Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Meio Ambiente e Filosofia de Vida

O triste fim da Lua dos poetas.

A Lua nunca mais será a mesma. Aquela esfera pálida e misteriosa que guiou navegadores, inspirou sonetos apaixonados e serviu de calendário para civilizações antigas está prestes a se tornar um gigantesco canteiro de obras a céu (ou vácuo) aberto.


Depois de mais de cinco décadas de um hiato que fez a alegria e alimentou as mais delirantes teorias conspiratórias dos terraplanistas, a humanidade – ou pelo menos a parte dela que tem bilhões de dólares sobrando – resolveu que era hora de voltar à Lua. A missão Artemis II decolou, para o desespero de quem jurava que o espaço era um holograma projetado pela NASA. Quatro astronautas corajosos foram despachados em uma viagem de dez dias para dar uma voltinha ao redor do nosso satélite natural. Mas, vejam só a ironia: eles não vão pousar. Vão apenas dar uma “olhadinha”, tirar umas fotos bonitas e voltar. O pouso mesmo, aquele momento de fincar a bandeira e chutar a poeira lunar, ficou para depois. Quem sabe em 2028, se o orçamento de quase cem bilhões de dólares permitir e os atrasos não se acumularem ainda mais. É como viajar até Paris apenas para ver a Torre Eiffel pela janela do avião e voltar para casa.

Ora, além do inegável fascínio que remonta às nostálgicas e perigosas disputas da Guerra Fria, quando o espaço era o palco final para provar qual sistema econômico era o melhor, a nova corrida espacial tem motivações muito menos poéticas e muito mais pragmáticas. A missão é astronomicamente cara, mas os novos interesses justificam cada centavo aos olhos do mercado: terras raras, metais preciosos, Hélio-3 e água. Ao fim e ao cabo, aquelas romantizadas fotografias da Lua prateada e da nossa “pálida pérola azul” (cada vez mais cinzenta) vista lá do espaço – aquele vazio silencioso que não tem teto e não tem chão – escondem, mais uma vez, o óbvio ululante. 

A voracidade da atual corrida espacial nada mais é do que a mesmíssima voracidade pela disputa de recursos naturais que moldou a nossa história terrestre. Não bastasse esgotar os recursos daqui, perfurar nossas montanhas, poluir nossos rios e levar o meio ambiente à beira do colapso irreversível, o objetivo agora é exportar esse modelo de desenvolvimento predatório. O plano é fazer a mesma coisa na Lua, depois em Marte, e onde quer que a gravidade permita pousar uma broca de mineração. E, claro, Estados Unidos e China estão na linha de frente dessa nova e brilhante disputa neocolonialista extraterrestre, desenhando mapas de influência em crateras que até ontem só serviam para inspirar poetas e lobisomens.

E não se iludam, amáveis amantes da astronomia e sonhadores de plantão. Basta olhar com um pingo de atenção para as empresas que financiam e constroem as “máquinas tecnológicas” que vão ao espaço para perceber que a exploração espacial deixou de ser um esforço científico dos Estados Nacionais ou da utópica humanidade. Os foguetes e módulos de pouso de hoje levam as assinaturas de bilionários comprometidos até o pescoço com a indústria bélica e com seus próprios interesses quase trilionários. Estamos falando de figuras como Elon Musk, com sua SpaceX abocanhando contratos multibilionários, e Jeff Bezos, além de velhas conhecidas da máquina de guerra americana como Boeing e Northrop Grumman (a fabricante de refinados aviões de guerra). O espaço não é mais a fronteira final da exploração humana; tornou-se a nova bolsa de valores, um anexo do Vale do Silício orbitando a Terra, onde o lucro dita a trajetória de voo e a ciência é apenas o relações-públicas da empreitada.

Uma coisa é absolutamente certa: a Lua nunca mais será a mesma. Aquela esfera pálida e misteriosa que guiou navegadores, inspirou sonetos apaixonados e serviu de calendário para civilizações antigas está prestes a se tornar um gigantesco canteiro de obras a céu (ou vácuo) aberto. Nossas representações românticas sobre ela sobreviverão apenas nos livros de História, soterradas sob o peso de contratos de extração de platina e isótopos de hélio. Triste humanidade, esta nossa. Uma espécie que, incapaz de resolver a fome e a desigualdade no seu próprio quintal, decide exportar a loucura da sua razão econômica, fria e catastrófica, para o silêncio do cosmos. Pelo visto, o único verdadeiro limite para a ganância humana não é o céu; é a velocidade da luz. Que saudades de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco em “Luar do Sertão”, era sim um outro tempo da lua e do mundo…

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Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

Oh que saudade do luar da minha terra

Lá na serra branquejando folhas secas pelo chão

Este luar cá da cidade tão escuro

Não tem aquela saudade do luar lá do sertão

Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

Se a lua nasce por detrás da verde mata

Mais parece um sol de prata prateando a solidão

E a gente pega na viola que ponteia

E a canção e a lua cheia a nos nascer do coração

Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

Não há, ó gente, ó não

Luar como esse do sertão

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@PlataformaICL
Escrito em: 
05/04/2026.

Lindener Pareto Jr.
Professor, Historiador, Comunicador. Mestre e Doutor pela USP. Curador Acadêmico no Instituto Conhecimento Liberta (ICL). Apresentador do “Provocação Histórica", programa semanal de divulgação de História, Cultura e Arte nos canais do ICL. Autor de "Crônico e Anacrônico: escritos de um operário do tempo", pela editora Autonomia Literária (2025).



sábado, 28 de junho de 2025

Instituto Dom Phillips

Instituto Dom Phillips
"Permita-se encantar com nosso Instituto"

Dom e Bruno, presentes!!

Sobre o Instituto

Nascemos entre o luto por mais uma violência acontecida na Floresta Amazônica e o encantamento de Dom Phillips por seus povos e sua exuberância. O legado deságua num Movimento. Criamos, aqui e agora, um movimento de conexão, engajamento e educação que ecoa as vozes da floresta, seus povos e saberes ancestrais. Queremos contribuir para a construção de uma sociedade em que humanos sintam-se natureza, respeitem e estejam engajados na proteção de todas as formas de vida.

Primeiro Projeto

Amazônia Sua Linda!

Nosso primeiro projeto leva o nome da última legenda de foto usada por Dom em suas redes sociais e tem como objetivo promover um movimento educativo sobre a Amazônia, orientado pelo protagonismo de seus povos, inspirando reconexão e co-responsabilidade com a natureza da qual somos parte. Para isso, reuniremos conteúdos sobre a Amazônia, para a Amazônia, com Amazônidas e compartilharemos em uma plataforma digital acessível de amplo alcance.

A vida e luta de Dom Phillips


Amazônia: Jornada de descoberta

Sua primeira matéria publicada sobre a Amazônia foi em 2015 pelo The Washington Post, quando visitou uma grande mina no Pará e identificou os impactos ambientais, sociais e econômicos do empreendimento. A partir daí sua curiosidade e seu interesse sobre o bioma amazônico aumentaram e sua rede de contatos na floresta se ampliou.


Em 2018, Dom conhece Bruno em expedição ao Vale do Javari – que abriga uma das maiores concentrações de indígenas isolados do mundo. Na reportagem que surge dessa viagem, Dom deixa claro sua paixão pela floresta, como quando descreve meninos indígenas que haviam batido “em uma colmeia para afugentar as abelhas” e depois compartilhavam “seu favo de mel vermelho-ferrugem, pingando mel doce e selvagem”. Para ele, o encantamento era a chave para

Durante suas inúmeras viagens à Amazônia, Dom percebeu que os povos da floresta e os profissionais que atuavam para mantê-la protegida deveriam ter seu importante conhecimento divulgado para o mundo. Pensando nisso, começou a escrever em 2020, o livro “How to save the Amazon: Ask the people who know”” (em tradução livre, “Como salvar a Amazônia: pergunte a quem sabe”), motivo que o levou ao Vale do Javari em junho de 2022 a fim de entrevistar indígenas sobre suas medidas de proteção contra invasores e também comunidades ribeirinhas e de pescadores. 

Comunidade Ashaninka no Acre

Dom e Bruno estavam trabalhando quando foram assassinados, eram profissionais determinados e entenderam que, mesmo atuando em áreas diferentes, era muito importante unir forças pelo objetivo maior de proteger a floresta e todos que nela vivem.

É como se tivessem mexido diretamente com a gente, porque ele estava representando a nossa causa, a nossa história. Ele passou a ser família.

Francisco Piyãko, líder da comunidade Ashaninka, no Acre – um dos últimos locais de visita de Dom Phillips – em entrevista à BBC.