Resistência LGBT+: entre a festa e a luta, entre a vida e a morte.
Eleição também é sobre o direito de existir.
No primeiro domingo de junho, mais de 40 mil pessoas ocuparam a Avenida Paulista. Era a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Bandeiras coloridas, música alta, fantasias, beijos, abraços e sorrisos tomaram conta do espaço público. Para quem olha de longe, pode parecer só uma grande festa. Para quem está na rua, é muito mais: trata-se de um ato político que, há três décadas, cobra uma sociedade mais digna e segura para a população LGBT+.
Porque, apesar dos avanços significativos das últimas décadas, como o reconhecimento da união homoafetiva pelo STF, a criminalização da homofobia, a conquista do nome social e a criação de políticas públicas em alguns municípios e estados, a dura realidade teima em não mudar na mesma velocidade.
Violência em números
O Brasil segue sendo um dos países que mais mata pessoas LGBT+ no mundo. Apesar da precariedade de registros oficiais sobre orientação sexual e identidade de gênero de vítimas de violência, informações públicas organizadas pelo Grupo Gay da Bahia apontam que, a cada 34 horas, uma pessoa LGBT+ é morta.
Não se trata de número solto, estamos falando sobre vidas interrompidas. Vidas que não puderam sequer chegar à Avenida Paulista. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou mais de 10 mil casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais e 5.500 casos contra pessoas trans e travestis no Brasil em 2024, sendo a maior parte das vítimas pessoas negras.
Essa violência não é só física. É também social e mental. É o adolescente expulso de casa ao se assumir. É a menina trans que não consegue matrícula na escola. É o jovem gay que ouve “você vai para o inferno” dentro da própria igreja. É a lesbofobia no ambiente de trabalho.
Essa violência é também a tentativa de silenciamento por meio de projetos de lei que, sob o discurso de “proteção da família”, querem impedir que se fale sobre diversidade sexual nas escolas – justamente, o espaço onde nove em cada dez estudantes LGBTI+ já sofreram agressão verbal e 86% dos estudantes LGBT+ sentem-se inseguros por suas características pessoais, segundo a Pesquisa Nacional Sobre o Bullying no Ambiente Escolar da Aliança Nacional LGBT+.
No mês anterior à pesquisa, 94% dos entrevistados LGBTI+ se sentiram deprimidos e 46% faltaram pelo menos um dia às aulas por se sentirem inseguros na instituição de ensino ou no caminho até ela. Enquanto isso, no Congresso Nacional, em assembleias estaduais e câmaras municipais tramitam dezenas de propostas que tentam nos colocar de volta no armário, ou pior, nos tirar do mapa.
O Brasil segue sendo um dos países que mais mata pessoas LGBT+ no mundo. Apesar da precariedade de registros oficiais sobre orientação sexual e identidade de gênero de vítimas de violência, informações públicas organizadas pelo Grupo Gay da Bahia apontam que, a cada 34 horas, uma pessoa LGBT+ é morta.
Não se trata de número solto, estamos falando sobre vidas interrompidas. Vidas que não puderam sequer chegar à Avenida Paulista. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou mais de 10 mil casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais e 5.500 casos contra pessoas trans e travestis no Brasil em 2024, sendo a maior parte das vítimas pessoas negras.
Essa violência não é só física. É também social e mental. É o adolescente expulso de casa ao se assumir. É a menina trans que não consegue matrícula na escola. É o jovem gay que ouve “você vai para o inferno” dentro da própria igreja. É a lesbofobia no ambiente de trabalho.
Essa violência é também a tentativa de silenciamento por meio de projetos de lei que, sob o discurso de “proteção da família”, querem impedir que se fale sobre diversidade sexual nas escolas – justamente, o espaço onde nove em cada dez estudantes LGBTI+ já sofreram agressão verbal e 86% dos estudantes LGBT+ sentem-se inseguros por suas características pessoais, segundo a Pesquisa Nacional Sobre o Bullying no Ambiente Escolar da Aliança Nacional LGBT+.
No mês anterior à pesquisa, 94% dos entrevistados LGBTI+ se sentiram deprimidos e 46% faltaram pelo menos um dia às aulas por se sentirem inseguros na instituição de ensino ou no caminho até ela. Enquanto isso, no Congresso Nacional, em assembleias estaduais e câmaras municipais tramitam dezenas de propostas que tentam nos colocar de volta no armário, ou pior, nos tirar do mapa.
Corte de recursos
Neste contexto de ameaça, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo aconteceu sob uma sombra que poucos notaram, materializada na redução de 60% dos investimentos para a realização do evento. Esse cenário não foi fruto do acaso. Ele é resultado direto de escolhas políticas, nesse caso, feitas lá nos Estados Unidos, com a eleição de Trump, com reflexos aqui.
Quando governos cortam verba da cultura, da diversidade, da cidadania, eles estão mandando um recado claro de que a vida LGBT+ não é prioridade. E isso, num ano eleitoral como este, deve soar como um alerta para cada um de nós. Daí o tema da Parada nesta edição: “A rua convoca. A urna confirma”.
Eleições não são só sobre política partidária. São sobre o direito de existir. Sobre a possibilidade de um jovem gay da periferia, como fui, poder sonhar sem ter que esconder quem é. Sobre a garantia de que uma travesti possa andar na rua sem ser agredida. Sobre a certeza de que casais homoafetivos possam ter os mesmos direitos do que casais heterossexuais. A escolha do nosso voto – de todas e todos, não só das pessoas LGBT+ – pode significar, para muita gente, uma sentença de vida ou de morte.
A Parada do Orgulho é um ato de alegria, sim. Mas é uma alegria que nasce da resistência. É o grito de quem também aprendeu a dançar sobre a dor da discriminação. É a certeza de que, enquanto houver uma só pessoa LGBT+ com medo de ser quem é, a luta não terá terminado.
E essa luta continua nas urnas, nas ruas, nas escolas, nas famílias, nos consultórios, nas igrejas. Essa luta não pode, de forma alguma, se restringir ao mês de junho. Ela continua em cada conversa que enfrenta o preconceito. Em cada voto dado a candidatas e candidatos comprometidos com a vida, com a dignidade humana, com a possibilidade de futuro para todos e todas.
A Parada completa 30 anos. Mas o armário ainda não foi totalmente desmontado. E enquanto houver quem queira nos trancar de volta, a festa continuará sendo, antes de tudo, um ato de coragem.
Matéria:
Hamilton Harley - 27 jun 2026
@RevistaLiberta
Hamilton Harley é doutor em Educação e mestre em Educação com pesquisa sobre sociabilidades de jovens homossexuais. É gerente do programa de Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog e membro titular do Comitê Nacional de Educação e Cultura em Direitos Humanos.
Neste contexto de ameaça, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo aconteceu sob uma sombra que poucos notaram, materializada na redução de 60% dos investimentos para a realização do evento. Esse cenário não foi fruto do acaso. Ele é resultado direto de escolhas políticas, nesse caso, feitas lá nos Estados Unidos, com a eleição de Trump, com reflexos aqui.
Quando governos cortam verba da cultura, da diversidade, da cidadania, eles estão mandando um recado claro de que a vida LGBT+ não é prioridade. E isso, num ano eleitoral como este, deve soar como um alerta para cada um de nós. Daí o tema da Parada nesta edição: “A rua convoca. A urna confirma”.
Eleições não são só sobre política partidária. São sobre o direito de existir. Sobre a possibilidade de um jovem gay da periferia, como fui, poder sonhar sem ter que esconder quem é. Sobre a garantia de que uma travesti possa andar na rua sem ser agredida. Sobre a certeza de que casais homoafetivos possam ter os mesmos direitos do que casais heterossexuais. A escolha do nosso voto – de todas e todos, não só das pessoas LGBT+ – pode significar, para muita gente, uma sentença de vida ou de morte.
A Parada do Orgulho é um ato de alegria, sim. Mas é uma alegria que nasce da resistência. É o grito de quem também aprendeu a dançar sobre a dor da discriminação. É a certeza de que, enquanto houver uma só pessoa LGBT+ com medo de ser quem é, a luta não terá terminado.
E essa luta continua nas urnas, nas ruas, nas escolas, nas famílias, nos consultórios, nas igrejas. Essa luta não pode, de forma alguma, se restringir ao mês de junho. Ela continua em cada conversa que enfrenta o preconceito. Em cada voto dado a candidatas e candidatos comprometidos com a vida, com a dignidade humana, com a possibilidade de futuro para todos e todas.
A Parada completa 30 anos. Mas o armário ainda não foi totalmente desmontado. E enquanto houver quem queira nos trancar de volta, a festa continuará sendo, antes de tudo, um ato de coragem.
Matéria:
Hamilton Harley - 27 jun 2026
@RevistaLiberta
Hamilton Harley é doutor em Educação e mestre em Educação com pesquisa sobre sociabilidades de jovens homossexuais. É gerente do programa de Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog e membro titular do Comitê Nacional de Educação e Cultura em Direitos Humanos.

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