Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

domingo, 12 de julho de 2026

Liquid Tension Experiment


Liquid Tension Experiment

No rock progressivo moderno, parece que surge um novo supergrupo a cada poucas semanas. Mas muito antes disso se tornar comum, e antes que os músicos participassem rotineiramente de mais de uma banda, existia o: 
Liquid Tension Experiment. 

Liquid Tension Experiment é um supergrupo instrumental formado por Mike Portnoy a pedido da gravadora Magna Carta. É composto por quatro membros: Mike Portnoy, John Petrucci, Jordan Rudess e Tony Levin, do King Crimson. Três desses membros já fizeram parte do Dream Theater, embora Jordan Rudess ainda não tivesse entrado para o Liquid Tension Experiment quando se juntou ao Dream Theater, e Portnoy tenha deixado o Dream Theater em 2010, retornando em 2023.

O supergrupo lançou três álbuns: Liquid Tension Experiment em 1998, Liquid Tension Experiment 2 em 1999 e Liquid Tension Experiment 3 em 2021. Também lançaram dois álbuns como Liquid Trio Experiment : Spontaneous Combustion e When the Keyboard Breaks: Live in Chicago. Spontaneous Combustion foi resultado de jams dos outros três membros da banda enquanto John Petrucci se ausentou quando estava com sua esposa, que estava dando à luz. When the Keyboard Breaks: Live in Chicago é uma gravação ao vivo de um show em Chicago, quando o teclado de Jordan Rudess apresentou defeito e os outros membros da banda improvisaram enquanto Rudess precisou corrigir os problemas técnicos. Outras gravações ao vivo do Liquid Tension Experiment estavam disponíveis pelo selo e site de Mike Portnoy.

Em 1997, Mike Portnoy (Dream Theater, Transatlantic, Sons of Apollo), John Petrucci (Dream Theater), Jordan Rudess (ex-Dixie Dregs e Dream Theater) e Tony Levin (King Crimson, Peter Gabriel) uniram forças para criar o Liquid Tension Experiment. O quarteto lançou seu icônico álbum de estreia homônimo em 1998 e o deslumbrante sucessor, LTE2, em 1999, criando um som dinâmico, frenético e inventivo, totalmente próprio. A incrível criatividade do coletivo levou Petrucci e Portnoy a convidarem Rudess para se juntar ao Dream Theater, marcando temporariamente o fim desse projeto paralelo.

As agendas começaram a entrar em conflito, ao mesmo tempo em que o Dream Theater crescia cada vez mais. Não bastasse isso, Portnoy entrou de cabeça em outro projeto, o Transatlantic, outro supergrupo, o que praticamente soterrou as chances de continuidade do Liquid Tension Experiment. A hibernação durou até 2007, quando o grupo, já sem Petrucci e rebatizado de Liquid Trio Expriment, lançou "Spontaneous Combustion", mais jazzístico e menos pesado. Foi aí que Petrucci acabou aceitando a proposta de Portnoy para uma turnê de dez anos do Liquid Tension Experiment em 2008, em mais uma parada do Dream Theater. Foram várias datas nos Estados Unidos, que renderam o material lançado no final de 2009 e que foi reeditado em 2011.

No entanto, desde então, poucas reuniões foram tão requisitadas. O Experimento de Tensão Líquida então programou a volta para lançar seu terceiro álbum. No final de agosto de 2020, Portnoy, Petrucci, Rudess e Levin se autoisolaram, por conta da pandemia da covid-19, e se encontraram secretamente por pouco mais de duas semanas em um estúdio de Nova York para trabalhar no novo álbum. Esses quatro músicos não gravavam juntos há mais de 20 anos. A química seria a mesma? 

Segundo Mike Portnoy, as coisas se encaixaram quase que imediatamente: 
"Acho que a primeira coisa que fizemos foi literalmente improvisar no primeiro dia. Para ser sincero, foi um pouco surreal. Eu tinha trabalhado com o John alguns meses antes e toquei com o Jordan e o Tony ao longo dos anos, mas houve um momento em que cheguei ao estúdio e estava na sala com o Jordan e o John e pensei: 'Espera aí, esta é a primeira vez que nós três estamos juntos em uma sala em mais de 10 anos'. Foi surreal e, 10 minutos depois, estávamos improvisando e parecia que não tínhamos perdido o ritmo. Parecia que tínhamos retomado exatamente de onde paramos." 

"Música para a cabeça, e não para os pés". Nunca a definição de Robert Fripp (guitarrista e figura central do King Crimson) para o rock progressivo foi tão precisa para definir o som de bandas maravilhosas como Transatlantic, Porcupine Tree, IQ e muitas outras que ainda colocam o gênero no topo. Liquid Tension Experiment é mais uma que se enquadra perfeitamente na definição. A melhor amostra do que o grupo é capaz está na megacaixa "Live 2008".

"A quantidade de possibilidades que um projeto como esse abre para um músico é infinita. Jordan Rudess e Tony Levin fazem parte de uma estirpe de músicos que obrigam qualquer um que esteja a seu lado a avançar sempre e de forma ininterrupta, a evoluir o tempo todo. São uma usina de criatividade", disse Mike Portnoy em 2008 à revista Modern Drummer. Tudo no projeto é superlativo, desde as performances à qualidade das músicas e da produção de um show do Liquid Tension Experiment. O Dream Theater é sinônimo de metal progressivo, e o Liquid é sinônimo de rock instrumental de altíssima qualidade!



sábado, 11 de julho de 2026

AC/DC


AC/DC
' A descarga de alta voltagem no Blues-Rock '

As origens

Ao leme estava Malcolm Young, de 21 anos, que, com o seu irmão Angus (dois anos mais novo), tinham sido criados numa rígida dieta de rock n roll norte-americano e inglês. Em 1973, vendo o talento de Malcolm para a guitarra, o terceiro irmão mais velho, George Young, decidiu ajudar os esforços dos garotos e começou a gerir a carreira de uma banda que ainda nem nome tinha. A
s origens dos Young estão na Escócia, de onde a família origina. Mudaram-se para a Austrália quando ainda crianças, e foi aí que a música começou a ganhar força a sério. 

Angus Young, entrando para o grupo poucas semanas depois por convite de Malcolm, ficou com a missão de tocar a guitarra rítmica, e que acabou virando a própria cara dos AC/DC anos mais tarde. Estávamos no último trimestre de 1973. No início de 1974, já com o nome AC/DC estabelecido (sugestão da mulher de George) o quinteto (Malcolm e Angus nas guitarras, Dave Evans na voz, Colin Burgess na bateria e Larry Van Kriedt no baixo) já andavam a dar concertos, todos os que conseguiam, assentando o alinhamento sobretudo em covers de rock clássico, principalmente de Chuck Berry, Free e Rolling Stones.

Uma banda à procura da sua música, sonoridade e imagem que seriam necessários para concretizar a ambição de Malcolm Young, que dizia desde o princípio que a sua banda seria uma das maiores do mundo. Esses primeiros tempos são marcados – como se tornaria clássico nos AC/DC – por mudanças de membros, com bateristas e baixistas entrando e saindo da banda. É num destes períodos de instabilidade de formação que se dá a estreia nas gravações, com o single dos originais “Can i sit next to you girl” e “Rockin in the parlour”, que obteve algum sucesso radiofónico na Austrália. As sementes estavam lançadas mas algumas peças estavam ainda por encaixar.

A imagem que mais chama a atenção no AC/DC, é um pequeno guitarrista, vestido de uniforme escolar, pulando pelo palco como um demônio e a soltar da sua guitarra riffs fabulosos. O nascimento desta personagem vem logo do início, do período 73/74. Nessa altura, os AC/DC eram, visualmente, muito próximos de uma banda de glam-rock, imitando o que estava rolando no Reino Unido. A ideia era ser o mais espalhafatoso possível e, para além das calças de cetim e lantejoulas, era frequente os membros da banda surgirem no palco mascarados de qualquer coisa. 
O grupo logo decidiu abandonar esse visual para adotar um look mais simples e clássico de trabalhador: calça jeans e camiseta. Todos menos Angus, que nunca mais largou o seu uniforme, costurado pela irmã mais nova dos Young.

Outra curiosidade acerca desse fato é a ligação com os Beatles. A loja de roupa da Apple, gravadora dos Beatles, em Londres, tinha fechado. O grupo decidiu avisar os fãs, que poderiam chegar e simplesmente levar a roupa que quisessem, o que levou a enormes filas. Acontece que uma das pessoas na fila era a irmã mais velha de Angus, que lhe levou um casaco de veludo, de volta à Austrália. “Eu adorei aquele casaco, era tão flashy! Por isso, quando decidi mandar fazer um uniforme escolar para usar na banda, pedi que fosse em veludo. Fica chamativo debaixo das luzes”, explicou Angus décadas mais tarde.

A entrada do vocalista Bon Scott

Em 1974, duas mudanças fundamentais na vida da banda. A primeira é que Malcolm Young decide deixar de tocar guitarra solo (que dividia com Angus) para se concentrar na guitarra rítmica. Se Angus é visto como um virtuoso e um dos melhores guitarristas da história, Malcolm era o ritmo, a pegada e a criatividade da banda. Ele compunha a maioria dos riffs e estruturas melódicas das músicas. Mas havia um problema: Angus Young tinha dificuldade em manter o ritmo (é por isso, diz ele, que bate com os pés no chão e vive num incessante head-banging, que o ajuda instintivamente a marcar o tempo). Assim, quando era a vez de Malcolm solar, o irmão mais novo não mantinha bem o ritmo e o som ficava mais vazio. Malcolm, que tinha ambição para a banda mas nunca teve alter ego, decidiu ficar numa posição mais recuada no palco, criando a imagem clássica da banda e o sólido alicerce sonoro de guitarras do AC/DC.

Em agosto de 1974, a banda foi convidada para fazer as primeiras partes da digressão de Lou Reed na Austrália. Porém, o vocalista Dave Evans, andava cada vez mais insatisfeito. Por um lado, por questões de dinheiro. O grupo estava tocando bastante, mas a grana quase não existia. Por outro, Evans tinha um ego grande, e não gostava que Angus, o guitarrista, recebesse toda a atenção em vez do vocalista, algo pouco normal no cânone do rock n roll. A própria banda não estava contente com Evans, sobretudo Malcolm Young.

Em Setembro de 1974, num concerto em Perth, Angus envolveu-se em uma briga com um membro do público que o estava agarrando desde o início da noite. O grupo saiu rápido do show e não foi pago, o que gerou nova discussão com Dave Evans. Sem dinheiro e a mais de mil quilómetros de casa, os rapazes recorrem à ajuda de Michael Browning, empresário de Melbourne que tinha o Hard Rock local. Browning deu-lhes dinheiro e começou a ajudar também na gestão de carreira dos AC/DC (juntamente com George Young e Harry Vanda). O empresário gostava dos rapazes, sobretudo do talento de Angus com a guitarra, mas disse-lhes abertamente que faltava alguma coisa: o vocalista meio estilo Jim Morrison não estava combinando com a banda. E sugeriu um vocalista ligeiramente mais velho chamado Bon Scott.

Scott era, tal como os irmãos Young, um escocês emigrado na Austrália. Alguns anos mais velho que os seus companheiros, tinha andado por várias bandas (também chegou a ser baterista), como os The Valentines e os "hippies" Fraternity, sempre sem grande sucesso. Ele já havia feito um pouco de tudo para pagar as contas: cortou grama, trabalhou num posto de gasolina, numa empresa de fertilizantes e pintor de barcos. Um dos seus últimos trabalhos foi, justamente, colar cartazes de uma banda chamada: AC/DC!

Scott já era casado e enfrentava pressão em casa para arranjar um emprego sério, e andava desiludido com o mundo da música. Os integrantes do AC/DC com interesse no vocalista, chamou-o para uma audição, no que correu tudo muito bem. Scott, a caminho de um novo serviço, pintar um enorme barco enferrujado, chegou morrendo de frio, olhou para o que tinha à sua frente e decidiu: “que se foda isto, não vou fazer esta merda o resto da vida”. Voltou para trás e, quando chegou em casa, telefonou para Malcolm e fez a mala. Estava contratado o novo vocalista da banda.

O novo vocalista encaixou de imediato e, logo aos primeiros ensaios, nunca houve qualquer dúvida. A banda deixa o glam para trás e se transforma numa verdadeira máquina de rock n roll da classe trabalhadora, e Scott era a encarnação disso. Calças jeans, sem camisa, e uma voz peculiar com muito carisma e presença de palco. Bon Scott era a peça que faltava para que o AC/DC concluísse sua estética e sonoridade.

Primeiros álbuns e a chegada a Londres

Em Novembro de 1974, os rapazes vão para o estúdio e gravam o disco de estreia, High Voltage, editado em Fevereiro de 1975. O álbum foi feito rapidamente, muitas vezes depois de saírem do palco para uma noitada de gravações. O material estava praticamente pronto, e o álbum foi editado apenas na Austrália. O trabalho abre com uma cover de “Baby please don’t go”, que a banda já tocava ao vivo, e o mais perto que o AC/DC já estivera de uma balada, “Love song”.

O clássico segundo álbum chamado por T.N.T., é o disco que definiria para sempre o som do AC/DC, e um dos melhores álbuns rock da década e, talvez, de sempre. É aqui que surgem temas icónicos como “The Jack”, “High Voltage”, e “T.N.T.”, que se tornariam para sempre parte dos shows da banda. Além disso, o disco arranca com o single “It’s a long way to the top (if you wanna rock n roll)”, uma espécie de manifesto da própria banda e que teve direito a videoclip e gaita de fole tocado por Bon Scott. Foi com base neste material que, no início de 76, o AC/DC assinou um contrato internacional com a Atlantic Records. Pouco tempo depois, estavam de malas feitas para Londres, para o novo e triunfal capítulo da sua história.

No Reino Unido, fizeram aquilo que melhor sabiam fazer: ir para o palco e arrebentar! Tocando em palcos pequenos e médios, as primeiras críticas dos jornais e revistas começaram a chamar atenção. As críticas oscilavam entre diminuir o trabalho dos australianos taxando-os de um som pouco sofisticado com seu atrasado hard-rock clássico, à elogiar a honestidade deles pela entrega dos concertos, bem como pela crescente audiência que os fãs estavam proporcionando. 

Recuperando o título do primeiro álbum, High Voltage, eles fazem o primeiro lançamento na europa com o material desse, e do segundo disco T.N.T, que haviam sido lançados apenas na Austrália. Porém, a maior parte das músicas eram do segundo álbum, eliminando as faixas covers do primeiro.

Em setembro do mesmo ano, é lançado Dirty Deeds Done Dirt Cheap, com uma capa desenhada pelo estúdio Hipgnosis, sinal de que a banda estava crescendo. Além da faixa-título, as faixas “Rocker” e “Problem Child”, fazem muito sucesso chegando ao top 3 das paradas em alguns países da europa e estados unidos, ainda que pela força de algumas rádios independentes. Em 1977, a banda vai fazer a primeira turnê estadunidense passando muitas noites na estrada, levando o seu rock e o caos, incluindo digressões com Aerosmith, Cheap Trick e Kiss.

Em 1977 sai Let There Be Rock, que chegou ao top 20 britânico, incluindo a faixa-título, “Bad Boy Boogie”, “Hell Aint a Bad Place To Be” e o clássico “Whole Lotta Rosie”. Em 78 é a vez de Powerage, que voltou a vender bem no Reino Unido e Estados Unidos, um padrão que se repetia. Imediatamente antes da gravação, o baixista Mark Evans é despedido, dando lugar ao inglês Cliff Williams. O alinhamento clássico dessa primeira fase do AC/DC estava completo, com Williams, Malcolm, Angus, Scott e o baterista Phill Rudd. Este é o grupo que mais tempo estaria à serviço do grupo com exceção de Scott, com Angus, Williams e Rudd oficialmente ainda na banda.

Ao final da década, o AC/DC vinha numa trajetória crescente, um álbum melhor do que o outro, porém, eles ainda tinham muita ambição pelo caminho. A banda decide contratar um novo agente, americano, e um novo produtor. George Young e Harry Vanda tinham sido responsáveis por todos os discos até então, mas foram obrigados a ceder a cadeira, por imposição da Atlantic Records, que achava que a proximidade (até familiar) destes com a banda os impedia de tomar decisões difíceis. Foi escolhido Eddie Kramer, mas depois de umas semanas de trabalho sem grandes resultados e sem grande química, em Miami, este foi substituído por um nome emergente: o sul-africano Robert John “Mutt” Lange. Mais tarde esse produtor faria da banda Def Leppard um fenômeno global e anos do trabalho com gigantes da pop.

O resultado da mudança de empresários, renderam as sessões do que viria a ser o maior clássico considerado por muitas pessoas, o álbum Highway To Hell. O som continuava a ser pesado, porém mais limpo e definido. A estrutura básica do AC/DC, Lange retirou o que estaria exagerado e acrescentou backing vocals. Os cinco membros da banda estavam muito entrosados e funcionavam na perfeição uns com os outros. Ainda por cima, os temas eram fortes. Todos tinham consciência de que estavam perante a oportunidade de fazer um disco que chamaria a atenção.

E foi exatamente isso que aconteceu. Com uma capa em que, pela primeira vez, apareciam os cinco músicos, este álbum arranca com o clássico “Highway to hell”, quase um manifesto de vida. Se é verdade que o grupo já tinha tido discos mais fortes em termos de temas individuais, este era o seu trabalho mais coeso e coerente até então. Uma sonoridade, um conceito, um grande título, uma boa capa. O álbum vendeu sete milhões de cópias. A porta do sucesso mundial tinha sido escancarada com um vigoroso e inescapável chute certeiro.

A fatalidade

No entanto, numa das ironias tristes da história do rock n rol, foi exatamente nesse momento que as coisas se despedaçaram. 
Highway To Hell foi editado em Julho de 79 e, pelo meio dos concertos, a banda começou de imediato a trabalhar nos temas de um novo trabalho, com confiança redobrada. Mas, em Fevereiro de 1980, o vocalista Bon Scott, repentinamente, morre aos 33 anos. Scott consumia quantidades inacreditáveis de álcool, sendo de origem escocesa, ele achava que estaria imune aos efeitos mais destrutivos da bebida. Depois de uma noite de excessos, Scott morreu de envenenamento alcoólico e por ter sufocado no seu próprio vômito enquanto estava inconsciente, algo que sucedeu também a John Bonham, o magnífico baterista dos Led Zeppelin, poucos meses depois.

Depois de tanto trabalho, tantos anos de estrada e de companheirismo, e com um sucesso mundial nas mãos, o mundo do AC/DC – que sempre cantaram sobre rockar e curtir sem pensar nas consequências – ruiu subitamente.

A entrada de Brian Johnson e o álbum: 
Back In Black


Quando Bon Scott morreu, a banda já estava preparando o sucessor do disco Highway To Hell, novamente com Mutt Lange aos comandos. Angus chegou a dizer que, nessa altura, ponderaram se deviam acabar, mas é pouco crível que essa hipótese tivesse sido levada assim tão a sério. A banda se apressou a ouvir vocalistas e até a fazer audições, tendo como únicas condições: não ser um clone de Bon Scott; saber cantar rock n rol; e se encaixar no estilo "simples" da banda.

O inglês Brian Johnson, um tipo ligeiramente mais velho que eles (tal como Scott) e que era uma espécie de veterano na cena de pub rock inglesa, ao leme dos Geordie, um grupo que fazia sobretudo um som glam rock. Se Bon Scott trazia uma imagem do trabalhador comum, sedento por garotas e bebidas, Johnson trazia com sua voz (ainda mais) estridente, um visual do boêmio porra-louca, de colete e boina na cabeça, sua imagem e marca registrada.

O AC/DC agora tinha um novo vocalista, e rapidamente voltaram a trabalhar no próximo álbum, Back In Black. Escolheram um estúdio nas Bahamas, aparentemente sobretudo por questões fiscais, mas o resultado não ficou em nada contaminado por tão exótico e tropical cenário. A banda já estava com todas as músicas prontas deixando apenas algumas letras para Johnson ecrever algumas letras. No entanto, o espírito de Scott está inegavelmente presente no registo, começando pelo título, Back In Black, com uma capa negra, em homenagem ao amigo desaparecido.

Neste disco, Mutt Lange leva ainda mais longe a fórmula bem sucedida de Highway To Hell. Basicamente, reduzindo a banda à sua essência, cortando o ruído à volta, carregando nos backing vocals concentrados que fariam o sucesso de tanta banda rock nos anos seguintes, inspirados ou mesmo diretamente guiados por Lange. Se Highway To Hell era o trabalho mais coeso e comercialmente concentrado do AC/DC, Back In Black reforça isso ainda mais, graças a temas que se tornaram clássicos instantâneos da banda. Desde a abertura com “Hell Bells”, com a banda a encomendar propositadamente um sino de uma tonelada a uma fundição inglesa; à imparável malha rock “Shoot to Thrill”; à incrível e absolutamente reconhecível faixa-título, “Back in Black”, que abre o lado B; ao enorme single pop-rock de “You Shook Me all Night Long”; fechando com a bluesy “Rock and Roll Ain’t Noise Pollution”.

Os AC/DC não apenas sobreviveram à morte, Back In Black derrubou as tabelas de vendas e é recordista até hoje. É apontado, aliás, como o disco de rock mais vendido da história, e um dos mais vendidos de qualquer género musical. 
Inúmeros álbuns da banda foram lançados desde então sempre se mantendo fiéis ao padrão de estilo musical e qualidade técnica. 

Todos os álbuns lançados após Back In Black foram:

For Those About To Rock (1981), Flick of the Switch (1983), Fly On the Wall (1985), Blow Up Your Video (1988), The Razors Edge (1990), Ballbreaker (1995), Stiff Upper Lip (2000), Black Ice (2008), Rock Or Bust (2014) e Power Up (2020).


Legado e a importante influência

Com os seus membros a bater nos 70 anos, a lógica diria que os AC/DC estão perto do fim, 50 anos depois desses primeiros ensaios de uns putos esqueléticos num subúrbio working-class australiano. Mas, como já vimos, é um erro subestimar esta banda e a sua capacidade para seguir em frente, no meio do tiroteio e das explosões.

A importância histórica e cultural dos AC/DC é inquestionável, enquanto mega-estrelas que fizeram milhares e milhares de jovens pegarem numa guitarra eléctrica. São, juntamente com os Stones, os maiores pregadores da bíblia do rock n roll enquanto entidade salvadora de uma vida dura e aborrecida.

Já o que podem trazer o AC/DC, septuagenários, na segunda década do século XX? Nada mais para além do que sempre trouxeram. A fuga, a redenção, a salvação através dos decibéis e do velho e sujo rock n roll.

Ficamos com as palavras ditas por um jovem Angus Young, em 1976, ao Melody Maker: 

“o rock é acerca de diversão e se esqueces isso e levas a parte do negócio demasiado a sério, o público percebe isso. Eu honestamente acredito em dar ao público o que ele quer. É claro que nós gostaríamos de conquistar o mundo e continuar para sempre, como o Chuck Berry. Mas se o mundo acabar amanhã, se não conseguirmos, ao menos posso dizer que o fiz, que fui um músico de rock n roll”

Obrigado por tantas décadas de tantos riffs, de tantos espectáculos, de tanta persistência. De tanto rock n roll!!



sexta-feira, 10 de julho de 2026

The Winery Dogs


Os Cães de Vinícula

História da banda.

The Winery Dogs é um supergrupo americano de hard rock formado em 2012, composto pelo baterista Mike Portnoy (ex- Dream Theater), o baixista e vocalista Billy Sheehan (ex-Mr. Big, David Lee Roth e Steve Vai) e o guitarrista, vocalista e multi-instrumentista Richie Kotzen (ex-Poison e Mr. Big). A banda surgiu da longa amizade entre os seus membros, que procuravam criar um projeto que enfatizasse performances ao vivo de alta energia e canções originais inspiradas por influências do rock clássico, sendo comparadas a power trios como Cream e The Who.

O álbum de estreia autointitulado do grupo, The Winery Dogs, foi lançado em julho de 2013 pela Loud & Proud Records, apresentando faixas como "Elevate" e "We Are One" que exibiam sua mistura de riffs de hard rock, virtuosismo musical e harmonias vocais. Eles seguiram com seu segundo álbum de estúdio, Hot Streak, em outubro de 2015 pela Loud & Proud Records, que incluía singles como "Captain Love" e "Oblivion", e o promoveram com turnês pela América do Norte e Europa.

Após um período de projetos individuais, o trio se reuniu para lançar seu terceiro álbum, The Winery Dogs III, em fevereiro de 2023 pela Three Dog Music, marcando um retorno às suas raízes colaborativas com canções que refletem crescimento pessoal e resiliência.

Conhecidos por sua maestria instrumental e química no palco, o The Winery Dogs também lançou gravações ao vivo, incluindo o EP Dog Years (2017) e Dog Years - Live in Santiago (2017), que capturam seus shows energéticos. O nome da banda deriva dos históricos "cães de vinícola" usados ​​para guardar vinhedos, uma referência sugerida por Kotzen para simbolizar proteção e lealdade em sua parceria musical. O seu trabalho destaca um compromisso com o formato de power trio, priorizando a energia bruta em detrimento da produção extensa.

Estilo e influências musicais.

The Winery Dogs são um power trio de hard rock cujo som incorpora elementos proeminentes de blues rock e rock progressivo, caracterizado por intrincados riffs de guitarra, ritmos dinâmicos e melodias cativantes. Seu álbum de estreia enfatizou o hard rock direto e focado em riffs, enquanto os lançamentos subsequentes evoluíram para composições mais emotivas e com groove, como evidenciado nas faixas com influência de blues de seu terceiro álbum, 
The Winery Dogs III. Essa progressão mescla a energia do rock clássico com a complexidade do rock progressivo, criando um estilo versátil que varia de hinos eletrizantes a baladas introspectivas.


A essência da sua identidade sonora reside no formato minimalista de power trio, que amplifica a contribuição de cada membro: Richie Kotzen assume a guitarra solo, os vocais roucos e cheios de alma, e ocasionalmente os teclados, conferindo profundidade textural; Billy Sheehan entrega linhas de baixo propulsivas com sua técnica característica de slap, particularmente em solos como os de "Time Machine"; e Mike Portnoy contribui com a bateria complexa e progressiva que impulsiona a base rítmica da banda. 

Os vocais de Kotzen, frequentemente comparados aos de trios de rock clássicos por sua entrega emotiva, são realçados por harmonias a três vozes de todos os membros, adicionando coros exuberantes e em camadas a faixas como "Captain Love". Essa instrumentação fomenta uma intensidade eletrizante, evocando influências dos power trios das décadas de 1960 e 1970, ao mesmo tempo que mantém um toque muito moderno.

A abordagem de produção da banda permaneceu consistente, porém refinada, com todos os álbuns produzidos e mixados por Jay Ruston, resultando em um acabamento polido e profissional que destaca sua habilidade técnica. Os primeiros trabalhos, como o álbum de estreia homônimo, apresentavam mixagens nítidas e prontas para arenas, enquanto o terceiro álbum adotou uma produção mais orgânica e centrada na banda, que enfatiza a interação crua e os grooves envolventes sem excesso de polimento. 

Liricamente, o The Winery Dogs explora temas como resiliência, liberdade pessoal e o estilo de vida exuberante do rock 'n' roll, frequentemente entrelaçados com riffs energéticos para transmitir empoderamento e redenção. Canções como "Elevate" retratam lutas por autoaperfeiçoamento e segundas chances, enquanto "Breakthrough" simboliza a libertação da turbulência emocional, reforçando a mensagem motivacional da banda.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Ahmad Jamal

Ahmad Jamal 
At the Top – Poinciana Revisited 
(Impulse, 1969)

Esta apresentação ao vivo no Village Vanguard tornou-se o primeiro de muitos álbuns que Ahmad Jamal gravou para a gravadora Impulse. É uma tentativa óbvia de repetir seus sucessos anteriores.

Com seu estilo amplo, porém muito rítmico, Ahmad Jamal tornou-se um dos pianistas mais influentes de seu instrumento, ao lado de Bud Powell e Bill Evans. Miles Davis era um grande admirador de Jamal. Davis gravou tanto composições originais de Jamal quanto standards que ele popularizou, e incentivava seus pianistas a estudarem Jamal.

É possível perceber algumas semelhanças entre os estilos de Jamal e Davis. Ambos deixam bastante espaço para a seção rítmica, o que cria uma performance dinâmica onde o que é omitido é tão importante quanto o que é tocado.

Após ter desfrutado de grande sucesso na década de 1950, a carreira de Jamal desacelerou um pouco na década de 1960. Quando gravou este álbum, o primeiro pela Impulse Records, a gravadora parecia ansiosa para repetir seus sucessos anteriores. Algumas de suas gravações mais populares haviam sido feitas ao vivo, e seu grande sucesso era "Poinciana". Assim, a Impulse fez uma nova gravação ao vivo com ele, incluindo "Poinciana".

A dinâmica de Jamal

Com Jamal agora em um trio forte, composto pelo baixista Jamil Nasser e o baterista Frank Gant, era quase impossível dar errado. Havia também interesse em um repertório novo, com o trio tocando o sucesso contemporâneo "Call Me", a música tema do então popular filme "Valley of the Dolls" e a canção bossa nova de Antonio Carlos Jobim, "How Insensitive".

Independentemente do material, o que sempre impressiona em Jamal é a forma como ele o interpreta e o transforma em algo único. Seu estilo descontraído talvez seja mais eficaz em "Valley of the Dolls", de André Previn, e nessa mesma canção também é possível observar seu uso da dinâmica, alternando frases simples com outras mais grandiosas e românticas.

Nessa fase da carreira, ele por vezes tocava com uma intensidade que raramente demonstrava na década de 1950. Todas as diferentes fases pelas quais ele passou e acho que alguns dos seus álbuns para a Impulse são tão bons quanto os que ele gravou na década de 1950.

Track listing
All compositions by Ahmad Jamal except where noted.

"Have You Met Miss Jones" (Lorenz Hart, Richard Rodgers) – 3:47
"Poinciana" (Buddy Bernier, Nat Simon) – 9:19
"Lament" – 8:05
"Call Me" (Tony Hatch) – 4:51
"(Theme from) Valley of the Dolls" (André Previn, Dory Previn) – 4:23
"Frank's Tune" (Frank Strozier) – 5:50
"How Insensitive" (Antônio Carlos Jobim, Vinícius de Moraes) – 5:52

Personnel
Ahmad Jamal – piano
Jamil Sulieman – bass
Frank Gant – drums


quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ahmad Jamal


Ahmad Jamal
' O tempo entre as notas '

“Jamal me impressionou com seu conceito de espaço…

"Sua leveza de toque, sua discrição e a maneira como ele fraseia notas, acordes e passagens." - MILES DAVIS

Miles Davis ficou tão encantado com as concepções de Jamal que gravou várias composições do repertório do pianista, incluindo “A Gal in Calico” e “Surrey with the Fringe on Top”. Davis e o arranjador Gil Evans chegaram a transcrever “New Rhumba”, faixa do LP Chamber Music of the New Jazz de Jamal (1955), nota por nota, em seu álbum de big band, Miles Ahead.

Jamal é um verdadeiro cientista do som: Seu uso do espaço e da dinâmica, juntamente com seus arranjos precisos e intrincados, exerceram grande influência em gerações de pianistas, de Ramsey Lewis a Jacky Terrasson. 
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ALMA MUSICAL
Jamal nasceu em 2 de julho de 1930 em Pittsburgh, Pensilvânia. Pittsburgh foi o lar de muitos artistas mundialmente conhecidos por seu trabalho e contribuições tanto para a música clássica europeia quanto para a música clássica americana (termo que o Sr. Jamal prefere para o jazz).

Ele começou a tocar piano aos 3 anos de idade, a mesma idade em que Erroll Garner começou. Jamal e Garner frequentaram as mesmas escolas primária e secundária. O Sr. Jamal iniciou seus estudos formais com a renomada educadora Mary Cardwell Dawson. A Sra. Dawson foi responsável pela entrada dos primeiros artistas afro-americanos na Companhia Metropolitana de Ópera. Quando a Sra. Dawson se mudou para Washington, D.C., Jamal continuou seus estudos com James Miller, contemporâneo de Earl Wild, ambos naturais de Pittsburgh.

Aos 10 anos de idade Jamal compunha, orquestrava e interpretava obras de Franz Liszt, explorando a música de Duke Ellington, Art Tatum, Nat Cole, Erroll Garner e uma série de outros nomes importantes da música. Jamal dedicou-se completamente ao estudo do cancioneiro americano (American Songbook). Ele era proficiente em acumular um vasto repertório e chamou a atenção de seus mestres mais experientes em Pittsburgh. Rapidamente contratado, ingressou na AFofM (American Federation of Musicians) aos 14 anos, quando a idade mínima exigida era 16.


Aos 17, saiu de casa a convite da Orquestra de George Hudson e começou a fazer turnês pelo país. A orquestra incluía Clark Terry e o orquestrador Ernie Wilkins. A agenda de shows incluía os principais teatros dos Estados Unidos; notavelmente, o histórico Apollo Theater em Nova York e o Howard Theater em Washington, D.C. Jamal subiu ao palco do Apollo com a orquestra aos 18 anos de idade.

Ele formou o seu próprio em 1951, Ahmad Jamal formou o grupo e, com a ajuda de John Hammond, iniciou sua carreira musical com a gravadora Okeh Records. Essa carreira se estendeu por mais de seis décadas e resultou em uma das gravações de maior sucesso na história da música instrumental: "The Ahmad Jamal Trio, at The Pershing". A música foi escolhida por Clint Eastwood, um fã de longa data, para o filme "As Pontes de Madison County" e teve destaque em "O Lobo de Wall Street". Ela também é utilizada por companhias de dança em todo o mundo e continua a fazer história na música.

Os inúmeros prêmios de Jamal
Entre as distinções mencionadas em AhmadJamal.com, destacam-se: Grammy Lifetime Achievement 2017, NEA Masters Award, Kennedy Center Legend Award, prêmios do governo francês, prêmios da Malásia, Doutor em Música Honoris Causa pelo Conservatório de Música da Nova Inglaterra, que diz: "Ahmad Jamal, pianista de jazz, um dos principais líderes de pequenos conjuntos.

 Um grande inovador que se inspirou e influenciou em diversos estilos, desde a era das big bands até o bebop, o cool jazz e a música eletrônica. Um mestre do jazz americano que inspirou figuras importantes como Miles Davis, McCoy Tyner e Herbie Hancock. Renomado por seu toque requintado, profunda graça e escolhas improvisacionais mercuriais. Por sete décadas, ele tem compartilhado sua voz inimitável e única com os amantes do jazz em todo o mundo."

A carreira de Ahmad Jamal
Abrange sete décadas, cobrindo eras da música, das big bands, da era Parker/Gillespie até a era eletrônica. Jamal é um dos compositores e artistas mais sampleados do mundo. Ele ainda grava e produz artistas, e acaba de lançar "Jamal Plays Jamal" por sua própria gravadora, disponível em www.ahmadjamal.com.

Ahmad Jamal é um artista Steinway há mais de meio século.

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