Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Samatha Fish


História, e o álbum: Paper Doll

Uma das guitarristas mais formidáveis ​​de sua geração, Samantha Fish demonstra uma bravura inigualável, trazendo tanto um poder impressionante quanto uma extraordinária emotividade a tudo o que cria. 
nasceu e foi criada em Kansas City, Missouri. Fish começou a tocar bateria antes de mudar para a guitarra aos quinze anos. Além disso, Samantha, enquanto crescia em Kansas City, costumava ir ao clube de blues local, o Knuckleheads Saloon, para conferir e ouvir artistas de blues visitantes. Aos dezoito anos, Fish começou a se sentar com quem estava tocando no Knuckleheads Saloon em uma determinada noite. Samantha gravou e lançou o álbum “Live Bait” com seu grupo, a Samantha Fish Blues Band, em 2009. Este álbum atraiu a atenção de uma empresa de talentos, o que, por sua vez, fez com que Fish recebesse um contrato de gravação com a gravadora de blues Ruf Records. Samantha participou do álbum “Girls with Guitars” com outras artistas femininas de blues Cassie Taylor e Dani Wilde em 2010, bem como fizeram turnês pela América e Europa com Taylor e Wilde. Além disso, Fish dividiu o palco com artistas de blues notáveis como Buddy Guy, a Tommy Castro Band, Shirley King, Kenny Neal, Watermelon Slim, e Tab Benoit.

Desde que apresentou ao mundo seu talento extraordinário, a artista, que já ganhou diversos prêmios e é atração principal em festivais, construiu uma carreira triunfante, cujos marcos mais recentes incluem uma indicação ao Grammy por Death Wish Blues (sua colaboração de 2023 com o roqueiro Jesse Dayton) e a abertura dos shows da última data da turnê americana dos Rolling Stones em 2024. Em seu novo álbum, Paper Doll , Fish oferece nove canções poderosas que impactam com uma força irresistível, cada uma entregue com uma dose primorosa de insights esclarecedores, empatia reconfortante e — acima de tudo — uma clareza de visão renovada. "Levei anos para finalmente encontrar minha voz em um estúdio", admite Fish. "Mas com este disco, peguei tudo o que tinha e coloquei na mesa."

O primeiro álbum de Fish gravado com sua banda de turnê, Paper Doll, leva o título da primeira música que a musicista nascida em Kansas City compôs para o LP: um grito de guerra cru, porém reflexivo, que encapsula perfeitamente o espírito de desafio sem remorso do álbum. "Essa música é um hino feminista, de certa forma — mas, pensando bem, toda música é um hino feminista quando você é uma mulher escrevendo a partir da sua própria experiência", diz Fish. "Trata-se de se rebelar contra as expectativas alheias sobre quem você deveria ser, o que parece bastante relevante para os tempos em que vivemos agora." “Runaway” ganhou o Blues Music Award de 2012 de Melhor Artista Revelação. Samantha passou a gravar e lançar vários outros álbuns após sua aclamada estreia. 

PAPER DOLL: Gravado no The Orb em Austin e no Savannah Studios em Los Angeles, Paper Doll marca o lançamento mais recente de um catálogo intransigente e infinitamente aventureiro, que a levou a trabalhar com luminárias como Jon Spencer, do Jon Spencer Blues Explosion, e Luther Dickinson (cofundador do North Mississippi Allstars e ex-membro do Black Crowes). Desta vez, Fish se reuniu com o ícone do garage rock de Detroit, Bobby Harlow, que também produziu seu LP de 2017, Chills & Fever . “Quando olho para trás e penso em Chills & Fever, percebo que Bobby estava me impulsionando para lugares legais e perigosos, mas naquela fase da minha vida eu estava me contendo um pouco”, diz ela. “Agora estou em um ponto em que estou pronta para dar às pessoas algo totalmente inesperado, algo que quebra a fórmula pop e realmente se dá ao trabalho de contar uma história com a guitarra.”

Para ajudar a moldar o som magnificamente estridente, porém cheio de nuances, de Paper Doll , Fish uniu forças com os companheiros de banda Ron Johnson (baixo), Jamie Douglass (bateria) e Mickey Finn (teclados), gravando a maior parte do álbum em meio a uma agenda de turnês exaustiva, que incluiu uma série de shows com Slash no festival SERPENT do lendário guitarrista, no verão de 2024. "Eu nunca tinha gravado um disco na estrada daquele jeito", revela Fish. "Mesmo sendo tão intenso, foi bom manter o ritmo dos shows ao vivo. Isso nos ajudou a fazer um álbum com uma pulsação viva e pulsante."

Com um equilíbrio poderoso entre catarse e introspecção, ousadia e vulnerabilidade, Paper Doll abre com os riffs sublimemente melancólicos de “I'm Done Runnin'” — uma declaração revigorante de autoconfiança, expressa com uma segurança inabalável (do refrão: “Quando me olho no espelho, encarando o desconhecido/O mundo não está ficando mais claro, mas gosto de onde estou indo”). “É sobre seguir em frente mesmo quando a vida te derruba, porque você sabe o que quer”, explica Fish. Uma das várias canções parcialmente compostas com seu parceiro de longa data, Jim McCormick (um compositor de sucessos multiplatinados cujos créditos também incluem Luke Bryan e Tim McGraw), “I'm Done Runnin'” extrai grande parte de seu impacto da confiança crescente de Fish em sua capacidade vocal. “Cantar ao vivo no palco é uma coisa, mas aprender a trazer essa energia para o estúdio é completamente diferente”, ela destaca.


Outra faixa repleta de atitude impetuosa e autoconfiança conquistada com muito esforço, “Lose You” explode em um ritmo alucinante quando Fish confronta um pretendente indeciso, adornando sua resposta com um solo de guitarra incendiário e as harmonias envolventes dos backing vocals D. Scaife, Keo e Gabbi Beauvais. “É uma música sobre assumir o controle e dar as cartas em um relacionamento”, diz Fish. “É a minha maneira de dizer: 'Estou pegando fogo e você não, então o que você vai fazer a respeito?'” Mais tarde, na divertidíssima “Rusty Razor”, Paper Doll parte para o ataque com uma diatribe brutalmente cativante contra as infinitas injustiças da vida, amplificando a exuberância punk pura da faixa com a ajuda do vocalista convidado Mick Collins (cofundador das bandas seminais de Detroit, The Gories e The Dirtbombs). “Quanto mais velho você fica, mais você pode se tornar insensível a todas as coisas ruins que acontecem na vida — seja a morte prematura de amigos ou trabalhar tanto e nunca chegar aonde você quer”, diz Fish. “Mas a verdade é que nunca devemos nos acostumar a ter nossos corações partidos dessa maneira.”

Embora uma intensidade febril impulsione grande parte de Paper Doll, o álbum mergulha em uma languidez onírica em canções como “Fortune Teller” (um blues psicodélico de ritmo lento, conduzido por uma performance vocal particularmente fascinante de Fish). Enquanto isso, “Sweet Southern Sounds” se desenrola em riffs intensos e melodias exuberantes de órgão, culminando em uma epopeia introspectiva que se torna gloriosamente frenética em seus momentos finais. Coescrita com o também cantor e compositor de Nova Orleans, Anders Osborne, o resultado é uma meditação envolvente sobre uma tensão muito familiar àqueles que são ferozmente devotados à sua paixão. “É um hino sobre estar na estrada e se sentir culpado por não priorizar as pessoas em sua vida”, diz Fish. “É difícil encontrar esse equilíbrio entre cuidar dos seus relacionamentos e se dedicar à sua música, e definitivamente há um toque de mágoa nessa canção.”

Uma verdadeira apaixonada por música, que cita artistas ecléticos como Prince, Leonard Cohen e Black Sabbath entre suas influências, Fish se viu especialmente fascinada por heróis do blues do Delta, como Junior Kimbrough e RL Burnside, ao compor Paper Doll. "Eu adoro como em muito do blues do Mississippi Hill Country existe um zumbido constante nas notas graves que te hipnotiza durante toda a música", diz ela. "Grande parte do trabalho de guitarra neste disco é inspirado por esse estilo de tocar — e a partir daí explode em todas as direções, do rock and roll ao soul e ao pop." Ao esculpir uma obra tão abrangente, Fish encontrou um parceiro criativo ideal em Harlow, que também coescreveu várias músicas em Paper Doll. "Eu posso ser perfeccionista quando se trata de gravar, e foi ótimo ter o Bobby por perto para me impedir de tentar acertar a nota exata roboticamente repetidas vezes", diz ela.

E como uma artista nata que começou sua carreira folheando a lista telefônica e ligando para bares locais em busca de shows na adolescência, Fish compôs cada música de Paper Doll pensando em seu show ao vivo incendiário. “O principal objetivo é fazer músicas incríveis que expressem o que estou sentindo no momento, mas ao mesmo tempo me pergunto: 'Como isso vai soar ao vivo?'”, diz ela. “Estou sempre pensando em como ampliar nosso repertório e montar um show incrível para quando voltarmos à estrada.”

Considerado por muitos como seu trabalho mais completo até o momento, Paper Doll surgiu da aceitação deliberada, por parte de Fish, dos dons musicais inefáveis ​​que ela cultivou por quase toda a sua vida. “Quando começamos a trabalhar neste disco, me perguntei: 'Quais são os meus superpoderes?' Eu queria explorar meus pontos fortes de uma maneira que nunca tinha feito completamente antes, criar um álbum com muita guitarra, performances épicas e cantar com toda a minha alma”, diz ela. “Acabei colocando muita emoção em todas as músicas e espero que elas ajudem as pessoas a se sentirem motivadas e prontas para enfrentar qualquer desafio. Adoraria que este disco fosse o combustível de alguém.”


segunda-feira, 22 de junho de 2026

Samantha Fish

Samantha Fish
'O Conselho de Luther Dickinson'

Conhecida por seu trabalho no blues contemporâneo, Samantha Fish compartilha o ensinamento que transformou sua abordagem à improvisação.

Samantha Fish revelou recentemente um conselho recebido de Luther Dickinson que mudou completamente sua forma de encarar os solos de guitarra. Conhecida por seu trabalho no blues contemporâneo, a artista contou que, no início da carreira, costumava aproveitar cada oportunidade para exibir todos os recursos técnicos que dominava, até perceber que isso nem sempre servia à música.

Em entrevista à Guitar Interactive Magazine, Fish explicou que sua abordagem mudou durante as gravações do álbum Wild Heart, lançado em 2015. Foi naquele período que recebeu uma orientação direta de Dickinson que acabaria redefinindo sua maneira de compor e improvisar. Samantha Fish admite que exagerava nos solos no início da carreira. Segundo a guitarrista, era comum utilizar uma grande quantidade de frases e licks sempre que surgia um espaço para um solo.

“Quando eu era jovem, sempre que tinha a oportunidade de fazer um solo de guitarra, eu usava todos os truques que conhecia”, afirmou. “Estou no mundo do blues, então em muitas jam sessions o importante é improvisar em cima da forma original, e eu dizia coisas como: ‘Aqui está esse lick, aqui está esse lick’.”

A postura é familiar para muitos guitarristas em desenvolvimento. O desejo de demonstrar técnica frequentemente leva o músico a priorizar velocidade, vocabulário e complexidade em vez da construção musical da própria canção.

O conselho de Luther Dickinson que mudou tudo.

A mudança aconteceu durante as sessões de gravação de Wild Heart. Fish relembra que estava tentando construir um solo quando Dickinson interrompeu sua execução com uma observação bastante direta.

“Eu estava tentando fazer um solo, e ‘tentando’ é a palavra-chave aqui, e ele chegou e disse: ‘É tudo besteira!’.”

Na sequência, Dickinson apresentou uma abordagem completamente diferente.

Segundo a guitarrista, ele explicou que a música já possuía uma melodia forte e que o solo deveria dialogar com ela, em vez de ignorá-la.

“Tem uma melodia na música; você consegue ouvir o refrão quando está cantando. Você precisa pegar isso e construir algo em cima disso, criar um contra-refrão e desenvolver a partir daí”, recorda.

A ideia levou Fish a enxergar o solo não como um momento isolado, mas como uma continuação natural da composição, porque os grandes solos costumam receber aplausos. A partir daquela experiência, Samantha Fish passou a prestar mais atenção à construção melódica de seus improvisos.

Ela percebeu que muitos dos solos mais marcantes utilizam um conceito relativamente simples: apresentar uma ideia, desenvolvê-la e, no momento de maior tensão, retornar ao tema principal.

“Percebi que é isso que você faz; você cria um gancho, desenvolve a partir dele, tece algo empolgante, e se você consegue retornar a esse gancho no final do solo, quando ele atinge seu ápice, é daí que vêm os aplausos”, explicou.

Para a guitarrista, existe algo especialmente poderoso quando o solo se conecta novamente à melodia que o ouvinte já conhece. Em vez de soar como uma demonstração técnica desconectada do restante da música, ele passa a reforçar elementos que já estavam presentes na composição.

Da técnica à musicalidade.

Fish afirma que a lição mudou sua forma de pensar a guitarra. Hoje, ela procura construir solos que contribuam para a narrativa da música, explorando dinâmica, espaço e desenvolvimento melódico antes de recorrer a recursos puramente técnicos.

“Na música, o que estamos tentando fazer além de compor melodias incríveis que realmente cativem as pessoas?”, questionou.

A guitarrista reconhece que, durante os primeiros anos de carreira, estava excessivamente preocupada em mostrar tudo o que era capaz de fazer no instrumento. Com o tempo, descobriu que ideias simples, quando executadas com intenção e musicalidade, costumam gerar resultados mais impactantes.

Essa filosofia pode ser percebida em seus trabalhos mais recentes, incluindo Paper Doll Live, nos quais a construção das canções e das melodias ocupa papel central.

Para Samantha Fish, a maior lição foi compreender que um grande solo não nasce necessariamente da quantidade de notas tocadas, mas da capacidade de reforçar e expandir a emoção que a música já transmite.

Matéria:



domingo, 21 de junho de 2026

Johnny 'Guitar' Watson

Johnny 'Guitar' Watson
' A influência dos guitarristas '

Space Guitar precisa ser ouvida para ser acreditada. Se uma única faixa pudesse pavimentar o caminho até Jimi Hendrix e além, seria esta: A vida e a obra de Johnny 'Guitar' Watson, o verdadeiro guitarrista original que inspirou Frank Zappa e Steve Ray Vaughan – além de Ice Cube, Jay-Z e Mary J. Blige.
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De pioneiro do blues urbano a astro do funk 'Superfly', a carreira de mais de 40 anos de Watson o viu navegar pelo período mais explosivo da história da música e, ao contrário de muitos, ele conseguiu manter-se atento às tendências e sua música relevante para os tempos.

John Watson Jr. nasceu em Houston, Texas, em 3 de fevereiro de 1935. Quando criança, aprendeu piano com seu pai, John Watson Sr. No entanto, como muitos jovens negros que atingiram a maioridade em meados e no final da década de 1940, foi o poderoso T-Bone Walker, mais conhecido por sua icônica composição "Stormy Monday", que o cativou e o fez querer ser guitarrista.

A influência de T-Bone Walker no rumo que o blues e o rock 'n' roll tomaram posteriormente é inestimável. Uma série de ótimas gravações do final dos anos 40 conquistaram o coração de artistas como B.B. King, Chuck Berry e Jimi Hendrix – e o jovem Watson não foi exceção.

Johnny ganhou seu primeiro violão de presente de seu avô, um pastor, que concordou em deixá-lo com um sob a condição de que ele “nunca o usasse para tocar a música do diabo” – ou seja, o blues. Após a separação de seus pais em 1950, Johnny se mudou com a mãe para Los Angeles e rapidamente se tornou uma figura importante na cena do blues de Los Angeles, ignorando completamente o pedido de seu avô!

Aos 15 anos, Watson já trabalhava regularmente nos bares da cidade, tocando guitarra e piano. Ele também frequentava os clubes de jazz e teve a oportunidade de ouvir gigantes como Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Mais tarde, Johnny refletiu que, naquela época, o jazz e o blues eram como duas faces da mesma moeda. Os músicos daquela época abraçavam ambos igualmente e, na prática, eram os contratos com os estúdios de gravação que determinavam se um artista se especializaria em um ou outro.

Em 1952, com apenas 17 anos e anunciado como 'Young John Watson', Johnny fez suas primeiras gravações ao piano para a Federal Records. Músicas como Pachuko Hop e Motor Head Baby mostravam Watson tocando o típico piano R&B vibrante da época. Em poucos anos, porém, o piano seria substituído pela guitarra como o principal instrumento a ditar o ritmo – e Watson estaria bem no centro disso.

Em 1954, foi lançado o filme Johnny Guitar, um faroeste estrelado por Joan Crawford. Após assistir ao filme, o artista anteriormente conhecido como Young John Watson tornou-se Johnny 'Guitar' Watson e, a partir desse momento, o violão tornou-se o principal meio de expressão de Watson.

Então, do nada, surgiu uma faixa que só pode ser descrita como de outro mundo. Johnny tinha apenas 19 anos quando gravou "Space Guitar" em 1954. Mesmo hoje, soa extraordinária, com o timbre da guitarra variando de completamente seco a carregado de reverb a cada lick. A performance de Watson na faixa é mordaz e agressiva, mas ao mesmo tempo repleta de humor e surpresas. Há até um refrão de jazz vibrante. Space Guitar precisa ser ouvida para ser acreditada. Se uma única faixa pudesse pavimentar o caminho até Jimi Hendrix e além, seria esta.

Sempre a guitarra como protagonista.

Nos anos seguintes, Johnny produziu uma série de gravações centradas em sua voz e guitarra. Embora sejam bastante convencionais para a época – muito blues e shuffles lentos em 12/8 com uma seção de metais à la T-Bone Walker – é a guitarra que se destaca, como se tivesse sido inserida na mixagem vinda do futuro. A forma de tocar de Johnny teve grande influência em artistas como Jimi Hendrix, Frank Zappa e, mais tarde, Stevie Ray Vaughan.

Tocando uma Telecaster nessa época, a abordagem e o ataque de Watson eram ferozes para essa era pré-Hendrix. Os licks que ele tocava são puro T-Bone Walker, muitas vezes nota por nota, com o timbre suave de Walker, extraído de uma Gibson archtop, agora substituída por uma Telecaster e um amplificador Fender no volume máximo. Watson tocava sem palheta, usando uma combinação de polegar e indicador. Preste atenção e você poderá ouvir as cordas estalando contra o braço do violão enquanto ele dedilhava, puxando a corda para longe da escala. Não há nenhum apoio clássico aqui.

Dizem que Johnny frequentemente precisava trocar as cordas várias vezes durante uma apresentação. Apesar dessa abordagem aparentemente brutal, há muita sutileza na música de Watson. Seu uso de bends microtonais e fraseados fora do tempo soa belíssimo quando contrastado com a distorção agressiva que ele empregava.

Johnny sempre usava um capo para mudanças de tom. Ele simplesmente o movia para cima ou para baixo no braço do violão, dependendo da tonalidade da música, e continuava a partir daí. Muitos podem ver isso como uma desculpa esfarrapada, mas há um método por trás disso. Significava que ele sempre seria capaz de explorar o som de uma corda solta, um som que ele desejava. Ele não foi o único a usar essa técnica; Albert Collins e Clarence 'Gatemouth' Brown também eram defensores do uso do capotraste.

"Apesar de sua abordagem aparentemente brutal ao tocar, há muita sutileza presente na música de Watson"

Outra peculiaridade de Watson era usar a guitarra com a alça sobre o ombro direito. Seu ídolo, T-Bone Walker, fazia o mesmo, assim como Freddie King, Albert Collins e muitos outros. Assistir a vídeos de Johnny em concertos parece explicar por que ele fazia isso. Ele frequentemente fazia um solo e depois largava a guitarra para cantar. Com a guitarra no ombro direito, ele conseguia colocá-la ou pegá-la muito mais rápido do que se a carregasse como a maioria dos músicos faz.

Havia também um elemento de exibicionismo nessa postura. Johnny tirava a guitarra no meio do solo e a agitava enquanto continuava tocando. Ele a apoiava no palco e continuava tocando também. Pense em Hendrix tocando com os dentes, atrás das costas, entre as pernas e como às vezes ele tocava com uma mão só.

Por mais brilhante e teatral que fosse, não era original. Esses truques já eram usados ​​pela maioria dos guitarristas de blues desde pelo menos a invenção do amplificador e, sem dúvida, Watson era um mestre do espetáculo, chegando a afirmar que "começou essa merda" quando questionado sobre a presença de palco de Jimi.

Influência silenciosa.

A gravadora de Johnny claramente tentou de tudo para conseguir um grande sucesso com ele durante os anos 50, mas poucos de seus muitos discos chegaram ao Top 40 das paradas de R&B da época. A gravadora o fez gravar de tudo, desde baladas pop a standards de jazz, muitas delas focando mais em sua bela voz do que em seu violão.

Mas, apesar disso, seu talento era reconhecido e ele exercia grande influência sobre artistas como Jimi Hendrix, Frank Zappa e, mais tarde, Stevie Ray Vaughan. Zappa citou a faixa "Three Hours Past Midnight" como a que o inspirou a pegar a guitarra e retribuiu o favor muitos anos depois, convidando Watson para tocar em quatro álbuns entre 1975 e 1985. 
Dois álbuns de 1977 solidificaram sua posição como o "gangster original", uma referência ao LP Gangster Of Love.

Com a mudança dos tempos e dos gostos na década de 1960, parecia que o auge de Johnny "Guitar" Watson já havia chegado ao fim. Nessa época, ele tocava uma Stratocaster e seu álbum homônimo de 1963 apresenta um timbre de guitarra um tanto mais suave. Já o álbum "I Cried For You", também de 1963, o traz de volta ao piano, interpretando uma seleção de standards de jazz; a guitarra ficou em casa para essa gravação.

Isso demonstra, no entanto, que ele era um músico completo, que conhecia a harmonia do jazz e era muito mais do que o bluesman pentatônico pelo qual é lembrado. Além de algumas outras visitas ao estúdio, porém, isso foi praticamente tudo o que Watson fez durante a década de 60. Ele voltou aos clubes e aceitou trabalhos onde pôde.

No início dos anos 70, o boom do blues que Watson ajudara a criar estava praticamente no fim. Os Beatles não existiam mais. Hendrix havia falecido tragicamente. O Cream havia se separado.

Muitas bandas que moldaram o som dos anos 60 em ambos os lados do Atlântico não sobreviveram até os anos 70, mas, de alguma forma, Johnny "Guitar" Watson, uma relíquia comparativa dos anos 50, encontrou uma maneira de se reinventar, descobrindo um novo som e uma nova imagem que o serviriam bem pelo resto da vida. Em 1973, já perto dos 40 anos, Watson lançou o álbum Listen. E ele claramente estava atento ao que acontecia na época. O funk e o soul estavam evoluindo para o que viria a ser a disco music, e Johnny tinha as habilidades como músico e produtor para se encaixar perfeitamente nesse movimento.

Filmes como Superfly e Shaft ajudaram a popularizar essa nova abordagem do funk. Era mais suave, mais jazzística e mais cerebral do que a música puramente dançante da qual havia evoluído. O timbre da guitarra de Johnny havia melhorado bastante e ele abandonou a Fender em favor de uma variedade de modelos Gibson. Até sua morte em 1996, ele podia ser visto e ouvido com uma SG, uma ES-335, uma ES-347 e uma Explorer.

Seu estilo de tocar também havia amadurecido. A essência ainda estava firmemente enraizada no blues, embora com uma abordagem mais comedida. Agora, a nova música de Watson permitia que ele adicionasse suaves passagens em oitavas e licks de bebop à mistura, juntamente com harmonias mais complexas.

Johnny também produziu seus próprios trabalhos gravados posteriormente e frequentemente tocava muitos dos instrumentos, um feito que seria uma grande inspiração para artistas como Prince e Lenny Kravitz. Ele tinha um talento especial para criar riffs matadores em torno dos quais construía músicas inteiras.

Etta James, famosa por seu trabalho em At Last!, disse que Watson era um "músico virtuoso que conseguia compor uma bela melodia ou um ritmo contagiante num piscar de olhos". Ainda assim, um grande sucesso lhe escapava. Ele assistiu novamente enquanto outros ganhavam fama e fortuna graças à sua inspiração. Foi somente em 1976, com o lançamento de Ain't That A Bitch , que ele finalmente alcançou o sucesso. O álbum ganhou disco de ouro, vendendo mais de 500.000 cópias, enquanto Johnny se enfeitava com chapéus de aba larga e ternos impecáveis, além de exibir dentes de ouro.

O gangster original.

Em 1977, dois álbuns, A Real Mother For Ya e Funk Beyond The Call Of Duty , solidificaram a posição de Watson como o "gangster original", uma referência a um de seus primeiros discos de maior sucesso, Gangster Of Love.

Esses álbuns são repletos de grooves funk precisos, acentuados por toques de metais. As letras são leves e, por vezes, bem-humoradas. As melodias são contagiantes, e tudo é sustentado por um blues de guitarra belamente fraseado e discreto, provando que o blues não precisa ser estridente para ser profundo.

Nas décadas de 80 e 90, Watson e sua banda fizeram extensas turnês pelos EUA, Europa e Japão. Existem muitos vídeos de seus shows que mostram um profissional consumado em ação, com total domínio sobre o público.

É possível perceber a diversão que Johnny e sua banda demonstram no palco, mas isso não compromete em nada a qualidade do grupo, com Watson à frente conduzindo a todos à igreja do blues funky que ele, a essa altura, já havia patenteado.

Foi durante uma turnê no Japão que Johnny desmaiou e morreu no palco, vítima de um ataque cardíaco. Sua música, porém, não morreu com ele. Ele continua a influenciar guitarristas até hoje – muitos deles sem sequer saber disso.

Watson certamente merece seu lugar ao lado de T-Bone Walker, BB King e Jimi Hendrix como um verdadeiro pioneiro da guitarra blues elétrica, mas há outra parte da história, já que sua música continua viva através de artistas como Ice Cube, Jay-Z e Mary J. Blige, que samplearam suas gravações para suas próprias criações.

Isso comprova que Johnny 'Guitar' Watson foi mais do que apenas uma figura importante na história da guitarra; ele foi, de fato, um músico magistral.

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sábado, 20 de junho de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Led Zeppelin


LED ZEPPELIN
'PHYSICAL GRAFFITI'
- 1975 -

Considerado geralmente como um dos maiores álbuns duplos de todos os tempos, o álbum traz quinze faixas originais que representam e demonstram toda criatividade e técnica que explora toda a dinâmica musical da banda. Desde o rock visceral de Custard Pie até a construção lírica e exótica de Kashmir, o groove verdadeiramente funky em Trampled Under Foot e o característico folk inglês em Bron-Yr-Aur.
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Jimmy Page iniciou o trabalho preliminar em seu estúdio caseiro em Plumpton, Sussex, Inglaterra, no verão e outono de 1973, com as primeiras sessões de gravação ocorrendo em outubro daquele ano em Headley Grange, utilizando o estúdio móvel de Ronnie Lane. Outras sessões em Headley continuaram em janeiro de 1974. Overdubs adicionais foram gravados no Olympic Studios, onde Page finalizou a mixagem do álbum em julho de 1974.

Physical Graffiti não foi apenas o primeiro álbum duplo da banda, mas também o primeiro lançamento de sua nova gravadora, Swan Song, que foi lançada em maio de 1974. O lançamento do álbum foi anunciado em 13 de novembro de 1974.

“Tínhamos material suficiente para um álbum e meio, então pensei: 'Vamos lançar um álbum duplo e usar algumas das músicas que já tínhamos gravado, mas nunca lançado'. Sempre achei que a sequência das faixas de um álbum era muito importante, e isso fazia parte do meu papel como produtor.” - Jimmy Page.

“Vai de um extremo ao outro, mas ao mesmo tempo, é muito evidente que é Led Zeppelin. Adoro o álbum e ele funciona muito bem como um álbum duplo. Tem algumas faixas realmente incríveis, estrondosas.” - Robert Plant.


“Na última noite no Earl's Court, tocamos 'Heartbreaker', 'Black Dog' e um pouco de 'Out On The Tiles'. Com a inclusão das músicas de Physical Graffiti, nosso repertório ficou muito mais variado.” - John Bonham.

“Sou um grande fã do Physical Graffiti. [Ele] era muito abrangente. Provavelmente foi um auge.” - John Paul Jones.

Physical Graffiti é composto por ecléticas e inéditas composições como: Kashmir, Sick Again, Ten Years Gone, The Wanton Song, Custard Pie, Trampled Under Foot e In My Time Of Dying, bem como músicas inéditas de sessões de álbuns anteriores como: Houses Of The Holy, The Rover, Black Country Woman (das sessões de Houses Of The Holy), Down By The Seaside, Boogie With Stu, Night Flight (das sessões de Led Zeppelin IV) e Bron-Yr-Aur (das sessões de Led Zeppelin III).

Após a turnê estadunidense de dez semanas, que ocorreu de janeiro a março de 1975, o Led Zeppelin fez cinco shows com ingressos esgotados no Earl's Court, em Londres, em maio de 1975. Inicialmente, três shows foram anunciados, e mais dois foram adicionados devido à enorme procura por ingressos. Mas a turnê não sairia tão bem como planejada, e muitos imprevistos estariam por vir pela frente.

Ao término das apresentações em solo inglês, problemas pessoais atrapalharam os planos da banda, e embora tenham lançado mais um disco de estúdio, Presence, em 1976, a banda só voltaria aos palcos como atração principal nas duas noites do Festival de Knebworth, que aconteceu em Knebworth House, Hertfordshire, Inglaterra, nos dias 4 e 11 de agosto de 1979. Essas foram as apresentações ao vivo do Led Zeppelin desde a turnê norte-americana de 1977 e as primeiras no Reino Unido desde os shows no Earl's Court em 1975, da turnê de Physical Graffiti.

Lado 1
1. Custard Pie
2. The Rover
3. In My Time Of Dying
4. Houses Of The Holy
5. Trampled Under Foot
6. Kashmir

Lado 2
1. In The Light
2. Bron-Yr-Aur
3. Down By The Seaside
4. Ten Years Gone
5. Night Flight
6. The Wanton Song
7. Boogie With Stu
8. Black Country Woman
9. Sick Again

Créditos:
Released: February 24, 1975.
Recorded at Headley Grange (Hampshire)., January 1971, October 1973, February 1974.
Olympic Studios (London), April 1972, February 1974.
Rolling Stones Mobile Studio at Stargroves (Hampshire), May 1972.
Island Studios (London) 1970, 1971.
Electric Lady Studios (New York).

Produced by Jimmy Page
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sexta-feira, 19 de junho de 2026

jETHRO tULL


JETHRO TULL

História da banda e a discografia comentada.

Quando escutamos o primeiro álbum do Jethro Tull, This Was de 1968, já temos a impressão de se tratar de uma banda única!

Em 1968, uma banda com um flautista como frontman lançou seu primeiro álbum, This Was. Um clássico que influenciou incontáveis músicos pelo mundo, e ganhou a admiração e respeito de milhares de fãs. A história da banda começa em meados dos anos 60 com a banda The John Evan Band, que trazia os integrantes Ian Anderson nos vocais e flauta, o tecladista John Evan, o baterista Barriemore Barlow, e o baixista Jeffrey Hammond-Hammond.

Essa formação não persistiria, e Ian Anderson começa a tocar com os novos músicos - Glenn Cornick no baixo, Clive Bunker na baterista e o guitarrista Mick Abrahams. A banda muda de nome para Jethro Tull, e lançam o primeiro álbum 'This Was' de 1968. Esse álbum traz uma mistura de folk celta, música erudita e muito do blues e do jazz, principalmente por influência do guitarrista Mick Abrahams. A faixa "Serenade to a Cuckoo", do jazzista Roland Kirk, que tocava com três tipos diferentes de saxofone ao mesmo tempo, ele foi um dos primeiros a tocar a flauta e usar a voz ao mesmo tempo, técnica que seria a marca registrada na carreira toda de Ian Anderson.

Após o primeiro álbum, as diferenças musicais entre Mick Abrahams e o restante da banda, fez com que o guitarrista saísse para formar sua própria banda, o Blodwyn Pig. Por pouco tempo, o guitarrista Tony Iommi, futuro guitarrista do Black Sabbath, tocaria com o Jethro Tull, fazendo apenas uma apresentação no evento: The Rolling Stones Rock and Roll Circus, tocando a música Song for Jeffrey. Então, a próxima opção para guitarrista da banda se transformaria num dos pilares do Jethro Tull, e o segundo integrante mais longevo da história da banda: Martin Barre.

Com essa nova formação foi lançado o álbum 'Stand Up' de 1969. Ainda que com influências do blues da fase anterior, o segundo álbum do Tull, com a saída de Mick, deixava Ian mais livre para tocar à sua maneira, e a entrada de Barre trouxe mais peso ao som. Assim foi produzido um dos álbuns com, talvez, o maior índice de clássicos por faixa da história da banda. Entre elas está a famosa adaptação jazzística do quinto movimento da Lute Suite in Em minor de J. S. Bach, chamada Bourée, e as faixas Back To The Family e We Used To Know, onde Martin Barre mostra a que veio, com solos potentes de guitarra.

Em 1970, o tecladista John Evan, da primeira banda de Ian, se junta ao Jethro Tull e participa da gravação do terceiro álbum 'Benefit' de 1970. Ouvir o Tull tocando ao vivo em 1970 é ouvir uma banda jovem fazendo um som forte e conciso, e Ian Anderson tocando flauta de uma maneira única, músicas como With You There to Help Me, Nothing is Easy e My God (que seria lançada no próximo disco) são executadas com muita energia e um som bastante pesado, sem contar a ousadia de Ian na flauta, como pode ser percebido no solo da supracitada My God.

Isso tudo pode ser ouvido em dois discos ao vivo dessa época, o primeiro foi lançado em 1993, na caixa comemorativa do aniversário de 25 anos da banda, e foi gravado no Carnegie Hall, em Nova York. O outro foi lançado em 2004, e se chama Nothing Is Easy: Live At Isle Of Wight (2004). Gravado no famoso festival da Ilha de Wight, onde também tocaram The Who, The Doors, Jimi Hendrix, Emerson/Lake and Palmer, Miles Davis, entre muitos outros.


Em 1971 foi a vez do baixista Glenn Cornick deixar a banda, e em seu lugar entrou outro amigo de Ian e John Evan, Jeffrey Hammond-Hammond. Jefrrey foi um dos membros mais carismáticos da banda, interagia nos shows, lia o jornal/encarte do álbum Thick As A Brick (1972) na turnê de 1972 e narrava a história que ele próprio 
escreveu sobre a lebre que perdeu os óculos, na turnê de 1973 em suporte do álbum 
A Passion Play.

O disco seguinte, 'Aqualung' de 1971, foi a consagração definitiva da banda por conta da faixa "Aqualung", a mais popular do Jethro Tull. Nesse álbum as letras, escritas por Ian Anderson com a participação de sua primeira esposa Jennie Franks, contém fortes críticas à Igreja e à sociedade, como nas músicas My God, a faixa título e Hymn 43, todas com um som mais forte e intercaladas por músicas acústicas como Wond’ring Aloud, Cheap Day Return e Slipstream. Esse disco foi muito importante na carreira da banda por trazer faixas como Locomotive Breath, que toca nas rádios de classic rock até hoje.

Depois de Aqualung, o baterista Clive Bunker, que vinha com o Tull desde o inicío decide deixar a banda por motivos pessoais. Em seu lugar entra Barriemore Barlow, excelente baterista que ficaria no Tull até 1980. Com essa formação são gravados os próximos 4 discos, a começar pelo grandioso álbum com sonoridade do rock-progressivo, 'Thick As A Brick', de 1972. O TAAB, como é conhecido pelos fãs, é um álbum conceitual que contém uma única música com duração com mais de 43 minutos, dividida em duas partes originalmente por causa dos dois lados do LP.

Nesse disco a banda desenvolve um rock progressivo fantástico, cheio de mudanças de ritmo, mas com constantes retomadas e reinterpretações do tema principal. Ele é tido até hoje como uma das obras primas máximas do estilo. A letra é um caso a parte, o poema foi escrito por Ian anderson, mas é creditado a um autor fictício, Gerald Bostock, que seria apenas um garoto. A arte do encarte do disco foi desenvolvido à semelhança de um jornal, cuja manchete é sobre o garoto autor da letra, e com muitas páginas e reportagens, todas vindas das cabeças de Ian, John e Jeffrey. Nos shows da turnê a música ficava num tamanho imenso, chegando a 80 minutos. Isso incluía grandes solos de flauta e bateria, além de uma parada onde Jeffrey lia algumas das notícias do jornal do encarte.

No mesmo ano também foi lançado o famoso álbum duplo 'Living In The Past', de 1972, que é uma coletânea de músicas dos álbuns anteriores, que reúne algumas versões ao vivo, outras nunca lançadas e alguns singles.

'A Passion Play', lançado em 1973, segue na mesma linha progressiva do TAAB, uma grande música dividida nos dois lados do LP, mas nesse álbum há uma interrupção na música para uma história sobre uma lebre que perdeu seus óculos. “This is The Story Of The Hare Who Lost His Spectacles!”, é assim que John Evan anuncia com irreverência a história narrada por Jefrrey Hammond-Hammond. 
No restante do disco, Ian Anderson toca sax em algumas partes, acompanhado pela banda toda numa sintonia impecável. Foi lançado uma versão do disco com as faixas separadas, resultando em 16 faixas que podem ser ouvidas separadamente, mas que juntas formam uma peça só. Isso nos mostra a versatilidade dos músicos e como esse disco é bem trabalhado, com passagens complexas nos trazendo uma obra incrível.

Em 1974, a banda lança 'War Child', que originalmente deveria ter sido um filme. O projeto não foi em frente, mas o disco saiu. Ótimo disco contendo a acústica e clássica faixa Skating Away On The Thin Ice Of The New Day, a irreverente Bungle in the Jungle, e a animada The Third Horrah. Todas as outras músicas desse álbum são muito boas, com destaque para a faixa título e Ladies.

Tanto o disco War Child, quanto o álbum seguinte de 1975, 'Minstrel In The Gallery', estão classificados no site da banda como “Elizabethan / Medieval / Classical”. Uma classificação interessante, sobretudo para o Minstrel In The Gallery. A capa do álbum mostra uma festa medieval com um grupo de menestréis tocando ao fundo. A faixa título é a referência, ela começa acústica com Ian Anderson cantando suavemente, depois ela vai ganhando peso através da guitarra de Martin Barre, onde a banda faz uma passagem instrumental no melhor estilo rock-progressivo, para poder entrar numa parte mais rápida e dinâmica, excelente música!


O álbum traz outras ótimas faixas como Cold Wind To Valhalla, Requiem e One White Duck / 0^10 = Nothing At All, as três com belíssimos arranjos de cordas, fazem com que a o ouvinte se sinta realmente ouvindo um grupo de menestréis na Inglaterra Medieval. Destaque também para Baker St. Muse, faixa com mais de 16 minutos de puro rock progressivo, de prazeroso equilíbrio entre as partes acústicas e elétricas.

Após Minstrel In the Gallery, Jefrrey Hammond-Hammond aposenta seu baixo para trabalhar nas artes plásticas, algo que sempre gostou, a pintura. Em seu lugar entra o grande baixista John Glascock, que, entre outras, tocou na banda Carmen, que misturava flamenco com rock progressivo. O álbum gravado com essa formação chamado 'Too Old to Rock ‘n’ Roll: Too Young to Die!', de 1976, um disco um pouco diferente do resto da produção do Jethro Tull, mais alegre e descontraído, tem músicas muito boas, como a faixa título, Crazed Institution, Taxi Grab, From A Deadbeat To An Old Greaser (com direito a solo de sax de David Palmer) e Salamander, uma bela peça acústica que lembra, em alguns momento, a Cold Wind to Valhalla, do álbum anterior.

Foi nessa época que a banda começou a ter mais contato com o estilo acústico/folk. Glascock, que vinha do Carmen, uma banda folk da vocalista Angella Allen, onde ele fez backing vocals no disco. 

Maddy Prior, outra cantora inglesa de folk, também faz backing vocals nesse álbum, e em 1978, ela teve seu primeiro disco produzido por Ian Anderson, onde todos os membros do Jethro Tull também participam tocando em algumas faixas. Com isso, no ano de 1977, a banda decidi caminhar mais para essa vertente do folk, de onde nasceriam três grandes álbuns conhecidos como a trilogia de álbuns folk.

Para começar os trabalhos a banda ganhou o reforço oficial de David Palmer. Palmer foi arranjador do Jethro Tull desde os primeiros álbuns, ele foi um dos grandes responsáveis pelos discos da chamada fase de ouro da banda, tanto de fora, como por dentro dos palcos nas apresentações ao vivo. 

Então, com essa formação eles lançam o primeiro álbum da trilogia chamado 'Songs From The Wood' de 1977, uma das obras primas do Tull, com um som muito denso e coeso, como pode ser ouvido logo de cara na faixa título, arranjos muito bem feitos e execução impecável do novo arranjador David Palmer e de todos os integrantes da banda. Clássicos como Jack-In-The-Green e The Whistler, onde Ian Anderson toca flauta de maneira sensacional, além de faixas bem mais folk que trazem muito forte o estilo, mas que não deixam de soar música medival, como Hunting Girl e Velvet Green, que já inicia com um cravo.

No ano seguinte é a vez do álbum 'Heavy Horses' de 1978, que segue com o mesmo estilo do Songs From The Wood, com faixas como One Brown Mouse, com sua letra singela, a bela Wathercock onde o cantor conversa com um galinho do tempo. Mas nem só de músicas acústicas é feito esse álbum, a faixa título é mais pesada, com forte presença da guitarra de Barre, que em certo ponto parece cantar junto com a voz do Ian. No Lullaby é outra faixa marcante do álbum.

Nesse ano também é lançado o álbum ao vivo mais famoso do Jethro Tull, o duplo 'Live – Bursting Out!', de 1978. Esse álbum é feito de faixas de diferentes apresentações da turnê européia de 1978, e nos mostra uma banda no auge da boa forma, tocando de maneira incrível seus maiores sucessos, músicas dos novos álbuns e algumas instrumentais como Conundrum e Quatrain. 

Desse mesmo ano data um show no Madison Square Garden, em Nova York, que foi televisionado por uma emissora italiana. Foi um show gigante com o ginásio lotado, porém ele também foi marcado pela falta da presença do baixista John Glascock. Na ocasião, John se encontrava doente, assim Tony Williams, um velho conhecido de alguns membros da banda, assumiu o posto de baixista durante alguns shows, e desempenhou muito bem a difícil tarefa.

Fechando a trilogia folk, em 1979 foi lançado o álbum 'Stormwatch'. Apesar de ser considerado um álbum folk, o som dele difere um pouco dos seus dois antecessores. É um álbum um pouco mais obscuro, com uma certa dose de dramaticidade. Contém músicas maravilhosas, como North Sea Oil, Orion e Dun Ringill, além da belíssima Home e da maravilhosa peça chamada Elegy, uma das poucas em que John Glascock tocou nesse disco. Essas duas músicas são umas das mais emotivas do Tull. Mas a grande música do disco é Dark Ages, com seus mais de nove minutos de duração, ela têm na primeira parte um andamento bem lento, que depois vai tomando dinâmica e aos poucos ganhando volume até ficar num andamento bem mais acelerado. Com ótimas passagens instrumentais, é uma das músicas progressivas mais fortes e belas da banda. A letra dela é bastante pessimista em relação ao futuro do planeta.  

Há um documentário dessa época produzido pela BBC de Londres chamado Lively Arts, com John Glascock tocando com a banda nas músicas Sweet Dreams e Dark Ages. É sensacional assistir a banda com o baixista em ação no palco. Por volta do ano de 1979, John Glascock se encontrava internado por problemas cardíacos e a maioria das partes de baixo do Stormwatch (1979) foram tocadas pelo próprio Ian Anderson. A turnê do álbum começou com um baixista substituto, Dave Pegg, que tocaria por muito tempo na banda. No meio da turnê, infelizmente, John Glascock faleceu. Era o começo do fim da chamada: "Era de Ouro do Jethro Tull".

No final da turnê, Barriemore 
Barlow, muito abalado com a morte de John, e também pelo direcionamento mais pop que a banda estava tomando, acabou deixando a banda. Nesse período Ian Anderson estava gravando o que deveria ser seu primeiro disco solo, e para esse projeto convidou o músico Eddie Jobson, grande tecladista e violinista, que já havia tocado com Curved Air, Frank Zappa e UK. Convidou também o baixista Dave Pegg, o baterista Mark Craney e o próprio guitarrista do Jethro Tull, Martin Barre. O disco foi finalizado e lançado no ano de 1980 com o nome de 'A' (que seria de Anderson). Como a  gravadora gostou do trabalho, e a banda ainda tinha contrato para cumprir, ele foi lançado como um álbum do Jethro Tull. Insatisfeitos, David Palmer e John Evan deixam a banda definitivamente.


O disco A deu novos rumos à música do Tull, que renderam mais dois álbuns nessa pegada mais "pop", 'The Broadsword and the Beast' de 1982 e 'Under Wraps' de 1984, que não foi nada bem recebido pelos fãs mais conservadores. Neles os experimentos eletrônicos ganharam força, o que não significa um som ruim, apenas diferente do que o Tull vinha fazendo, com grande presença dos teclados de Eddie Jobson. Martin Barre e Jobson ficaram muito bem entrosados, ótimas passagens instrumentais de teclados e violinos, excelentes solos de guitarra com a flauta de Anderson, tudo com climas exagerados criados por Eddie Jobson. O baixista Dave Pegg, vindo da banda folk Fairport Convention, e o baterista Mark Craney também tocam de maneira incrível. O baixo de Pegg se faz muito presente.

O Jethro Tull voltou para uma sonoridade mais característica com o lançamento do álbum 'Crest of a Knave', de 1987. Ian Anderson contribuiu com a programação dos sintetizadores focando mais na guitarra de Martin Barre como não acontecia desde os anos 1970, e o álbum acabou sendo um sucesso de crítica e de vendas. Eles ganhariam um Grammy em 1989 como melhor "Performance de Rock Pesado/Metal", derrotando os favoritos Metallica. O prêmio foi particularmente controverso pois muitos não consideram o Jethro Tull como uma banda de rock pesado, muito menos de heavy metal.

O fato de este ser o primeiro Grammy do estilo Heavy Metal, ele foi visto pelos fãs "metaleiros" como um insulto (depois disso, e talvez por culpa disso, nos anos seguintes os prêmios foram separados e seriam entregues como os melhores do rock pesado e do heavy metal). Em uma resposta cômica às críticas pelo prêmio, a banda supostamente pagou um anúncio em um periódico musical britânico com a frase: "A flauta é um instrumento de metal pesado". 

A sonoridade do álbum Crest of a Knave, foi comparado ao que algumas bandas como Dire Straits vinham desenvolvendo, muito em parte pelo estilo imposto por Ian Anderson, que parecia não mais ter o alcance vocal como antes.

Desde então, a banda lançou uma variedade de álbuns com esse mesmo estilo, mas sempre incorporando suas raízes e influências folk como nos discos: 'Rock Island' de 1989, 'Catfish Rising' de 1991, 'Roots To Branches' de 1995 e 'J-Tull Dot Com' lançado em 1999. Outros dois álbuns com muito sucesso comercial dessa época foram 'A Little Light Music', de 1992, um álbum em grande parte acústico, que foi bem recebido pelos fãs devido à suas versões diferentes de muitas composições antigas e o 'Nightcap: The Unreleased Masters 1973–1991', lançado em 1993, que consiste num álbum duplo de compilações não aproveitadas pela banda entre os anos 1973 à 1991, porém com algumas canções inéditas.

Anderson lançou vários discos solo desde o começo dos anos 1980, e nos anos 1990, Martin Barre também deu início a uma carreira solo. Anderson e Barre permaneceram como o centro da banda (Pegg saiu em 1995, sendo substituído por Jonathan Noyce). Em 1996, uma combinação de artistas de rock progressivo lançou um tributo ao Jethro Tull chamado: To Cry You a Song, que incluía contribuições de diversos ex-integrantes da banda.

Em 2003, a banda lançou um álbum inspirado nas festas natalinas chamado 'A Christmas Album', e ao mesmo tempo os principais integrantes da banda - Martin Barre e Ian Anderson - também lançaram álbuns solos. 

Em 2014, Ian Anderson e Martin Barre se separaram para cuidar das suas carreiras solos, e o Jethro Tull ficaria o maior tempo da sua história sem gravar álbuns.

Após um hiato de 19 anos sem gravar um disco oficial, o Jethro Tull volta com uma formação renovada, embora a maioria dos músicos já tenham feito vários shows e participado de alguns projetos com a banda durante todos esses anos. Músicos excepcionais como: David Goodier (baixo), John O'Hara (teclados), Scott Hammond (bateria) e os guitarristas Joe Parrish e Jack Clark. 

Até o momento foram três álbuns gravados desde o retorno da banda aos estúdios para gravarem coisas novas entre os anos de 2022 e 2025. 

O primeiro, 'The Zealot Gene' de 2022, explorando temas de crença e fanatismo, mantendo o legado de rock progressivo do Jethro Tull e incorporando sonoridades contemporâneas. Este álbum demonstra a capacidade contínua de Ian Anderson de entrelaçar narrativas complexas com música sofisticada.

O segundo, 'RökFlöte', lançado em 2023, mergulha na mitologia nórdica, explorando temas de destino e fatalidade. Com a flauta de Anderson em destaque, este álbum demonstra o fascínio duradouro do Jethro Tull por contos antigos e sua transposição para o rock moderno. 

E o último, 'Curious Ruminant', o 24º álbum de estúdio do Jethro Tull lançado em 2025 pela Inside Out Music. Esse disco apresenta nove faixas que misturam rock progressivo e folk com a flauta característica de Ian Anderson e letras introspectivas. Com a participação dos membros atuais David Goodier, John O'Hara, Scott Hammond e o estreante Jack Clark, além dos ex-membros Andrew Giddings e James Duncan, o álbum ecoa a trilogia folk do Tull dos anos 1970, ao mesmo tempo que explora temas modernos e contemporâneos.

O Jethro Tull segue na ativa fazendo shows e apresentando seus recentes lançamentos de estúdio. O grupo continua sua lendária jornada misturando rock, blues e folk britânico. 

Vida longa ao Jethro Tull !!