Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Curtis Mayfield

Curtis Mayfield

Esse é o segundo álbum de estúdio solo de Curtis Mayfield, lançado originalmente em outubro de 1971.

Ao que parece, o destino do artista negro é ser perpetuamente ignorado ou subestimado por uma indústria repleta das mesmas desigualdades que a sociedade em geral. E isso significa que é nossa responsabilidade desmentir o passado e dar ao trabalho a atenção que ele exige e merece. Se alguém merece um pouco mais de destaque, esse alguém é, sem dúvida, Curtis Mayfield, e Roots é um exemplo brilhante disso.
__________________________

Perspectiva do Álbum

Quando o álbum Welcome 2 America, de Prince, foi lançado postumamente em 2021, a cobertura da mídia foi repleta de comparações com Curtis Mayfield. Grande parte disso se deveu à história que circulou sobre o Dr. Cornel West (filósofo e escritor) sugerindo que seu "irmão" Prince era um gênio e amigo, mas não um Curtis Mayfield quando se tratava de comentários sociais, o que levou o músico de Minnesota a gravar material nesse estilo.

Ao ouvir o álbum, fica claro por que algumas pessoas conseguem ver essas semelhanças, mas parece meio superficial. Envolver tudo em guitarra wah-wah, cordas e ocasionais toques de metais pode parecer algo típico de Mayfield, mas falta algo para que essa comparação seja válida. Porém, ao ouvir o segundo álbum solo de Mayfield, 'Roots', podemos colocar a peça que faltava no quebra-cabeça.

Adicionando alguns ingredientes fundamentais, talvez esse seja um dos melhores trabalhos de Mayfield, que sem dúvida incluem seus outros álbuns da mesma época: A urgência na performance vocal, urgência nos arranjos de metais e urgência nas intervenções das cordas, foi o que talvez tenha faltado ao álbum do Prince.  Welcome 2 America não foi ajudado pela produção insípida e sem muita empolgação, e alguns trabalhos posteriores dele caíram no mesmo obscurantismo. 

Roots foi lançado em 1971, apenas cinco meses depois de seu álbum de estreia solo ao vivo ter alcançado o 21º lugar na parada de álbuns pop e pouco mais de um ano após seu eufórico álbum de estreia, Curtis (1970). Dizer que uma rica mina de ouro estava sendo explorada no início dos anos 70 pela lenda de Chicago seria um eufemismo. Quando levamos em conta que a trilha sonora de Superfly, que definiu uma era, foi extremamente popular e influente , lançada logo em seguida, em 1972, fica cristalino que Mayfield estava entre os maiores artistas de sua época.

Se fôssemos nos basear pela crítica original da revista Rolling Stone sobre o álbum Roots, na época, lembraríamos do disco como uma espécie de fracasso. Mas Mayfield demonstra em toda a sua obra a negritude profundamente enraizada que se tornou mais pronunciada na sociedade e em outras formas de arte após a tumultuada década de 1960, quando a esperança foi extinta repetidas vezes.

Como Questlove's Summer of Soul destaca de forma brilhante, a última parte daquela década pareceu anunciar o fim de uma breve, porém vã, esperança de que a igualdade racial pudesse ser alcançada, à medida que um líder após o outro era assassinado em seu auge. Emergindo das chamas das revoltas por todos os EUA, surgiu um pensamento afrocentrado mais amplo que se espalhou pela música, moda e arte. Uma das maneiras mais óbvias pelas quais Curtis Mayfield personificou isso foi através do uso da "percussão africana".

O Álbum: ingredientes especiais.

O "mestre" Henry Gibson foi o responsável pela percussão em Roots (e em centenas de outros álbuns) e ele insere o bongô e a conga nas obras do álbum, contorcendo-se e se movimentando incessantemente — uma verdadeira aula magistral de ritmo.

Ao lado de Gibson, havia outros prodígios musicais relativamente desconhecidos. Joseph 'Lucky' Scott contribuiu com linhas de baixo e desempenhou um papel fundamental para tornar as coisas tão funky quanto foram, com as mesmas técnicas de percussão que James Brown insistia em usar em sua banda (onde cada instrumento era projetado para ser percussivo ou rítmico).

Os arranjos foram feitos não apenas pelo próprio Mayfield, mas também por Johnny Pate, que havia sido baixista e arranjador de jazz antes de trabalhar com Mayfield na formação do The Impressions. Ao deixar a Curtom (gravadora de Mayfield) em 1972, ele fez arranjos para BB King, Bobby "Blue" Bland e Peabo Bryson, entre outros, tornando-se assim um elo de continuidade importantíssimo na história do desenvolvimento da música.

Aqueles ingredientes que faltaram no disco do Prince fica evidente em Roots desde os primeiros segundos da música. Depois de alguns segundos de gemidos e esforços humanos diminuírem em “Get Down”, uma linha de baixo gutural e sombria entra em cena, entrelaçada com a batida estrondosa de Gibson, e então a guitarra dramática de Mayfield começa a explodir, antes da pancada dos metais finalizar a música. Urgência não falta aqui — na verdade, ela impulsiona e pulsa com propósito e uma intenção funky.

Os talentos de Mayfield eram muitos, mas sua composição de melodias delicadamente belas esteve sempre presente ao longo de sua carreira. Aqui, isso se manifesta em “Keep On Keeping On”, uma exortação onírica para continuar o trabalho que ele sempre valorizou (inclusive na obra-prima de Curtis , “Move On Up”). 

No entanto, apesar de Mayfield ter escrito algumas das melodias mais belas que existem, sempre parecia haver espaço para um pouco de aspereza e “ruído” em meio à sua ternura.

Em “Underground”, as coisas ficam um pouco mais pesadas e menos otimistas. A faixa começa com uma introdução falada: “Agora temos que lidar com nossa própria autodestruição / Não podemos mais viver na superfície da Terra / Há poluição em todos os minerais e materiais naturais extraídos da terra / Nos tornamos verdadeiramente um vasto deserto”, antes da música tomar um rumo igualmente sombrio. A linha de baixo sinistra e a guitarra distorcida se combinam para criar uma atmosfera à altura dessas letras condenatórias. Mas não demora muito para o sol voltar a brilhar, na forma de “We Got To Have Peace”, que consegue inverter o sentimento em 180 graus. Seu falsete reconfortante mais uma vez incita o ouvinte a “salvar as crianças”, enquanto os metais reforçam essa ideia com sua potência. 

Os floreios da harpa que anunciam o início de “Beautiful Brother Of Mine” indicam que esse brilho continua, mas este é, na verdade, um exemplo perfeito da fusão de suas letras inspiradoras com o funk sujo em uma canção gloriosa. Toda a gama de sua obra está contida no funk pulsante — as cordas (desta vez com mais espaço para se expandir), o baixo retumbante e os metais impactantes, mas desta vez os vocais de apoio impecáveis ​​e as palmas adicionam uma camada extra de drama ao que já está imerso em tensão e urgência. O minuto final do groove impecável é dedicado aos incessantes bongôs e à beleza da guitarra (muitas vezes subestimada) de Mayfield.

Um raro caso de desilusão amorosa nos primeiros trabalhos solo de Mayfield inspira outra beleza em “Now You're Gone”. Embora longe de ser complexa em seu conteúdo lírico (“Você tinha um plano / Outro homem / Foi se esconder / Eu poderia ter morrido / Agora você se foi”), sua linha de baixo grave e pendular fornece a espinha dorsal perfeita para mais uma aula magistral de orquestração e arranjo ao longo de seus quase sete minutos de duração. A fusão perfeita de cordas, instrumentação tradicional de banda country com metais dinâmicos e estridentes e os incríveis floreios percussivos de Gibson é impecável e ainda faz sentir sua influência (juntamente com o trabalho de Charles Stepney com o Rotary Connection, etc.) na música atual.

A suave cadência de “Love To Keep You In My Mind” encerra o álbum com o mesmo estilo e elegância de algumas das canções que ele compôs para o The Impressions. Outra doce mistura de cordas, leves ondulações de percussão e seu falsete angelical e carinhoso reforça o fato de que ele conseguia equilibrar cenas íntimas de amor com canções de crítica social com facilidade e maestria.

Roots é considerado não apenas um dos melhores trabalhos de Mayfield, mas com certeza um clássico da era do soul music dos anos 70.
__________________________


Saúde Mental: Jogo Mata! Apostas Matam!


Uma tragédia Familiar
'Quando a dor encontra a política pública'

Tragédia familiar revela chaga social das bets, que permanece invisível na sociedade.

Matéria: Revista Liberta
Juliana Prates - 27 jun 2026
_________________________________

Relato:
Durante muito tempo, eu acreditei que as apostas eletrônicas fossem apenas um tema técnico. Aprendi do pior jeito que estava errada.

Meu irmão tirou a própria vida. Não foi de um dia para o outro. Foi aos poucos, do nosso lado, sem a gente perceber a dimensão da batalha que ele enfrentava.

Depois daquele dia, a vida passou a ser dividida entre o “antes” e o “depois”. Há um vazio que nunca será preenchido, perguntas sem resposta e uma necessidade quase instintiva de impedir que outras famílias experimentem esse mesmo sofrimento.

Eu não cheguei a esse tema por interesse acadêmico. Cheguei pela dor.

Como advogada, pesquisadora e auditora de controle externo, comecei a estudar o fenômeno das apostas de quota fixa, como são chamadas na Lei das Bets. Mas foi como irmã que compreendi a dimensão humana do problema.

Logo percebi que o debate público havia esquecido justamente isso.

Falávamos de arrecadação, de regulamentação e de mercado. Falávamos sobre empresas, plataformas e autorizações. Quase ninguém falava sobre pessoas.

Impactos sociais:
Enquanto o mercado crescia em velocidade impressionante, cresciam também o endividamento, os relatos de ansiedade, depressão e perda de patrimônio. Cresciam histórias de trabalhadores que comprometiam o salário todo do mês, de aposentados que perdiam as economias de uma vida inteira e de jovens que passaram a enxergar o jogo como uma forma de construir o futuro, quando, na realidade, ele foi desenhado para produzir lucro para a plataforma, e não para o apostador.

Essa talvez seja a maior distorção do debate brasileiro. Nós naturalizamos uma atividade que depende da repetição constante do comportamento do consumidor.

Essa normalização não acontece por acaso. Ela é construída todos os dias.

As apostas invadiram o esporte, os intervalos da televisão, as redes sociais e o cotidiano. Estão estampadas nas camisas dos times, nos estádios, nas transmissões esportivas, nas páginas dos influenciadores e no celular de milhões de brasileiros. A publicidade passou a vender pertencimento, emoção e a falsa ideia de que apostar faz parte da experiência esportiva.

O problema é que propaganda também educa:
Enquanto adultos são estimulados a enxergar as apostas como entretenimento, crianças e adolescentes crescem cercados por marcas de bets. Antes mesmo de terem idade para apostar, aprendem a associá-las ao esporte, à vitória, ao sucesso e à diversão. Estamos formando uma geração para a qual apostar deixa de ser uma exceção e passa a parecer um comportamento natural.

Ao mesmo tempo, os impactos sociais se tornam cada vez mais evidentes. Famílias inteiras se endividam. Há registros oficiais de utilização de recursos de beneficiários do Bolsa Família em apostas, revelando que essa indústria também alcança, justamente, quem mais necessita da proteção do Estado.

Quando decidi tornar público o motivo da morte do meu irmão, não foi apenas para explicar às pessoas da nossa convivência por que ele havia mudado tanto nos últimos tempos. Foi também um grito de indignação.

Depois daquela publicação, no dia 23/12 do ano passado, começaram a chegar milhares de mensagens de todos os cantos do país. Cada relato parecia carregar a mesma dor, a mesma vergonha e o mesmo pedido silencioso de ajuda.

Risco de dependência:
Foi nesse momento que compreendi que a morte do meu irmão não podia ser tratada apenas como uma tragédia familiar. Ela revelava um problema coletivo, que ainda permanecia invisível.

Foi essa convicção que me levou a ajuizar uma ação popular questionando a utilização de recursos públicos para promover apostas. Não porque acredito em soluções fáceis, mas porque políticas públicas precisam ser coerentes com as evidências.

Não faz sentido reconhecer que existe risco de dependência e, ao mesmo tempo, permitir a normalização do jogo.

Não faz sentido investir recursos públicos para tratar as consequências, enquanto se fortalece a causa.

Eu continuo pesquisando, escrevendo, ouvindo especialistas e dialogando com quem pensa diferente de mim. Mas existe uma convicção que nenhuma pesquisa será capaz de modificar.

Nenhuma arrecadação compensa uma vida perdida.

Nenhuma campanha publicitária vale o sofrimento de milhares de famílias.

Se este artigo servir para provocar uma única reflexão, espero que seja esta: antes de discutirmos o quanto as apostas movimentam a economia, precisamos perguntar quanto elas estão custando na vida das pessoas.

Meu irmão já não está aqui para contar a história dele.

Talvez seja por isso que eu tenha escolhido dedicar meu tempo para contar essa história por ele.

Na esperança de que, um dia, nenhuma outra criança cresça acreditando que apostar é parte natural do esporte. Que nenhum adolescente seja educado pela publicidade antes mesmo de compreender os seus riscos. Que nenhuma família veja o dinheiro do alimento, do aluguel ou de um benefício social desaparecer em uma plataforma de apostas. E, sobretudo, na esperança de que nenhuma outra irmã precise escrever um texto como este.

Matéria:
Juliana Prates - 27 jun 2026
@RevistaLiberta


Juliana Prates é advogada e auditora do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, com atuação nas áreas de controle externo, avaliação de políticas públicas e governança. É mestranda em Gestão e Políticas Públicas pela Fundação Getúlio Vargas, possui MBA em Inovação e Auditoria no Setor Público pela USP/IRB. Seu ativismo nasceu de uma tragédia familiar: a perda de seu irmão, que tirou a própria vida em decorrência da ludopatia. Desde então, ela usa as redes sociais para alertar a sociedade sobre as severas consequências financeiras e psicológicas que as bets causam.

_________________________________


Diretios Humanos: Resistência LGBT+

Resistência LGBT+: entre a festa e a luta, entre a vida e a morte.

Eleição também é sobre o direito de existir.

No primeiro domingo de junho, mais de 40 mil pessoas ocuparam a Avenida Paulista. Era a 30ª Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Bandeiras coloridas, música alta, fantasias, beijos, abraços e sorrisos tomaram conta do espaço público. Para quem olha de longe, pode parecer só uma grande festa. Para quem está na rua, é muito mais: trata-se de um ato político que, há três décadas, cobra uma sociedade mais digna e segura para a população LGBT+.

Porque, apesar dos avanços significativos das últimas décadas, como o reconhecimento da união homoafetiva pelo STF, a criminalização da homofobia, a conquista do nome social e a criação de políticas públicas em alguns municípios e estados, a dura realidade teima em não mudar na mesma velocidade.

Violência em números

O Brasil segue sendo um dos países que mais mata pessoas LGBT+ no mundo. Apesar da precariedade de registros oficiais sobre orientação sexual e identidade de gênero de vítimas de violência, informações públicas organizadas pelo Grupo Gay da Bahia apontam que, a cada 34 horas, uma pessoa LGBT+ é morta.

Não se trata de número solto, estamos falando sobre vidas interrompidas. Vidas que não puderam sequer chegar à Avenida Paulista. O Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) registrou mais de 10 mil casos de violência contra pessoas homossexuais e bissexuais e 5.500 casos contra pessoas trans e travestis no Brasil em 2024, sendo a maior parte das vítimas pessoas negras.

Essa violência não é só física. É também social e mental. É o adolescente expulso de casa ao se assumir. É a menina trans que não consegue matrícula na escola. É o jovem gay que ouve “você vai para o inferno” dentro da própria igreja. É a lesbofobia no ambiente de trabalho.

Essa violência é também a tentativa de silenciamento por meio de projetos de lei que, sob o discurso de “proteção da família”, querem impedir que se fale sobre diversidade sexual nas escolas – justamente, o espaço onde nove em cada dez estudantes LGBTI+ já sofreram agressão verbal e 86% dos estudantes LGBT+ sentem-se inseguros por suas características pessoais, segundo a Pesquisa Nacional Sobre o Bullying no Ambiente Escolar da Aliança Nacional LGBT+.

No mês anterior à pesquisa, 94% dos entrevistados LGBTI+ se sentiram deprimidos e 46% faltaram pelo menos um dia às aulas por se sentirem inseguros na instituição de ensino ou no caminho até ela. Enquanto isso, no Congresso Nacional, em assembleias estaduais e câmaras municipais tramitam dezenas de propostas que tentam nos colocar de volta no armário, ou pior, nos tirar do mapa.

Corte de recursos

Neste contexto de ameaça, a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo aconteceu sob uma sombra que poucos notaram, materializada na redução de 60% dos investimentos para a realização do evento. Esse cenário não foi fruto do acaso. Ele é resultado direto de escolhas políticas, nesse caso, feitas lá nos Estados Unidos, com a eleição de Trump, com reflexos aqui.

Quando governos cortam verba da cultura, da diversidade, da cidadania, eles estão mandando um recado claro de que a vida LGBT+ não é prioridade. E isso, num ano eleitoral como este, deve soar como um alerta para cada um de nós. Daí o tema da Parada nesta edição: “A rua convoca. A urna confirma”.

Eleições não são só sobre política partidária. São sobre o direito de existir. Sobre a possibilidade de um jovem gay da periferia, como fui, poder sonhar sem ter que esconder quem é. Sobre a garantia de que uma travesti possa andar na rua sem ser agredida. Sobre a certeza de que casais homoafetivos possam ter os mesmos direitos do que casais heterossexuais. A escolha do nosso voto – de todas e todos, não só das pessoas LGBT+ – pode significar, para muita gente, uma sentença de vida ou de morte.

A Parada do Orgulho é um ato de alegria, sim. Mas é uma alegria que nasce da resistência. É o grito de quem também aprendeu a dançar sobre a dor da discriminação. É a certeza de que, enquanto houver uma só pessoa LGBT+ com medo de ser quem é, a luta não terá terminado.

E essa luta continua nas urnas, nas ruas, nas escolas, nas famílias, nos consultórios, nas igrejas. Essa luta não pode, de forma alguma, se restringir ao mês de junho. Ela continua em cada conversa que enfrenta o preconceito. Em cada voto dado a candidatas e candidatos comprometidos com a vida, com a dignidade humana, com a possibilidade de futuro para todos e todas.

A Parada completa 30 anos. Mas o armário ainda não foi totalmente desmontado. E enquanto houver quem queira nos trancar de volta, a festa continuará sendo, antes de tudo, um ato de coragem.

Matéria: 
Hamilton Harley - 27 jun 2026
@
RevistaLiberta

Hamilton Harley é doutor em Educação e mestre em Educação com pesquisa sobre sociabilidades de jovens homossexuais. É gerente do programa de Educação em Direitos Humanos do Instituto Vladimir Herzog e membro titular do Comitê Nacional de Educação e Cultura em Direitos Humanos.


quarta-feira, 1 de julho de 2026

Direitos Civis: Curtis Mayfield


Direitos Civis:
O Homem Que Impulsionou o Movimento

Quando jovens ativistas dos direitos civis embarcaram nos ônibus dos "Freedom Riders" no início da década de 1960 para viajar ao sul e participar de protestos e ocupações, lutando pelo direito dos negros de comer um hambúrguer, usar o banheiro público ou sentar-se no assento de ônibus de sua escolha, muitas vezes tinham Mayfield em mente. O mesmo acontecia com os jovens estudantes negros enquanto marchavam pelas ruas, em frente às escolas e universidades, até os balcões de lanchonetes... e a caminho da prisão. O mesmo acontecia com as figuras influentes do Movimento dos Direitos Civis, desde o Dr. Martin Luther King Jr. até os demais...

A música mais cantada nas Viagens da Liberdade era “Keep on Pushing”, a composição de Curtis Mayfield que inspirou e inflamou a multidão durante a campanha pelos direitos civis. O Dr. King frequentemente usava “People Get Ready”, de Mayfield, com sua letra inclusiva, como música para motivar seus manifestantes e a nomeou o hino não oficial do Movimento, justamente por seu efeito motivacional e inspirador. Mayfield escreveu a canção um ano após a histórica Marcha sobre Washington, que resultou no monumental discurso “Eu Tenho um Sonho” do Dr. King, mas agora ela simbolizava aquela ocasião, a esperança, o espírito e a luta. 

Historiadores da música da época costumam se concentrar em “We Shall Overcome” ou “Blowin' in the Wind” – e essas canções certamente merecem seu lugar – mas se fosse para escolher a música preferida do povo, especialmente se fosse um afro-americano, seria Curtis Mayfield, sem sombra de dúvida! Era a música dele que despertava – e, quando necessário, acalmava – as multidões. Como observou o rapper Chuck D., as canções de Mayfield diziam às comunidades afro-americanas: "Estou com vocês. Curtis Mayfield é o homem cuja música impulsionou o Movimento!"

Martin Luther King Jr.: "Eu tenho um sonho"

Andrew Jackson Young foi um dos primeiros a sugerir que Mayfield era mais do que apenas mais um músico ávido por um sucesso no Top 40, mas sim uma figura política. E as pessoas prestam atenção em Andrew Young – afinal, ele é um ex-embaixador das Nações Unidas, ex-prefeito de Atlanta, ativista, pastor, apoiador e amigo do Dr. King; Young observou no documentário “Movin' On Up”: “Você precisa pensar em Curtis Mayfield como um professor profético e visionário do nosso povo e do nosso tempo... que cantava sobre o triunfo e a glória de nos unirmos como povo.”

Mayfield ("Sou um artista") discordaria veementemente, mas alguns o compararam ao Dr. King por seu impacto no Movimento dos Direitos Civis. Ele reconheceu que sua música teve sua parcela de influência, assim como teve em outras grandes transformações nos bairros negros durante a década de 1960 – o orgulho negro, mas também o flagelo da pobreza, das drogas e da violência nos centros urbanos.

"We're A Winner" (1967), gravada pelo grupo The Impressions, foi outro marco importante na obra de Mayfield, uma gravação popular magistral que abordava o tema do orgulho negro, anunciando firmemente que o tempo da autocomiseração havia acabado. "We're A Winner" era um tipo diferente de canção inspiradora de Mayfield para seu público afro-americano, incentivando a razão em vez da violência. Nela, Mayfield exorta seu público a "Continuar lutando/como seus líderes mandam" - Dr. King, Stokely Carmichael, etc. 

As composições anteriores de Mayfield adotadas pelo Movimento tinham raízes diretas no gospel e um tom mais geral. "We're A Winner" abordou diretamente a política racial nos Estados Unidos e impulsionou uma tendência de canções semelhantes que posteriormente falaram sobre a identidade negra e a política racial; músicas de artistas de soul como James Brown e Sly Stone. 

Mayfield também usou a frase como lema para sua gravadora Curtom Records e, com The Impressions, consolidou sua liderança nesse campo com lançamentos como "Choice of Colors" e "This is My Country".

É irônico que várias estações de rádio nos Estados Unidos, quando tumultos eclodiram em algumas cidades, tenham banido "We're A Winner" por causa do lirismo, aparentemente ignorando a mensagem de razão que ele contém.

“Éramos jovens e não sabíamos que essas músicas teriam esse impacto”, disse ele ao Chicago Tribune. “Tínhamos acabado de voltar de Madri e vimos jovens de 17 e 18 anos cantando nossas músicas. Eu não conseguia acreditar. Você percebe que músicas como 'Keep on Pushing', 'We're a Winner' e 'Choice of Colors' inspiraram pessoas, até hoje. 

Eu estava conversando com Andy Young e ele me contou como eles cantavam 'Amen' e 'Keep on Pushing' durante as marchas pela liberdade. Isso os inspirava a continuar fazendo o que estavam fazendo. É ótimo saber que tivemos um papel nisso.”

Mayfield conquistou um lugar de honra no diálogo musical do Movimento dos Direitos Civis, alcançado sem se desviar de seu propósito principal: criar sucessos nas paradas musicais, com um ritmo contagiante; ser um artista. O fato de essas melodias gospel carregarem uma mensagem é um bônus para todos nós. Modestamente, Curtis Mayfield recusava o título honorário de "O Pregador", dizendo: "Eu era capaz de dizer essas coisas sem dar a impressão de que as pessoas estavam sendo sermões."

Fred Cash, que está perto de completar seis décadas como membro do The Impressions, estava lá desde o início, na época em que Mayfield, como compositor, produtor e vocalista, criava essas canções que teriam um impacto social e político duradouro. E Cash admite que, como adolescente, mesmo sendo do Sul (Chattanooga), não compreendia totalmente a história que Mayfield estava fazendo com sua caneta... Ou que seu grupo, The Impressions, teria um papel a desempenhar em eventos que mudariam a história.



Artes plásticas: Roger Dean

 


A revolução nas capas dos discos


Com a chegada do chamado "rock progressivo" as capas começaram a ter conteúdos reflexivos e imaginários, dado que sua música expressava esse ambiente. Artistas como, Roger Dean, foram revolucionários para essa criação. 

Capas como Dark Side Of The Moon do Pink Floyd, o prisma atingido pelo feixe de luz reproduzindo uma aparência física e resultando nas cores do arco-íris, se tornou um sinônimo de inovação. Albúns como Fragile da banda Yes, Brain Salad Surgery do Emerson, Lake and Palmer e Demons & Wizards do Uriah Heep, definem bem essa ideia.
O resto é história!

____________________________________________

A Fantasia e o Imaginário no Rock Progressivo

Conhecido por seu estilo único de pinturas de capas de álbuns, logotipos, fontes e designs arquitetônicos orgânicos. Ele nasceu em Kent, Inglaterra, e se formou no Royal College of Art com medalha de prata. 
Sua carreira começou quando ele ainda era estudante, projetando a cadeira Sea Urchin e os assentos Landscape para o Ronnie Scott's Jazz Club, em Londres. Enquanto trabalhava com a equipe de Ronnie Scott, Roger foi convidado a projetar e produzir uma capa de álbum para uma banda de rock que eles haviam contratado, chamada “Gun”.

Foi em 1971 que o primeiro álbum de Osibisa foi lançado, com a inesquecível imagem de um elefante alado pousando em um céu laranja e magenta, acima do qual o nome da banda era anunciado no que se tornaria a tipografia desenhada à mão, marca registrada de Rogers. A imagem fez enorme sucesso tanto como capa do álbum quanto como pôster.

Na época, ele também foi questionado se aceitaria outra encomenda, e o nome da banda era YES. Essa encomenda se tornou a capa do álbum 'Fragile' e foi o início de uma longa e frutífera colaboração entre a família do YES e Roger Dean.

As qualidades surreais e oníricas das pinturas de Rogers, combinadas com as aventuras musicais às vezes assombrosas, ocasionalmente triunfantes, mas sempre expansivas da música do YES, tornaram-se uma experiência única apreciada por milhões.

Traços e o estilo próprio.
Além de seu trabalho como artista e designer, Roger Dean também foi cofundador das editoras Dragons' Dream e, cerca de um ano depois, Paper Tiger. Publicou mais de cem livros ilustrados com obras de artistas como Syd Mead, Alan Lee e Michael Kaluta.

Virgin Records, Psygnosis e Tetris exibiram orgulhosamente suas identidades visuais como logotipos de empresas, criados por Roger Dean.
O trabalho de Rogers é instantaneamente reconhecível e influenciou a cultura popular em todo o mundo. Estima-se que mais de cem milhões de pessoas já possuíram uma obra de Dean em algum momento, seja como capa de álbum ou pôster. Seus designs também foram imitados em grafites e grandes filmes.

Uma seleção do trabalho de Roger está em várias coleções particulares e museus, incluindo o Museu V&A em Londres e o Museu MAK em Viena.

Roger Dean
'O artista e designer que expandiu as mentes humanas'


____________________________________________