Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Curtis Fuller


Curtis Fuller
' um arquiteto do hard bop '

Órfão de Detroit que se tornou um arquiteto do hard bop, ele executou um dos solos de trombone mais célebres da história do jazz. Curtis Fuller, trombonista, compositor e mestre do jazz pela NEA (National Endowment for the Arts), figura fundamental no desenvolvimento da linguagem bebop em seu instrumento.
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História

Fuller foi o trombonista preeminente da era do hard bop, conhecido por sua proeza técnica — particularmente sua habilidade em articular intervalos amplos — e engenhosidade rítmica. Ele também era aclamado pelo toque coloquial em seu estilo de improvisação. "A magnífica técnica do trombone no bebop pode ter ficado com J.J. Johnson", escreveu o crítico Fred Bouchard na JazzTimes, "mas Deus deu a Curtis Fuller uma grande parte da alma."

Como prova de sua predominância, Fuller pertenceu a duas das bandas mais importantes do hard bop: o Benny Golson/Art Farmer Jazztet, do qual foi membro fundador, e o Art Blakey's Jazz Messengers, participando de um dos períodos mais memoráveis ​​da banda (com Wayne Shorter, Freddie Hubbard, Cedar Walton e Reggie Workman). Ele também gravou quase três dezenas de álbuns em seu próprio nome e participou de muitas gravações importantes e populares como músico acompanhante de artistas como Bud Powell, Sonny Clark, Lee Morgan, Quincy Jones, Dizzy Gillespie, Lionel Hampton, Jimmy Heath e Count Basie.

No entanto, seu momento mais famoso em disco é, sem dúvida, seu solo no clássico de John Coltrane, "Blue Train", gravado em 15 de setembro de 1957. Fuller contribuiu com cinco solos que equilibraram com maestria contenção, virtuosismo e grooves cuidadosamente elaborados, resultando, possivelmente, no solo de trombone mais famoso da história do jazz.

Questionado em uma entrevista de 2012 pelo escritor Mark Stryker sobre os segredos de um bom solo, Fuller respondeu: “Humor e diálogo. … Música é composição em inglês. Cada canção deve ter um tema, e as frases devem ter um substantivo, um verbo e assim por diante. Deve ser expressiva. Pontos de exclamação: Bap!”

Curtis DuBois Fuller nasceu em 15 de dezembro de 1932 em Detroit, filho de Antoinette Heath Fuller, uma viúva. Seu pai, John Fuller, era operário em uma fábrica da Ford Motor Company e morreu de tuberculose enquanto sua esposa estava grávida. A mãe de Fuller morreu em 1942 de doença renal, o que fez com que Curtis fosse separado de seu irmão e irmã mais velhos e entregue aos cuidados da Children's Aid Society, um orfanato no centro de Detroit, onde cresceu.

Por volta dos 12 anos, Fuller viu Illinois Jacquet no Paradise Theatre, em Detroit, e ficou impressionado com o trombonista de Jacquet, JJ Johnson. Logo depois, viu o nativo de Detroit, Frank Rosolino, se apresentar e ficou igualmente cativado. Ele começou a tocar trombone na banda do orfanato e teve algumas aulas com Rosolino. Mudou para o barítono na Cass Technical High School, embora tenha continuado a estudar trombone por conta própria e durante um breve período na Wayne State University (onde dividiu o quarto com Joe Henderson).

Convocado para o exército em 1953, Fuller foi designado para Fort Knox e tocou em uma banda do exército liderada por Julian “Cannonball” Adderley. Após sua dispensa em 1955, Fuller retornou a Detroit e se estabeleceu na efervescente cena jazzística da cidade, incluindo trabalhos em bandas lideradas pelo guitarrista Kenny Burrell e pelo multi-instrumentista de sopro Yusef Lateef. Em abril de 1957, no entanto, Fuller foi para Nova York com a banda de Lateef e decidiu ficar.


No final de 1957, Fuller já havia feito pelo menos 21 gravações, incluindo várias de sua autoria, além de participações importantes com Lateef, Powell e Morgan — e o álbum "Blue Train" de Coltrane. (Fuller teve outro momento de destaque nesta última sessão, ao mencionar a segunda música mais famosa do álbum quando reclamou que Coltrane esperava que eles a aprendessem "num instante".) Ele se tornou instantaneamente o trombonista mais requisitado da cena e logo estava trabalhando com Miles Davis, Lester Young e Dizzy Gillespie.

Em 1960, Fuller já era membro do Jazztet e da Orquestra de Quincy Jones. No ano seguinte, juntou-se aos Jazz Messengers, para os quais compôs os clássicos "A La Mode", "Three Blind Mice" e "Buhaina's Delight".

No entanto, o trabalho diminuiu drasticamente depois que ele deixou os Messengers no final de 1964. Embora Fuller tenha terminado 1968 em uma turnê europeia com a big band de Gillespie, ele começou o ano com um emprego de escritório na sede da Chrysler Corporation em Nova York e trabalhos ocasionais como freelancer.


O trabalho constante recomeçou em 1975, quando ele se juntou à Orquestra de Count Basie por um período de três anos, durante o qual conheceu Frank Sinatra e Tony Bennett. Depois de deixar Basie em 1978, Fuller manteve o ritmo, gravando vários álbuns como líder e iniciando colaborações frutíferas com Woody Shaw, Lionel Hampton e um grupo chamado Timeless All-Stars (criado pela gravadora holandesa Timeless Records).

Uma batalha contra o câncer de pulmão desacelerou Fuller na década de 1990, mas ele venceu a doença e se recuperou no final da década trabalhando com Benny Golson, e então lançou uma série de novos trabalhos em seu próprio nome nos anos 2000. Mesmo assim, outros problemas de saúde começaram a aparecer, afetando seus dentes. Ele passou a se dedicar mais à sala de aula do que aos palcos, tornando-se membro do corpo docente da Hartt School of Music da Universidade de Hartford e do programa Betty Carter Jazz Ahead no Kennedy Center em Washington, DC. Ainda assim, ele fez apresentações ao vivo e gravações impressionantes até o início da década de 2010, com seu último álbum, Down Home, lançado pela gravadora Capri Records em 2012. Curtis Fuller faleceu em 8 de maio de 2021, aos 88 anos. Ele deixa oito filhos, além de netos e bisnetos.

Seu legado foi essencialmente importante para as mudanças do Jazz!
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sábado, 8 de agosto de 2026

Living Colour


Living Colour
' aumentando a distorção sem diminuir o funkeado '

Living Colour é uma banda de rock estadunidense de Nova York, formada em 1984. Liderada pelo guitarrista Vernon Reid, a formação da banda se consolidou em meados da década de 80 com Corey Glover (vocal), Will Calhoun (bateria) e Muzz Skillings (baixo). Estilisticamente, a música da banda é uma fusão criativa influenciada por free jazz, funk, hard rock e heavy metal. Suas letras variam entra assuntos mundanos e pessoais até aos mais politizados, abordando temas sociais e raciais com bastante intensidade.

O álbum de estreia da banda, "Vivid", foi lançado em 1988 pela Epic Records e com produção de Ed Stasium e Mick Jagger dos Rolling Stones. O álbum alcançou a 6ª posição na parada Billboard 200 e posteriormente recebeu certificação de platina dupla pela RIAA. Incluía "Cult of Personality", um sucesso que alcançou a 13ª posição na parada Billboard 200 Singles, bem como o hit "Glamour Boys", que chegou ao Top 40. "Cult of Personality" rendeu à banda seu primeiro Grammy de Melhor Performance de Hard Rock.


Em 1990, o segundo álbum completo da banda, "Time's Up", foi lançado e alcançou a 13ª posição na Billboard 200, conquistando o certificado de ouro. O álbum ganhou um Grammy de Melhor Álbum de Hard Rock e contou com participações especiais de Queen Latifah, Little Richard, Doug E. Fresh e Maceo Parker. 
O Living Colour lançou o EP de seis músicas, "Biscuits", que coincidiu com a turnê inaugural do Lollapalooza no verão de 1991. 

Skillings deixou a banda no verão de 1992, sendo substituído pelo veterano baixista de estúdio e membro da Sugarhill Records, Doug Wimbish. "Stain", o terceiro LP da banda, foi lançado em 1993 pela Epic. Alcançando a 26ª posição na Billboard 200, o álbum apresentava um som muito mais pesado e agressivo, contendo elementos de thrash metal e música industrial, e recebeu uma indicação ao Grammy pela faixa "Leave It Alone".

Após a separação em 1995, o Living Colour retornou em dezembro de 2000 e começou a gravar "Collideøscope". Lançado em 2003, o álbum apresentava letras agressivas, com muitas das músicas abordando os ataques de 11 de setembro. Também continha covers de "Back in Black", do AC/DC, e "Tomorrow Never Knows", dos Beatles. 

O primeiro lançamento pela nova gravadora Megaforce Records, "The Chair in the Doorway", foi lançado em 2009 e alcançou a posição 159 na Billboard 200, impulsionado pelo single "Behind The Sun". Em 2013, a banda celebrou o 25º aniversário de "Vivid" com uma turnê mundial pelas Américas do Norte e do Sul, Europa e Japão, incluindo o festival Soundwave na Austrália.


A inspiração para o próximo álbum do Living Colour veio de uma apresentação da música "Preachin' Blues", uma composição da lenda do Delta Blues, Robert Johnson, e na celebração do centenário do lendário teatro de resistência afro-americana, o Apollo Theater, em Nova York.

Lançado em 8 de setembro de 2017, o álbum 'Shade' é o som de uma banda que está se reconciliando com suas sombras e sua luz", diz o fundador Vernon Reid."Do púlpito blues de Robert Johnson às ruas vermelhas e violentas do Brooklyn... 'Shade' é o próximo capítulo de uma jornada norte-americana singular."

Para tentar compreender e se aprofundar melhor na sonoridade e a energia explosiva do peso e groove da banda, são muitas misturas e influências bastante distintas. Eles juntam riffs agressivos de metal com linhas de baixo marcantes inspiradas no funk tradicional. O virtuosismo de cada integrante é peça fundamental, pois os músicos possuem forte base técnica vinda do jazz e do jazz fusion.



sexta-feira, 7 de agosto de 2026

70's (de)Novo: Os Mutantes


Os Mutantes
' onde as cores tem mais vida, a música é mais autêntica '

A banda é amplamente considerada uma das bandas mais geniais, inovadoras e revolucionárias da história da música brasileira e do rock psicodélico mundial. Misturando rock, tropicália e criatividade sonora única. Usaram microfonia, ruídos de forma inédita, criaram pedais de efeito e amplificadores artesanais, misturaram folk, bossa nova e rock britânico. 

Bem vindos ao mundo dos Baurets!
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Grupo musical formado em São Paulo, em 1966, originalmente composto por Rita Lee (1947) e pelos irmãos Arnaldo Baptista (1948) e Sérgio Dias (1951). Antes, Arnaldo atua como baixista da banda Wooden Faces, e Rita divide-se entre o conjunto Teenage Singers e o trio Danny, Chester & Ginny.

Em 1965, com ex-integrantes dos Wooden Faces e das Teenage Singers, Arnaldo, Rita e Sérgio formam o Six Sided Rockers, rebatizado como O’Seis. Especializado em blues e covers, o grupo faz experiências sonoras, apresentando peças de compositores eruditos em versões roqueiras. A carreira de O’Seis dura pouco mais de um ano, período em que frequentam programas de televisão, como o Jovem Guarda (TV Record), e gravam um compacto simples.

Com o fim do conjunto, Arnaldo, Rita e Sérgio criam os Mutantes. Em 1966, o trio participa da estreia de O Pequeno Mundo de Ronnie Von (TV Record) e torna-se atração fixa do programa, interpretando sucessos internacionais e temas eruditos. 

O trio passa a tocar em outras atrações da emissora e, em 1967, recebe o convite para se apresentar no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, ao lado do compositor Gilberto Gil (1942), que classifica duas canções na disputa, “Bom Dia” e “Domingo no Parque”. Com arranjo do maestro Rogério Duprat (1932-2006), “Domingo no Parque” dá a Gil o segundo lugar na competição e projeta os Mutantes nacionalmente.

O figurino dos jovens é chamativo, e a performance investe no bom humor, sem receio de causar polêmica. Musicalmente, Arnaldo Baptista (baixo, teclados e vocal), Sérgio Dias (guitarra e vocal) e Rita Lee (vocal, flauta e percussões eventuais) mostram um rock moderno e elaborado, sem a ingenuidade do iê-iê-iê.

Cosmopolita e com apelo comercial, o trio torna-se expoente da tropicália, movimento musical encabeçado por Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil que agita a cultura brasileira entre 1967 e 1968. No disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis (1968), os Mutantes participam de cinco faixas: “Panis et Circenses” (Caetano Veloso, Gilberto Gil), “Miserere Nóbis” (Gilberto Gil, Capinan [1941]), “Parque Industrial” (Tom Zé [1936]), “Bat Macumba” (Gil, Caetano) e “Hino ao Senhor do Bonfim da Bahia” (João Antonio Wanderley [1879-1927]).

Destacam-se como uma das principais atrações do Divino Maravilhoso (TV Tupi, 1968), programa no qual os tropicalistas divulgam ideias e canções. No mesmo ano, o trio lança seu primeiro LP, Os Mutantes, e grava, com Caetano Veloso, o compacto Ao Vivo.

Nos trabalhos iniciais, a presença de Rogério Duprat é marcante. Experiente em música contemporânea e empolgado com a atitude irreverente do grupo, o maestro contribui para organizar e realizar as ideias dos jovens artistas.

O álbum é marcado pelo experimentalismo e pela utilização de várias técnicas de estúdio, como mudanças de ritmo, guitarras distorcidas, uso de ruídos, sonoplastia, e de objetos não convencionais para simular o som dos instrumentos, como uma bomba de inseticida em "Le Premier Bonheur do Jour". Influenciados pela banda inglesa The Beatles e do rock psicodélico, misturavam todos esses elementos com gêneros musicais brasileiros com o samba em "A Minha Menina", o candomblé em "Bat Macumba" e o baião em "Maria Fulô".

Em 1969, os Mutantes transformam-se em quinteto com a chegada do baterista Ronaldo Poliseli Leme (1949), o Dinho, e o baixista Arnolpho Lima Filho (1951), o Liminha. No mesmo ano, lançam o segundo álbum, Mutantes, com maior repertório autoral.

Nesse álbum é construído outra atmosfera de experimentação e colisão musical, o álbum anda numa linha tênue entre a inovação e abusos experimentais. O uso das raízes populares (tanto brasileiras como americanas) pelo grupo, despontam com mais criatividade.

Este disco consolidou o sucesso e a veia experimentalista do grupo, esta calcada, especialmente, nas inovações tecnológicas de Cláudio César Dias Baptista, e o "profissionalismo, humor e inteligência" do grupo os coloca em situação privilegiada no cenário musical brasileiro da época. As apresentações do grupo são verdadeiros happenings: para cantar “Caminhante Noturno” (Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias) no 3º Festival Internacional da Canção, Arnaldo sobe ao palco vestido de arlequim; Sérgio, com a indumentária de toureiro, e Rita, com vestido de noiva, véu e grinalda.

Rapidamente, os Mutantes conquistam outros espaços. No cinema, participam de As Amorosas (1968), filme de Walter Hugo Khouri (1929-2003). Na publicidade, estrelam campanha da marca Shell em comerciais televisivos e anúncios na forma de histórias em quadrinhos e são atração dos desfiles promovidos pela empresa Rhodia, em 1969. No mesmo ano, escrevem e produzem o musical Planeta dos Mutantes, encenado no Teatro Casa Grande, no Rio de Janeiro.

Aproveitando a qualidade técnica dos cinco integrantes, no terceiro disco, "A divina comédia, ou ando meio desligado", de 1970, a sonoridade fica mais pesada e com pitadas do que seria o rock progressivo. Com excelentes intervenções entre baixo e órgão, bateria conduzindo arranjos quebrados e muito virtuosismo na guitarra de Sérgio Dias. 

O músico Naná Vasconcelos faz uma participação especial no álbum e toca percussão em "Ando Meio Desligado" e "Desculpe, Babe". A faixa "Desculpe, Babe" inclui um efeito de talkbox, feito por Cláudio César, irmão mais velho de Sérgio e Arnaldo, para distorcer a voz de Sérgio. A faixa-título, "Ando Meio Desligado", foi apresentada originalmente no Festival Internacional da Canção de 1969.

A capa apresenta uma reprodução de uma gravura do ilustrador francês Gustave Doré para a obra A Divina Comédia, de Dante Alighieri, que representa um morto saindo de sua sepultura. A releitura foi feita no jardim da casa dos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, por ideia do irmão mais velho, Cláudio César. Para replicar a gravura, os irmãos cavaram um buraco para imitar a sepultura, onde colocaram uma pequena fogueira. A pedra da lápide foi feita com isopor, que também cobria as laterais do buraco. Arnaldo representou o morto saindo da sepultura, enquanto Sérgio e Rita ficam acima, vestidos em mantos e com folhas de louro nas cabeças, observando-o. A contracapa do álbum mostra o trio (Arnaldo, Rita e Sérgio) em uma cama, aparentando estarem nus, cobertos apenas por um cobertor. O baterista Dinho Leme aparece ao lado, de pé, fantasiado de oficial nazista.

O quarto álbum "Jardim Elétrico", lançado em 1971 pela Polydor Records, traz cinco músicas que deveriam ser lançadas no disco Tecnicolor, gravado para o mercado externo, mas que acabou sendo cancelado na época e lançado posteriormente em 2000, com arranjos diferentes do disco lançado. Jardim Elétrico está na lista dos 100 melhores discos da música brasileira ocupando a 72ª posição.

Para esse álbum, o desafio era manter a qualidade do álbum anterior e, concomitantemente, inovar, trazer algo de novo para os fãs. E conseguiram. Logo de cara os Mutantes apresentam Top Top, um rock and roll muito bem humorado trazendo uma Rita Lee com a voz alterada, extremamente aguda. No refrão, "sabotagem" e palavras quase initeligíveis são alternadas entre Rita e Arnaldo, uma das duplas mais férteis da música brasileira. Cada vez mais a banda adentrava ao rock progressivo, com direcionamento cada vez maior nas camadas instrumentais. A capa do álbum foi desenhada pelo artista franco-alemão Alain Voss. Um desenho psicodélico de Alain Voss trazendo uma planta gigante e engraçada, para os mais desavisados, um pé de cannabis.

Fundamental na trajetória dos Mutantes é o luthier Claudio César Baptista (1945), irmão mais velho de Arnaldo e Sérgio. Ele é o responsável pelos instrumentos musicais e equipamentos de som do grupo. Sua criação mais famosa é a Guitarra Régulus, usada por Sérgio Dias, e inspirada no design dos violinos Stradivarius. Certas inovações são idealizadas pelos próprios integrantes. Na gravação de “Le Premier Bonheur du Jour” [Jean Renard (1933), Franck Gérald (1928-2015)], o som do chimbal da bateria é substituído por uma bomba de Flit (vaporizador antigo) foi levada ao estúdio por Rita Lee.

Em 1972, lançam "Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets", último disco com Rita Lee no grupo, entrando de cabeça na fase da linha do rock progressivo. As músicas tornam-se mais longas, instrumentais e com muita improvisação. Visto a faixa título, que trabalha no mesmo nível das bandas progressivas da Inglaterra como Yes e Emerson, Lake and Palmer, por exemplo. 

Arnaldo traz a musicalidade viajante e Sérgio contribuiu com o virtuosismo técnico no toque da guitarra, sendo acompanhados pelos sensacionais músicos Dinho e Liminha que entregam tudo na mesma pegada. Já Rita acentuou a anarquia com a doçura pop da voz e com o star quality que sempre faltou aos irmãos Baptista.

Ao longo das 10 faixas do álbum, havia ironia na incursão pelo universo musical cubano em Cantor de mambo (Elcio Decário, Arnaldo Baptista e Rita Lee) – faixa-farpa também disparada contra Sergio Mendes, embaixador da bossa nova nos Estados Unidos – e na declaração de amor canino feita em Vida de cachorro (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias), balada ternamente cantada por Rita Lee.

Também havia devoção ao rock'n'roll básico dos anos 1950, de batida evocada na música que abriu o disco, Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock'n'roll (Rita Lee, Liminha e Arnaldo Baptista). O espírito do rock também moveu Dune buggy (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias), A hora e a vez do cabelo nascer – música creditada a Liminha e Mutantes, originalmente intitulada Cabeludo patriota, nome vetado pela censura por identificar gozação com o falso moralismo e nacionalismo exacerbado do Brasil da era militar dos anos 1970 – e Beijo exagerado (Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias).

Em 1973, sem Rita, lançam o álbum "A" e o "Z". O conceito do disco foi criado por Arnaldo Baptista, e teria "um sentido bíblico e baseado no [livro de] Apocalipse" e "redescobriria a figura de Deus como o cara que cuida de tudo". Isso pode ser visto nas faixas como "O A e o Z" e "Uma Pessoa Só". O álbum foi inteiramente composto, gravado e mixado sob efeito de LSD. A capa foi desenhada pelo próprio Arnaldo. Após desentendimentos, e o constante abuso de drogas, Arnaldo Baptista sai do grupo, seguido de Dinho e Liminha. 

Sérgio tenta dar sobrevida aos Mutantes, e vários tecladistas passam pelo grupo. Túlio Mourão assume os teclados, Rui Motta a bateria e Antônio Pedro de Medeiros o baixo. Os novos Mutantes assinam com a gravadora Som Livre para o lançamento do álbum "Tudo Foi Feito Pelo Sol".

O álbum foi gravado em apenas um take nos estúdios RCA de Copacabana, no Rio de Janeiro, sem nenhuma pausa. Sérgio afirmou que se tratava de uma versão "ao vivo em estúdio". O álbum foi um sucesso comercial. A turnê do álbum foi a mais longa da história da banda até então, além da maior vendagem de discos.

Nas promoções do álbum, Sérgio sempre reafirmou seus novos companheiros de banda e como resposta aos críticos, que questionavam a ausência dos outros membros originais da banda. Na participação que tiveram no programa Fantástico: O Show da Vida, na TV Globo, Sérgio Dias afirmou "Os Mutantes estão de volta e totalmente mudados, como o próprio nome exige".

Em 2013, a formação que gravou o álbum se juntou para fazer uma pequena turnê tocando todo o disco na íntegra e com algumas canções extras que foram gravadas na época. Porém, mesmo diante do enorme sucesso do disco, o destino fez com que e
m 6 de junho de 1978, a banda fizesse sua última apresentação, em Ribeirão Preto, São Paulo, para uma pausa mais longa da história da banda.

Reencontro e a nova Era dos Mutantes

Em 2006, motivados por uma homenagem prestada à banda na mostra Tropicália – A Revolution in Brazilian Culture, promovida pelo centro cultural inglês Barbican Hall, em Londres, Arnaldo, Sérgio e Dinho voltam a se reunir – Rita e Liminha declinam do convite. Com a cantora Zélia Duncan (1964) completa a formação, e o grupo apresenta-se na Inglaterra, nos Estados Unidos e no Brasil. O registro dos concertos londrinos são lançados em CD e DVD, sob o título "Mutantes ao Vivo – Barbican Theatre". Um ano depois, Arnaldo e Zélia deixam a banda.

Sérgio Dias renova a banda e o Mutantes do novo milênio lança em 2009, após 35 anos, um álbum de músicas inéditas chamado "Haih... Or Amortecedor". Em 2013 lança outro disco chamado: "Fool Metal Jack", cujo título parodia o nome do filme Full Metal Jacket (Nascido para matar), do diretor estadunidense Stanley Kubrick (1928-1999). 

O último lançamento foi "Zzyzx", em 2020. Lançado em escala planetária através da gravadora Jardim Elétrico, Zzyzx é o alien de toda discografia, a sonoridade do disco não se parece com nada feito anteriormente pela banda. Mas isso é Mutantes, sempre em mutação.

Músicos que participaram de alguma formação da banda em algum momento recente do grupo: Esmeria Bulgari (voz e percussão), Ani Cordero (bateria, percussão e voz), Vinicius Junqueira (baixo), Vítor Trida (guitarra e voz), Amy Crawford (teclado e voz), Claudio Tchernev (bateria), Henrique Peters (teclado) e Camilo Macedo (guitarra).
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The Blues: Série de Martin Scorsese


The Blues
' uma viagem pela história do blues '

The Blues é uma série de documentários de 2003 produzida por Martin Scorsese, dedicada à história da música blues. Em cada um dos sete episódios, um diretor diferente explora uma fase do desenvolvimento do blues. A série foi originalmente exibida na PBS (Public Broadcasting Service) nos Estados Unidos.

O diretor Martin Scorsese presta homenagem ao blues do Delta, traçando as raízes da música ao viajar pelo estado do Mississippi com o músico Corey Harris e, em seguida, para a África Ocidental. Willie King, Taj Mahal, Othar Turner e Ali Farka Touré apresentam performances de canções antigas do blues do Delta, juntamente com imagens raras de arquivo de Son House, Muddy Waters e John Lee Hooker.

The Blues A Musical Journey é um box de CDs que acompanha o documentário, com gravações de 10 de agosto de 1920 a 9 de abril de 2003. São mais de seis horas de blues de todos os tipos. 

Músicas que vão de Othar Turner & the Rising Star Fife & Drum a Bonnie Raitt, passando por Sun House, Jimi Hendrix, Blind Willie McTell, Elvis Presley, Bob Dylan, Robert Johnson e Howlin' Wolf, com dezenas de músicos de blues.

Em 2004, a caixa ganhou dois prêmios Grammy de Melhor Álbum Histórico e Melhores Notas de Álbum. No ano anterior, foi número 2 na parada Top Blues Albums da Billboard. 

Martin Scorsese Presents the Blues: A Musical Journey também é o título de um livro complementar da série, de 2003. Os autores/editores incluem Peter Guralnick, Robert Santelli, Holly George-Warren e Christopher John Farley.

Imperdível!



Tropicalismo


Tropicalismo
' movimento cultural de contracultura '

O tropicalismo foi um movimento cultural brasileiro que surgiu no final da década de 1960. Procurava renovar o cenário cultural brasileiro denunciando a realidade do Brasil.

O tropicalismo foi um movimento cultural de contracultura que surgiu no Brasil na década de 1960. Esse movimento se manifestou principalmente na música mas também teve representantes em outras áreas da cultura, como o teatro, o cinema e as artes plásticas. 

Entre os principais representantes estavam Caetano Veloso, Rita Lee, Gal Costa, Tom Zé, Gilberto Gil e os irmãos Sérgio e Arnaldo Baptista da banda Mutantes.

Os tropicalistas procuravam renovar o cenário cultural brasileiro denunciando a realidade política e social do Brasil. Suas canções alegóricas foram a forma encontrada para evidenciar os problemas do país e fugir da censura existente no período da Ditadura Militar. Esse movimento cultural se encerrou com a prisão e o exílio de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

O que foi o tropicalismo?

O tropicalismo foi um movimento cultural brasileiro que existiu no final da década de 1960. Ficou muito conhecido por sua manifestação na música mas também esteve presente nas artes plásticas, no teatro, no cinema e na poesia. 

O tropicalismo influenciou profundamente o cenário cultural brasileiro, sobretudo entre os anos de 1968 e 1969. Esse movimento também ficou conhecido como tropicália, sendo um movimento de contracultura.

O tropicalismo ficou marcado sobretudo na música por sua estética radical, inspirando-se no rock, no pop e em elementos da cultura brasileira, como o baião e o caipira, para produzir uma nova expressão cultural para o Brasil. Os tropicalistas desejavam se estabelecer como contraponto cultural à bossa-nova e à MPB, estilos tradicionais e consolidados no cenário cultural brasileiro.

Representantes do tropicalismo

Na música, destaca-se: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Chico Buarque, Nara Leão, Tom Zé, e Os Mutantes (banda formada por Rita Lee, Sérgio Dias, Arnaldo Baptista);

Nas artes plásticas, destaca-se Hélio Oiticica;

No cinema, Gláuber Rocha;

No teatro, José Celso Martinez Corrêa.

A grande liberdade criativa dos tropicalistas tornou impossível definir um padrão da arte tropicalista, mas muitos artistas do período não se enquadraram nesse movimento cultural.

Características e objetivo do tropicalismo

O tropicalismo foi fortemente influenciado pelo concretismo, corrente artística e literária do século XX. Os artistas tropicalistas ficaram marcados por usarem roupas coloridas e por atuações performáticas, cantando por meio de alegorias e do deboche. Usavam elementos do cenário cultural exterior, como a guitarra elétrica, adaptando-a para o cenário cultural do Brasil.

O objetivo dos tropicalistas era usar esses elementos chamativos e performáticos para chocar. Queriam renovar o cenário musical e dar vigor ao cenário cultural do Brasil, trazendo novas interpretações do país e novos personagens para o centro de nossa cultura. 

Os dois grandes centros que manifestaram as tendências tropicalistas foram as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, embora muitos dos seus componentes fossem baianos.

Origem do nome e do movimento

O tropicalismo surgiu no final da década de 1960, e alguns pesquisadores apontam que o estopim do movimento se deu com as apresentações de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque em um festival de calouros transmitido pela TV Record — o III Festival de Música Popular da TV Record de 1967. Nesse evento, Caetano Veloso interpretou “Alegria, alegria”; Gilberto Gil, interpretou “Domingo no parque”; e Chico Buarque interpretou “Roda viva”.

A influência desse evento foi tão grande que a edição do festival foi totalmente dominada por cantores tropicalistas. Outros pesquisadores consideram que o lançamento do álbum Tropicália ou Panis et Circensis, em 1968, foi o evento que inaugurou a tropicália enquanto movimento cultural. Esse álbum é entendido como uma espécie de manifesto musical dos integrantes do tropicalismo.

A origem do nome desse movimento cultural é atribuída a uma obra de Hélio Oiticica, Tropicália.

Contexto histórico do tropicalismo

O tropicalismo surgiu em um período histórico de grande agitação política e social, tanto no Brasil quanto no exterior. O Brasil vivia o cenário da Ditadura Militar, estabelecida em 1964. A censura e a repressão ganhavam força e os militares faziam um expurgo na sociedade brasileira, aprisionando ou assassinando os ditos “subversivos”.

A censura utilizada pela ditadura se voltou com grande força contra as artes, e artistas com mensagens políticas e contestatórias eram vítimas desse silenciamento. Até por isso, as canções dos artistas tropicalistas se utilizavam de alegorias, essa foi a forma encontrada para criticar a realidade política do Brasil e fugir da censura.

Além do autoritarismo do cenário político do Brasil, o mundo também passava por questões delicadas. A década de 1960 ficou marcada pelos movimentos de contracultura, que questionavam os valores daquela época, nos quais estão incluídos a sociedade de consumo, o capitalismo e a modernidade em geral.

A efervescência cultural e política resultou em movimentos significativos, como o Woodstock; o período de Maio de 1968; a cultura hippie; a Primavera de Praga, na Checoslováquia, entre outros. Esses movimentos, definidos como contracultura, tiveram forte impacto no cenário artístico brasileiro e o tropicalismo foi uma dessas manifestações culturais.

O autoritarismo, as tradições, o conservadorismo, a guerra, entre outros, passaram a ser criticados pelos movimentos de contracultura. O objetivo era a quebra de paradigmas e a construção de uma sociedade alternativa àquela realidade que estava dada.

Fim do movimento

Os historiadores consideram que o tropicalismo se encerrou em 1969 com o acirramento da repressão no Brasil por causa do Ato Institucional nº 05, decretado pelos militares no final de 1968. Esse foi o ato mais severo executado pelos militares na ditadura, aumentando consideravelmente a repressão política e a censura no Brasil.

Em 1969, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos pelos agentes da ditadura. Posteriormente eles foram exilados, encerrando o tropicalismo no Brasil. Muitos pesquisadores, no entanto, defendem que, após o exílio de Gilberto Gil e Caetano Veloso foi iniciado um período pós-tropicalismo.

Matéria:
Brasil Escola
Texto por: Daniel Neves Silva