Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Cinema: Uma Noite em Miami

Uma noite em Miami
Drama • Pesado • Intenso
1 h 55 min.
Ano - 2021

Sinopse: Uma noite em Miami é o relato fictício de uma noite incrível onde os ícones Muhammad Ali, Malcolm X, Sam Cooke e Jim Brown se reúnem e discutem seus papéis na luta pelos direitos civis e na revolução cultural dos anos 1960.

Diretores: Regina King.
Produtores: Jess Wu Calder, Keith Calder, Jody Klein, Regina King, Kemp Powers, Chris Harding, Paul O. Davis.
Elenco: Kingsley Ben-Adir, Eli Goree, Aldis Hodge, Leslie Odom Jr..
Estúdio: Amazon Studios.
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Crítica do Filme

Uma Noite em Miami…
Regina King utiliza o poder revisionista do cinema para imaginar o encontro entre lendas da história negra estadunidense.

João Oliveira - 18 de janeiro de 2021
@PlanoAberto

Malcolm X
Apoiada nesta ideia de reimaginar a história, Regina King relembra um encontro entre Cassius Clay/Muhammad Ali (Eli Goree), Malcolm X (Kingsley Ben-Adir), Sam Cooke (Leslie Odom Jr.) e Jim Brown (Aldis Hodge) em Uma Noite em Miami… Embora relatos digam que este encontro de fato ocorreu, nunca se soube o que foi conversado entre estes quatro membros históricos do movimento negro estadunidense. Com isso, o filme de Regina King se encarrega de projetar como pode ter se dado esta reunião. Neste exercício imaginativo, King estabelece personalidades distintas para os quatro personagens de seu filme e os encarrega de dialogar acerca de seus papeis diante do movimento negro dos anos 60.

O jovem Clay, que acabara de se tornar campeão mundial pela primeira vez, reluta ingressar no islamismo e mudar seu nome para Muhammadi Ali, enquanto Malcolm X, mais velho e sereno, prega para que seus irmãos sejam mais incisivos em seus posicionamentos a favor da luta por direitos civis. Em contrapartida, Cooke, musicista bem sucedido e dono de uma gravadora, se contenta em produzir conteúdos brandos sem tocar na temática da igualdade racial, mesmo que seus shows no Copacabana não agradem muito os brancos.

Jim Brown
Mediando isto tudo, Jim Brown é a figura conciliadora, que trata de ouvir ambos os lados e se divide entre a carreira na NFL e o sonho de ser ator. Sem priorizar nenhum personagem, King dá a cada um deles momentos de brilho e encarrega que os debates cheios de falas fortes carreguem o filme.

Por ter seu roteiro baseado em uma peça teatral, Uma Noite em Miami… poderia muito bem cair na problemática de se prender a um único cenário e render poucos momentos cinematográficos, dependendo demais de seu texto e interpretações. No entanto, King consegue driblar este empecilho ao introduzir eventos que obrigam seus personagens a migrar para outros cenários. Além disso, tanto na cena final, quanto na inicial, King preza por uma narrativa mais biográfica, mostrando seus personagens antes e depois da noite do filme em momentos e locais diferentes. Estas pequenas alterações de cenários dão dinamismo ao filme, enquanto o cenário principal, o quarto de hotel de Malcolm X, se encarrega de enfatizar a sensação de aprisionamento em um filme que muito fala sobre busca pela liberdade.

Muhammad Ali
A liberdade é o tema central para o filme. Complexa, esta busca por libertação é quase paradoxal, pois os embates de pontos de vista parecem não chegar a um consenso de qual é a melhor maneira para obtê-la. O filme não parece interessado em tirar respostas, muito pelo contrário, seu maior interesse é em expor alternativas. Não há juízo de valor para dizer qual personagem está mais certo que o outro. Os embates e os discursos até são capazes de atingir e mudá-los, mas não há um apontamento claro para uma ideologia.

Apesar do filme tentar imaginar o que aconteceu dentro do quarto de Malcolm X nesta noite de Miami, seu momento de mais força é quando ele recorre aos fatos. Regina King, em uma manobra ousada, não imagina novos rumos para seus personagens após o encontro, em vez disso, ela finaliza seu filme recriando exatamente como a história se sucedeu. Ao realizar isto, a diretora expõe que pouco importa o quão edificante ou banal possa ter sido aquela noite, os resultados seriam os mesmos graças ao Estado opressor estadunidense.

Sam Cooke
Por mais forte que Cooke tenha saído das conversas com Malcolm e tenha cedido um espaço para o movimento negro em suas composições, a casa de seu amigo ainda seria incendiada e o compositor logo depois seria assassinado. O racismo estrutural não se importa com o que aconteceu naquela noite de Miami e, no fim das contas, imaginar o que aconteceu neste dia é um exercício em vão.

Mesmo assim, King deixa uma nota esperançosa, pois a celebração de maneira inspiracional de seus personagens serve de como um espelho e um chamado para despertar nos dias atuais. A diretora quer mostrar que estas figuras, embora distintas, tinham um propósito de vida e foram capazes de pavimentar os direitos obtidos hoje em dia. Se o cinema negro consegue produzir filmes como Uma Noite em Miami…, esta noite teve uma pequena parcela de responsabilidade nisso. É uma narrativa forte, que demonstra que qualquer conversa naquele local não mudaria o futuro, mas que mira para o presente em busca de dias melhores.

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Outras Sabedorias: Carla Akotirene


Audiência de custódia, a porta de entrada do encarceramento. 

| Carla Akotirene |
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Sobre o tema do Livro:
A pesquisadora e escritora Carla Akotirene defende que a audiência de custódia funciona como a principal via de encarceramento em massa. Embora prevista para garantir direitos, ela revela como o sistema judiciário utiliza esse mecanismo para legitimar prisões em flagrante, perpetuando o racismo institucional e a violência contra corpos negros.

Em sua palestra e obras, a autora elenca pontos cruciais sobre o tema:
O ritual da prisão: Em tese, a audiência serve para o juiz averiguar abusos de autoridade e decidir pela legalidade da detenção, relaxando a prisão ou concedendo liberdade provisória. Na prática, ela frequentemente apenas formaliza o encarceramento.

A herança escravocrata: O aparato policial-judicial reproduz lógicas coloniais, onde o camburão atua como uma extensão do navio negreiro. A criminalização seletiva impede que o racismo seja devidamente apurado nessas sessões.

Denúncia literária: Suas reflexões críticas estão aprofundadas no livro "É Fragrante Fojado Dôtor Vossa Excelência: Audiências de Custódia, Africanidades e Encarceramento em Massa no Brasil", onde analisa as violações dentro da Vara de Audiência de Custódia do Tribunal de Justiça da Bahia.


TEDx Talks

Carla é uma voz incansável na luta contra o racismo e a violência sistêmica. Como militante acadêmica antirracista, ela mergulha em estudos sobre o extermínio de jovens negros, a prisão em massa e o racismo institucional. Seu trabalho vai além das palavras: Carla coordenou a primeira campanha nacional contra o genocídio da juventude em 2010 e oferece consultorias v sobre violência letal em unidades socioeducativas. Doutora em Estudos Feministas, ela não apenas escreve sobre mudanças, mas também as lidera. Suas obras "Interseccionalidade" e "Ó paí Prezada" são verdadeiros manifestos pela justiça social, publicadas pela editora Jandaíra. E como se isso não bastasse, Carla é autora da marcante "Fojado Doutor Vossa Excelência", a primeira tese sobre audiência de custódia, pela renomada editora Civilização Brasileira. Hoje, ela está à frente da Opará Saberes, um curso de extensão vital para o ingresso de pessoas negras em programas de mestrado e doutorado na UFBA, construindo pontes para um futuro mais inclusivo.

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terça-feira, 7 de julho de 2026

Dexter Gordon

Dexter Gordon
' Gigante Sofisticado '

Livro: A Vida e o Legado de Dexter Gordon

“Com 'Sophisticated Giant', Maxine Gordon proporcionou um retorno ainda mais dramático, e talvez mais importante, do que aquele que ela ajudou a organizar para ele [Dexter Gordon] em 1976.” — David Hajdu, New York Times

Dexter Gordon é amplamente considerado o primeiro músico a traduzir a linguagem do jazz moderno de meados do século XX - também conhecido como "bebop" - para o saxofone tenor.
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História e trajetória artística. 

Dexter Keith Gordon nasceu em 27 de fevereiro de 1923 em Los Angeles, Califórnia. Seu pai, Dr. Frank Gordon, foi um dos primeiros médicos afro-americanos em Los Angeles, tendo chegado em 1918 após se formar na Faculdade de Medicina de Howard, em Washington, D.C. Entre seus pacientes estavam Duke Ellington e Lionel Hampton. A mãe de Dexter, Gwendolyn Baker, era filha do Capitão Edward Baker, um dos cinco afro-americanos condecorados com a Medalha de Honra na Guerra Hispano-Americana.

Dexter começou seus estudos musicais com o clarinete aos 13 anos, depois passou para o saxofone alto aos 15 e, finalmente, para o saxofone tenor aos 17. Estudou música com Lloyd Reese e na Jefferson High School com Sam Browne. Em seu último ano do ensino médio, recebeu um telefonema do saxofonista alto Marshall Royal convidando-o para se juntar à banda de Lionel Hampton. Ele deixou Los Angeles com a banda, viajando para o sul e aprendendo a tocar com os colegas de banda Illinois Jacquet e Joe Newman. Em janeiro de 1941, a banda tocou no Grand Terrace em Chicago por seis meses e as transmissões de rádio feitas lá foram as primeiras gravações de Dexter.

Início da carreira (década de 1940).

Foi em 1943, enquanto estava em Nova Iorque com a banda Hampton, que Dexter participou de uma apresentação no Minton's Playhouse com Ben Webster e Lester Young. Esse seria um dos momentos mais importantes de sua longa carreira musical, pois, como ele mesmo disse, "as pessoas começaram a notar".

De volta a Los Angeles em 1943, Dexter tocou principalmente com Lee Young (irmão de Lester Young) e com Jesse Price, além de algumas semanas com a Orquestra de Fletcher Henderson. Em 1944, trabalhou com a orquestra de Louis Armstrong, um dos pontos altos de sua carreira. Estar na companhia do grande mestre do trompete foi inspirador e lhe proporcionou uma visão do mundo da música que ele jamais esqueceu. Foi durante esse período que Gordon fez suas primeiras gravações solo de longa duração como líder de um quinteto, com Nat "King" Cole como músico convidado.

Em 1944, Dexter juntou-se à banda de Billy Eckstine, berço de muitos dos inovadores do Bebop da época e de muitos dos líderes de banda mais proeminentes do futuro. Ele era cercado todas as noites por Sarah Vaughan, Dizzy Gillespie, Fats Navarro, Sonny Stitt, Gene Ammons, Leo Parker, John Malachi e outros arquitetos da nova música.

Dexter começou a gravar para a Savoy Records em 1945 com músicas como "Blow Mr. Dexter", "Dexter's Deck", "Dexter's Cuttin' Out" e "Long Tall Dexter" (nenhuma delas com nome atribuído pelo compositor). Essas primeiras gravações são exemplos do desenvolvimento de seu som e estilo, que influenciaram muitos dos saxofonistas tenor mais jovens da época, incluindo Sonny Rollins e John Coltrane.


Em 1947, Dexter gravou seus trabalhos históricos para a Dial Records, incluindo "The Chase" com o saxofonista tenor Wardell Gray. Os dois "duelos" de saxofone tenor tornaram-se muito populares na época, e Dexter comentou que, apesar das diferenças de estilo, às vezes era difícil para ele distinguir onde um terminava e o outro começava. Essa gravação se tornaria o maior sucesso de vendas da Dial e consolidaria ainda mais Dexter como líder e artista de gravação.

No final da década de 40, Dexter se apresentou na famosa 52nd Street, em Nova York, com Charlie Parker, Fats Navarro, Miles Davis, Max Roach e muitos outros inovadores do bebop da época. A foto clássica de Dexter no Royal Roost, em 1948, tornou-se um ícone do músico de bebop e foi reproduzida em capas de álbuns, camisetas, pôsteres e anúncios impressos.

Ícone do Jazz e expatriado (década de 1960).

Em 1960, Dexter foi convidado por Alfred Lion para assinar com a Blue Note Records. Durante cinco anos, ele gravou uma sessão atrás da outra, e todas são consideradas clássicas. Quando perguntado qual de suas gravações era a sua favorita, Dexter respondeu: "Eu diria que é Go! A seção rítmica perfeita que me permitiu tocar o que eu quisesse."

As gravações para a Blue Note lhe proporcionaram a oportunidade de gravar com Freddie Hubbard, Bobby Hutcherson, Barry Harris, Kenny Drew, Horace Parlan, Bud Powell e Billy Higgins. Essas gravações ainda estão disponíveis e são consideradas clássicos do jazz.

Uma apresentação no Ronnie Scott's Club em Londres, em 1962, foi uma experiência inédita para Dexter, que começou a viajar e trabalhar pela Europa. Eventualmente, estabeleceu-se em Copenhague, onde viveu até seu retorno aos Estados Unidos em 1976. Durante esse período na Europa, viajou bastante, trabalhou por longos períodos no histórico Jazzhus Montmartre e gravou para gravadoras europeias, bem como para a Prestige Records.

Retorno às raízes (década de 1970).

Em 1976, Dexter foi recebido como um herói nos EUA quando retornou aos palcos no Storyville, em Nova York, ao lado de Woody Shaw, Louis Hayes, Ronnie Mathews e Stafford James. Posteriormente, apresentou-se no Village Vanguard, assinou com a Columbia Records e estava oficialmente de volta à cidade. Nesse período, formou sua primeira banda profissional com George Cables, Rufus Reid e Eddie Gladden. Ele considerava essa banda a sua melhor e fez extensas turnês com eles, gravando os álbuns Live at the Keystone (Mosaic) e Manhattan Symphonie (CBS Sony) com o grupo.

Ator premiado (década de 1980).

Em 1986, Dexter iniciou sua nova carreira, a de ator, no filme "Round Midnight", dirigido por Bertrand Tavernier. Ele foi indicado ao Oscar de Melhor Ator em 1986 por sua interpretação de Dale Turner, um personagem baseado nas vidas de Lester Young e Bud Powell. A trilha sonora do filme rendeu um Oscar ao diretor musical Herbie Hancock. O filme contou com a participação de outros músicos como Bobby Hutcherson, Billy Higgins, Cedar Walton, Freddie Hubbard, Tony Williams, Pierre Michelot, John McLaughlin e Wayne Shorter.

A última grande apresentação de Dexter Gordon em um concerto foi com a Filarmônica de Nova York em Ellingtons, um concerto escrito para ele pelo aclamado compositor David Baker e conduzido por James de Priest.

Dexter faleceu em 25 de abril de 1990, na Filadélfia, Pensilvânia.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

Little Richard


Richard Wayne Penniman
' O álbum blues: The Rill Thing '

No início da década de 1950, "Little Richard" Penniman era apenas mais um cantor de rhythm & blues do sul dos Estados Unidos lutando para alcançar o sucesso. Alguns singles lançados pelas gravadoras RCA Victor e Peacock Records entre 1951 e 1954 não entraram nas paradas de sucesso, deixando o dinâmico artista de volta a Macon, Geórgia, trabalhando como lavador de pratos. Ele formou uma nova banda, os Upsetters, e excursionou pelo circuito de bares e casas noturnas do sul por meses, até que o também cantor de R&B Lloyd Price o recomendou a enviar uma fita demo para a Specialty Records de Art Rupe. A gravadora gostou do que ouviu e Rupe o apresentou ao produtor Robert "Bumps" Blackwell, enviando Richard para Nova Orleans para gravar no J&M Studios de Cosimo Matassa, mudando assim o rumo da história do rock 'n' roll.
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Jimi Hendrix na banda de Little Richard. 
As primeiras sessões: no J&M Studios renderam poucas gravações comercializáveis. Certa noite, quando Blackwell e Richard foram ao Dew Drop Inn para relaxar, Richard tomou o piano e começou a tocar uma música chamada "Tutti Frutti". Pressentindo um sucesso, Blackwell contratou a compositora Dorothy LaBostrie para reformular a letra ousada de Richard em algo mais "radiofônico", e eles conseguiram gravar o primeiro grande sucesso de Little Richard em apenas três takes. Lançada em novembro de 1955, "Tutti Frutti" alcançou o 2º lugar na parada R&B da revista Billboard e o 21º lugar na parada pop, vendendo mais de um milhão de cópias. O single seguinte de Richard, "Long Tall Sally", foi lançado em março de 1956 e superou seu antecessor, chegando ao topo da parada R&B e ao 13º lugar na parada pop, além de alcançar o Top 10 na Grã-Bretanha e vender mais de um milhão de cópias. Entre meados e o final da década de 1950, Little Richard e o produtor Blackwell gravaram uma série de sucessos no Top 10 da parada R&B, como "Rip It Up", "The Girl Can't Help It", "Lucille" e "Good Golly Miss Molly".

Jimi Hendrix foi membro ocasional da banda de apoio de Richard, The Upsetters, entre o final de 1964, até junho ou julho de 1965. Os biógrafos de Hendrix identificaram apenas duas músicas que ele gravou com Richard, mas não têm certeza sobre as datas de gravação: "I Don't Know What You've Got (But It's Got Me)", um single em duas partes lançado pela Vee-Jay Records em novembro de 1965, e "Dancing All Around the World". Nenhuma das músicas aparece neste álbum, embora estejam incluídas na coletânea West Coast Seattle Boy: The Jimi Hendrix Anthology (2010).

Os Beatles com o ídolo Little Richard.
No final da década, porém, Richard já estava insatisfeito com a fama e voltou-se para o ministério, lançando uma série de três LPs com temática gospel em 1960 e 1961. Quando a Invasão Britânica atingiu o mundo e bandas como os Beatles e os Rolling Stones declaravam seu amor por Little Richard, o cantor retornou à música secular com uma série de singles e álbuns de baixo desempenho, como Little Richard Is Back (1964) e The Explosive Little Richard (1967), que pouco contribuíram para melhorar sua situação comercial. 

Alguns anos depois, Little Richard estava trabalhando em seu retorno. Contratado por seu então empresário, Larry Williams, um cantor de R&B de Nova Orleans, para se apresentar em festivais de rock como o Atlantic City Pop Festival e o Toronto Rock and Roll Revival, Richard roubou a cena de estrelas como Janis Joplin e John Lennon. 

Aparições subsequentes na TV consolidaram seu status de celebridade renovado, enquanto as performances ao vivo ainda explosivas de Richard lhe renderam um contrato de três álbuns com a Reprise Records, resultando em The Rill Thing (1970), King of Rock and Roll (1971) e The Second Coming (1972), três gravações um tanto subestimadas, embora irregulares, que serviram para complicar, em vez de consolidar, o legado de Little Richard na época. Little Richard viajou para Muscle Shoals, Alabama, e para o lendário FAME Studios para gravar seu disco de retorno, The Rill Thing (1970).

O álbum The Rill Thing.
Produzido por Little Richard, o álbum incluía o single de sucesso moderado "Freedom Blues". Composta em parceria com Esquerita, amigo de longa data e influência musical, a canção mostra Richard em sua melhor forma no R&B, com sua voz potente em destaque na mixagem, sobreposta a explosões de saxofone, a guitarra marcante de Travis Wammack e a bateria precisa de Roger Hawkins. A letra socialmente consciente da música atraiu o público, e o single alcançou a 28ª posição na parada de R&B e subiu para a 47ª na parada pop. O segundo single do álbum, a enérgica “Greenwood, Mississippi”, teve uma excepcional performance de Richard, com o cantor entregando vocais inspirados e cheios de alma, sobre os quais ele sobrepõe os riffs de guitarra incendiários e psicodélicos de Wammack, além de uma base rítmica sólida e quase funky.

Nos anos de 1972 ou 1973, talvez esse álbum tivesse conseguido um espaço maior nas rádios FM como parte do revival do "rock sulista", mas, em 1970, com as rádios AM ainda dominando as músicas pop animadas, os programadores ignoraram em grande parte a faixa ousada e empolgante. "Two-Time Loser", do guitarrista de Memphis Larry Lee, segue uma linha musical semelhante, com a interpretação blues de Richard complementada por um ótimo dedilhado de guitarra e uma batida R&B acelerada. Prestando homenagem ao clube de Nova Orleans que ajudou a lançar sua carreira, "Dew Drop Inn", de Richard, é um rock old-school ousado, com muitos gritos e urros, um piano frenético e saxofones estridentes.

“Somebody Saw You” é outro precursor do rock sulista, com os ritmos cadenciados da banda combinados com um toque country e a voz crua de R&B de Richard. A faixa-título do álbum, no entanto, é uma verdadeira provocação – quando se tem um dos maiores e mais reconhecidos vocalistas da história do rock 'n' roll e do R&B, uma faixa instrumental de dez minutos sem Little Richard cantar foi muita ousadia. Praticamente um quarto da duração do álbum dedicada a improvisação em um groove funky… talvez aceitável para a banda Booker T. & the MG's, mas não para o primeiro álbum de Little Richard em três anos. Embora na época não tenha caído muito bem entre os críticos, sem sombra de dúvidas a faixa é uma extraordinária jam de blues com maravilhosos improvisos de Guitarra/Baixo/Bateria.

O álbum termina com a divertida e animada "Lovesick Blues", no estilo de Nova Orleans, e uma versão eletrizante de "I Saw Her Standing There", dos Beatles, ambas exibindo os vocais poderosos de Richard e sua subestimada habilidade no teclado. Talvez só Jerry Lee Lewis conseguisse causar tanto estrago no piano quanto o Sr. Penniman. Esta reedição da Omnivore inclui faixas bônus, como as versões editadas para single das músicas dos Beatles, além de spots de rádio promocionais feitos exclusivamente por Little Richard, juntamente com o single não incluído no álbum "Shake A Hand (If You Can)", uma balada R&B suave com toques gospel, ótima performance vocal, ritmo envolvente e um solo de saxofone funky.

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domingo, 5 de julho de 2026

Son Seals

Son Seals
'A voz áspera de Chicago'

"Sua voz grave, rouca e áspera combina perfeitamente com a mordida ácida de sua guitarra. Seu trabalho com a guitarra é intenso e expressivo. Ele ataca com uma ferocidade implacável." --DOWNBEAT

"Seals, sempre o mais melancólico dos bluesmen de Chicago, mergulha fundo e extrai performances da mais profunda emoção... um dos exorcistas mais comoventes do gênero." --MUSICIAN

"O som de Seals é pura aspereza dos bares de Chicago, tanto rhythm and blues quanto rock 'n' roll, com um toque de soul. Ele é imbatível ao vivo. Ninguém no ramo toca com tanta intensidade avassaladora." --OPTION 

"Vocais roucos e agressivos e uma guitarra poderosa e cortante. Ele explora os limites da guitarra blues moderna." --BLUES REVUE 

"Seals esculpe riffs de guitarra como uma motosserra em carvalho maciço e canta como um anjo vingador de voz rouca." --GUITAR WORLD
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A trajetória artística de Frank "Son" Seals

Quando o guitarrista, vocalista e compositor Frank "Son" Seals lançou seu primeiro álbum pela Alligator em 1973, seu trabalho de guitarra visceral, vocais intensos e composições inovadoras o marcaram imediatamente como uma das principais vozes do blues de sua geração. Na época, muitos jovens músicos de blues simplesmente tocavam covers dos clássicos populares do gênero. Mas Son era original, compondo a maior parte de seu próprio material e tocando guitarra com uma intensidade feroz e crua, comparável apenas à sua voz poderosa.

Nascido em Osceola, Arkansas, em 1942, Seals cresceu imerso no blues. Sua casa de infância era um pequeno cômodo nos fundos do bar de seu pai, Jim, chamado The Dipsy Doodle (famoso por tocar blues na frente e jogar dados nos fundos). Com músicos como Sonny Boy Williamson, Albert King e Robert Nighthawk tocando ao alcance da sua voz quase todas as noites, Son já conhecia o blues antes mesmo de aprender a andar. Mesmo com tantos grandes músicos de blues por perto, seu pai, Jim, foi sua maior inspiração. Jim Seals tocava piano, trombone, guitarra e bateria, tendo feito turnês com os famosos Rabbit Foot Minstrels, o berço de Ma Rainey e Bessie Smith. 

Por ser um músico tão conhecido, Jim conseguia atrair alguns dos maiores nomes da música para se apresentarem em seu pequeno clube. Quando Son decidiu, ainda jovem, se tornar músico como o pai, Jim garantiu que ele aprendesse tudo da maneira correta. "Meu pai me ensinou tudo desde o começo", lembra Son. "Afinando a guitarra, dedilhando. Enquanto eu queria estar improvisando por todo o braço imediatamente, ele me mantinha em um acorde por horas, até que eu conseguisse senti-lo até dormindo. Eu acordava na manhã seguinte, pegava a guitarra e lá estava eu, tocando aquele acorde."

Aos 13 anos, Seals já era um baterista talentoso, acompanhando muitos dos artistas que passaram pelo The Dipsy Doodle. Aos 18, ele liderava sua própria banda como guitarrista durante a semana e tocava bateria com quem quer que estivesse se apresentando no clube de seu pai nos fins de semana. Seals caiu na estrada tocando guitarra com Earl Hooker em 1963 e, logo depois, como baterista de Albert King (com quem gravou o seminal álbum da Stax, Live Wire/Blues Power). 

Ele se mudou para Chicago em 1971 e começou a fazer jams com todos, de Junior Wells a Hound Dog Taylor, passando por James Cotton e Buddy Guy. Após o sucesso do álbum de estreia de Hound Dog Taylor, Alligator, e o início de suas turnês, Son Seals assumiu os shows regulares de fim de semana de Hound Dog no The Expressway Lounge, no lado sul de Chicago. O álbum de estreia de Seals, The Son Seals Blues Band, também foi lançado nessa época. 

Seals se estabeleceu como um novo artista de blues inovador. A base de fãs de Son cresceu à medida que ele começou a fazer turnês, tocando em universidades, clubes e festivais por todo o país. Seu álbum de 1977, Midnight Son, foi seu verdadeiro sucesso. O álbum recebeu aclamação generalizada de todas as principais publicações musicais. A Rolling Stone o chamou de "um dos álbuns de blues mais importantes da década". Robert Palmer, escrevendo no The New York Times, chamou Son de "o guitarrista e cantor de blues jovem mais empolgante dos últimos anos".

Com o sucesso de Midnight Son, Seals iniciou o que se tornariam turnês regulares pela Europa, e ele até apareceu em um comercial de televisão nacional para a cerveja Olympia. Uma forte série de mais seis lançamentos de sucesso pela Alligator seguiu-se ao longo das décadas de 1980 e 1990, aumentando o público de Son de algumas centenas para muitos milhares. Ele se tornou um favorito dos críticos em todos os lugares. "Excelente blues moderno", exclamou a Blues & Rhythm . Um músico declarou que Seals entregava "performances da mais profunda emoção... um dos exorcistas mais comoventes do gênero".

Mas não foram apenas os críticos. Outros músicos — de dentro e de fora do mundo do blues — notaram o imenso talento de Seals. Ele dividiu o palco com ícones como B.B. King e Johnny Winter. Até mesmo a popular banda de rock Phish o convidou, gravando um cover de "Funky Bitch" de Seals e convidando o bluesman para se juntar a eles no palco em muitas de suas turnês.

A reputação de Son como um artista carismático ao vivo e um compositor ferozmente original o levou de tocar em pequenos clubes a ser atração principal em festivais internacionais de blues. Ao longo de seus oito álbuns pela Alligator Records, Seals emergiu como um dos maiores bluesmen de Chicago — e do mundo — e um dos artistas ao vivo mais poderosos do gênero. Desde sua apresentação como um jovem talento promissor em 1973 até se tornar uma das principais vozes do blues de Chicago, Son Seals trilhou um caminho no blues que outros seguirão por muitos anos.

Discografia:

1973 - The Son Seals Blues Band (Alligator)
1976 - Midnight Son (Alligator)
1978 - Live And Burning (Alligator)
1980 - Chicago Fire (Alligator)
1984 - Bad Axe (Alligator)
1991 - Living In The Danger Zone (Alligator)
1994 - Nothing But The Truth (Alligator)
1996 - Live--Spontaneous Combustion (Alligator)
2000 - Lettin' Go (Telarc)
2002 - Deluxe Edition (Alligator)

Son Seals será sempre considerado um dos maiores artistas de Chicago — e do blues. Desde sua estreia, quando surgiu como um artista completo e maduro, até seus últimos trabalhos, sua estatura como uma das principais vozes do blues cresceu a cada novo álbum lançado. Sua morte prematura em dezembro de 2004 privou o blues de uma voz fundamental.

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