Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

CREAM


CREAM
' maior power trio da história '

O Cream deixou um legado inestimável como o primeiro supergrupo relevante da história do rock e o pioneiro do formato power trio. A banda fundiu blues, psicodelia e jazz. Essa mistura revolucionou a música pesada e preparou o terreno para o surgimento do hard rock. Com longas improvisações instrumentais nos shows, transformou o blues em apresentações livres e experimentais. Riffs icônicos de faixas como "Sunshine of Your Love" e "White Room" ditaram o peso que influenciou todas as bandas dos anos 1970.

O álbum duplo Wheels of Fire foi o primeiro na história da música a receber o certificado de platina mundial por vendas. Mesmo com apenas dois anos de atividade e quatro álbuns de estúdio lançados, o grupo foi eternizado com a introdução no Rock and Roll Hall of Fame em 1993.
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Os músicos

O baterista Ginger Baker (nascido Peter Edward Baker em 19 de agosto de 1939 em Lewisham, Londres, Inglaterra) já era um músico respeitado no circuito londrino de blues da época. Ele fazia parte de uma das bandas pioneiras do blues britânico, The Graham Bond Organization (GBO), egresso do embrionário grupo The Blues Incorported de Alxis Korner e Cyril Davis. Baker não estava muito satisfeito na banda, os problemas com drogas e a instabilidade do vocalista e saxofonista Graham Bond, frontman do GBO, fazia com que ele tivesse planos de montar um novo grupo, ou, quem sabe, um supergrupo. 

O baixista e vocalista Jack Bruce (nascido John Symon Asher Bruce em 14 de maio de 1943 em Bishopbriggs, East Dunbartonshire, Escócia), também compartilhava do mesmo sonho de um supergrupo, sendo parceiro de Ginger Baker nas duas bandas, The Blues Incorported e GBO, a ideia era descolar um guitarrista virtuoso.

Nos idos de 1966, o guitarrista Eric Clapton (nascido Eric Patrick Clapton em 30 de março de 1945 em Ripley, Surrey, Inglaterra) gozava de uma ótima reputação como músico da cena londrina e tocava com a banda The Bluesbreakers de John Mayall, depois de ter saído dos The Yardbirds no ano anterior. Ele também estava com planos de formar um novo grupo em que pudesse colocar mais peso e dinâmica no blues que estava sendo experimentado naquele momento.

O início

Ginger Baker foi assistir a um show dos Bluesbreakers e ficou muito impressionado com a técnica e virtuosismo de Eric Clapton. Ao final do show, o batera ofereceu uma carona para Clapton até Londres, onde morava, e chamou o guitarrista para formar o novo grupo. Eric não se fez de rogado e aceitou prontamente o convite, já que o interesse e a admiração entre os músicos era recíproca.

Ginger Baker e Jack Bruce tinham a fama de terem tido algumas desavenças nas bandas anteriores, mas em nome do supergrupo essas indiferenças foram colocadas de lado. Imediatamente eles começaram 
a ensaiar e a compor algumas músicas juntos, e o power trio foi batizado de Cream, ou seja, "a nata" dos músicos, pois naquela altura os três eram colocados entre os melhores instrumentistas do blues britânico. Jack Bruce assumiu como vocalista e principal compositor da banda.


A estreia não-oficial do Cream aconteceu no dia 29 de julho de 1966 no clube Twisted Wheel, reduto da Soul Music em Manchester, Inglaterra. Duas noites depois, participaram do 'Jazz & Blues Festival' de Windsor. A resposta do público em ambas  apresentações foi de aprovação e euforia, mesmo porque os músicos já eram figuras conhecidas no circuito londrino de bares e casas de shows. Em outubro daquele ano, o trio fez uma antológica jam session com um então estreante e desconhecido guitarrista chamado, Jimi Hendrix, que também estava formando o seu próprio power trio, a The Jimi Hendrix Experience. Fã declarado de Eric Clapton, Hendrix realizou o sonho de tocar ao lado de seu ídolo.

Os álbuns

Em dezembro de 1966, com muitas ideias fervilhando na linha criativa de composição, rapidamente eles lançam Fresh Cream, o álbum de estréia da banda que é historicamente considerado o inovador, pioneiro e alicerce do estilo que ficou conhecido como: blues-rock. 

Recheado de canções clássicas dos bluseiros Robert Johnson, Skip James, Willie Dixon e Muddy Waters como Spoonful, Four Until Late e I’m So Glad, as músicas próprias também se tornariam clássicos da banda como Toad e I Feel Free, sendo a última uma composição de Jack Bruce em parceria com o letrista Peter Brown, que foi lançada no Reino Unido como single.

Em março de 1967, o Cream fez sua primeira turnê estadunidense, tocando nove noites no RKO Theater, em nova york, NY. Com algumas canções já sendo trabalhadas e ensaiadas, eles aproveitaram a estadia em nova york para iniciar a gravação do segundo álbum, Disraeli Gears, no estúdio da Atlantic Records.

Com a produção deTom Dowd e Felix Pappalardi (músico que fundaria ao lado do guitarrista Leslie West e do baterista Gail Collins outro power trio furioso, o Mountain).

Pappalardi se tornou uma espécie de “Quarto Creamer”. Diferente do primeiro, este disco tem mais composições autorais, destacando-se as clássicas Sunshine of Your Love (Bruce, Brown, Clapton), Strange Brew (Clapton, Pappalardi, Gail Collins) e Tales of Brave Ulysses (Clapton, Martin Sharp). No mesmo ano de 1967, a banda fez um show no legendário festival Fillmore West, em San Francisco, Califórnia, EUA, agradando em cheio à multidão de hippies que assistiam ao evento.

Em agosto de 1968, foi lançado o álbum duplo Wheels of Fire, sendo dividido o primeiro disco com gravações em estúdio e o segundo ao vivo, faixas gravadas durante um show em Winterland, San Francisco, Califórnia, EUA. Neste trabalhao, as características blueseiras começaram a dar espaço em favor de uma levada mais pesada, porém com músicas 
instrumentalmente mais trabalhadas utilizando mais a improvisação. 

Os destaques do álbum ficam por conta de White Room (Bruce, Brown), Born Under a Bad Sign (Booker T. Jones, William Bell), Crossroads (clássico de Robert Johnson, com arranjo de Eric Clapton) e Spoonful (Willie Dixon). Foi o primeiro disco da banda alcançar os mais altos lugares nas paradas norte americanas.

Apesar do êxito que a banda vivia, o cansaço começou a dominar os músicos. Se antes tudo era divertido e novo, após dois anos as coisas começaram a desandar e tudo começou a ficar mais desgastante e estressante. Cada membro estava "grande demais" e com ideias diferentes sobre qual rumo tomar para a banda. Todos se sentiam sem clima pra continuar adiante. Isso sem falar no fim da “trégua” entre Ginger Baker e Jack Bruce, que voltaram ás velhas rusgas, tendo sempre Clapton como pacificador. Decidiram então fazer uma derradeira turnê para depois estacionar de vez o Cream. A gravadora os persuadiu a gravar um último álbum, em meio à turbulenta excursão nos EUA e Reino Unido. Em novembro de 1968, aconteceu o último show do power trio no Royal Albert Hall, em Londres, Inglaterra. Foram convidadas ótimas bandas de abertura que estavam se destacando como o power trio Taste, banda de Rory Gallagher, e os então estreantes Deep Purple e YES.

O álbum Goodbye foi lançado em fevereiro de 1969 e consistiu de gravações ao vivo e em estúdio, com destaque para a faixa Badge, música que contou com a participação especialíssima do Beatle George Harrison na composição e guitarra rítmica, usando o pseudônimo de L’Angelo Misterioso. Naquela altura, George era muito amigo de Clapton, que tinha participado das sessões do Álbum Branco dos Beatles lançado no ano anterior. No mesmo ano, foi lançada a coletânea Best of Cream. Em 1970 e 1972, sairam os álbuns ao vivo da turnê de despedida Live Cream Vol. e Vol. II.

Em 1969, Clapton uniu forças ao amigo multi-instrumentista Stevie Winwood, do Traffic, o 
baixista Ric Grech, do Famíly, e o próprio Ginger Baker para criarem outro supergrupo chamado Blind Faith, projeto de curta duração gravando um só álbum. Clapton e Baker ainda tocaram juntos no projeto de Baker chamado Air Force e o guitarrista ainda fez parte do Delaney & Bonnie & Friends, engatando depois sua notória carreira solo. 

Jack Bruce também partiu para uma bem sucedida carreira solo, trabalhou com a jazz woman Carla Bley e o maestro e arrnjador Michael Gibbs, além de fazer parte da banda West, Bruce and Laing, junto aos membros do Mountain Leslie West e Corky Laing, ao qual gravaram três álbuns. Trabalhou também com Lou Reed e Frank Zappa e nos anos 90 fez parte do Supergrupo Ringo Starr & His All-Starr Band (em 1995 e 1997), além de sua carreira solo e muitas outras parcerias.


A emocionante despedida de honra

O Cream se reuniu em 1993 durante a cerimônia de introdução da banda no Rock and Roll Hall of Fame. Mais de duas décadas sem tocar juntos, o trio provou que tinha ainda muita lenha pra queimar, tocando seus clássicos Sunshine of Your Love, Crossroads e Born Under a Bad Sign (música que nunca tinha sido tocada ao vivo no período áureo do Cream). Cogitou-se de fazerem uma turnê juntos, como nos velhos tempos, mas infelizmente não deu certo. 

A reunião só veio a acontecer, como uma despedida de honra, nos dias 2, 3, 5 e 6 de maio de 2005 no Royal Albert Hall, em Londres, Inglaterra, ironicamente, palco do último show deles em 1968. Estavam na plateia nomes como Paul McCartney, Ringo Starr, Stevie Winwood, Brian May (Queen), Roger Waters (Pink Floyd), Jimmy Page (Led Zeppelin), Bill Wyman e Mick Taylor dos Rolling Stones. O sucesso foi tanto que a banda decidiu fazer um único show nos EUA e o lugar escolhido foi o Madison Square Garden em Nova York, NY. Esses shows são simplesmente espetaculares.

Em 2006, quando o Cream recebeu um Grammy pelo conjunto da obra, houve novamente rumores de uma reunião do trio. Jack Bruce chegou a declarar na imprensa que estava tudo certo, que já havia datas marcadas para a volta deles, mas Clapton e Baker negaram veementemente a notícia, encerrando o assunto. Inclusive Ginger teria dito que temia que fosem reabertas as velhas feridas do desentendimento entre ele e seu colega de cozinha. Jack Bruce faleceu no dia 25 de outubro de 2014, aos 71 anos, enterrando de uma vez por todas a possibilidade de uma nova reunião do Cream.
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