Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Ike & Tina Turner

Ike & Tina Turner
' Outta Season '
(1969)

Esse é um álbum de blues que contém a música ao vivo icônica de Ike & Tina, "I've Been Loving You Too Long", que também foi lançada como single no mesmo ano. A canção "I'm A Motherless Child", escrita por Tina, foi regravada em 2013 para o terceiro álbum da série Beyond, Love Within. A música "Crazy 'Bout You" foi lançada como single apenas na Inglaterra.

O álbum foi lançado originalmente em 1969 com uma belíssima capa dupla e capas diferentes dependendo do país, e foi relançado em mídia física duplo em 2006, no formato The Hunter/Outta Season. Para promover o álbum, a gravadora Blue Thumb Records lançou um single promocional em vinil, acompanhado de um spot de rádio.

A capa e a contracapa originais do álbum mostram Ike e Tina comendo melancia com o rosto pintado de branco, numa sátira aos shows de menestréis com blackface. Como uma declaração irônica, os personagens Amos e Andy, que usavam blackface, são creditados no álbum pelo design e fotografia. A direção de arte foi de Tom Wilkes e a fotografia de Barry Feinstein. Com o rosto pintado de branco (whiteface) e comendo melancia, foi uma provocação irônica ao minstrel show (espetáculos racistas históricos onde pessoas brancas se pintavam de negro, conhecidos como blackface)

FICHA TÉCNICA:

Produtores: Bob Krasnow, Tina Turner.
Fotografia: Barry Feinstein.
Lançamento: Lp Março de 1969 / 2006 (Cd).
Gravadoras: Blue Thumb / Liberty, Minit / Blue Moon.
Paradas musicais: EUA: #41 (R&B), #91 (Pop).

SINGLES: 

- I've Been Loving You Too Long (1969 / '71).
- Crazy 'Bout You Baby (1969 / '72).

FAIXAS:

I. I’ve Been Loving You Too Long 3:55
Written by Otis Redding, J. Butler
II. Mean Old World 2:26
Written by Ike Turner
III. 3 O’Clock In The Morning Blues 2:41
Written by R. King, J. Taub
IV. Five Long Years 3:24
Written by E. Boyd
V. Dust My Broom 2:31
Written by E. James / Adapted by Ike Turner
VI. Grumbling (Instrumental) 2:39
Written by Ike Turner
VII. I Am A Motherless Child 3:30
Written by Tina Turner
VIII. Crazy 'Bout You Baby 3:24
Written by W. Williamson
IX. Reconsider Baby 2:44
Written by L. Fulsom
X. Honest I Do 2:25
Written by J. Reed, E.G. Abner
XI. Please Love Me 2:13
Written by R. King, J. Taub
XII. My Babe 2:02
Written by Willie Dixon
XIII. Rock Me Baby 2:46
Written by B.B. King, J. Josea


CuLtUrA Do AmOr: O resgate da figura do Pai


O resgate da figura do pai
A figura do pai amoroso, e não autoritário.

Cabe a ele ajudar que filhos e filhas amadureçam e se façam autônomos e livres.

Todo segundo domingo do mês de agosto celebra-se o Dia dos Pais. Constatamos, no entanto, que uma onda de crises que assolam a sociedade (pelo menos, a ocidental) não poupou a figura paterna. A justa crítica das feministas ao patriarcado e ao machismo e o estabelecimento científico da existência de uma era matriarcal, há 20 mil anos, caracterizada por uma profunda integração com a natureza e por uma intensa espiritualidade, ajudaram a pôr em xeque a pretensa primazia do homem e do pai. As reflexões das mulheres sobre sua própria identidade e a expressiva presença delas em todos os âmbitos da sociedade, junto com a crítica ao poderio patriarcal, aprofundaram a crise da representação do pai.

A complexa divisão do trabalho nas sociedades modernas dilacerou, em parte, os laços familiares, afetando especialmente a figura do pai. Este vai ao trabalho e, não raro, nem tempo tem para marcar presença junto à esposa e aos filhos e filhas. Por estas razões, alguns estudiosos falam do eclipse da figura do pai. Um autor alemão, A. Mitscherlich, escreveu um discutido livro: Rumo a Uma Sociedade Sem Pai (1963). Passa-se do pai ao grupo de amigos. A tradição psicanalítica de S. Freud, C. G. Jung e de outros deu centralidade à função do pai no desenvolvimento psicológico de filhos e filhas.

Diria que as mulheres, depois de tantos embates, definiram mais adequadamente sua identidade. Ao passo que os homens estão em busca de sua identidade num mundo tremendamente modificado e acelerado. Há uma saudade pela volta do pai amoroso e de sua função. Ela foi expressa há séculos na Odisseia, de Homero, quando Telêmaco, filho de Ulisses, diz: ”Se aquilo que os mortais mais desejam pudesse ser conseguido num abrir e fechar de olhos, a primeira coisa que eu quereria seria a volta do pai”. Estimo que há uma saudade da figura do pai não patriarcal, mas amoroso, e o que ele representa no desenvolvimento dos filhos.

Saudade da casa paterna

Por isso, mesmo com as mudanças havidas, é decisivo resgatar a figura do pai. Ele é imprescindível para um processo de individuação dos filhos e das filhas bem realizado. A ausência do pai pode produzir consequências graves.

Não sei qual é a situação em termos numéricos em nosso país. Tive acesso a estatísticas oficiais recentes dos EUA que referem os seguintes dados: 90% dos filhos fugidos de casa ou sem moradia fixa eram de famílias sem pai. Setenta por cento da criminalidade juvenil provinha de famílias onde o pai era ausente. Oitenta e cinco por cento dos jovens em prisões cresceram em famílias sem pai. Sessenta e três por cento de jovens suicidas tinham pais ausentes. Tais dados me reportam a um inspirador estudo de C. G. Jung, de 1949: A Importância do Pai no Destino do Indivíduo, e também ao de S. Freud, de 1924, A Dissolução do Complexo de Édipo.

Curiosamente, o cristianismo mostra a comovedora volta do pai na parábola do filho pródigo. Aqui invertem-se os papéis. O filho que saiu de casa e levou uma vida dissoluta sente saudade da casa paterna. Então, é o pai que volta ao filho saudoso, corre ao seu encontro, o enche de abraços e beijos e lhe prepara uma grande banquete, porque “este filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado”(Lucas 15,24). É a figura do pai amoroso, e não autoritário.

Para resgatar a figura do pai, se faz importante distinguir entre os modelos culturais de pai e a função permanente da figura do pai. Os modelos variam consoante os tempos e as culturas: o pai patriarcal, autoritário, amoroso, participante, companheiro e amigo. Uma é a figura do pai centralizador na cultura muçulmana, cercado de mulheres (poligamia); outra é a do pai na cultura ocidental monogâmica; e assim nas diferente espaços culturais.

A função do pai constitui estrutura permanente, imprescindível para o complexo processo de individuação da pessoa. Em todos os modelos, age esta estrutura permanente do pai, mas sem se exaurir em nenhum deles. A crise dos modelos libera esta estrutura sempre presente, chamada também do princípio paterno para novos modelos adequados ao nosso tempo.

Concentremo-nos nesta estrutura permanente do pai. A figura do pai é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/a e pela introdução do filho/a no mundo transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes, dos amigos da família, numa palavra, nos muitos da sociedade.

Nesse mundo dos muitos, vigem ordem, disciplina, autoridade e limites. Os pais têm que trabalhar, realizar projetos, prover a família e exercer sua profissão. Tudo isso exige coragem, mostrar segurança e disposição para os sacrifícios necessários.

Ganhos e perdas

Ora, o pai é a concretização destas atitudes. Ele é a ponte para o mundo transpessoal e social. Nessa travessia, a criança se orienta pelo pai-herói arquetípico, que tudo sabe, tudo pode e tudo faz. Se faltar essa referência, a criança pode se sentir insegura, perdida e sem iniciativa.

Pertence à figura do pai fazer compreender a diferença entre o mundo dos poucos, da família, e o mundo dos muitos, da sociedade. Não há só aconchego, especialmente junto à mãe, mas também o trabalho do pai. Não há só ternura, mas também conflitos sociais. Não apenas ganhos, mas também perdas.

Há programas de entretenimento da televisão que exacerbam o desejo, fazendo crer que só o céu é o limite. É a ilusão do desejo. Cabe ao pai mostrar que não é bem assim e que em tudo há limite. Todos somos incompletos e podemos nos frustrar. E até dar-se conta de que há a morte de parentes ou de amigos queridos.

Operar esta verdadeira pedagogia desconfortável mas vital é atender ao chamado da função permanente do pai. Sem ela o pai está prejudicando seu filho/filha, talvez de forma duradoura. Uma figura de pai bem realizada, constitui a base para a criança ter uma imagem boa de Deus-Pai de bondade.

A sociedade moderna – com as tevês, os celulares, os tablets e todo tipo de programas virtuais – faz concorrência com o pai e lhe dificulta cumprir sua função permanente.

Mas nunca faltam figuras concretas de pais que conhecemos, que se imunizaram da impregnação patriarcal, que enfrentam obstáculos e vivem dignamente, trabalham duro, cumprem seus deveres de pais, mostram responsabilidade e determinação. Participam das tarefas domésticas.

Desta forma, cumprem a função permanente da figura do pai, função indispensável para que seus filhos e filhas amadureçam o seu eu e, sem perplexidades e traumatismos, se façam autônomos e livres. Até serem pais e mães de si mesmos. É o que este Dia dos Pais nos faz refletir.

Matéria:
por - Leonardo Boff
@RevistaLiberta
15 ago 2026

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


quinta-feira, 20 de agosto de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Som Nosso De Cada Dia


Som Nosso de Cada Dia
' SNEGS - 1974 '

Nos anos 70, o rock and roll passava por uma metamorfose. Tempos de músicas longas, chamadas “suítes”, muitos sintetizadores, viagens, músicos cabelos, barbudos e muito experimentalismo. Era o rock progressivo.

No Brasil, o prog rock engatinhava. Ao desligarem Rita Lee, Os Mutantes direcionaram seu bem-humorado estilo para beberem na fonte de quem serviu-lhes de inspiração, como Yes, Emerson Lake And Palmer, King Crimson e Premiata Forneria Marconi. O Terço também entrou de cabeça no gênero e surgiram outros grupos, como o Vímana e A Barca do Sol. Mas talvez um dos mais emblemáticos da safra seja o Som Nosso de Cada Dia.


O grupo, que começara batizado Cabala em 1970, lançou quatro anos depois de seu surgimento um disco que é referência na história do rock brasileiro e do gênero progressivo, embora pouco conhecido no mainstream. Entre seus integrantes, o mitológico Manito, o virtuose dos instrumentos, oriundo d’Os Incríveis. Ele, Pedro Baldanza (Pedrinho) e Pedro Batera (Pedrão) fizeram misérias em Snegs.


Manito tocou simplesmente quase todos os instrumentos, exceto bateria e baixo. Os sintetizadores, teclados e pianos que pontuam quase todas faixas são dele, além dos violinos, saxes e flautas. O cara era demais! Mas Pedrinho também faz um ótimo trabalho compondo a cozinha rítmica e nos vocais do álbum.

Gravado em menos de uma semana, Snegs contém verdadeiras pérolas do progressivo nacional, como “Sinal da Paranoia”, “O Som Nosso de Cada Dia”, “Snegs de Biuffrais”, “Massavilha” (um show de Manito nos teclados, aliás), “A Outra Face”, “Direccion de Aquarius”, sem contar o rockão “Bicho do Mato”.


O som do grupo, que lançara seu disco pela Continental, chamou a atenção dos responsáveis por trazer Alice Cooper para uma turnê de shows no Brasil. E o Som Nosso foi convidado para fazer a abertura para o roqueiro estadunidense em cinco apresentações no Rio de Janeiro e São Paulo.

Tocaram para um público estimado em 140 mil pessoas no total e levaram a plateia à loucura. Quando Manito tocava os primeiros acordes de “Massavilha”, a massa roqueira ficava boquiaberta e alucinada com o que via e ouvia. Há quem diga que os shows do Som Nosso fizeram mais sucesso que os de Alice Cooper.

Nessa época, Manito deixou o Som Nosso e foi para Os Mutantes, ocupar o lugar de Arnaldo Baptista – por pouco tempo, diga-se. Ele voltaria ao Som Nosso como músico convidado e a banda teria ainda mais dois integrantes: Egídio Conde, guitarrista egresso do Moto Perpétuo (banda de Guilerme Arantes) e o tecladista Tuca. O grupo lança mais um álbum, Sábado/Domingo, em 1976, pela CBS, com pegada mais funk, onde se destacam as faixas “Pra Swingar” e “Levante a Cabeça!”. Mas a carreira do Som Nosso acabaria ao fim daquele mesmo ao.

Ficha técnica:
Selo: Continental/Phonodisc
Produção: Peninha Schmidt
Gravado em 1973
Tempo: 44’25

Músicas:
1. Sinal da Paranoia (Cimara-Pedro Baldanza)
2. Bicho do Mato (Gastão Lamounier)
3. O Som Nosso de Cada Dia (Paulinho-Pedro Baldanza)
4. Snegs de Biuffrais (Paulinho-Pedrão-Pedro Baldanza)
5. Massavilha (Paulinho-Pedro Baldanza)
6. Direccion de Aquarius (Paulinho-Pedro Baldanza)
7. A Outra Face (Paulinho-Pedro Baldanza)
8. O Guarani (Carlos Gomes) *


Provocação Histórica: Cuba, a luta pela soberania.


CUBA, A LUTA PELA SOBERANIA 
- RAFAEL DOMINGOS - 

PROVOCAÇÃO HISTÓRICA

Rafael Domingos Oliveira, doutorando em História pela Universidade de Federal de São Paulo, com período sanduíche na Universidad de La Habana (Cuba). 

Autor, entre outros, do livro “Vozes afro-atlânticas: autobiografias e memórias da escravidão e da liberdade” (Elefante, de 2022).


Livros para conhecer o Brasil: Macunaíma


Macunaíma (Brasil, 1928)
Autor: Mário de Andrade.

Macunaíma: uma sátira extremamente dura e trágica sobre o povo brasileiro.

Obra-prima do Modernismo brasileiro, Macunaíma foi escrito por Mário de Andrade em 1928 e ainda hoje é um livro fundamental para compreendermos nossa diversidade cultural. Nasceu a partir de uma vasta pesquisa linguística do autor e reflete, por meio da mistura de lendas, mitos e histórias populares, a busca de uma identidade nacional afastada pela colonização. "Brasileiros, chegou a hora de realizar o Brasil". dizia o criador do anti - herói nascido na selva amazônica e transformado em um dos personagens mais estudados de todos os tempos no país.

Macunaíma - O Herói sem nenhum caráter

Macunaíma narra as aventuras fantásticas de um anti-herói: é preguiçoso, malandro, covarde, não tem moral, muito menos piedade. Vive numa tribo da selva amazônica, onde ganha um amuleto da sorte que acaba caindo nas mãos do gigante Piaimã, comedor de gente. Para recuperar a pedra mágica, ele viaja a São Paulo e se vê diante do caos urbano. A narrativa não se prende ao espaço ou tempo e valoriza mitos, lendas e outros elementos da cultura popular. Em uma carta datada de 26 de abril de 1935, o próprio autor explica: “Um poema herói-cômico, caçoando do ser psicológico brasileiro, fixado na figura de lenda, à maneira mística dos poemas nacionais. Ausência de regionalismo pela fusão das características regionais. Um Brasil só e um herói só.”

Como nasceu Macunaíma?

No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Crítica:
O brasileiro é um dos povos mais mistos do planeta. Por isso, constantemente se encontra nas bifurcações de suas próprias contradições. Todo esse perfil multicultural que ergue a nossa nacionalidade já foi levado para reflexão no bojo das artes. São músicas, pinturas, obras literárias e filmes. Macunaíma, personagem desenvolvido por Mário de Andrade é um dos mais importantes, haja vista a riqueza de detalhes estéticos e a proeza crítica proposta pelo romance considerado o “mais importante do modernismo brasileiro”.

Nos eventos acadêmicos e nas discussões mais específicas da crítica literária brasileira, as ideias acerca do movimento modernista estão em transformação, provavelmente em mudança de paradigmas e reorganização do cânone, mas enquanto dados mais delineados não chegam ao conhecimento geral da sociedade, podemos afirmar que Macunaíma é a representação cabal das propostas do Manifesto Antropofágico, publicado em 1928, por Oswald de Andrade, na Revista de Antropofagia, um dos veículos de circulação das profícuas ideias da época.

Em parceria com Raul Bopp e Antônio Alcântara de Machado, a publicação trazia textos repletos de questionamentos e críticas aos movimentos da sociedade, ao passado histórico do Brasil e aos representantes políticos. O manifesto que baseia o romance em questão traçou reflexões sobre a necessidade de produzir-se uma literatura “essencialmente” brasileira, pois nas palavras em prosa poética de Oswald de Andrade, “só a antropofagia nos une”, isto é, era preciso deglutir o legado cultural dos europeus e ao digeri-lo, entregar um modelo de arte tipicamente brasileiro. Diante destes documentos e do efervescente período histórico, Mário de Andrade muniu-se para devorar as qualidades de outras culturas, tendo em mira transformar essa mixagem em algo nacional.

Foi desta maneira que em 1928, depois de muita pesquisa, o autor publicou a primeira edição do romance, com capa ilustrada por uma famosa pintura de Di Cavalcanti. Com o multiculturalismo como destaque central, Macunaíma é uma análise apurada das especificidades do povo brasileiro, constantemente em busca de reafirmação de sua identidade. Mesmo após décadas do seu lançamento, a obra de Mário de Andrade continua relevante para discussões do nosso cenário político e social, pois os ecos de um passado tenebroso e esquecível parece se anunciar o seu retorno. Preguiçoso, Macunaíma é o personagem título conhecido por “não ter nenhum caráter”. Anti-herói, o “malandro” vive às margens do mítico rio Uraricoera, juntamente com a sua mãe e dos dois irmãos, Maanape e Jiguê.

Após o falecimento da mãe, ele e os irmãos partem em busca de aventuras. Neste percurso repleto de idas e vindas ao seu ponto de partida, Macunaíma se torna Imperador da Mata Virgem, engravida a mítica Ci, envolve-se em confusões na busca pelo muiraquitã, uma pedra “mágica”, enfrenta o comedor de gente e além de deparar-se como o caos urbano em São Paulo, precisa enfrentar um vilão inescrupuloso, todos estes destaques, metáforas para questões sociais do Brasil.

Com uma narrativa que trata o tempo e o espaço de maneira arbitrária, Macunaíma mescla mitos, narrativas orais e tradições, numa projeção mais crítica da relação entre Literatura, História e Sociedade, algo já esboçado na busca pelo nacionalismo no século XIX. Como produção central do período modernista, o romance reflete sobre a mistura entre as culturas primitivas na vida cotidiana, reforçando as reminiscências de um passado ainda muito recente.

Na época de sua publicação, a aristocracia rural paulistana atravessava uma crise econômica sem precedentes, pois perdia o prestígio ao passo que a expansão da urbanização e as demandas da industrialização cresciam vertiginosamente. Esse momento está embutido de maneira irônica em Macunaíma, negro-índio preguiçoso, fora da lei e distanciado das evoluções tecnológicas e do sistema racional da vida em sociedade. Macunaíma representa o primitivismo em contato com as inovações, com as “atualidades”, num relacionamento que se configura entre aproximar-se e repelir-se.

Como professor de Literatura Brasileira, preocupado com a interação entre os leitores em formação e a obra que ás vezes pode soar hermética, indico a necessidade de acompanha-la com uma edição que tenha notas de rodapé. É algo fundamental, pois em muitos casos, o potencial criativo de Mário de Andrade é minado pelo distanciamento entre a língua portuguesa do leitor contemporâneo e as manifestações de outras culturas não normatizadas em nossa gramática cotidiana. Guiar-se diante da complexidade morfológica e lexical do romance é um requisito mínimo para penetração neste rico ambiente de representações culturais. Como aponta a prefaciadora Noemi Jaffe, Macunaíma “é um livro para entender as contradições de um país que não prospeta e não crê em seu potencial”.

Crítica ao modelo europeu de cultura e exaltação de particularidades do povo brasileiro, a obra de Mário de Andrade é relevante para o atual cenário político do nosso país, era (treva) em que a postura cidadã das pessoas está mais adormecida que Polifemo, da epopeia de Homero. É bem capaz que muitos brasileiros, ao serem entrevistados sobre suas concepções enquanto povo, origem e identidade respondessem o mesmo que o astuto Odisseu nos entraves da Odisseia: “meu nome é ninguém”. Salvas as devidas proporções comparativas, o que se delineia aqui é a constante comprovação do desconhecimento das pessoas no que tange às suas raízes, bem como a desvalorização contínua enquanto uma “comunidade imaginada”.

Transformada em quadrinhos por Rodrigo Rosa, em 2008, Macunaíma é uma obra que já passeou por vários meios artísticos. A cantora Lara Rennó, no mesmo ano do lançamento da HQ, produziu e divulgou o álbum Macunaíma Ópera Tupi, numa demonstração da relevância da trajetória do malandro para o entendimento de nossas questões sociais mais profundas. 

O cineasta Joaquim Pedro de Andrade foi um caso de sucesso no que diz respeito às traduções intersemióticas do livro. Em 1969, o filme homônimo foi lançado e tornou-se um dos símbolos da coesão das propostas do Cinema Novo brasileiro. Colorido e bastante vivo, uniu elementos eruditos e populares sem perder uma fatia sequer do rigor crítico.

@PlanoCrítico
por - Leonardo Campos
5 de fevereiro de 2018

Sobre o autor:
Mario de Andrade foi um proeminente escritor, poeta, musicólogo e crítico cultural brasileiro do movimento modernista do século XX. Nasceu em 1893 e faleceu em 1945. Ele é conhecido por suas obras que exploram temas como folclore brasileiro, cultura indígena e diversidade social. Seu romance mais famoso é "Macunaíma" (1928), que narra as aventuras de um herói mítico pela selva brasileira. Além de escritor, de Andrade contribuiu significativamente para a musicologia e etnomusicologia, estudando e preservando a música folclórica brasileira. Ele também foi um crítico cultural, promovendo o reconhecimento e celebração da diversidade cultural do Brasil. Sua influência perdura na literatura brasileira e nos estudos culturais até os dias atuais.