Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Muddy Waters & Johnny Winter


WINTER & WATERS
' Um tornado nas águas do Mississippi '

HARD AGAIN
Após quase 30 anos, Muddy Waters deixava em 1976 a Chess Records, gravadora onde esteve desde a época em que ainda se chamava Aristocrat Records em meados dos anos 1940. Por meio da Chess, Waters consolidou o seu nome como o "Pai do Chicago Blues" e através dela lançou boa parte dos seus discos, alguns deles álbuns que se tornaram obras-primas do blues como o gravado ao vivo At Newport 1960 (1960) e o acústico Folk Singer (1964). Waters deixou a Chess um ano depois que a gravadora foi vendida a All Platinum Records.

Contudo, Muddy Waters não ficou sem gravadora por muito tempo. Ainda em 1976, Waters assinou com a Blue Sky Records, selo do jovem guitarrista de blues, Johnny Winter, que era um seguidor do lendário bluesman desde a infância. Vendo o seu ídolo sem gravadora, Winter não pensou duas vezes, e não só o trouxe para o seu selo como decidiu ele mesmo produzir o álbum da lenda do blues.

Para a empreitada, Muddy Waters foi cercado de músicos competentíssimos do blues, alguns deles, velhos companheiros de Waters de estrada como o pianista Pinetop Perkins, o gaitista James Cotton, o baterista Willie Smith e o guitarrista Bob Margolin. Todos eles, em algum momento e em épocas diferentes, haviam sido músicos da banda de Waters. Johnny Winter, além de produzir, também tocou guitarra nas gravações fazendo os solos e slides.


Destaque aos mestres Pinetop Perkins no piano de boteco trazendo todas as sensações do verdadeiro blues de Chicago, enquanto que a gaita de James Cotton dialoga muito bem com os solos de guitarra de Winter, uma participação incendiária sua performance na gaita. A partir de meados da década de 1950, Cotton já havia tocado com o grupo de Muddy Waters, alternando com Little Walter, em paralelo com seu trabalho para Howlin' Wolf e sua própria banda. James Cotton também auxiliou Muddy Waters em sua aclamada gravação ao vivo do Newport Jazz Festival em 1960. Cotton ajudou a completar o quebra-cabeça ao trazer o baixista de seu grupo, Charles Calmese, para as sessões. A experiência coletiva, o conhecimento e a compreensão do blues que esses homens possuíam só podem ser descritos como simplesmente impressionantes e inspiradores.

O álbum foi gravado em outubro de 1976, durante três dias, e dentro de um clima de muita descontração. Todo esse clima alegre se refletiu no álbum, cujo repertório trouxe quatro regravações de antigas canções e cinco faixas novas que Waters havia composto especialmente para o disco. Curiosamente, apesar da ficha técnica indicar que Muddy tocou guitarra elétrica, instrumento do qual se tornou uma lenda do blues, ele na verdade nada tocou no disco, apenas cantou. O disco foi lançado no início de 1977 e logo em seguida saíram em turnê. O álbum ganhou um Grammy.

NOTHING BUT THE BLUES
No mesmo ano, Winter convida a mesmo formação da banda de Waters para gravar seu próximo disco, "Nothin' But The Blues", o que foi uma surpresa na época. Após um longo tempo fazendo discos mais voltados para o blues-rock, Johnny à frente da banda de Waters, mergulha fundo na lama do Mississippi e soa mais blues do que nunca. O álbum foi o oitavo de estúdio do guitarrista, trazendo e marcando um retorno visceral e profundo às suas raízes no blues tradicional. 

Quase todas as faixas foram escritas pelo próprio Johnny Winter, com exceção de uma composição de Muddy Waters, Walking Thru The Pack. No encarte do LP, Winter deixou claro o propósito da obra: dedicar o trabalho a todos os amantes do gênero e, em especial, a Muddy Waters, por tê-lo inspirado a resgatar a pureza do estilo. O disco é amplamente considerado um dos pontos mais altos da carreira de Johnny Winter, mostrando sua habilidade técnica incomparável aliada a um respeito genuíno pelos grandes mestres do gênero.

A parceria Muddy Water e Johnny Winter ainda renderia mais três álbuns: I'm Ready (1978), o gravado ao vivo Muddy "Mississippi" Waters - Live (1979) e King Bee (1981), o último da carreira de Waters antes dele morrer em abril de 1983, aos 70 anos.

VIDA LONGA AO BLUES !!

Ancestralidades: Plataforma Cultural


ANCESTRALIDADES
' plataforma de trajetórias, biografias e fatos históricos '

Sobre a Plataforma Ancestralidades

A Plataforma Ancestralidades objetiva reunir e difundir conteúdos derivados de processos investigativos para evidenciar as criações dos diversos Brasis baseados em saberes, histórias e culturas da população negra. Esse espaço plural, desenvolvido em parceria entre a Fundação Tide Setubal e o Itaú Cultural, é também um local de formação e fomento para iniciativas transversais dispostas em quatro eixos estratégicos: Democracia e Direitos Humanos, Arte e Cultura, Ciência e Tecnologia e Religiosidade e Espiritualidade.

A plataforma pretende ser um espaço destinado ao debate e à reflexão acerca desses temas, em diálogo com pesquisadores, mestres populares, centros de estudos e outras instituições, gerando pesquisas, publicações, cursos de formação e conteúdos didáticos com abordagens que referenciem e ressignifiquem as efemérides históricas.

Dentro dessa lógica, a plataforma tem também como um de seus objetivos mostrar aos visitantes um Brasil que, mais do que invisibilizado, foi silenciado por séculos e que ainda sofre com situação de violência decorrente das relações raciais no país. Apesar disso, esse mesmo Brasil mostrado em Ancestralidades é marcado pela pluralidade e pela riqueza ímpar no que diz respeito à produção artística, intelectual, científica e na criação de mecanismos de resistência e de defesa dos direitos humanos.

O foco dos materiais disponibilizados é colocar o leitor em contato com a riqueza intelectual das populações negras, que pode ser observada em diversas áreas do conhecimento. Em termos cronológicos, os conteúdos abordam eventos, fatos e personalidades contemporâneos. A linha do tempo chega até os primeiros anos do século XVI, com destaque para a produção intelectual negra.

A plataforma Ancestralidades é um projeto que estará em constante atualização, pois visa também acompanhar as transformações e necessidades da sociedade brasileira. O espaço retrata as experiências, os saberes e as vivências da população negra.

Essa lógica está alinhada a um dos principais objetivos da plataforma, que é enfatizar a urgência na construção de uma sociedade pautada pela diversidade, justiça e equidade.

Sobre o Itaú Cultural e a Fundação Tide Setubal

A Plataforma Ancestralidades foi idealizada e organizada por meio de parceria entre o Itaú Cultural e a Fundação Tide Setubal, e está diretamente conectada aos princípios e valores de ambas as instituições. Esse espaço plural e computacional é resultado dos trabalhos desenvolvidos por ambas as organizações nas suas respectivas áreas de atuação, com destaque para as áreas ligadas aos direitos humanos e cultural, que serviram como base para o desenvolvimento dos conteúdos na plataforma.

O Itaú Cultural tem atuação voltada à pesquisa, à produção de conteúdo e ao mapeamento, ao incentivo e à difusão de manifestações artístico-intelectuais. O objetivo do projeto está diretamente ligado aos princípios da instituição, como a democratização do acesso à arte e à cultura, o reconhecimento e o apoio à constituição da memória da arte e da cultura brasileiras e a articulação e a difusão de conhecimentos, experiências e saberes sobre a arte e a cultura.

Já a Fundação Tide Setubal, que em 2021 completou 15 anos de atuação no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, compreende que um dos principais mecanismos para alcançar esse objetivo é o combate ao racismo em âmbitos estrutural e institucional – e, como consequência, pela valorização da cultura e da intelectualidade afro-brasileira e indígena. Essa premissa, aliada aos valores da organização – democracia, diversidade, equidade e colaboração –, visa romper com o histórico de apagamento da produção intelectual das populações negras e originárias durante a história brasileira.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: King Crimson


KING CRIMSON
' In The Court Of The Crimson King - 1969 '

Uma banda formada pelos irmãos Giles e Robert Fripp, um guitarrista alternativo e um tanto exótico para a época. O King Crimson é um dos mais importantes grupos de rock progressivo, tendo sobrevivido a incontáveis mudanças de formação desde a sua criação, há quatro décadas. Os outros integrantes originais eram o vocalista e baixista Greg Lake, o baterista Michael Giles, o letrista Peter Sinfield e Ian McDonald nos teclados, vibrafone e sopro. Essa formação gravaria apenas esse LP.
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A ilustração intrigante da capa foi produzida por Barry Godber, um programador de computador que fez o desenho a pedido de Fripp, a visão da esquizofrenia é retratada em tons fortes e com um ângulo de profundidade único. Segundo Fripp: "Se você cobrir o rosto sorridente, os olhos revelam uma tristeza incrível. O que se pode acrescentar? Ele reflete a música". Juntando isso às letras sinistras, o álbum já seria algo fundamental e revolucionário para o estilo progressivo.

A faixa “21st Century Schizoid Man” dá o tom. Trata-se, provavelmente, do primeiro hino alternativo, com um enorme riff principal, um sax potente e visões apocalípticas. Há ainda mais choro e lamentação em “Epitaph”, uma bela balada sobre o destino, na qual a voz melancólica de Greg Lake é ancorada por uma rica coleção de texturas. “Moochild” é uma fantasmagórica canção bucólica de amor, elevada ao nível do épico por um improviso jazzístico de interlúdio; já a faixa-título mistura arabescos folk, uma bateria bombástica e flauta barroca para inovar um cenário medieval.

In the Court of the Crimson King pode ​​ser o álbum de rock progressivo mais influente já lançado. Nele já é explorado cada elemento significativo de um gênero de rock progressivo maduro. O álbum aglutina tropos e convenções do rock progressivo, alguns dos quais só seriam estabelecidos no futuro, em um único meio congestionável. O impacto desses desenvolvimentos, é o álbum representando, mas também influenciando o impacto musical geral do rock progressivo como um todo nas próximas décadas.

Todos os elementos que caracterizam a maturidade do progressivo estão presentes: as influências do jazz e do blues são subservientes a um intenso rigor composicional caracterizado por arranjos sinfônicos clássicos ocidentais induzidos por Mellotron... totalmente inofensivo para qualquer ouvinte clássico ou pop. Além do álbum ser definido pela sensibilidade de vanguarda e arranjos sutis, ele ainda se comunica por meio da linguagem acessível dos roqueiros.

FICHA TÉCNICA:

1. 21st Century Schizoid Man (Fripp, McDonald, Lake, Giles, Sinfield).
2. I Talk To The Wind (McDonald, Sinfield).
3. Epitaph (Fripp, McDonald, Lake, Giles, Sinfield).
4. Moonchild (Fripp, McDonald, Lake, Giles, Sinfield).
5. The Court of the Crimson King (McDonald, Sinfield).

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A perseguição a Paulo Freire


O Golpe Militar de 1964 e a Perseguição a Paulo Freire

Fim da Experiência de Alfabetização de Brasília e do PNA

A experiência de Brasília, como um projeto-piloto de alfabetização de adultos a ser disseminado para o restante do país, foi subitamente interrompida pelo golpe de Estado que instaurou a ditadura militar no Brasil, a partir de 31 de março de 1964. As atividades educativas e culturais desenvolvidas pelo referido projeto, no segundo semestre de 1963 e com expansão iniciada em março de 1964, foram tachadas de subversivas e ficaram impedidas de funcionar, diante da presença ostensiva das forças armadas no centro do poder e das ameaças à ordem democrática.

O golpe de Estado, que resultou na mais extensa das ditaduras militares da América Latina, instaurou, no país e em Brasília, um clima de arbitrariedade e opressão. A ditadura, que buscava eliminar o projeto de nação comprometido com os menos favorecidos e com a soberania nacional, atingiu, rapidamente, o grandioso Plano Nacional de Alfabetização (PNA), criado pelo presidente João Goulart, em 21 de janeiro de 1964. Por força do Decreto n.º 53.886, de 14 de abril de 1964, o governo militar revogou o Decreto n.º 53.465, que havia instituído o PNA há menos de três meses e determinou a recolha, pelo Departamento Nacional de Educação, de todo acervo e recursos utilizados na execução do Programa.

O vendaval que assolou o país espalhou, apreendeu e destruiu a maior parte dos registros e materiais utilizados por Paulo Freire e seus colaboradores, no projeto-piloto de alfabetização de Brasília, assim como nas experiências que o antecederam e nas atividades realizadas no âmbito do PNA. Em Brasília, já no dia seguinte ao golpe, iniciou-se a recolha do material didático utilizado nos círculos de cultura, inclusive nas residências dos supervisores e coordenadores do projeto, segundo depoimento da professora Renée Simas. Instalou-se um sentimento de medo nas comunidades beneficiadas pelo projeto, o que, muitas vezes, levou à destruição do material pelos próprios alfabetizandos e demais envolvidos.

Simultaneamente, teve início a perseguição a Paulo Freire. No dia do golpe, ele e Elza, sua esposa, encontravam-se em Brasília e, em meio a fortes tensões, foram acolhidos por um amigo, em seu apartamento. Curiosamente, tratava-se do então deputado federal da UDN, Luiz Bronzeado, seu ex-colega no curso de Direito, em Recife. Apesar de ser um parlamentar da situação, prevaleceu, em sua atitude, a amizade que mantinha com Paulo Freire desde a juventude. O casal permaneceu nesse local, em segurança, até o dia 13 de maio, quando viajou para o Recife.

Nessa data, que estava prevista para a solenidade de inauguração do PNA pelo presidente João Goulart, o Ministério da Educação divulgava, pela imprensa, um levantamento do material usado na campanha de alfabetização, com o arrolamento de um vasto equipamento fotográfico, avaliado em vários milhões de cruzeiros e publicações consideradas de caráter subversivo pelos gestores do regime militar. A volta à sua cidade natal acarretou a Paulo Freire novos transtornos, sendo submetido a interrogatórios e inquéritos administrativos e policiais militares. Acusado de subversivo, foi preso no dia 16 de junho, permanecendo nessa condição por 75 dias, em um quartel de Olinda, PE.

As medidas repressivas da ditadura militar também atingiram promotores e executores do projeto-piloto de alfabetização de Brasília. Como informam pesquisas realizadas na página “Memórias Reveladas”, do Arquivo Nacional, muitos inquéritos policiais militares tiveram de ser respondidos por pessoas envolvidas na experiência, desde os que ocuparam cargos no MEC até alfabetizadores que atuaram nos círculos de cultura.

Diante das circunstâncias e do risco de ser preso novamente, o educador foi convencido pelos amigos a deixar o país. Aos 43 anos, pai de cinco filhos e com uma carreira promissora, ele se viu obrigado a pedir asilo à Embaixada da Bolívia. Concedido o asilo, viajou para lá sozinho, no mês de setembro, e a família uniu-se a ele meses mais tarde.

Após uma rápida estada na Bolívia, Paulo Freire embarcou, em novembro de 1964, para o Chile a fim de trabalhar no Instituto de “Capacitación y Investigación de la Reforma Agraria” (Icira), no qual permaneceu até 1969. No Chile, havia, então, um clima favorável ao educador para desenvolver as suas teses. Vale lembrar que, naquele país, ele escreveu dois de seus livros mais conhecidos: Educação como Prática da Liberdade (1965) e Pedagogia do Oprimido (1968).

Em 1969, aceitou convite para lecionar nos Estados Unidos e passou a residir com a família em Cambridge, Massachusetts, onde atuou, durante 11 meses, como professor visitante da Universidade de Harvard.

Em 1970, a convite do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), mudou-se com a família para Genebra, Suíça, onde permaneceu até 1980, exercendo a função de consultor educacional na instituição. Durante a sua permanência no cargo, percorreu mais de trinta países, nos cinco continentes, levando os seus ensinamentos para orientar experiências educacionais, com destaque aos países africanos de língua portuguesa.

Paulo Freire e Elza viveram no exílio durante longo período, que perdurou 16 anos. Apesar da imensa saudade de sua terra e de sua gente, o educador encontrou motivação para perseguir seus ideais educacionais e contribuir para o desenvolvimento das comunidades nos países em que atuou. Acrescente-se ainda que, na sua peregrinação pelo mundo, Paulo Freire pôde consolidar e ampliar o seu conhecimento e difundir os paradigmas de uma educação transformadora e emancipadora.

No entanto, a ausência forçada do Brasil representou um retrocesso das políticas públicas, que visavam a erradicação do analfabetismo e a formação de uma consciência cidadã.

No seu retorno ao país, o educador marcará, em diversos momentos, a sua presença na capital federal, contribuindo em pautas relevantes para a educação brasiliense.

Escola Viva: Paulo Freire

Escola Viva
O Método Paulo Freire e a Leitura do Mundo
( Entrevista para o programa TV Cultura )

Em uma definição clássica, o termo “método” é entendido como o processo racional utilizado para chegar-se a determinado fim. Em se tratando do método criado por Paulo Freire, o percurso a ser trilhado decorre de construção e aperfeiçoamento constantes, tendo em vista atender a finalidade a que se destina: alfabetizar pessoas trabalhadoras adultas, sem escolarização, de modo a capacitá-las a fazer a leitura do mundo, buscando uma tomada de consciência da realidade, para transformá-la.

A pedagogia freiriana não se resume a processos metodológicos que conduzam simplesmente à leitura e à escrita da palavra, dada a compreensão de que esses conhecimentos são os recursos necessários para fazer a leitura do mundo. Nesta concepção, o método nega a mera repetição alienada e alienante de frases, palavras e sílabas, ao propor aos alfabetizandos “ler o mundo” e “ler a palavra”; leituras, aliás, indissociáveis, como enfatiza Paulo Freire. Com essa finalidade, ele propõe uma educação problematizadora, de caráter crítico reflexivo, de desvelamento da realidade, que se desenvolve por meio de diálogo, no decorrer do qual o aprendiz vai descobrindo o mecanismo da formação das palavras escritas.

O trabalho pedagógico, concebido de acordo com tais referenciais, sustenta-se pela dimensão cultural, de cunho antropológico, que vai muito além de proporcionar uma simples leitura desprovida de sentido para o alfabetizando, na medida em que adentra o seu universo existencial. A premissa é de que o homem, como criador de cultura, ao tomar consciência de sua realidade, torna-se sujeito, capaz de, por meio de ação política, contribuir para a sua transformação. As reflexões de Paulo Freire são esclarecedoras da sua opção pelo conceito antropológico de cultura. Como se evidencia na fala do educador, a natureza exprime o que é dado ao homem; a cultura, o que é por ele feito.

Por agregar, aos ensinamentos da leitura e da escrita, estratégias pedagógicas direcionadas ao desenvolvimento da consciência crítica e participação política dos alfabetizados, o método Paulo Freire é considerado revolucionário. Além de alfabetizar, conscientizar e politizar, o método traz evidências de ampla e profunda compreensão da educação, razão pela qual lhe é atribuído caráter universal, que o tornou mundialmente conhecido e adotado em vários países. A interrupção das experiências freirianas no Brasil, pelo golpe militar de 1964, levou o educador a peregrinar pelos quatro continentes, durante o longo período em que esteve exilado de seu país, firmando-se como um dos maiores educadores do século XX.