Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Jaco Pastorius



A vida de
Jaco Pastorius

O homem que revolucionou a forma de tocar baixo e que é, para muitos, o melhor e mais influente baixista de todos os tempos, não começou sua vida musical com o instrumento. Na verdade, o homem que se tornaria o mestre do baixo elétrico sem trastes era um baterista.
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O início e as influências musicais.

Baterista, assim como seu pai, Jack Pastorius, músico de big band e cantor. Jaco foi o primeiro dos três filhos de Jack e sua esposa, Stephanie. Ele nasceu em 1º de dezembro de 1951 em Norristown, Pensilvânia, perto da Filadélfia. John Francis Anthony Pastorius III logo ganhou um apelido de seus pais — “Jocko”, que se transformou em “Jaco” no início da década de 1970, quando um amigo e vizinho músico francês, Alex Darqui, escreveu seu nome dessa forma por engano. Jaco gostou da grafia alternativa e a manteve.

Quando Jaco tinha quase oito anos, sua família se mudou para Oakland Park, na Flórida, perto de Fort Lauderdale. Jaco era um garoto doce e competitivo, que adorava brincar, inclusive de futebol americano. Como filho de músico, ele também se interessava por música e comprou uma pequena bateria com o dinheiro que ganhava entregando jornais. Seus dois interesses se chocaram em 1964, durante um treino de futebol americano juvenil, no qual Jaco sofreu uma grave lesão no pulso, a ponto de precisar de cirurgia corretiva. Jaco continuou a tocar bateria depois disso, mas era muito mais difícil do que antes da lesão no treino.

Apesar de tudo, ele conseguiu trabalhos como baterista e, em 1966, ainda no ensino médio, entrou para a banda de covers de soul Las Olas Brass. Quando um baterista mais experiente se apresentou para a banda, algo fatídico aconteceu: o baixista da banda decidiu sair ao mesmo tempo. Embora não fosse baixista, Jaco assumiu a vaga. Ele usou o dinheiro que ganhava como entregador de jornais para fazer outra compra musical. Dessa vez, comprou um novo baixo Fender Jazz.

Foi durante essa época que começaram a surgir indícios das futuras habilidades de Jaco. Ele não sabia ler partituras, mas em 1968 pegou emprestado o gravador de rolo do amigo Bob Bobbing e criou sua versão de "The Chicken", de Pee-Wee Ellis. Jaco tocou todos os instrumentos na gravação, que enviou para Alice Coltrane, viúva de John Coltrane e também uma musicista talentosa. Ela retribuiu o favor com uma carta encorajadora. Anos depois, "The Chicken" se tornou um dos clássicos dos shows de Jaco. Com seu interesse por jazz, Jaco também adquiriu um contrabaixo. Mas não era fácil de manter e ele acabou trocando por um baixo elétrico. Mais tarde, ele ficaria conhecido por conseguir um timbre semelhante ao de um contrabaixo acústico em seu baixo elétrico sem trastes (fretless).

Outra coisa aconteceu durante esse período de sua vida. Ele conheceu uma garota chamada Tracy Lee, que estava destinada a se tornar sua primeira esposa.

Após o Las Olas Brass, Jaco passou a tocar em um trio de R&B chamado Woodchuck. Seu talento como baixista evoluiu enquanto ele estava no trio. Seu irmão mais novo, Rory, relembra uma conversa com Jaco, que estava perto de completar 18 anos, detalhada no livro de Bill Milkowski, Jaco: A Vida Extraordinária e Trágica de Jaco Pastorius. “Ele olhou nos meus olhos e disse, muito sério: 'Rory, cara, eu sou o melhor baixista do mundo'. Eu olhei para ele e disse: 'Eu sei'”.

Embora Jaco fosse confiante, ele também sabia ser humilde. Em sua carreira posterior, ele costumava dizer: "Estou fazendo uma imitação muito ruim de Jerry Jemmott no baixo...".

Durante seus dias com os Woodchucks, Jaco também cresceu de outra forma. Ele se tornou marido e pai. Ele e Tracy se casaram em agosto de 1970, e sua filha Mary nasceu em dezembro daquele ano, oito dias após o aniversário de 19 anos do pai. Ele conseguiu um trabalho temporário em um navio de cruzeiro, e sua jovem família viajou com ele pelo Caribe. Logo, outro grupo o convidou para tocar — uma banda de soul chamada Tommy Strand & the Upper Hand. Seu talento melhorou ainda mais com o grupo, mas ele realmente alcançou um novo patamar com a próxima banda da qual fez parte: Wayne Cochran and the CC Riders.


A educação musical e um crescimento técnico vertiginoso.

Ele passou apenas cinco meses no grupo de R&B liderado pelo cantor de soul branco Cochran e, assim como fizera no navio de cruzeiro, deu um jeito de Tracy e sua filha, Mary, viajarem com ele às vezes. O casal não se comportava de maneira extravagante no ônibus da turnê. Jaco não bebia nem usava drogas e, em vez disso, praticamente vivia com seu baixo nas mãos. Ele aprendeu a ler partituras durante sua passagem pelo grupo em 1972. O membro da banda Charlie Brent também deu a Jaco um curso intensivo e influente de arranjos. Brent se lembra de Jaco aparecendo com uma partitura para a banda, apenas três dias depois de terem tido uma longa conversa sobre arranjos. Era magnífico, disse Brent. "Ele era um talento bruto se desenvolvendo diante de nossos olhos". O show de longa duração de Cochran era intenso e dizem que inspirou John Belushi e Dan Aykroyd a criarem os icônicos bluesmen cômicos, Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers).

À medida que se desenvolvia como músico, Jaco experimentou criar baixos sem trastes. No início da década de 1970, ele adquiriu um Fender Jazz Bass de 1962, que Jaco ou já possuía sem trastes ou removeu os trastes com uma faca de manteiga (suas lembranças variavam ao longo dos anos). Jaco preencheu as áreas onde os trastes estavam com madeira plástica e revestiu a antiga escala com epóxi. Este baixo, que foi o principal instrumento sem trastes com o qual ele gravou, recebeu o apelido de Jaco de "Baixo da Perdição".

Após o término de sua passagem por Cochran, ele retornou à Flórida. Lá, tocou com a Orquestra de Peter Graves, conectou-se com o saxofonista e trompetista Ira Sullivan e conheceu e tocou pela primeira vez com o futuro grande guitarrista de jazz Pat Metheny. Jaco começou a tocar em um grupo de jazz com Sullivan, e o som do quarteto — jazz, mas com influências de funk e R&B — começou a atrair jovens fãs. Também proporcionou um espaço para as composições de Jaco, várias das quais, como “Continuum”, apareceram em seu primeiro álbum solo.

Em 1973, Jaco e Tracy aumentaram a família com mais um filho — John Francis Pastorius IV — e, naquele inverno, Jaco fez contato com o pianista de jazz Paul Bley. No ano seguinte, Jaco entrou em estúdio e gravou uma demo com músicas que apareceriam em seu álbum solo homônimo.

Em 1974, Jaco, Metheny, Bley e o baterista Bruce Ditmas criaram um álbum conjunto chamado Jaco. Durante uma visita à famosa Berklee College of Music, em Boston, Jaco mostrou aos alunos como conseguia seu som característico de contrabaixo acústico em uma guitarra elétrica. 

Ele chegou a dar aulas de baixo como professor adjunto no departamento de jazz da Universidade de Miami, então chefiado por Bill Lee, pai de outro baixista que se tornaria famoso: Will Lee, mais conhecido pelo público em geral por seu trabalho na banda do apresentador de talk show David Letterman.

Mas Jaco não gostava de dar aulas, e algo estava prestes a acontecer que mudaria sua vida. Bobby Colomby, baterista e líder do Blood, Sweat & Tears, estava em Fort Lauderdale para um show quando viu Tracy Pastorius na praia. Ele a achou bonita e começaram a conversar. Ela lhe disse que seu marido “é o melhor baixista do mundo”. Colomby também estava procurando artistas para a divisão de jazz da Epic Records. Ele decidiu ver Jaco tocar. Depois de vê-lo em ação, rapidamente ofereceu a Jaco um contrato de gravação. Jaco assinou em setembro de 1975 e, um mês depois, estava gravando Jaco Pastorius.

1976: O ano decisivo de Jaco.

O álbum mostrou Jaco em uma ampla gama de estilos, do jazz latino ao R&B e ao funk. A lendária dupla de R&B Sam & Dave cuidou dos vocais em "Come On, Come Over". Herbie Hancock participou de todas as faixas do álbum. A composição "Portrait of Tracy" apresentou Jaco tocando solo e fazendo um uso extraordinário de harmônicos. Enquanto o álbum estava sendo gravado, Jaco fez uma incursão no mundo do rock após conhecer o músico britânico Ian Hunter, do Mott the Hoople, e contribuiu com as linhas de baixo para o álbum solo de Hunter, All-American Alien Boy, que, assim como a estreia solo de Jaco, foi lançado em 1976. No ano do bicentenário dos Estados Unidos, Jaco também participou do álbum Bright Size Life, de Metheny, gravado no final de 1975.

Nos agitados anos de 1974 e 1975, Jaco também se comunicou com Joe Zawinul, líder da banda de jazz fusion Weather Report. Ao conhecer Zawinul após um show do Weather Report em 1974, Jaco se apresentou dizendo ser "o melhor baixista do mundo". Zawinul não se deixou abalar naquela ocasião, mas depois de receber uma mixagem preliminar do álbum solo de Jaco, decidiu convidá-lo para tocar quando o Weather Report precisou de um baixista no final de 1975. Jaco se juntou ao grupo e estava destinado a adicionar outro lançamento significativo ao seu ano de 1976, um divisor de águas — ele tocou em duas faixas do álbum Black Market do Weather Report: "Cannonball" e sua própria "Barbary Coast".

Ele permaneceu no Weather Report até 1981, demonstrando tanto um incrível talento musical quanto uma presença de palco excepcional. Também foi um renomado músico de estúdio, com participações notáveis ​​em Hejira (1976), de Joni Mitchell, e em Reckless Daughter (1977), de Don Juan. Na biografia de Joni Mitchell escrita por Mark Bego, a lendária cantora e compositora comenta sobre sua conexão musical com Jaco: “De certa forma, sinto que sonhei com Jaco. Quero dizer, ele era exatamente o que eu esperava, sonoramente...”.

Previsão do tempo: Céu claro e tempestades iminentes.

Com o Weather Report, Jaco expandiu seus horizontes musicais. Ele foi creditado como co-produtor do álbum "Heavy Weather" de 1977, mais conhecido pelas músicas "Birdland" e "Teen Town", composta por Jaco. O álbum fez um enorme sucesso e se tornou um disco de ouro no ano de seu lançamento. Infelizmente, nessa época, a abstinência de álcool e drogas por Jaco chegou ao fim. Ele começou a beber e a usar cocaína. Em 1978, o Weather Report lançou "Mr. Gone", que não recebeu o mesmo reconhecimento que "Heavy Weather". No entanto, a reputação de Jaco como baixista era impecável — os leitores e críticos da revista Down Beat o elegeram o melhor baixista elétrico daquele ano.

O casamento de Jaco e Tracy também chegou ao fim nesse período, com o divórcio sendo finalizado no início de 1979. Jaco começou a apresentar um comportamento errático, evidenciado por uma apresentação extremamente ruim no show Havana Jam, em Havana, Cuba, em fevereiro de 1979, como parte do "Trio of Doom": o guitarrista John McLaughlin, Jaco e o baterista Tony Williams. O ano também incluiu o lançamento do álbum ao vivo do Weather Report, 8:30, que mostrou a habilidade de Jaco em um contexto de show. O ano também marcou um novo começo para Jaco. Ele se casou com sua namorada, Ingrid Horn-Müller, em julho, antes de sair em turnê com Joni Mitchell, cuja banda de apoio também incluía Metheny. Enquanto estava em Berlim naquele outono com o Weather Report, ele fez um lendário show solo de baixo em um dia de folga. Ele estava no auge no mundo dos baixistas.

Em 1980, o Weather Report lançou Night Passage, que incluía a balada clássica de Jaco, "Three Views of a Secret". Ele também assinou um novo contrato solo, desta vez com a Warner Brothers Records, e começou a gravar seu segundo álbum solo em agosto. O comportamento errático de Jaco no palco, no entanto, prejudicou uma apresentação com o Weather Report no Japão em 1981. Nesse ano, Jaco fez suas últimas gravações com o Weather Report, para o álbum Weather Report . Seu segundo álbum solo, Word of Mouth, também foi lançado naquele ano. Nesse período, o pai psiquiatra do baterista do Weather Report, Peter Erskine, também sugeriu que Jaco poderia sofrer de transtorno bipolar.

No início de 1982, Jaco estreou sua big band, Word of Mouth, e em 9 de junho, nasceram seus gêmeos com Ingrid, Julius Josef e Felix Xavier. Infelizmente, ele e Ingrid começaram a se distanciar, e Jaco passou a frequentar mais Nova York, em vez do mundo da Flórida que conhecia melhor. A versão nova-iorquina de Jaco era diferente. Seu consumo de álcool e drogas continuou desenfreado. Seu comportamento no palco tornou-se descontrolado. Durante uma turnê pelo Japão, ele jogou seu baixo na Baía de Hiroshima.

Embora Jaco afirmasse estar bem, foi internado no Hospital Psiquiátrico Coral Ridge em Fort Lauderdale em setembro daquele ano para uma semana de observação. Ele saiu em turnê pouco depois de receber alta, e seu comportamento agressivo em um show na Itália deixou a plateia hostil, com o evento degenerando em um tumulto no meio da apresentação.

Jaco pretendia que o álbum Holiday for Pans fosse o sucessor de Word of Mouth em 1983. As demos do álbum apresentavam música de steel pan e não contavam com o baixo de Jaco. A Warner Bros. recusou-se a lançar o disco e o dispensou do catálogo da gravadora. Em vez de Holiday for Pans, lançaram o álbum ao vivo Invitation. Jaco, apresentando-se com a banda Word of Mouth, teve uma performance confusa no Playboy Jazz Festival de 1984, no Hollywood Bowl. 

Dependendo da noite, ele podia apresentar uma performance inspirada ou uma desorganizada, como demonstrado em seus shows com a big band Word of Mouth ou com outros artistas. Suas oscilações de humor eram comuns para quem o conhecia. No ano seguinte, ele e Ingrid se divorciaram.

A perda do "baixo da perdição" e o declínio mental.

Nessa era conturbada, o "Baixo da Perdição" de Jaco foi praticamente destruído. Jaco o enviou para Kevin Kaufman e o luthier Jim Hamilton em 1986 para restauração. Pouco depois de ser devolvido a ele, novamente em perfeito funcionamento, foi roubado em Greenwich Village. Jaco, que frequentemente deixava o baixo sem vigilância enquanto jogava basquete ou dormia em um parque de Nova York, nunca mais o viu. O baixo só foi recuperado em 2007. Agora pertence ao baixista do Metallica, Rob Trujillo. O filho de Jaco, Felix, também baixista, teve a oportunidade de tocá-lo em algumas faixas do álbum "A Rise in the Road" do Yellowjackets. "Foi um pouco difícil superar isso, emocionalmente e por tudo o que estava envolvido", disse Pastorius em entrevista a Wayne Lockwood, do The New York Daily News. 

Trujillo disse à família que eles podem comprar o baixo pelo mesmo preço não divulgado que ele pagou por ele. Enquanto isso, Trujillo, que também produziu um documentário sobre Jaco, está mantendo o baixo em segurança, trancado a sete chaves, em um cofre no norte da Califórnia.

Meados da década de 1980 foram difíceis para Jaco e para aqueles que o amavam. Ele foi despejado de seu apartamento em Nova York e ficou na casa de amigos o máximo que pôde. Após uma visita tumultuada à casa de seu pai na Pensilvânia, Jaco internou-se brevemente em uma clínica psiquiátrica. O baixista não gostou dos efeitos do lítio que lhe foi prescrito como tratamento. Jaco retornou a Nova York e continuou a tocar, mas, devido à sua reputação de performances que podiam ser inspiradoras em uma noite e desanimadoras na seguinte, era difícil encontrar trabalho. Os amigos ficaram tristes com seu declínio acentuado. Em julho de 1986, Jaco foi aconselhado a se internar na ala psiquiátrica do Hospital Bellevue. O diagnóstico: Jaco era bipolar (maníaco-depressivo). Ele permaneceu em Bellevue por oito semanas e foi liberado sob a custódia de um amigo músico, que o levou de volta para a região de São Francisco, onde os dois trabalharam em um disco.

Nessa época, o relacionamento de Jaco com sua namorada, Teresa, tornou-se mais instável e Jaco começou a beber mais. Teresa voltou para Nova York depois de visitar São Francisco e Jaco logo a seguiu. Jaco tocou em Nova York e fez uma turnê pela Europa com um guitarrista/baixista.

1987: O último ano de Jaco.

Jaco começou o ano voltando para Fort Lauderdale com sua namorada, Teresa. Embora tentasse recuperar a estabilidade, os antigos demônios da doença mental ressurgiram, levando a muitas performances estranhas e até mesmo breves períodos na prisão. Tudo culminou tragicamente na madrugada de 12 de setembro de 1987, quando Jaco foi a um bar chamado Midnight Bottle Club, onde foi expulso por seu comportamento. Ao tentar arrombar a porta, o gerente do clube, faixa preta de terceiro grau em caratê, o agrediu diversas vezes. Jaco sofreu uma fratura craniana e ele sofreu uma hemorragia interna maciça. Jaco nunca mais saiu do hospital. Em 19 de setembro, ele teve uma hemorragia cerebral e precisou ser intubado. Sua família decidiu desligar os aparelhos que o mantinham vivo em 21 de setembro e ele faleceu pouco mais de três horas depois, com Tracy segurando sua mão. Jaco Pastorius tinha 35 anos. Seu agressor se declarou culpado de homicídio culposo e acabou cumprindo apenas quatro meses de prisão. O Parque Jaco Pastorius foi inaugurado em 2008 em Oakland Park. Embora seu legado permaneça vivo ali, ele se faz ainda mais presente nas legiões de baixistas inspirados a tocar o instrumento de uma nova maneira — ou a tocá-lo de qualquer forma — depois de ouvirem o trabalho que Jaco criou durante sua prolífica, porém curta carreira.

O Filme: JACO (2015).

Produzido por Robert Trujillo, do Metallica, em associação com a Passion Pictures, JACO inclui depoimentos incríveis de diversos artistas, como Flea, Joni Mitchell, Sting, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Geddy Lee, Bootsy Collins, Carlos Santana e outros, além de familiares e amigos de Jaco. O documentário revela a história de sua música, sua vida, sua morte e, em última análise, a fragilidade de um grande gênio artístico.

São poucos os músicos que mudam fundamentalmente o seu instrumento, e ainda menos os que o transcendem por completo. Jaco Pastorius fez ambas as coisas.

Em 1976, o estilo melódico e "cantante" do baixo de Jaco redefiniu o papel do instrumento na música moderna. Quase da noite para o dia, os críticos aclamaram Jaco Pastorius como "o futuro da música moderna", ao lado de visionários populares como David Bowie, Tom Waits, Patti Smith, Bryan Ferry, Lou Reed e Herbie Hancock.

Movido apenas pelo desejo de criar a música que queria ouvir, Jaco se transformou de um garoto pobre, desconhecido e batalhador da Flórida em uma sensação internacional — tudo isso sem qualquer formação musical formal. Em vez de seguir a música popular, Jaco conduziu seus fãs em direção à música que existia dentro dele. Saltando desafiadoramente dos amplificadores, erguendo seu baixo no ar e recusando-se a ser apenas um "músico de apoio", Jaco derrubou as barreiras entre o público e os gêneros musicais.

"Se não fosse por Jaco, estaríamos todos fazendo (bam, bam, bam...), nas cordas do baixo" 


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domingo, 13 de setembro de 2026

Greg Howe


GREG HOWE
' virtuosismo, groove e musicalidade '

Gregory Howe é um respeitado guitarrista, compositor e produtor musical, nascido em 8 de dezembro de 1963, em Nova York, conhecido por revolucionar a guitarra instrumental com sua mistura única de rock, jazz e fusion.
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Inovação e virtuosismo na medida certa

O lendário guitarrista Greg Howe construiu uma sólida reputação como inovador técnico, particularmente por sua técnica de "hammer-on from nowhere", passagens em legato, compassos incomuns e abordagem linear de tapping. Seu álbum de estreia homônimo, "Greg Howe", foi classificado como o décimo melhor álbum de shred de todos os tempos pela revista Guitar World.

Além de fazer parte da banda Protocol IV, indicada ao GRAMMY® em 2018 e composta por Simon Phillips, Ernest Tibbs e Otmaro Ruiz, Howe produziu, compôs e arranjou dez álbuns solo instrumentais de estúdio, além de dois álbuns em colaboração com Richie Kotzen, do Winery Dogs. Howe também contribuiu para uma longa lista de álbuns/discos de outros artistas lendários, como Dennis Chambers, Victor Wooten, Jason Becker, Billy Sheehan, Marco Minneman e Eddie Jobson.


Ele também se destacou como um músico de apoio e de estúdio excepcional, trabalhando com artistas como Michael Jackson, Justin Timberlake, Christina Aguilera, Rihanna, Enrique Iglesias e muitos outros. 
Suas aparições na TV incluem o Grammy, o American Music Awards, o The Tonight Show, o The Today Show, o Billboard Awards e o Teen Choice Awards, para citar apenas alguns. O lançamento mais recente de Howe, “Wheelhouse”, foi eleito o 6º melhor álbum de guitarra da década pela revista Guitar World.


Sua trajetória em capítulos

Capítulo Um: O Inovador.

O lendário guitarrista Greg Howe construiu uma sólida reputação como inovador técnico, particularmente por sua técnica de "hammer-on from nowhere", passagens em legato, compassos incomuns e abordagem linear de tapping.

Seu álbum de estreia homônimo, "Greg Howe", foi classificado como o décimo melhor álbum de shred de todos os tempos pela revista Guitar World — um disco histórico que lançou uma das carreiras mais distintas da guitarra.

Capítulo Dois: Colaborações e legado.

Além de fazer parte da banda 'Protocol IV', indicada ao GRAMMY® de 2018 e composta por Simon Phillips, Ernest Tibbs e Otmaro Ruiz, Howe produziu e fez os arranjos de dez álbuns solo instrumentais de estúdio.

Ele contribuiu para álbuns de Dennis Chambers, Victor Wooten, Jason Becker, Billy Sheehan, Marco Minneman, Eddie Jobson e dois aclamados álbuns de colaboração com Richie Kotzen, da banda Winery Dogs.

Capítulo Três: Os Anos de sessão.

Ele se destacou como um músico de apoio e de estúdio excepcional, trabalhando com artistas como Michael Jackson, Justin Timberlake, Christina Aguilera, Rihanna e Enrique Iglesias.

Suas aparições na TV incluem o Grammy, o American Music Awards, o The Tonight Show, o The Today Show, o Billboard Awards e o Teen Choice Awards, para citar apenas alguns.

Capítulo Quatro: Reconhecimento no mundo da guitarra.

O último lançamento de Howe, “Wheelhouse”, foi eleito o 6º melhor álbum de guitarra da década pela revista Guitar World — uma prova de sua influência duradoura na guitarra moderna.

Seu álbum de estreia homônimo, "Greg Howe", também está classificado entre os dez melhores álbuns de shred de todos os tempos pela revista Guitar World, consolidando seu legado através das gerações.

Capítulo Cinco: Endossos e legado.

Greg Howe é patrocinado pela Victory Amps, DV Mark Amps, Kiesel Guitars, D'Addario Strings e Carl Martin Pedals — os equipamentos por trás de seu timbre característico.



DISCOGRAFIA

# Greg Howe - (1988) 
# Introspection - (1993) 
# Uncertain Terms - (1994)
# Parallax - (1995)
# Five - (1996)
# Ascend - (1999)
# Hyperacuity - (2000)
# Collection: The Shrapnel Years - (2006)
# Sound Proof - (2008)
# Wheelhouse - (2017)

Tendências musicais podem ir e vir, mas Greg Howe sempre soube onde atacar. Esse guitarrista já veterano certamente nunca decepciona com suas apresentações de tirar o fôlego, consolidando-se como um dos melhores guitarristas de Rock/Fusion do mundo.

Prepare-se para balançar a cabeça !!
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sábado, 12 de setembro de 2026

DarWin


DarWin
' Supergrupo de Jazz-Fusion e Rock Progressivo '

A busca por um mundo melhor...

A banda é um projeto conceitual de rock progressivo, iniciado após uma sessão criativa em 2015 pelo multi-instrumentista e compositor islandês DarWin e pelo baterista e produtor musical britânico Simon Phillips. O protagonista mais ou menos desconhecido por trás do pseudônimo "DarWin" prefere o anonimato à fama e consistentemente deixa o foco da atenção para seus ouvintes e fãs.

Com o tempo, um núcleo de músicos se consolidou com a adição de Matt Bissonette (vocal principal e baixo), a baixista Mohini Dey e o guitarrista Greg Howe. Ainda assim, a banda expande regularmente sua formação com músicos renomados da cena para colaborações intensas. O resultado, que desafia gêneros, é uma mistura melódica e envolvente de rock progressivo, jazz-fusion, jazz-rock e elementos de metal. Essa formação justifica seu status de supergrupo. 

Os integrantes dispensam apresentações, todos são músicos virtuosos e protagonistas de carreiras incríveis ou participaram de bandas e projetos que entrelaçam estilos variados pela história da música. Talvez Mohini seja a menos experiente, mas não menos incrível. Sua habilidade e técnica de tocar baixo é surreal, leva o instrumento para outra esfera, sensacional.

A realização musical e o desenvolvimento das ideias do grupo de participantes são conduzidos por Phillips e DarWin, e integrados à produção atual com igual atenção ao ritmo, à energia, à melodia, à harmonia e ao som. Juntamente com Matt Bissonette, eles formam um trio de compositores e produtores cuja intenção é combinar as diversas influências e criar um produto harmonioso que soe novo e original, mas também familiar. O virtuosismo e a qualidade individual dos músicos permitem que eles transcendam as fronteiras convencionais, sem deixar de lado seus respectivos interesses e experiências.

Conceito: As letras das músicas, escritas principalmente por DarWin, são um elemento contínuo de um conceito narrativo presente em todas as suas produções lançadas. Esse conceito explora a sobrevivência da humanidade no ano de 2028 em um mundo devastado por catástrofes ambientais e climáticas. Aborda, entre outras coisas, aspectos civilizacionais e questões sociais como mudanças climáticas, o impacto dos desenvolvimentos tecnológicos (IA), questões ecológicas e políticas e a responsabilidade da humanidade pelas consequências de suas ações. De acordo com DarWin, as letras têm o objetivo de oferecer material para reflexão, não respostas prontas.

"Somos pessoas muito espirituais, mas temos influências espirituais diferentes e coisas em que acreditamos, você poderia dizer, mas nos damos muito bem. E acho que às vezes temos essa coisa em que não queremos realmente falar sobre isso. Nós sabemos, entre Matt e eu, de uma forma espiritual, sabemos o que isso significa, mas não gostamos de ser muito explícitos, tipo, deixar isso aí mais como uma coisa espiritual e um conceito espiritual.”

“E está tudo bem se for concluído pelo ouvinte. Estamos tentando abrir perguntas para o ouvinte. A coisa mais importante sobre DarWin é que estamos realmente tentando encorajar as pessoas a fazerem grandes perguntas sobre suas vidas e o mundo em que vivemos agora. É muito complicado. Pelo menos é assim que parece para mim. Está tudo bem se as pessoas não acharem que é complicado. Não estou forçando ninguém a se sentir assim. Claro, se for ótimo para você, é maravilhoso.”

“Mas agora, como uma pessoa mais velha, sinto que vi o mundo se tornar um lugar mais complicado ao longo dos anos e nós queremos que as pessoas perguntem, que se sintam livres para explorar essas questões de uma forma muito segura e sem forçar alguma ideologia sobre elas.

Estamos tentando criar espaço para fazer grandes perguntas. Então, ficaríamos muito felizes se as pessoas dissessem, “uau, fiquei muito emocionado com essa música, mas estou tendo dificuldade em descrevê-la.”

Billy Sheehan e Derek Sherinian são dois dos músicos que já colaboraram em músicas do DarWin. Em termos de trabalhos futuros, o guitarrista disse que há muitos com quem eles têm interesse, mas que estão mais focados em trazer músicos jovens e citou a baixista Mohini Dey, descrevendo-a como um “membro central do DarWin”.

“Ela faz parte desse grupo, sabe, membro permanente, membro de carteirinha. Mas de qualquer forma, alguns dos jovens músicos estão surgindo porque acho que eles podem aprender muito com Simon e alguns dos outros músicos mais velhos apenas com toda a experiência e coisas assim, Simon é o produtor de tudo em DarWin. Então ele está conduzindo toda a produção, todas as faixas. Ele está sempre dando sua visão a todos os músicos. - (Matt Bissonette)


DISCOGRAFIA

- Origin of Species (2018).
- DarWin 2: A Frozen War (2020).
- DarWin 3 - Unplugged (2021).
- Five Steps on the Sun (2024).
- Distorted Mirror (2025).

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Magic Slim & The Teardrops


Magic Slim & The Teardrops

"A última autêntica banda de blues de Chicago"

Assim a imprensa definia a banda de Magic Slim. O líder do grupo era também um dos últimos músicos desse gênero, ao lado de B.B. King e Buddy Guy, que trocaram os campos de algodão do sul dos estados unidos pelos palcos de festivais mundo afora.

"Alguém em Chicago deveria erguer um monumento a esse grupo, pela sua determinação e habilidade em tornar a cidade orgulhosa diante do mundo inteiro", reinvidicou a Jazz Cadence. A Living Blues, mais conceituada publicação desse gênero, considerava Slim "uma lenda" e "um tesouro nacional".

"Pode ser arroz com feijão, mas mostra quantos sabores um mestre pode trazer para a fórmula", reflete a Philadelphia Inquirer. "Ninguém cozinha uma arroz com feijão mais forte do que Magic Slim", completou a revista Blues Revue.

Os ingredientes desse "prato feito" vinham do blues rural do mississippi, que Slim ainda cultivava. Outros músicos de sua geração, que foram para Chicago mais jovens, como Otis Rush, Magic Sam e Buddy Guy, desenvolveram um estilo mais urbano, polido e razoavelmente sofisticado, o chamado "West Side sound", o som da Zona Oeste, em cujos bares eles tocavam.

Outro fator que contribuiu para a magia dos Teardrops foi que, assim como Muddy Waters, Magic Slim teve habilidade para manter uma banda sem muitas alterações na formação ao longo de décadas. O irmão Nick Holt foi o baixista por mais de trinta anos. Outro irmão, Douglas Holt, ocupou o assento da bateria por mais de dez. Os guitarristas de apoio também ficaram sempre em torno de uma década. Depois de tanto tempo juntos, os músicos adquiriam um entrosamento quase telepático. Bastava uma nota do líder para todos saberem o que fazer.

A explicação de Slim para a fidelidade dos sidemen era tão elementar que hoje poderia causar surpresa, mas dá a medida de como era dura a vida dos velhos bluesmen. "Uma coisa que você tem que fazer é pagar os músicos. Não pode colocar o dinheiro todo no bolso. Tem que pagar e não ficar mentindo para eles", ensinou a Beverly Zeldin, da Living Blues.

"Os Teardrops eram considerados imbatíveis no palco. A trovejante batida dos Teardrops chacoalha o salão com uma intensidade incendiária. Você quase pode sentir as paredes suando enquanto Slim dispara seus solos estridentes e cintilantes. Se você não pular da cadeira, alguém te sedou", disse o produtor musical e articulista da revista Juke Blues, Dick Shurman.

Só a presença de Magic Slim já causava forte impacto. O trocadilho era tão inevitável que virou quase um epíteto para ele: um gigante do blues- não só pelo talento, mas também pelos seus 1,98 m de altura. Acrescentando-se seus inseparáveis chapéus de caubói, era impossível não prestar atenção numa figura como aquela. Por tudo isso "Magic Slim & The Teardrops deveriam ser o padrão pelo qual nós comparamos todos os outros".

Morris Holt nasceu em Torrence, 7 de agosto de 1937 — cresceu nos campos de algodão onde seus pais trabalhavam como meeiros a beira do rio Mississippi. Iniciou musicalmente tocando piano, instrumento que abandonou após perder um de seus dedos em um acidente com uma máquina de colheita. A solução foi passar para a guitarra. Como era comum entre os garotos pobres de sua época, ele improvisou um instrumento caseiro com cerdas de vassoura pregadas numa parede, adotando assim, seu instrumento favorito.

Aos onze anos de idade, mudou-se com a família para uma cidade maior, Grenada. Lá ele ficou amigo de outro jovem guitarrista que conheceu na escola, Samuel Maghett, que mais tarde seria também um grande nome do blues, conhecido por Magic Sam. Maghett lhe deu dicas e ensinou algumas músicas.

Em 1955, Holt foi para Chicago tentar a sorte. Magic Sam, que tinha ido cinco anos antes e já construía uma reputação na cidade, lhe ofereceu o posto de baixista em sua banda. Foi ele também que sugeriu o nome artístico de Magic Slim, pois Holt era muito magro. Mas a competição era muito grande na capital do blues, e o próprio Slim reconhecia que, naquela época, não era um bom músico. "Ninguém queria tocar comigo, porque eu não conseguia tocar suficientemente bem". Sem conseguir espaço teve que voltar para Grenada.

Lá, enquanto procurava se aperfeiçoar na guitarra, ensinou o irmão Nick Holt, três anos mais novo, a tocar baixo. Assim eles formaram um trio com o caçula, Douglas "Lee Baby", e começaram a tocar em "juke joints" (botecos onde a comunidade negra se encontrava para se divertir e ouvir música nos finais de semana). No Mississippi os irmãos adquiriram um repertório imenso, apresentando o ofício das chamadas "juke box bands", que deveriam conhecer o máximo possível de canções para atender aos pedidos do público.

Apesar de ter tido Magic Sam como mentor, o estilo de tocar e cantar que Slim desenvolveu é completamente diferente do dele. Talvez a maior influência que recebeu do amigo tenha sido a inclusão de soul music no repertório (Sam flertava com o gênero nas próprias composições; Slim preferiu gravar clássicos como "Tramp" e "Mustang Sally").

Sua maior influência parece ter sido Eddie Taylor, que acompanhou durante muitos anos o astro Jimmy Reed e depois gravou alguns discos com John Lee Hooker. De Taylor ele copiou o recurso de usar dedeiras no polegar e no indicador, o que produzia um som mais forte, metálico e percussivo.

Outro recurso, que parece ter sido criado por ele mesmo, é o de escorregar os dedos pelas cordas, simulando um slide (técnica de usar um tubo metálico ou de vidro, ou mesmo um gargalo de garrafa, em um dos dedos da mão esquerda, para mudar o tom da música, e que costuma criar um som "choroso").

O canto rouco e gritado, sem dúvida, foi inspirado em Little Milton (Milton Campbell), um cantor eclético de blues, rhythm & blues e soul music. Slim gravou várias composições dele, inclusive a que se tornaria marca registrada de seus shows no Brasil, "The Blues Is Alright".

Em 1965, sentindo-se mais seguro como músico, ele voltou para Chicago. Conseguiu emprego na banda Mr. Pitiful and The Teardrops, do baixista Robert Perkins ("Mr. Pitiful"). O grupo acabou no ano seguinte, e Perkins deixou que ele usasse o nome Teardrops. Slim chamou os irmãos e, no mesmo ano, começou a gravar alguns singles, entre os quais "Scuffin", que seria uma de suas músicas mais conhecidas. Mas as coisas nunca foram fáceis para ele. Até 1976, quando já excursionava pela Europa, ainda precisava ter empregos durante o dia para se manter. Trabalhou como soldador e, durante muitos anos, como motorista de caminhão.

Em 1974, Hound Dog Taylor, que era outro dos guitarristas mais rústicos e intensos de Chicago, ofereceu a Slim a vaga de Brewer Phillips, com quem vivia brigando. Mas Slim preferiu continuar com os Teardrops, mesmo sendo bem menos conhecidos do que os Houserockers de Taylor. Mais tarde Slim retribuiria a gentileza do amigo gravando composições dele, como "Sadie" e "Give Me Back My Wig". Ainda em 1974, Taylor parou de tocar no bar Florence's, onde tinha data fixa todos os domingos, e Slim ocupou a vaga. Foi aí que o público finalmente começou a prestar atenção nele.

A entrada de Coleman "Alabama Junior" Pettis na segunda guitarra, em 1975, contribuiu para moldar o som do grupo. Pettis não se restringia ao papel de manter o ritmo: às vezes tecia frases em contraponto aos solos do líder. Ele também costumava fazer harmonias vocais com Slim, algo não muito comum no blues, e assumia o vocal principal em algumas músicas. O guitarrista ficaria nos Teardrops até 1982, sendo substituído por John Primer, que tinha acabado de sair da banda de Muddy Waters.

Em 1977, o quarteto lançou seu primeiro álbum, Born Under a Bad Sign, pelo selo francês Isabel. A voz de Slim, curiosamente, era mais polida e inspirada, principalmente em B.B. King. A guitarra também não tinha ainda personalidade própria, sendo bastante influenciada por Albert King (não por acaso, a faixa título foi imortalizada por ele).

Sua carreira só deslanchou nos anos 1980, quando Slim amadureceu o estilo rude e básico que o consagraria e começou a gravar por selos maiores como a Alligator, Blind Pig e Wolf. A partir daí, passou a se apresentar no Japão, na América Latina e tornou-se um dos bluesmen mais requisitados em festivais europeus. Ao longo dos anos, ganhou várias vezes os prêmios mais importantes do blues, como o W.C. Handy e o Blues Music Awards.

Magic Slim tocou no Brasil inúmeras vezes, tornando-se um dos músicos de blues mais conhecidos do nosso país. A primeira delas foi no lendário festival de blues de Ribeirão Preto (SP), o primeiro do gênero por aqui, em 1989, ao lado de lendas como Buddy Guy & Junior Wells, Albert Collins e Etta James. O sucesso do festival fez surgirem outros ao longo dos anos, e ele tocou em quase todos, como o Blues Festival (1990, em São Paulo), Natu Blues (2002, em Porto Alegre e Curitiba), The Blues Festival (2005, em São Paulo) e Oi Blues (2008, em seis capitais do Nordeste). Fez turnê pelo país como convidado especial do Trio paulistano Blue Jeans. Por onde ele passava, o público em peso entoava o refrão "Hey, Hey, the blues is alright!" como um grito de guerra.


Em mais de trinta anos, ele aprimorou seu "arroz com feijão" em álbuns apimentados como Highway Is My Home (1978), Gravel Road (1990), Scufflin' (1996) e Black Tornado (1998). Composições como "I'm a Bluesmen", "Goin' to Mississippi", "Please Don't Dog Me", "You Got To Pay" e Scufflin" adquiriram o status de clássicos do blues. Cada vez mais a crítica e os entusiastas do blues, consolidavam a reputação dos Teardrops como a melhor banda de Chicago em atividade. 

Esporadicamente projetos diferentes como Alone & Unplugged (1995), que trazia apenas sua voz e um violão, Blue Magic (2002), produzido pelo guitarrista Popa Chubby, de estilo bem mais moderno, que usou até efeitos eletrônicos; e Midnight Blues (2008), talvez o único álbum que apresentou vários convidados especias, entre eles o gaitista James Cotton, o guitarrista Elvin Bishop e o cantor Otis Clay.

Os Teardrops receberam um duro golpe com a perda de Nick Holt, seu irmão, que faleceu em 2009 de câncer. Considerado um dos baixistas mais eficientes de Chicago, ele também era elogiado como vocalista (várias faixas da banda eram cantadas por ele como "As the Years Go Passing By"), e gravou um álbum solo. Nick foi substituído por Danny O'Connor e, depois, por Andre Howard. 

Slim não fugia do estereótipo dos velhos bluesmen de vida desregrada. Bebia e fumava muito, o que lhe trouxe problemas renais, cardiacos e pulmonares. Em janeiro de 2013, durante uma turnê abrindo shows de Johnny Winter, precisou ser hospitalizado às pressas na Filadélfia. Ficou internado até 21 de fevereiro, quando não resistiu a uma cirurgia para tentar conter uma úlcera hemorrágica. No hospital ele pediu ao filho Shawn, que estava há um mês na banda como segundo guitarrista, que assumisse a liderança e prosseguisse a turnê. O grupo continua até hoje na ativa, agora como Shawn Holt and The Teardrops.

“ Se quer tocar blues, toque. Se não o sente, deixe-o, porque não se pode tocar o que não se sente” - Magic Slim.


quinta-feira, 10 de setembro de 2026

John Primer & Bob Corritore

John Primer e Bob Corritore

THE GYPSY WOMAN TOLD ME
( 2020 )

A comunidade do blues foi presenteada quando a lenda do blues John Primer, junto com o virtuoso da gaita Bob Corritore, lançou um novo álbum repleto de blues tradicional de Chicago.

O título já indica que este disco é uma verdadeira preciosidade. Chama-se "The Gypsy Woman Told Me", uma música que ficou famosa na voz do grande Muddy Waters. Primer tocou com ele antigamente, então obviamente tem talento de sobra para interpretar um clássico do mestre. E quando se trata de mandar ver na gaita ao estilo de Chicago, Corritore também não fica atrás.

Esta não é a primeira vez que esses virtuosos do blues tocam juntos. Eles já lançaram dois discos muito elogiados pelo selo Delta Groove: " Knockin' Around these Blues" em 2013 e "Ain't Nothin' You Can Do" em 2017. Mas ambos concordam que acertaram em cheio com o terceiro álbum, lançado pela VizzTone e SWMAF Records. Em uma entrevista recente com Linda Cain, editora do Chicago Blues Guide, Primer disse: "O terceiro é o da sorte! A cada disco, aprendemos mais um sobre o outro e descobrimos maneiras de melhorar cada vez mais os discos!". Corritore concordou e disse que o álbum expande "nossa marca de blues de Chicago".

Esses dois senhores certamente têm as credenciais necessárias para levar seu estilo de blues de Chicago ao grande público. 

John Primer surgiu do Mississippi em 1963 e rapidamente se destacou durante essa era eletrizante. Nascido em 3 de março de 1945, o guitarrista, cantor e compositor foi um dos principais expoentes do Chicago blues tradicional. Conhecido por seu estilo autêntico e poderoso, Primer construiu uma carreira impressionante tocando com os maiores nomes do blues, incluindo Muddy Waters, Magic Slim e Willie Dixon, antes de se estabelecer como artista solo. Biografia John Primer nasceu em Camden, Mississippi, onde começou sua jornada musical cantando gospel na igreja local e aprendendo a tocar guitarra sozinho aos oito anos de idade. Inspirado por músicos como Jimmy Reed, Primer começou a tocar blues ainda jovem, desenvolvendo um estilo que mais tarde o tornaria uma figura respeitada no gênero. Em 1963, aos 18 anos, Primer mudou-se para Chicago, cidade que se tornaria seu lar musical. 

Na Windy City, ele rapidamente se integrou à vibrante cena de blues dos clubes do West Side e South Side. Seu primeiro trabalho profissional significativo veio em 1974, quando se juntou à banda da lendária casa de blues Theresa's Lounge, onde atuou como líder da banda residente por sete anos. A grande chance de Primer veio em 1979, quando foi convidado a se juntar à banda de Muddy Waters como guitarrista rítmico e, mais tarde, como guitarrista principal. Durante esse período crucial, ele absorveu os fundamentos do Chicago blues diretamente de um de seus maiores mestres. Após a morte de Muddy Waters em 1983, Primer juntou-se à banda de Willie Dixon, a Chicago Blues All-Stars, ampliando ainda mais sua experiência. 

De 1987 a 1993, Primer se tornou o guitarrista principal e bandleader da banda de Magic Slim & The Teardrops, uma parceria que durou seis anos e resultou em vários álbuns aclamados. Esta colaboração solidificou ainda mais sua reputação como um guitarrista excepcional e um guardião da tradição do Chicago blues. Em 1995, Primer lançou seu primeiro álbum solo, "The Real Deal", pela gravadora independente Code Blue/Atlantic. Desde então, ele lançou mais de 17 álbuns, incluindo trabalhos para as gravadoras Wolf, Telarc e sua própria gravadora, Blues House Productions. Entre seus álbuns mais aclamados estão "Knock You Around" (1998) e "Blues on Solid Ground" (2010).

Nascido e criado em Chicago, a educação musical de Bob Corritore no blues começou cedo, quando viu Muddy Waters tocar no ginásio de sua escola. Logo, ele estava frequentando a Maxwell Street e participando de gravações com os melhores gaitistas da época. No final dos anos 70, Corritore já produzia gravações com alguns dos maiores nomes do blues. Em 1981, Corritore levou suas habilidades de gravação para Phoenix e, em 1991, trouxe a música ao vivo para o deserto do blues do Arizona com a inauguração do Rhythm Room. Corritore também produziu performances incríveis com inúmeros luminares do blues, trabalhando incansavelmente para preservar o legado do gênero.

O veterano Primer não vê problema algum em Corritore assumir o comando de The Gypsy Woman Told Me. Ele disse: "Deixo o Bob dirigir o álbum. Ele tem a visão, mas conversamos e decidimos juntos o que é melhor e o que achamos que funciona."

Sem dúvida, esse é o caso, já que Primer e Corritore se encaixam perfeitamente, com uma crueza que remete à era de ouro do blues de Chicago. Esse guitarrista icônico e essa gaitista talentosa, juntos, literalmente vivem, respiram e transmitem o blues há mais de um século! Essa longa familiaridade demonstra a fluência deles com o gênero, bem como o desejo de manter a música em destaque na comunidade do blues. Isso é especialmente importante, considerando como a Covid-19 literalmente destruiu o sustento desses músicos e lembrando as imensas dificuldades de como Primer e sua Real Deal Blues Band escaparam por pouco de ficarem presos por meses na Holanda após a proibição de viagens em meados de março.

Sobre o álbum

Na primeira faixa de The Gypsy Woman Told Me, Primer explora um novo meio de transporte. Em “Keep A-Driving”, de Chuck Willis, ele inicia com um riff clássico de guitarra de Chicago, complementado pela gaita vibrante de Corritore e pela batida constante da bateria de June Core. O piano de Bob Welsh, com Kedar Roy no baixo, harmoniza perfeitamente com a voz potente de Primer, criando a base ideal para essa animada música de abertura.

A dupla percorreu a Costa Oeste para gravar esta obra-prima moderna. The Gypsy Woman Told Me foi gravado no Tempest Studios em Phoenix e no Greaseland Studios de Kid Andersen em San Jose, Califórnia. Nas sessões do Tempest, Corritore e sua banda se uniram ao colaborador de longa data Clarke Rigsby e ao baterista de confiança, Brian Fahey.

As sessões de gravação do Greaseland aconteceram depois que Corritore e Primer encerraram uma semana agitada de turnê juntos em vários festivais de blues. Corritore acredita que essa experiência compartilhada realmente "sincronizou as coisas", e isso se reflete nas gravações que surgiram dessas sessões.

A pegada de Greaseland é o destaque na faixa 7. Nela, eles interpretam "I Got the Same Old Blues", de JJ Cale, com uma dose extra de funk, acentuada pela voz melancólica de Primer e pela gaita estelar de Corritore. A faixa também conta com o talento de Kid Andersen no órgão, Fahey na bateria e Troy Sandow no baixo. O próprio Jimi "Primetime" Smith, de Chicago, também contribui com solos matadores.

Embora muitas das faixas de The Gypsy Woman Told Me sejam versões lindamente repaginadas, Primer contribui com duas composições originais. A animada “Little Bitty Woman” e a cadência lenta de “Walked So Long” demonstram a versatilidade de Primer, aos 75 anos, e sua capacidade de manter a chama do blues acesa.

Essa paixão ardente pelo blues transparece em todo o álbum, com destaque para "Left Me with a Broken Heart", de Jimmy Rogers. Essa faixa também conta com a participação do guitarrista local Billy Flynn e Mike Hightower no baixo. O jovem prodígio do blues, Ben Levin, entra em cena ao piano, com Fahey de volta à bateria.

O álbum "The Gypsy Woman Told Me" foi produzido por Corritore, Kid Andersen e Clarke Rigsby, o que é mais um sinal profético de que este disco é um sucesso. Ele reúne dois brilhantes músicos de blues com uma equipe de músicos verdadeiramente talentosos e produtores de primeira linha — todos com a mesma visão. Para fãs de longa data e novos ouvintes, "The Gypsy Woman Told Me" serve como uma afirmação de que o blues está vivo e bem. Não é preciso bola de cristal, porque este álbum é imperdível!