Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 14 de março de 2026

Peter Green Splinter Group

 “Peter Green tem o timbre mais sensível que já ouvi; ele foi o único que me fez suar frio.” B.B. King

O "Peter Green Splinter Group" foi uma banda de blues rock formada em 1996, formada pelo guitarrista e vocalista Peter Green, o guitarrista e vocalista Nigel Watson, o baixista Neil Murray e o baterista Cozy Powell.

Peter Green foi o líder do Fleetwood Mac até 1970. Ele sofreu um colapso nervoso durante a década de 1970 e ressurgiu com a ajuda do guitarrista Nigel Watson e do baterista Cozy Powell entre outros amigos. Em meados de 1996, eles começaram a ensaiar algum repertório e decidiram formar a banda batizando-a de 'Splinter Group'. A banda duraria até 2003, até pararem as atividades por motivos não esclarecidos, mas que envolvem direitos contratuais e a conservação da saúde e bem estar de Peter Green. 

Depois do encerramento do Splinter Group e consequentemente da mídia por alguns anos, tivemos registros de esporádicas apresentações do 'Peter Green & Friends', (banda nova de Green), entre 2009 e 2010 por festivais e pubs de blues e rock pela Europa. 

Peter Green sempre surpreendeu seus fãs fazendo ressurgimentos incríveis ao longo de sua carreira.

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Splinter Group por seus Álbuns.

"Peter Green Splinter Group" é o primeiro álbum da banda britânica de Blues liderada por Peter Green. Lançado em 1997, este foi o primeiro álbum da banda e o álbum de retorno de Green, que estava fora do mundo da música havia cerca de 10 anos antes de uma carreira solo esporádica no final da década de 1970 e início da década de 1980.

Gravado em sua maioria ao vivo durante uma turnê pelo Reino Unido, o álbum consistia em covers de músicas de blues. A formação nesse álbum da banda contava com: 
Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Cozy Powell – bateria, Neil Murray – baixo e Spike Edney – teclados

"Seu jeito de tocar guitarra, embora compreensivelmente carente da extrema sensibilidade de seu trabalho com o Fleetwood Mac, ainda é motivo de admiração, tanto nas versões acústicas das músicas de Robert Johnson quanto nas interpretações elétricas do material de Freddie King, que fornecem as melhores faixas do álbum".

"The Robert Johnson Songbook" lançado em 1998, foi o segundo álbum da banda. 

O álbum é composto por canções do lendário artista de blues Robert Johnson e conta com a participação especial de Paul Rodgers, ex-vocalista das bandas Free e Bad Company, que posteriormente trabalhou com Queen.

Este foi o primeiro álbum do Splinter Group a contar com Roger Cotton e Larry Tolfree, após a saída de Cozy Powell e Spike Edney. O álbum ganhou o prêmio WC Handy de "Melhor Álbum de Retorno" em 1999. 

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Neil Murray – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria, Paul Rodgers – vocais (faixa 16), Street Angels '98 – vocais de apoio.

"Soho Live Session At Ronnie Scott" é um álbum ao vivo lançado em 1999, este foi o terceiro álbum da banda. Gravado em 5 de abril de 1998 no Ronnie Scott's Jazz Club, o álbum duplo apresentava novas versões de várias músicas dos álbuns anteriores do grupo, e também algumas músicas de Green do Fleetwood Mac. Na mesma noite, o baterista Cozy Powell que havia saído há pouco tempo do grupo, morreu em um acidente de carro. Este foi o último álbum do grupo a contar com o baixista Neil Murray.

O álbum lista incorretamente o compositor da faixa Homework como Otis Rush, porém Rush foi a primeira pessoa a gravar a música em 1962, os compositores são Dave Clark e Al Perkins.

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Larry Tolfree – bateria, Neil Murray – baixo e Roger Colton – teclados.

"Destiny Road" foi o álbum lançado em 1999, o quarto álbum da banda. O álbum incluía uma nova versão de "Tribal Dance", que apareceu pela primeira vez no álbum solo de Green de 1979, In ​​the Skies, e também uma nova versão do sucesso do Fleetwood Mac, "Man of the World". Nesse álbum temos a entrada de Pete Stroud no lugar de Neil Murray.

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Pete Stroud – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria.

Músicos adicionais: Jennie Evans, Debbie Miller – vocais de apoio
Derek Nash, Joe Green – saxofone tenor, Kate Shortt, Guy Theaker, Malcolm Allison, Naomi Fairhurst – cordas.

"Hot Foot Powder" foi lançado em 2000, este foi o quinto álbum da banda. Assim como o álbum anterior do grupo, The Robert Johnson Songbook, Hot Foot Powder consistia em canções escritas por Robert Johnson e incluía contribuições de vários mestres do blues como: Buddy Guy, Hubert Sumlin, Otis Rush, David "Honeyboy" Edwards, Joe Louis Walker e Dr. John. 

O álbum foi relançado em 2004 pela Snapper Music com faixas bônus. A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Pete Stroud – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria. 

Participações especiais: Hubert Sumlin – guitarra (faixa 3), Otis Rush – guitarra (faixas 1, 4), Buddy Guy – guitarra (faixa 12), David Honeyboy Edwards – guitarra (faixa 8), Joe Louis Walker – guitarra (faixa 8) e Dr. John – piano (faixas 2, 5).

"Blues Don't Change" chegou em 2001, porém na época ele foi estritamente disponibilizado apenas nos shows ou através do site oficial da banda. Este seria o sétimo álbum dos bluseiros. Em 2006, foi lançado em formato físico.

A faixa de abertura, "I Believe My Time Ain't Long", é uma variação da música "Dust My Broom" de Robert Johnson. Peter Green havia gravado a faixa pela primeira vez com o Fleetwood Mac em 1967 (creditada a Elmore James e Jeremy Spencer ), e ela foi lançada como o primeiro single da banda pioneira do blues britânico.

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Pete Stroud – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria.

"Time Traders", lançado em 2001, este foi o sexto álbum da banda. O álbum marcou uma mudança em relação às gravações anteriores do grupo com músicas de Robert Johnson, e as faixas deste álbum eram todas composições originais dos membros da banda, incluindo duas de Peter Green que haviam sido gravadas três décadas antes. "Underway" era uma faixa instrumental do álbum Then Play On, do Fleetwood Mac, de 1969, e "Uganda Woman" era o lado B de um single que Green e seu colega do Splinter Group, Nigel Watson, tinham lançado no ano de 1972. "Underway" conta com Snowy White na guitarra; White já havia participado do álbum In the Skies, de Peter Green, em 1979.

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Pete Stroud – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria. 

Músicos adicionais: 
Snowy White – guitarra (faixa 12), Tim Riggins – trombone e arranjos para metais, Martin Harmon – saxofone, Derek Nash – saxofone, Sid Gauld – trompete e flugelhorn e Joanne Ramsey, Louise Kenny, Owen Parker – vocais de apoio (faixa 13).

"Reaching the Cold 100" é o último álbum gravado pela banda. Este álbum é o único da banda a entrar nas paradas musicais, alcançando a 11ª posição na parada de álbuns de blues da Billboard em março de 2003.

O álbum foi gravado no Roundel Studios, em Kent, Inglaterra, de propriedade do tecladista Roger Cotton, que também tocou no álbum e compôs algumas das faixas.

A formação nesse álbum da banda contava com: Peter Green – guitarras e vocais, Nigel Watson – guitarras e vocais, Pete Stroud – baixo, Roger Cotton – piano, Larry Tolfree – bateria.


Mick Fleetwood & Friends

Mick Fleetwood & Friends, celebram a música de:

Peter Green

' Para mim, e para todos os membros antigos e atuais do Fleetwood Mac, a perda de Peter Green é monumental! '

' Greeny é patrimônio do Blues britânico '

Peter foi o homem que fundou a banda Fleetwood Mac junto comigo, John McVie e Jeremy Spencer. Ninguém jamais entrou para o Fleetwood Mac sem reverenciar Peter Green e seu talento, e sem reconhecer que a música deve brilhar intensamente e ser sempre entregue com paixão inabalável!

Peter,
sentirei sua falta, mas descanse em paz, sua música continua viva. Agradeço por ter me convidado para ser seu baterista todos aqueles anos atrás. Fizemos um ótimo trabalho e abrimos um caminho musical incrível para que tantos pudessem apreciar.

Que Deus te proteja, meu querido amigo...

Com amor, Mick Fleetwood.

O lendário baterista Mick Fleetwood reuniu um elenco estelar para um concerto único em homenagem aos primeiros anos do Fleetwood Mac e ao seu fundador, Peter Green, que aconteceu no dia 25 de fevereiro de 2020 no Palladium de Londres.

O cartaz incluía Billy Gibbons, David Gilmour, Jonny Lang, Andy Fairweather Low, John Mayall, Christine McVie, Zak Starkey, Steven Tyler, Bill Wyman, Noel Gallagher, Pete Townshend, Neil Finn, Kirk Hammett e muitos outros. O lendário produtor Glyn Johns participou como produtor executivo de som e a banda da casa contava com o próprio Fleetwood, além de Rick Vito, Andy Fairweather Low, Dave Bronze e Ricky Peterson.

Fleetwood, que selecionou os artistas que se apresentarão, disse: “O concerto é uma celebração daqueles primeiros dias do blues, onde todos nós começamos, e é importante reconhecer o profundo impacto que Peter e o Fleetwood Mac em seus primórdios tiveram no mundo da música. Peter foi meu maior mentor e me dá muita alegria homenagear seu incrível talento. É uma honra dividir o palco com alguns dos muitos artistas que Peter inspirou ao longo dos anos e que compartilham meu grande respeito por este músico notável. 

" Then Play On ”
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O show: contou com membros antigos e atuais do Fleetwood Mac – Neil Finn, Christine McVie, Rick Vito, Ricky Peterson e até mesmo Jeremy Spencer, que subiu ao palco com o Fleetwood pela primeira vez em 50 anos – além de diversos convidados especiais. 

Entre eles, Kirk Hammett, Noel Gallagher, Billy Gibbons, David Gilmour, John Mayall, Steven Tyler, Pete Townshend e Bill Wyman. Acompanhados pelo Fleetwood na bateria e percussão, o show também contou com o apoio de Andy Fairweather Low na guitarra rítmica, Dave Bronze no baixo, Zak Starkey na bateria e percussão, e Johnny Lang na guitarra e vocais.

"O concerto é uma celebração daqueles primeiros tempos do blues, onde tudo começou para nós", disse Fleetwood. "E é importante reconhecer o profundo impacto que Peter e o Fleetwood Mac em seus primórdios tiveram no mundo da música. Peter foi meu maior mentor e me dá muita alegria homenagear seu incrível talento. É uma honra dividir o palco com alguns dos muitos artistas que Peter inspirou ao longo dos anos e que compartilham meu grande respeito por este músico notável."

Após as palavras introdutórias de Fleetwood, o concerto, em benefício da Teenage Cancer Trust, apresentou uma seleção vibrante dos sucessos dos primeiros anos do Fleetwood Mac. Foi um espetáculo impressionante e emocionante. Todos se lembrarão de como essa época é vividamente retratada na recente edição de Mick Fleetwood, Love That Burns , também dedicada a Peter Green, e, de fato, as páginas do livro serviram de pano de fundo visual para o concerto.

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Lista de músicas 
e convidados:

1. Rolling Man
2. Homework
3. Dr. Brown (com Billy Gibbons nos vocais e guitarra)
4. All Your Love (com Billy Gibbons na guitarra e Steven Tyler nos vocais)
5. Rattlesnake Shake
6. Stop Messin' Around (com Christine McVie nos vocais e teclados)
7. Looking for somebody (com Christine McVie nos vocais e teclados)
8. Sandy Mary (com Johnny Lang na guitarra e vocais)
9. Love that Burns
10. The World Keeps Turning (com Noel Gallagher)
11. Like Crying (com Noel Gallagher)
12. No Place To Go
13. Station Man (com Pete Townshend na guitarra e vocais)
14. Man Of The World (com Neil Finn nos vocais)
15. Oh Well, Part I (com Billy Gibbons na guitarra e Steven Tyler nos vocais)
16. Oh Well, Part II (com David Gilmour na guitarra)
17. Need Your Love So Bad
18. Black Magic Woman
19. The Sky Is Crying (com Jeremy Spencer na guitarra e vocais)
20. I Can't Hold On (com Jeremy Spencer na guitarra e vocais)
21. The Green Manalishi (With the Two Prong Crown) (com Kirk Hammett)
22. Albatross (com David Gilmour na lap steel guitar)
23. Shake Your Moneymaker (final com todos os artistas)

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sexta-feira, 13 de março de 2026

Peter Green's & Fleetwood Mac

Fleetwood Mac

' A história de Peter Green, o guitarrista sutilmente brilhante que criou o Fleetwood Mac. '

' O elo perdido entre a adesão britânica ao blues tradicional e a evolução que este viria a sofrer para o hard rock. '
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A personalidade da banda através do seu primeiro álbum.

O Fleetwood Mac de Peter Green é algo diferente: é o elo perdido entre a adesão britânica ao blues tradicional e a evolução que este viria a sofrer para o hard rock. O Fleetwood Mac evitou completamente as incursões psicodélicas de seus contemporâneos, optando por gravar seu álbum de estreia como um documento minimalista, quase ao vivo, de pura química musical. 

Álbum de estréia, 1968.
De fato o DNA de bandas como o Led Zeppelin e Ten Years After, por exemplo, estão por toda parte no Fleetwood Mac de Peter Green, tanto que o hard rock provavelmente teria soado muito diferente se o Fleetwood Mac nunca tivesse entrado em estúdio nos últimos meses de 1967.

Não podemos esquecer que a Londres dos anos sessenta estava no auge criativo quando o Fleetwood Mac gravou seu álbum de estreia. A "Pop Art", as drogas psicodélicas e os novos avanços tecnológicos de estúdio estavam disponíveis para quem quisesse. O Fleetwood Mac virou completamente as costas para a atitude hippie, brilhante e colorida, que dominava a cena musical inglesa.

Para o Fleetwood Mac que aparece em "Peter Green's Fleetwood Mac", o álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" dos Beatles nunca existiu. Isso logo se tornaria irônico, considerando o colapso mental de Peter Green sob efeito de LSD e a viagem de Jeremy Spencer movida a mescalina que o levou ao culto religioso agora conhecido como "A Família Internacional". Mas nada disso está presente no álbum de estréia.

John McVie e Mick Fleetwood.
Em vez disso, são doze clássicos de Blues que exibem a voz inimitável de Peter Green (tanto na guitarra quanto no microfone), a incrível habilidade de Jeremy Spencer no slide guitar (e sua maestria no piano) e a batida sólida e poderosa dos integrantes que dão nome à banda, John McVie e Mick Fleetwood. 

Começando com uma versão vibrante de "My Heart Beat Like a Hammer", de Spencer, o álbum segue com 30 minutos do melhor blues britânico que você certamente pode ouvir.

Subvertendo os temas usuais de "mulher que me fez mal", Spencer e Green mostram sua sinceridade em suas primeiras canções. Em "My Heart Beat Like a Hammer", Spencer se desculpa, reconhecendo seus próprios problemas que o afastaram de sua amada. Green entra em cena com "Merry Go Round", uma ode encantadora à fidelidade e ao amor verdadeiro – embora também apresente uma crítica às "mulheres más". A voz de Green em "Merry Go Round" é tão suave e cativante que é possível ouvir legiões de jovens fãs se apaixonando por ele ali mesmo, nos sulcos do vinil.

Jeremy Spencer, discípulo direto
de Elmore James.
Além de suas habilidades como cantores e compositores, Green e Spencer também possuem uma interação incomparável entre as guitarras. O estilo de Green é suave e fluido, nunca complicando demais seus solos ou ultrapassando os limites necessários para cada música. Spencer é mais incisivo e afiado, com seus slides infundindo seus arranjos com uma dose extra na pegada e dissonância.

Quase como uma forma de sinalizar seu próximo passo, o Fleetwood Mac também apresentou um rock and roll matador em Peter Green's Fleetwood Mac. "Long Grey Mare" apresenta um ritmo boogie que poderia ter saído diretamente de Chuck Berry, enquanto "Shake Your Moneymaker" é mais turbinada do que Elmore James jamais poderia ter imaginado para sua versão original. Entre essas faixas, está a interpretação assombrosa de Spencer para "Hellhound on My Trail", de Robert Johnson, que ele conduz na voz e piano.

Christine Perfect.
Nos primeiros álbuns era difícil ouvir alguma faixa que não fosse Christine Perfect tocando teclado e piano nas gravações da banda. Ela era integrante de outra excelente banda do blues britânico chamada: "Chicken Shack", e casou-se com o baixista John McVie, se tornando Christine McVie. Com certeza se Jeremy Spencer tivesse permanecido tocando, ele teria sido um excelente pianista de blues para o grupo, porém, talvez nunca tivessem alcançado o mesmo sucesso que alcançaram com o talento e elegância de Christine McVie.

Cada música ganha sua própria sonoridade única, apesar da maior parte do material ser composta por blues simples de doze compassos. "Looking For Somebody" mostra Fleetwood descobrindo seu amor pela bateria tom-tom em tempo real, enquanto "No Place to Go" permite que Green reinterprete o icônico rosnado de Howlin' Wolf. "My Baby's Good to Me" dá destaque a Spencer e seus solos angulares de slide, enquanto "Cold Black Night" apresenta os quatro músicos mantendo-se firmes no ritmo, sem nunca se apressarem para a conclusão lenta e envolvente."I Loved Another Woman" é quase um samba em tom menor que serve como precursora direta da lendária "Black Magic Woman" de Green, lançada como single apenas um mês depois do lançamento do álbum. 

Pode ser fácil confundir "The World Keep on Turning" com a música de título semelhante "World Turning", da era Lindsay Buckingham/Stevie Nicks do futuro Fleetwood Mac, mas depois de ouvir o blues acústico cru de Green, você nunca mais confundirá as duas.

Com Danny Kirwan, três guitarristas. 1969.
O álbum encerra com outro clássico de James, "Got to Move", onde a descontração do estúdio transparece de forma clara e evidente, com Spencer entregando-se completamente aos vocais enquanto o resto da banda acompanha com uma alegria contagiante. A versão do Fleetwood Mac produzida por Peter Green, atualmente disponível nos serviços de streaming, inclui bastante conversa e brincadeiras de estúdio, mas, em vez de soar como gravações brutas, esses elementos adicionam um charme despojado ao material da banda. É possível sentir claramente a descontração e a diversão que permeavam a experiência inicial do Fleetwood Mac.

É notável a rapidez com que as coisas desandaram para a formação original da banda. O guitarrista Danny Kirwan foi contratado logo após a gravação do segundo álbum, Mr. Wonderful. Kirwan ajudou a adicionar uma nova dimensão ao Fleetwood Mac, além do blues, compondo, em parceria com Peter Green, o dueto atmosférico "Albatross", que rendeu à banda um single número um no Reino Unido. 

Último single de Peter Green
com a banda, 1970.
Mas, em 1970, o comportamento cada vez mais errático levou Peter Green a deixar o Fleetwood Mac. Danny Kirwan e Jeremy Spencer tentaram salvar a banda como novos vocalistas, mas Spencer também saiu em 1971. 

Christine McVie entra para a banda definitivamente. Ela logo foi contratada como tecladista, cantora e compositora, mas a constante troca de vocalistas e guitarristas tornou o início da década de 1970 um período confuso musicalmente para o Fleetwood Mac.

O álbum de estréia continua sendo um marco para todo o blues rock, servindo como prova de porque Peter Green ainda é considerado uma das referências entre os guitarristas originais do blues britânico. Se você pudesse ouvir apenas um álbum para entender por que o blues era tão fascinante para os jovens britânicos na década de 1960, "Peter Green's Fleetwood Mac" é a melhor representação possível desse fenômeno.

... um pouco sobre Peter Green.

A primeira grande oportunidade de Peter Green foi substituir Eric Clapton no John Mayall's Bluesbreakers, e ele surpreendeu a todos ao provar ser um guitarrista igualmente magistral. Sua namorada na época atribuiu sua sensibilidade às provocações que ele sofreu na infância por ser judeu. 

"Obviamente, as cicatrizes ainda estavam lá, disse Sandra Elsdon-Vigon, para ele, o blues é o blues judaico".

A famosa Gibson Les Paul, Greeny.
Quando Green deixou a banda de John Mayall em 1967, seu plano original era se mudar para Chicago e tocar em uma banda de blues. Em vez disso, ele permaneceu em Londres e formou uma banda de blues de Chicago com a sólida seção rítmica de Mick Fleetwood na bateria, John McVie no baixo e Jeremy Spencer guitarra-voz-piano. 

Batizar sua nova banda com o nome da seção rítmica não foi um ato de modéstia, mas para evitar o que considerava o virtuosismo autoindulgente do power trio de Eric Clapton, o Cream. Green e Spencer representavam dois lados do Fleetwood Mac: Green, ferozmente disciplinado, e Spencer, definido por seus cabelos cacheados e sua guitarra slide estridente, no estilo de Elmore James. Aqui está o Fleetwood Mac na televisão francesa, com Green cantando uma música de Otis Rush, "Homework".

O Fleetwood Mac alcançou enorme sucesso na Grã-Bretanha e chegou ao topo das paradas com a melancólica e avançada música instrumental de Peter Green, "Albatross". Os dois primeiros álbuns da banda, lançados no mercado estadunidense como: Fleetwood Mac e English Rose, estão entre os melhores álbuns de blues britânicos de todos os tempos.

Single gravado por Santana.
A música mais conhecida do início da carreira do Fleetwood Mac é "Black Magic Woman", famosa na versão de Santana, e é fácil perceber a influência que o estilo descontraído de Peter Green teve sobre Carlos Santana. No terceiro álbum da banda, Then Play On, músicas com uma pegada mais rock começaram a aparecer no repertório. Uma das melhores foi a percussiva jam de guitarra "Oh Well", uma música dividida em duas partes, sendo a segunda composta de um solo intenso e complexo, quase um rock progressivo.

Você acha que Hugh Hefner captou a piadinha maliciosa quando a banda tocou "Rattlesnake Shake" em seu programa de televisão, Playboy After Hours?

A formação original do Fleetwood Mac implodiria em 1970. Peter Green sentia-se culpado pelo sucesso financeiro que a música lhe proporcionava e ficou inquieto quando seus companheiros de banda rejeitaram a ideia de doar a maior parte do dinheiro para a caridade. Finalmente, após uma experiência particularmente ruim com LSD em Munique, na Alemanha, Green anunciou que deixaria o grupo. O estado mental de Green deteriorou-se durante a década de 1970 e ele acabou internado em uma instituição psiquiátrica, onde foi submetido a eletrochoque.

Em meados da década de noventa, músicos e amigos ajudaram Peter Green a retomar sua carreira artística, e ele voltou formando uma banda que batizou de "Peter Green & Splinter Group". E, apesar de algumas limitações e dificuldades físicas, seu talento e sensibilidade para o Blues nunca morreram. Mas isso fica para outra história...

A famosa e conturbada formação da banda.
A Era Pop de maior visibilidade e sucesso da banda.

Enquanto isso, o Fleetwood Mac se transformou numa das bandas de maior sucesso Pop durante a década de setenta. A famosa formação contava com Lindsey Buckingham, Stevie Nicks e Christine McVie, além dos fundadores da banda John McVie e Mick Fleetwood. Eles lançaram vários álbuns de sucesso se tornando uma das maiores bandas do mundo com o disco "Rumours", de 1977. 

O Fleetwood Mac possui uma das histórias mais intrigantes da história da música. Com muitas formações, essa mais famosa envolve relações de amor e ódio, brigas, uso de drogas e discos consagrados, como Fleetwood Mac (1975), Tusk (1979) e o recordista Rumours (1977). 
Essas tensões trouxeram desconfianças, traições e separações entre os casais da banda (Lindsey Buckingham-Stevie Nicks e John Mcvie-Christine McVie) causando a expulsão do guitarrista/vocalista Buckingham. Mas no final tudo ficou em paz e resolvido à partir dos anos dois mil.

Com certeza o Fleetwood Mac, desde seu início, possui uma das histórias mais intrigantes, dramáticas e cinematográficas da história da música.

" Long live Rock'n Roll "




quinta-feira, 12 de março de 2026

Fred Below

Fred Below

' Baterista criativo e inovador do Blues '

' A história e evolução da bateria do Blues '

' Sofisticação e padrão rítmico '

... história de Fred Below e a bateria do Blues.

Foi um dos bateristas mais importantes da história do blues de Chicago, ajudando a definir o papel da bateria no blues elétrico dos anos 1950. Com um estilo que combinava técnica de jazz e grooves simples e poderosos, ele consolidou o uso do shuffle e do backbeat nas gravações da Chess Records, criando um padrão rítmico que influenciaria diretamente o blues moderno e o nascimento do rock and roll.

Em muitas fotografias das sessões da Chess Records nos anos 1950, os músicos aparecem comprimidos em salas pequenas, cercados por microfones simples e equipamentos que hoje parecem quase improvisados. Aquelas gravações, feitas em Chicago, ajudariam a definir o som de uma era. Gaitas amplificadas, guitarras elétricas cruas, vozes carregadas de emoção. Mas, por trás de muitos desses discos que moldaram o blues moderno — e que, pouco depois, ajudariam a dar origem ao rock and roll — havia um elemento rítmico novo, mais firme, mais urbano, mais pulsante.

Esse elemento vinha da bateria.

E muitas vezes, o homem atrás do instrumento era Fred Below.


Para o público em geral, seu nome raramente aparece na mesma posição que os grandes cantores ou guitarristas do blues. Mas entre músicos e historiadores ele ocupa um lugar central. Fred Below foi o baterista que ajudou a definir o groove do Chicago blues elétrico — um estilo que, a partir das gravações da Chess Records, se tornaria uma das bases da música popular do pós-guerra. Seu toque combinava a sofisticação rítmica do jazz com a energia direta do blues urbano. Dessa mistura surgiria um padrão rítmico que se tornaria familiar para milhões de ouvintes: a caixa marcando com força os tempos dois e quatro do compasso, o chamado backbeat, um pulso que atravessaria o blues, o rock e grande parte da música popular das décadas seguintes.

Below nasceu como Frederick Below Jr. em 6 de setembro de 1926, na cidade de Chicago, Illinois, nos Estados Unidos. Ele morreu também em Chicago, em 13 de agosto de 1988, após uma carreira que atravessou algumas das décadas mais transformadoras da história da música americana.

Seus pais eram Frederick Below Sr. e Dorothy Carter, e ele cresceu em um ambiente urbano afro-americano onde jazz, rhythm and blues e música popular circulavam intensamente na vida cultural da cidade. Chicago, naquele período, era um dos principais centros musicais dos Estados Unidos, um lugar onde músicos vindos do sul do país se encontravam com bandas de jazz e orquestras urbanas.

Esse contexto cultural seria decisivo para a formação de Below. Ao contrário de muitos músicos de blues da geração anterior — que aprenderam música de maneira informal, muitas vezes em ambientes rurais ou em pequenos bares — ele receberia formação musical formal, algo relativamente raro entre bateristas ligados ao blues da época.

Essa formação começaria ainda na adolescência e ajudaria a moldar o estilo que mais tarde transformaria o ritmo do blues de Chicago.

É nesse ponto que começa a história da sua educação musical — uma trajetória que começa nas escolas de Chicago e passa por uma das mais influentes tradições de ensino musical da cidade.

Formação musical.

A educação musical de Fred Below começou em um dos ambientes mais importantes para a formação de músicos afro-americanos em Chicago: a DuSable High School. Durante as décadas de 1930 e 1940, a escola se tornou conhecida por formar alguns dos mais talentosos músicos de jazz da cidade, funcionando quase como um laboratório musical dentro do sistema público de ensino.

Ali, Below estudou com Walter Dyett, um educador lendário na história da música de Chicago. Dyett era conhecido por sua disciplina rigorosa e por exigir leitura musical, precisão rítmica e domínio técnico de seus alunos. Muitos músicos que passaram por suas aulas acabariam integrando orquestras de jazz, big bands e grupos profissionais nos anos seguintes.

Entre os colegas de escola de Below estava o saxofonista Johnny Griffin, que mais tarde se tornaria um dos grandes nomes do bebop. Ainda adolescentes, eles chegaram a tocar juntos em pequenos grupos de jazz, uma experiência que ajudou Below a desenvolver sua sensibilidade musical dentro de um contexto mais sofisticado do que aquele encontrado na maioria dos conjuntos de blues da época.

Essa base jazzística marcaria profundamente sua forma de tocar bateria. O controle de dinâmica, o senso de swing e a atenção à interação entre os músicos — elementos essenciais no jazz — permaneceriam presentes no estilo de Below mesmo quando ele passasse a tocar blues elétrico.

Depois de concluir seus estudos na DuSable High School, Below aprofundou sua formação na Roy C. Knapp School of Percussion, uma das mais respeitadas escolas de bateria dos Estados Unidos naquele período. Ali ele recebeu treinamento técnico completo em percussão, incluindo leitura musical, técnica de mãos, controle de dinâmica e estudo da história da música.

Esse tipo de formação era bastante incomum entre músicos de blues da geração anterior, muitos dos quais aprendiam o instrumento diretamente em contextos de performance, sem treinamento formal. No caso de Below, porém, a combinação entre educação musical estruturada e experiência prática em bandas de jazz criaria um músico com grande domínio técnico — algo que se tornaria evidente anos depois nas sessões de gravação da Chess Records.

Antes mesmo de entrar definitivamente na cena do blues, sua trajetória ainda passaria por outro episódio que marcaria sua formação: o serviço militar durante a segunda guerra. Inicialmente como soldado de infantaria, Below foi transferido para a 427th Army Band, uma banda militar na qual passou a tocar bateria regularmente. Para Below, essa experiência reforçou o domínio técnico que ele já vinha desenvolvendo desde os anos de escola em Chicago.

Quando Below voltou a Chicago, em 1951, a paisagem musical da cidade estava mudando rapidamente. O jazz — que havia dominado os clubes nas décadas anteriores — começava a perder espaço. No lugar dele surgia uma forma mais elétrica e urbana do blues, impulsionada por guitarras amplificadas, gaitas potentes e um público que buscava um som mais direto e dançante.

Era exatamente nesse cenário que Fred Below encontraria o caminho que definiria sua carreira.

Sua entrada no blues de Chicago aconteceria por meio de um grupo que logo se tornaria uma das bandas mais importantes da história do gênero.

A chegada ao blues de Chicago.

Quando Fred Below voltou definitivamente para Chicago, no início dos anos 1950, a cidade vivia uma transformação musical importante. O blues que havia migrado do sul dos Estados Unidos nas décadas anteriores começava a se eletrificar. Nos bares e clubes do lado sul e do lado oeste da cidade, guitarras amplificadas, gaitas distorcidas e bandas compactas substituíam cada vez mais os formatos acústicos ou próximos do jazz que haviam dominado o blues urbano das décadas anteriores.

Foi nesse contexto que Below entrou na cena do Chicago blues elétrico.

A conexão aconteceu por meio do baterista Elgin Evans, que tocava com Muddy Waters e que apresentou Below a um grupo que precisava de um novo baterista. A banda era conhecida como The Aces, formada por músicos que já circulavam na cena de Chicago: o gaitista Junior Wells, o guitarrista Louis Myers e o baixista Dave Myers. Pouco tempo depois, essa formação passaria a acompanhar um dos músicos mais revolucionários do blues da época: Little Walter.

Walter havia acabado de deixar a banda de Muddy Waters para iniciar sua carreira solo. Seu estilo de gaita amplificada — agressivo, virtuoso e profundamente influenciado pelo jazz — transformaria a forma como o instrumento era usado no blues. A banda que o acompanhava ficou conhecida como Little Walter and the Nightcats, e se tornaria uma das formações mais influentes do blues de Chicago nos anos 1950.

Para Fred Below, essa experiência foi decisiva. Tocando com músicos jovens, inovadores e profundamente conectados ao novo blues urbano da cidade, ele começou a desenvolver uma abordagem de bateria que não vinha apenas do blues tradicional, mas também de sua formação no jazz.

Uma das gravações mais importantes associadas a essa fase inicial foi “My Babe”, lançada por Little Walter em 1955 pela Chess Records. A música se tornaria um grande sucesso e ajudaria a consolidar a reputação da banda — e também a presença de Below como um baterista cada vez mais requisitado na cena musical de Chicago.

Pouco tempo depois, ele daria um passo que ampliaria enormemente sua influência: começaria a trabalhar regularmente como baterista de estúdio da Chess Records, a gravadora que estava registrando alguns dos discos mais importantes da história do blues.

Chess Records e as gravações que moldaram o Blues moderno.

Por volta de 1955, Fred Below deixou de atuar apenas como músico de banda e passou a trabalhar com frequência como baterista de estúdio da Chess Records, em Chicago. Essa mudança ampliaria enormemente sua influência. A Chess era, naquele momento, uma das gravadoras mais importantes da música afro-americana, responsável por registrar o trabalho de artistas que estavam redefinindo o blues urbano.

Nos estúdios da Chess, os músicos frequentemente participavam de sessões com diferentes artistas, e Below rapidamente se tornou um dos bateristas mais chamados para gravações. Isso significava que seu estilo rítmico acabava aparecendo em uma grande quantidade de discos — muitos deles hoje considerados clássicos da história do blues e do rock.

Entre os artistas com quem ele gravou estavam alguns dos nomes centrais da música americana do pós-guerra: Koko Taylor, Etta James, Chuck Berry, Bo Diddley, Elmore James, Howlin’ Wolf, Otis Rush e Buddy Guy.

Em várias dessas sessões, Below ajudou a estabelecer um tipo de groove que se tornaria característico das gravações da gravadora. A bateria não era mais apenas um acompanhamento discreto, como frequentemente acontecia nas gravações de blues anteriores. Ela começava a assumir um papel estrutural dentro da música, criando uma base rítmica sólida que sustentava guitarras elétricas, gaitas amplificadas e vozes intensas.

Algumas das gravações mais conhecidas nas quais Below participou ocorreram em sessões de Chuck Berry, cujo estilo ajudaria a abrir caminho para o rock and roll. Entre elas estão músicas que se tornariam clássicos da música popular: “Roll Over Beethoven” (1956), “School Days” (1957), “Sweet Little Sixteen” (1957) e “Johnny B. Goode” (1958).

Nessas gravações, é possível ouvir claramente um tipo de pulsação rítmica que se tornaria familiar para gerações posteriores. O groove é direto, dançante e firmemente ancorado na bateria — um contraste evidente com o tipo de acompanhamento mais leve que caracterizava grande parte do blues gravado nas décadas anteriores.

Para entender o impacto de Fred Below, é necessário lembrar que a bateria não sempre teve o papel central que viria a assumir no blues elétrico de Chicago. Durante grande parte da história inicial do gênero, o ritmo era construído de maneiras muito diferentes.

No blues rural do sul dos Estados Unidos, especialmente nas primeiras décadas do século XX, a bateria muitas vezes simplesmente não existia. O pulso da música vinha de outras fontes: do violão tocado com força rítmica, do piano boogie, de palmas ou até do som dos pés marcando o tempo no chão. Artistas como Robert Johnson e muitos outros músicos do Delta criavam grooves completos apenas com guitarra e voz.

Quando o blues começou a se urbanizar, entre os anos 1930 e 1940, a bateria passou a aparecer com mais frequência, mas seu papel ainda era bastante diferente daquele que se tornaria padrão décadas depois. Nessas formações urbanas iniciais, o estilo de bateria era fortemente influenciado pelo jazz swing.

O padrão típico incluía: ride cymbal constante, caixa discreta com groove leve e circular.

A bateria funcionava mais como um acompanhamento fluido do que como o motor rítmico da banda. O peso da música geralmente vinha do piano, do contrabaixo ou da guitarra.

Outra influência importante veio do chamado jump blues, um estilo popular nos anos 1940 que misturava blues com elementos de big band e swing. Nessas bandas maiores, a bateria seguia padrões próximos aos das orquestras de jazz: grooves dançantes, com forte sensação de swing, mas ainda sem a acentuação pesada da caixa que viria a caracterizar o blues elétrico dos anos 1950.

Foi nesse cenário que Fred Below introduziu uma mudança que parece simples, mas que acabaria transformando profundamente o som do blues urbano — e, pouco depois, da música popular em geral. Essa mudança estava concentrada em um elemento específico da bateria: o backbeat.

A revolução rítmica: o backbeat do Chicago Blues.

A principal contribuição de Fred Below para o blues não foi uma virada espetacular de bateria nem um estilo cheio de fills complexos. Sua inovação foi mais sutil — e justamente por isso tão duradoura. Ele ajudou a consolidar um padrão rítmico simples, direto e extremamente eficaz: o backbeat forte na caixa da bateria.

Em um compasso comum de 4/4, o tempo musical é contado assim:

1 — 2 — 3 — 4

No blues anterior aos anos 1950, a bateria raramente enfatizava fortemente esses tempos intermediários. A condução rítmica vinha mais do ride cymbal, herdado do jazz, enquanto a caixa aparecia de maneira mais discreta.

Fred Below mudou esse equilíbrio.

Em muitas das gravações do Chicago blues feitas na Chess Records, ele passou a destacar com clareza os tempos 2 e 4, usando a caixa como ponto de apoio do groove. O padrão básico podia ser ouvido de forma muito simples:

Bumbo - CAIXA - Bumbo - CAIXA

Essa pequena mudança produzia um efeito enorme. A música ganhava peso rítmico, clareza e uma sensação física de pulso que convidava o corpo a acompanhar a batida. O groove deixava de ser apenas circular e passava a ter um eixo forte, um ponto de impacto que organizava a banda inteira.

Fred Below não abandonou o swing do jazz — pelo contrário. Seu toque continuava carregando a fluidez e a dinâmica que vinham da tradição jazzística. A diferença é que ele aplicou essa sensibilidade a um contexto musical mais direto e amplificado. O resultado era um groove que ao mesmo tempo swingava e empurrava a música para frente.

Esse padrão rítmico acabou se tornando a base do Chicago blues elétrico. E, talvez ainda mais importante, ele também se tornaria a base do rock and roll nascente.

Quando ouvimos as gravações de Chuck Berry da segunda metade dos anos 1950 — músicas como “Roll Over Beethoven”, “School Days” ou “Sweet Little Sixteen” — já encontramos esse tipo de pulsação claramente estabelecida. A bateria não está apenas acompanhando: ela define o groove da música.

Com o passar dos anos, essa forma de marcar o tempo se tornaria tão comum que muitos ouvintes deixariam de perceber que ela havia sido, um dia, uma inovação.

Mas entre músicos e historiadores do blues, a ideia aparece repetidamente: Fred Below ajudou a criar o modelo rítmico que conectou o blues urbano ao rock and roll.

Essa percepção aparece não apenas em análises históricas, mas também nos comentários de músicos que estudaram profundamente as gravações da Chess Records.

O que músicos e historiadores dizem sobre Fred Below.

Embora o nome de Fred Below não seja tão conhecido do grande público quanto o de muitos cantores e guitarristas do blues, entre músicos e historiadores sua importância aparece de forma recorrente. Diversos artistas e pesquisadores que estudaram as gravações da Chess Records apontam seu trabalho como um elemento fundamental na formação do groove do Chicago blues.

O compositor e baixista Willie Dixon, que trabalhou intensamente com a Chess Records e participou de inúmeras gravações clássicas do blues, descreveu Below como um dos bateristas mais sólidos da cena de Chicago. Em seu livro I Am the Blues, publicado em 1989, Dixon comentou:

“Fred Below was one of the most solid drummers we had in Chicago. He could swing like a jazz drummer but still play the blues the way it needed to be played.”

O guitarrista Buddy Guy, que também participou de diversas sessões históricas da gravadora, destacou em uma entrevista à revista Modern Drummer em 2006 a segurança rítmica que Below trazia às bandas em que tocava:

“Quando ele estava na bateria, você não precisava ser preocupar com o ritmo.”

Historiadores do blues também reconheceram seu papel. No livro Deep Blues, publicado em 1981, o escritor e crítico musical Robert Palmer descreveu a bateria de Below como parte essencial do desenvolvimento do estilo rítmico do Chicago blues e como uma ponte para o rock and roll nascente.

Uma análise semelhante aparece no trabalho do historiador Peter Guralnick, autor de Feel Like Going Home (1971). Em seus estudos sobre a história do blues, Guralnick descreve músicos como Below como responsáveis por estabelecer o groove característico das sessões da Chess nos anos 1950, contribuindo para o som que definiria o blues urbano daquela década.

Entre bateristas contemporâneos, essa percepção continua presente. O músico e pesquisador Vinnie Sperrazza, em um artigo dedicado ao estudo do backbeat publicado em 2018, afirmou que Fred Below praticamente criou o modelo de batida de blues usado em inúmeras gravações da Chess Records.

Mesmo músicos do universo do rock que estudaram o catálogo da gravadora reconheceram essa influência. Levon Helm, baterista do grupo The Band, escreveu em suas memórias que muitas das gravações da Chess continham algumas das maiores seções rítmicas já registradas, citando Fred Below entre os músicos que tornavam aqueles grooves possíveis.

O guitarrista Keith Richards, dos Rolling Stones — uma banda profundamente influenciada pelo blues de Chicago — também comentou em sua autobiografia Life (2010) sobre a força das seções rítmicas presentes nas gravações da Chess, destacando o papel dos bateristas que impulsionavam aquela música.

Comentários semelhantes aparecem em entrevistas e depoimentos de músicos como Mick Fleetwood, Steve Jordan e Jim Keltner, todos bateristas que estudaram profundamente as gravações clássicas do blues e frequentemente apontam Fred Below como um dos arquitetos do groove que mais tarde moldaria o rock.

Ao longo das décadas, essa avaliação se consolidou entre historiadores e músicos: Fred Below foi um dos responsáveis por estabelecer o padrão rítmico do blues elétrico de Chicago — um padrão que atravessaria o rock, o soul e grande parte da música popular do pós-guerra.

Esse reconhecimento também aparece em listas e revisões históricas da bateria na música popular. Em 2016, a revista Rolling Stone incluiu Fred Below em sua lista dos 100 maiores bateristas de todos os tempos, um reconhecimento tardio para um músico cuja influência sempre esteve mais presente no som das gravações do que nos holofotes da fama.

As sessões da Chess e o nascimento do groove moderno.

Entre as muitas gravações feitas em Chicago nos anos 1950, poucas tiveram tanto impacto quanto “Juke”, lançada por Little Walter em 1952. A música se tornaria o maior sucesso instrumental da história do blues e ajudaria a consolidar o novo som que estava surgindo na cidade. Nessas sessões, a gaita amplificada de Walter ocupava o centro da música, mas o groove da banda — construído pela bateria, pelo baixo e pela guitarra — era igualmente decisivo.

Foi nesse ambiente que Fred Below começou a se tornar uma figura cada vez mais presente. Quando passou a trabalhar regularmente com a Chess Records, ele entrou para um sistema típico da indústria musical da época: o dos músicos de estúdio. Em muitas gravadoras, havia instrumentistas que participavam de gravações de vários artistas diferentes. Como resultado, esses músicos acabavam contribuindo para criar uma identidade sonora comum entre discos aparentemente distintos.

Fred Below trouxe para esse ambiente algo que vinha de sua formação jazzística: controle de dinâmica, economia de notas e uma grande atenção ao groove coletivo da banda. Em vez de tocar de maneira excessivamente ornamentada, ele desenvolveu um estilo simples e sólido, focado em sustentar o ritmo da música.

Esse tipo de abordagem acabaria se tornando um modelo para o blues elétrico.

Mas sua contribuição não se limitava ao estilo geral de tocar. Ela também aparecia em padrões rítmicos específicos — grooves que se repetiriam em inúmeras gravações da Chess e que ajudariam a definir o som do blues urbano.

O shuffle de Chicago e a ponte para o rock.

Um dos elementos centrais do estilo de Fred Below era o uso consistente do shuffle, um tipo de groove baseado em subdivisões ternárias que dá ao blues aquela sensação característica de balanço. O shuffle já existia no blues e no jazz antes dos anos 1950, mas nas mãos de Below ele ganhou uma forma mais direta e poderosa.

O padrão básico que aparece em muitas gravações do Chicago blues pode ser descrito de forma simples: o bumbo marca o pulso principal enquanto a caixa acentua os tempos dois e quatro do compasso. Sobre essa base, o prato ou o hi-hat executa uma subdivisão swingada, criando o balanço característico do shuffle.

Esse groove tinha duas qualidades importantes. Ao mesmo tempo em que mantinha a fluidez herdada do jazz, ele também oferecia um pulso muito claro para a banda. Guitarras, baixos e gaitas podiam se apoiar nessa base rítmica sólida para construir riffs repetitivos e linhas melódicas intensas — características que se tornariam marcas do blues elétrico de Chicago.

A importância desse padrão rítmico ficaria ainda mais evidente quando o blues começou a influenciar diretamente o rock and roll. Nas gravações de Chuck Berry feitas na Chess Records durante a segunda metade dos anos 1950, já é possível ouvir claramente esse tipo de groove. A bateria empurra a música para frente com um backbeat firme enquanto as guitarras desenvolvem riffs que se tornariam alguns dos mais famosos da história do rock.

Nesse sentido, Fred Below pode ser visto como um dos músicos que ajudaram a construir a ponte entre dois mundos musicais. Seu estilo nasceu dentro da tradição do blues de Chicago, mas a lógica rítmica que ele ajudou a estabelecer se tornaria parte fundamental da linguagem do rock nas décadas seguintes.

Por isso, mesmo que seu nome não seja tão conhecido quanto o de muitos cantores e guitarristas do blues, sua influência continua presente em algo que milhões de ouvintes reconhecem imediatamente: o groove do blues — e o pulso que daria origem a grande parte da música popular moderna.

Importância de Fred Below.

Fred Below não foi apenas um baterista de estúdio que participou de algumas gravações importantes. Ele esteve no centro de um momento decisivo da história da música.

Sua formação no jazz, sua disciplina técnica e sua capacidade de adaptar essas qualidades ao blues urbano criaram um novo tipo de groove — um groove que ajudou a definir o som do Chicago blues elétrico. A partir das gravações da Chess Records nos anos 1950, esse padrão rítmico se espalharia rapidamente, tornando-se parte essencial do nascimento do rock and roll.

Em muitas histórias do blues, os nomes mais lembrados são os cantores, guitarristas e gaitistas que estavam na linha de frente da música. Mas, no coração de muitas dessas gravações, marcando com firmeza o pulso que faria aquelas músicas atravessarem gerações, estava a bateria de Fred Below.

Um dos grooves mais duradouros da música popular.