''Continental'', quinto álbum de estúdio do trio mineiro conhecido pelo crossover thrash, thrash metal e hardcore punk. Essa disposição para avançar aparece em 13 faixas que partem do hard rock e do groove metal para atravessar o rap, o soul, referências latinas e elementos da cultura pop.

A obra:

A faixa-título dá a medida do que vem pela frente. ''Continental'' começa com uma fala de Milton Santos, geógrafo e pensador baiano, antes de desembocar em uma música que trata do país a partir de suas contradições, da diáspora e da identidade.

O recurso não soa como um adorno intelectual. A voz de Milton funciona como ponto de partida para um álbum que olha para o Brasil a partir de sua dimensão social, histórica e geográfica. Embora seu som tenha raízes no metal, o grupo sempre integrou outros ritmos e artistas de outros estilos em seus projetos. Esse movimento aparece na trajetória da banda e na própria construção do novo álbum.

Na faixa ''Ascensão'' (2022), o grupo havia consolidado a identidade que o levou a grandes festivais e a uma circulação cada vez maior pelo Brasil e pelo exterior. ''Perpétuo'' (2024) ampliou a conversa ao incorporar ritmos latinos e uma reflexão mais voltada à ancestralidade e às próprias experiências. Agora, ''Continental'' (2026) transforma esse percurso em matéria musical, com faixas que alternam confronto, memória, humor e vulnerabilidade.

O groove e os riffs de inspiração noventista aparecem acompanhados por referências aos videogames e à cultura pop, sem suavizar o discurso da banda. O jogo funciona como linguagem, enquanto a crítica social continua no centro.

''Hórus'', outro single, segue por uma direção diferente, aproximando metal, espiritualidade, ancestralidade e resistência. A partir daí, o álbum abre espaço para diferentes atmosferas. ''Velho Jeans Rasgado'' olha para a vida na estrada. ''Negusa Nagast'', ''Punhos Cerrados'', ''Yasuke'', ''Sic Mundus'' e ''W.P.P.'' completam um repertório que não parece interessado em oferecer uma única porta de entrada.

Projeção nacional:

O Black Pantera chega a ''Continental'' em um momento particularmente movimentado. Apenas no primeiro semestre de 2026, o grupo foi anunciado pela terceira vez no Rock in Rio, pela segunda vez no Primavera Sound, abriu o show do Korn, lançou seu primeiro audiovisual e recebeu novamente o Prêmio da Música Brasileira na categoria ''Melhor Artista de Rock''.

O novo disco, porém, não parece interessado apenas em celebrar o tamanho que a banda alcançou. Há uma tentativa clara de entender o que fazer com esse espaço. O Brasil aparece como território, mas também como experiência. A ancestralidade está presente sem transformar o álbum em uma peça de museu. E a cultura pop entra em cena sem tirar o peso das questões sociais.

Essa é talvez a principal característica de ''Continental'': a banda não precisa escolher entre ser agressiva e experimentar. O groove metal, o thrash metal e as influências do hardcore punk continuam no centro, mas deixam de funcionar como fronteira. Em vez de repetir uma fórmula, o Black Pantera amplia a própria linguagem e faz do quinto álbum um retrato sonoro de suas referências, inquietações e vivências.



sexta-feira, 27 de março de 2026

Heavy Metal: Black Pantera


Black Pantera
' Orgulho e Resistência! '

O trio de Minas Gerais construiu seu reconhecimento nacional e internacional ao unir thrash, hardcore e groove metal a letras contundentes sobre questões sociais e raciais, transformando seus shows em experiências intensas, políticas e explosivas.
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Trajetória da banda:

O power trio formado por Rodrigo "Pancho" Augusto (bateria) e pelos irmãos Charles Gama (guitarra e vocal) e Chaene da Gama (baixo e vocal) superaram várias bandas e artistas vencendo o Prêmio BTG da Música Brasileira na categoria "Artista de Rock".

Sobre o nome da banda veio em homenagem à Martin Luther King, que repetiu diversas vezes em seu discurso histórico a frase: "Eu tenho um sonho", na Marcha sobre Washington, protesto que exigiu direitos iguais para pessoa negras e brancas nos Estados Unidos. Décadas depois, a frase também fez parte da história do Black Pantera.

O trio, que escolheu usar o nome do grupo político que tinha os mesmos objetivos que Luther King, mas com a possibilidade de autodefesa armada, nasceu de um sonho cultivado por anos no coração do guitarrista.

"Eu já tinha esse sonho na cabeça, realmente era um sonho ter uma banda preta de representatividade ativa para caramba", conta Charles.

A questão racial nunca passou despercebida para o músico: seus pais conversavam sobre o tema em casa e, a partir disso, desde cedo o jovem aprendeu a perceber o racismo estrutural (em piadas e em documentários sobre violência contra negros estadunienses) e a reagir quando ele cruzava o seu caminho. "Troquei soco com moleque na escola por conta disso, porque eu realmente não aceitava", lembra.

Crescendo com essa consciência e com gosto pelo rock, Charles curtiu as bandas que fizeram sucesso nos anos 2000, como System Of A Down, Linkin Park e Evanescence, em meio a um incômodo de não se ver representado num cenário musical predominantemente branco:

"Eu caçava super-heróis pretos, artistas pretos, mas dentro do rock, que era aquilo que eu amava tanto, era difícil (...) Foi difícil estar na roda da galera, ou nas bandas tocando, era difícil demais ser uma pessoa preta ali, querendo se ver, ver iguais a você fazendo isso e não tinha. Então, quando eu comecei a banda, foi por um desejo que já estava em mim desde muito jovem".

Aos poucos, o jovem foi conhecendo outras figuras do rock e ficou fascinado quando descobriu Jimi Hendrix e Lenny Kravitz: dois homens negros que ostentavam seus cabelos crespos e guitarras potentes nas mãos.

Depois de muitos anos cantando em uma banda cover de heavy metal, o músico passou um ano estudando guitarra e trabalhando nas próprias composições para transformar o sonho, que já considerava Rodrigo e Chaene como futuros parceiros, em realidade. Apesar de não comprarem a ideia de imediato, a dupla foi conquistada depois de ouvir as primeiras gravações de Charles.

De Uberaba (BR) para o mundo.

Black Pantera fez sua estreia nos palcos internacionais antes mesmo de tocar em qualquer capital brasileira. Em 2016, depois de dois anos tocando pelo interior de Minas Gerais, os músicos foram convidados para tocar na edição francesa do festival Afropunk depois de conhecer os organizadores do evento pelas redes sociais.

Além de superar as dificuldades financeiras típicas de todo artista iniciante que não conta com patrocínio, a banda também ultrapassou a barreira do idioma. As letras em português não foram um empecilho para que os mineiros conquistassem os palcos da França, por onde passaram outras vezes antes de receberem convites para grandes shows em sua terra natal.

"A gente voltou para o Brasil, fomos para Europa mais uma vez e aí a coisa começou a caminhar para cá, porque, na verdade, quando a gente foi para Europa, a gente nem São Paulo tinha trocado ainda. A gente não tem feito nenhuma capital no Brasil, a gente toca só em Uberaba e algumas pequenas cidades da região aqui", conta Charles.

No estúdio.

Depois do ponta pé inicial com o lançamento do "Project Black Pantera" (2015), um álbum que apresenta uma sonoridade agressiva que mistura elementos de Crossover Thrash, Hardcore Punk e Metal. Com 12 faixas, o trabalho aborda temas sociais críticos, como racismo, política e desigualdade. 

Depois veio o álbum "Agressão" (2018), o disco consolidou a sonoridade da banda, que mistura elementos de hardcore, metal, punk e thrash. 

O terceiro álbum de estúdio da banda mineira, lançado em 11 de março de 2022, último com a gravadora Deckdisc, é considerado um divisor de águas na carreira do trio, consolidando-os como um dos principais nomes do cenário pesado brasileiro contemporâneo.

PERPÉTUO é o quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 24 de maio de 2024 pela gravadora Deck. O disco marca uma fase de exploração da sonoridade afro-latina, unindo o tradicional crossover thrash e hardcore do trio com influências musicais descobertas após uma viagem ao Chile. 

Destaques do Álbum: Temática Ancestral: O título e as composições resgatam a ancestralidade e celebram a cultura preta e a resistência, mantendo o ativismo lírico característico do grupo. A faixa-título "PERPÉTUO" ganhou um videoclipe dirigido por Carol Borges, lançado em agosto de 2024. Outro single de destaque é "Provérbios", que apresenta refrão em espanhol.

Festivais.

Em 2022, A partir do disco "Ascensão" (2022), que marcou o início de uma nova fase para banda, a banda se consolida no Brasil e mais participações em shows no exterior, o trio fez sua estreia no Rock in Rio e, nos anos seguintes, passou por todos os grandes festivais do país.

Depois de tocar Lollapalooza 2023, Black Pantera celebrou seus 10 anos de história cantando a premiada "Tradução" ao lado de Dona Guiomar, mãe de Charles e Chaene, no palco do Rock In Rio 2024. Uma turnê que passou por 20 cidades brasileiras e shows nos Estados Unidos e México. 

O trio gravou o primeiro audiovisual na véspera do Dia Consciência Negra, no Rio de Janeiro. Na estréia no festival The Town, a banda trouxe novidades em seu show carregado de energia num dia perfeito para os fãs de rock.

Dona Guiomar deve ser uma mãe muito orgulhosa com o sucesso dos filhos Charles e Chaene Gama.
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