Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Sociologia: Quando a Educação Perde a Alma

Uma Visão Humanista e Espiritual
da Educação


Neoliberalismo, humanismo e espiritualidade no debate educacional contemporâneo. A educadora e espírita Dora Incontri concedeu recente entrevista ao jornal e à TV Brasil 247, na qual articula uma crítica consistente ao modelo educacional neoliberal no Brasil contemporâneo. 

A partir de uma visão humanista e espiritualista da educação, Incontri analisa a transformação da escola em espaço de desempenho, com professores submetidos a lógicas produtivistas e estudantes progressivamente tratados como consumidores. 
É a partir desse horizonte pedagógico e espiritual que se organizam os comentários e reflexões apresentados a seguir. A entrevista concedida por Dora Incontri reacende uma questão incômoda e necessária: o que restou da educação como processo de formação humana? 

Ao afirmar que “a educação foi sequestrada pelo neoliberalismo”, a educadora não formula apenas uma crítica econômica ou administrativa. Ela aponta para uma fratura mais profunda: a perda do sentido da experiência educativa. Vivemos um tempo em que a escola é crescentemente tratada como linha de montagem de competências, e o estudante como portador de indicadores mensuráveis. Nesse cenário, ensinar passa a ser sinônimo de cumprir metas, e aprender, de atingir desempenhos previamente estipulados. 

A fala de Incontri surge, assim, como contraponto humanista e alerta ético: quando a educação se submete integralmente à lógica do mercado, ela abdica de sua função civilizatória. A pedagogia sob a lógica do desempenho. A crítica central da entrevista dirige-se à substituição da formação integral por métricas de desempenho, rankings e avaliações padronizadas. Avaliar tornou-se mais importante do que compreender; medir, mais urgente do que educar. O estudante aparece menos como sujeito em formação e mais como dado estatístico. Essa lógica contrasta frontalmente com a tradição pedagógica clássica. Desde Comenius, que defendia uma educação universal orientada pela natureza do aprendiz, respeitando ritmos e etapas do desenvolvimento humano, até Pestalozzi, que insistia na integração entre afetividade, razão e ação — “coração, cabeça e mãos” — como núcleo do processo educativo, a pedagogia sempre compreendeu a educação como fenômeno complexo e integral. 

Ao converter a escola em organização gerencial, o neoliberalismo rompe essa unidade. O resultado é uma educação tecnicamente eficiente, mas antropologicamente empobrecida. O enquadramento da crítica Convém, no entanto, situar o discurso no qual a entrevista se inscreve. A crítica de Dora Incontri à educação contemporânea emerge de um enquadramento político-cultural específico, compartilhado também pelo veículo e pelo formato da entrevista. Trata-se de uma leitura fortemente marcada por uma tradição crítica ao neoliberalismo, que privilegia a análise estrutural dos efeitos do mercado sobre a escola pública. Esse enquadramento não invalida os argumentos apresentados — muitos deles amplamente sustentados por tradições pedagógicas clássicas e humanistas —, mas delimita o horizonte interpretativo da conversa. Como todo discurso situado, ele ilumina certos aspectos da realidade educacional ao mesmo tempo em que silencia outros, exigindo do leitor uma escuta crítica, contextualizada e intelectualmente responsável. Humanismo pedagógico: força e tensão. 

Ao enfatizar o vínculo afetivo entre educador e educando, Incontri recupera um núcleo essencial da pedagogia humanista. O conhecimento, nessa perspectiva, não é simples transmissão de conteúdos, mas experiência relacional, mediada pela presença, pelo tempo e pela escuta. Essa concepção dialoga diretamente com Rousseau, para quem a educação deveria favorecer o desenvolvimento das potencialidades humanas e não a adaptação precoce às exigências sociais. Educar, nesse sentido, é formar um sujeito capaz de pensar, sentir e agir com autonomia — não apenas responder a demandas externas. O desafio contemporâneo, contudo, permanece aberto: como sustentar essa visão humanista em sistemas educacionais massificados, precarizados e submetidos a pressões econômicas constantes? 

A entrevista identifica a fratura, mas deixa claro que não há soluções simplistas. Tecnologia, aceleração e empobrecimento da atenção. Outro eixo relevante da entrevista é a crítica ao uso acrítico da tecnologia na educação. Incontri alerta para o risco de que plataformas digitais, quando orientadas exclusivamente por eficiência, escala e produtividade, substituam o vínculo pedagógico por interfaces e fragmentem a atenção dos estudantes. Ensinar, no entanto, exige tempo de elaboração, silêncio reflexivo e mediação humana. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela não é neutra: molda comportamentos, reorganiza a atenção e redefine prioridades. Uma educação submetida à lógica da aceleração permanente corre o risco de perder sua capacidade de formar pensamento profundo. 

Um diálogo possível com o Espiritismo laico Embora não explicitamente espírita, a entrevista de Dora Incontri permite um diálogo fecundo com a tradição espírita em sua vertente laica, filosófica e crítica. Para Allan Kardec, a educação era elemento central do progresso humano. A instrução intelectual, desacompanhada da formação moral, poderia apenas sofisticar desigualdades e ampliar abusos. Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o verdadeiro progresso é inseparavelmente intelectual e moral. Educar, portanto, não é apenas transmitir conhecimentos, mas preparar o espírito para o uso responsável do saber. Essa visão seria aprofundada por Léon Denis, ao defender que a educação deve formar consciências, considerando a continuidade da vida e a responsabilidade espiritual do ser humano. Sob essa ótica, uma educação capturada por métricas perde não apenas sua dimensão humanista, mas também sua vocação ética e evolutiva. Educação como responsabilidade coletiva. 

Há ainda um aspecto sociológico implícito na entrevista: ao reduzir a educação a um serviço, a lógica neoliberal desloca a responsabilidade coletiva pela formação das novas gerações. A escola deixa de ser espaço público de construção de sentido e passa a operar como prestadora de resultados. Do ponto de vista espírita — e também humanista — a sociedade é um espaço contínuo de aprendizagem moral. Indivíduos e instituições educam-se mutuamente. Quando a educação se empobrece, empobrece também o tecido social que dela depende. 

Considerações finais. A entrevista de Dora Incontri não oferece respostas prontas — e talvez esse seja seu maior mérito. Ela recoloca a educação no campo das questões essenciais: Para que educamos? Que tipo de ser humano estamos formando? Que valores orientam nossas escolhas pedagógicas? Ao articular crítica social, pedagogia humanista e abertura a uma leitura espiritual não dogmática, sua fala convida a pensar a educação como experiência de sentido, e não apenas como instrumento de adaptação ao mercado. Em tempos de aceleração, métricas e automação, a pergunta: o que restou da educação como processo de formação humana? permanece incômoda — e absolutamente necessária.

Por Wilson Garcia
@BlogCanteiroDeIdeias


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sociologia: O genocídio da humanidade

O fracasso ético e moral 
da Humanidade

Será que ainda temos chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade?

Será que só nos resta olharmos sem indignição?

A Terra continuará a girar por milênios ao redor do Sol, mas sem nós ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo, que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadoras de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.

Genocídio em Gaza, um crime hediondo contra a humanidade


07 de fevereiro - 2026

A nossa origem se encontra na África. Por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift – que pode ser visto da Lua, com extensão de 3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique – é uma zona privilegiada. Nesse vale, se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropoides e, depois, símios superiores como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.

Alguns ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift, tornada uma espécie de savana. Os nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram em seu corpo, começaram a andar em pé e, em seu cérebro, passaram a ter mais interações de seus neurônios, propiciando um pensamento inicial, no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida na savana não é tão abundante em meios de vida quanto nas demais biorregiões. Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo no deserto de Afar, na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Parecia ser de uma mulher. Por isso, foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.

Concluindo: a bioantropologia deixou claro que nós, seres humanos, derivamos de um ancestral comum.

Abominação da desolação.

Não era um macaco como comumente se pensa, mas um primata primitivo, que se bifurcou: por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos; e, por outro, às várias fases do ser humano, como o homo habilis, depois o homo erectus e, por fim, o homo sapiens, donde nós procedemos.

A grande mudança começou com o homo habilis, há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais. Mas essa intervenção não era ainda destrutiva.

Com a diferença de centenas de anos, surgiu o homo erectus, já bípede, que utilizava instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez o fogo, introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Cresceu a intervenção na natureza, atingindo animais maiores, como as grandes preguiças.

Depois de ter permanecido por milênios na África, migrando de um lugar ao outro, mas sempre dentro do continente africano, começou a grande migração do homo erectus.

Emigrou para a Eurásia, para a Ásia Central, chegando à Índia, à China e até à Austrália. Mais tarde, o seu descendente, o homo sapiens, chegou às Américas por volta de 20 mil anos atrás e, a partir daí, ocupou todo o planeta.

O homo sapiens introduziu, há 10 mil anos, talvez a maior revolução na história já realizada, a única universalizada, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários: criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios, como Tigre, Eufrates, Nilo e Indo.

Com a agricultura, formou-se um superávit de meios de vida. Agora. começa seu processo de violência e agressão, não só contra a natureza, como vinha fazendo crescentemente até esta data, mas contra outros seres humanos. A produção agrícola produziu excedentes em boa quantidade. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi neste momento que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra A Study of History, viu o surgimento do fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: a guerra. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da destrutividade humana.

Princípio da autodestruição.

Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e com a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização da África, da América Latina e de outras regiões a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. Houve verdadeiros genocídios, atualizados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos.

A inauguração da industrialização moderna até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais.

Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente houve um progresso. Mas não devemos nos orgulhar, pois, como observou o geneticista francês André Langaney, as algas e as borboletas desenvolvera mais o DNA do que nós. Em termos de massa, os vermes da terra a possuem mais que todos nós juntos.

Não obstante este desenvolvimento cultural, em termos morais (modos de organizar a vida) e éticos (os princípios que orientam a vida) estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre a maldade, a crueldade, a mentira intencionada e a falta de empatia, como verificamos em nossos dias. Os escândalos de pedofilia e se abusos inomináveis a jovens meninas, atestados nos arquivos de Epstein, envolvendo o presidente Trump e outros, nos testemunham o nível da degradação humana.

Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução, no derradeiro minuto antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do Universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano. Será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver?

Um insano como o presidente Donald Trump ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele representado como Anticristo, o inimigo da vida, que poria fim à saga humana?

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



Festival: Jazz & Blues

FESTIVAL JAZZ & BLUES

CEARÁ

Descubra a magia do jazz e blues na serra!!

Pingo de Fortaleza e Maracatu Solar


O Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, no Ceará, chega à sua 27ª edição em 2026. O evento gratuito acontece de 14 a 17 de fevereiro (durante o Carnaval) e reúne atrações cearenses, nacionais e internacionais, com apresentações que vão do jazz e blues a gêneros regionais e outras vertentes da música brasileira.


Atrações do festival

BANDAS E ARTISTAS

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Políticas Públicas: Brasil do Crime?

O Brasil entende as causas do crime, 
mas não confia em si mesmo para enfrentá-las.

O ponto central está na normalização do rigor como resposta legítima mesmo entre aqueles que reconhecem o caráter social do crime.


7 fev - 2026

Brasil do crime?

A pesquisa recém-divulgada pelo ICL revela um dado que desmonta uma caricatura comum sobre o Brasil contemporâneo. Ao contrário da imagem de uma sociedade movida apenas pelo ódio ou pelo desejo de vingança, a ampla maioria da população reconhece que os assaltos cometidos por jovens armados têm raízes sociais claras. Desigualdade, ausência de oportunidades e abandono estatal aparecem com força na percepção coletiva. Ainda assim, essa compreensão convive com a defesa de punições rigorosas. O paradoxo não está nos números. Está na forma como lidamos com eles.

A ampla maioria dos entrevistados reconhece que há um problema social na origem desses crimes. No entanto, apenas uma parcela menor defende que essa constatação deva orientar respostas predominantemente baseadas em políticas sociais. O grupo majoritário sustenta uma posição ambígua: entende as causas estruturais, mas exige rigor penal. Não se trata de ignorância, nem de incoerência moral. Trata-se de medo.

O Brasil não é um país que desconhece as raízes da violência. É um país que não confia na própria capacidade de enfrentá-las sem recorrer ao castigo como atalho. A punição aparece como uma espécie de garantia emocional em um ambiente marcado pelo medo cotidiano e pela sensação permanente de vulnerabilidade. Mesmo quando se reconhece que a desigualdade empurra jovens para o crime, permanece a desconfiança de que políticas públicas, educação e inclusão sejam capazes de produzir resultados sem a ameaça da força, da prisão ou do endurecimento penal.

Esse medo não é apenas espontâneo. Ele é permanentemente alimentado por discursos políticos que simplificam o problema, por uma cobertura sensacionalista da violência e por uma narrativa pública que associa proteção à repressão. O rigor penal passa a ser apresentado como a única resposta possível diante da insegurança, enquanto soluções estruturais são tratadas como ingênuas, lentas ou desconectadas da chamada vida real. Assim, constrói-se um consenso frágil, mas eficiente: o de que é possível compreender o problema social e, ao mesmo tempo, descartá-lo como horizonte concreto de solução.

Essa desconfiança foi construída na experiência concreta de um país onde o Estado chega tarde, chega mal ou chega apenas para punir. Foi sendo construída na experiência cotidiana de um país em que o Estado falha em proteger, mas nunca falha em punir. Políticas sociais que nunca se consolidaram como política de Estado convivem com um sistema penal expansivo e com um sistema de Justiça seletivo, que opera com pesos diferentes a depender da cor, do território e da renda. A escola falha, o sistema socioeducativo é fragilizado, a justiça é lenta para garantir direitos e veloz para punir corpos específicos. Nesse cenário, a punição passa a ocupar o lugar da esperança.

O dado mais revelador da pesquisa não é a existência de um grupo minoritário que defende respostas violentas ou letais. Esse grupo existe, mas não representa a maioria. O ponto central está na normalização do rigor como resposta legítima mesmo entre aqueles que reconhecem o caráter social do crime. É nesse consenso silencioso que a violência se reproduz, travestida de racionalidade.

A juventude pobre aparece, ao mesmo tempo, como vítima de um sistema injusto e como ameaça a ser contida. Essa ambiguidade sustenta políticas públicas contraditórias e um debate público que raramente enfrenta o problema em sua totalidade. Reconhece-se a desigualdade, mas exige-se punição exemplar. Defende-se a presença do Estado, mas apenas quando ela assume a forma do controle e da coerção.

Essa lógica também se apoia numa premissa raramente explicitada: a de que nem todos estão igualmente sujeitos à punição. O rigor penal se impõe com força sobre alguns, enquanto práticas violentas, ilegais ou predatórias cometidas a partir de posições de privilégio dificilmente são enquadradas como questão de segurança pública. A seletividade não é um desvio do sistema. É parte do seu funcionamento.

A pesquisa do ICL nos coloca diante de um espelho incômodo. Ela mostra que o debate sobre crime e segurança no Brasil não está travado por desconhecimento das causas, mas por um profundo esgotamento da confiança coletiva. Sabemos de onde vem o problema. O que não sabemos, ou já não acreditamos, é como enfrentá-lo sem repetir a resposta que historicamente falhou.

Enquanto políticas públicas forem vistas apenas como instrumentos de punição, e não de proteção, seguiremos presos a esse ciclo. Compreendendo as causas, temendo as consequências e escolhendo, mais uma vez, o rigor como substituto da coragem de mudar as bases do problema.

Jota Marques
Educador popular e comunicador, com trajetória dedicada à formulação e à análise de políticas públicas para infância e juventude. Foi conselheiro tutelar no Rio de Janeiro e atua há quase duas décadas no debate sobre violência, desigualdade e Estado, a partir dos territórios populares. Mora na Cidade de Deus.



Graham Bond

Graham Bond

' O Jazz-Blues de Graham Bond '

Um recém-nascido foi abandonado num orfanato perto de Essex, na Inglaterra. Batizado de Graham, o menino acabou sendo adotado por um casal da região, Edwin e Edith Bond. 

História:

Graham era um prodígio musical. Aos seis anos, tocava piano clássico. Aos 14, havia descoberto o jazz de Charlie Parker e John Coltrane e adotado o saxofone como instrumento preferido. Aos 20, era um dos músicos mais requisitados na cena de jazz de Londres.

O início com o guitarrista John McLaughlin.
Em 1962, depois de alguns anos penando em clubes de jazz, Graham Bond foi convidado para tocar no grupo Blues Incorporated de Alexis Korner. Graham percebeu que o novo hype da cena musical londrina era o rhythm'n'blues de grupos como o John Mayall & The Bluesbreakers, The Yardbirds e The Rolling Stones, e decidiu montar um supergrupo chamado The Graham Bond Organization, com grandes músicos que já conhecia da cena de jazz.

A "cozinha" da The Graham Bond Organization era formada por dois músicos fantásticos, o baterista Ginger Baker e o baixista Jack Bruce; e o guitarrista era o excelente John McLaughlin, que depois tocaria com Miles Davis e formaria a banda experimental de Jazz Fusion Mahavishnu Orchestra. 

J. Bruce, Heckstall-Smith, G. Baker e G. Bond.
Graham Bond cantava e tocava um órgão Hammond. Pouco depois, McLaughlin foi substituído pelo saxofonista Dick Heckstall-Smith. Foi essa formação – Bond, Baker, Bruce e Heckstall-Smith – que fez fama como um dos melhores e mais furiosos grupos do R&B inglês e atraiu a atenção do empresário Robert Stigwood (que, anos depois, mudaria o som dos Bee Gees e os transformaria em astros da discoteca).

Numa época em que grupos como Beatles, Stones e Kinks causavam frenesi entre adolescentes, a Graham Bond Organisation teria concorrência forte para chegar ao sucesso: o som deles era pesado e distorcido, o grupo não tinha guitarrista ou um cantor bonitinho como era o padrão, pelo contrário, o saxofonista era careca e o vocalista era um gordinho com cara de louco. Aliás, ninguém ali batia muito bem: Jack Bruce saiu depois que Ginger Baker o ameaçou com uma faca. Porém, dias depois, os dois debandaram juntos para formar com o guitarrista Eric Clapton a poderosa banda em power trio chamado: Cream.

O fim da GBO, em 1967, veio numa época confusa para Graham, que se viciara em heroína, demonstrava crescentes problemas mentais e estava cada vez mais obcecado com o ocultista inglês Aleister Crowley (1875-1947). Graham tinha certeza que seu verdadeiro pai era Crowley.

Fase de experimentos psicodélicos.
A partir dali, a carreira de Graham degringolou: ele casou com a cantora Diane Stewart, também devota de Crowley, com quem montou a banda Initiation e mergulhou fundo no estudo de magia negra. Uma turnê norte americana levou Graham fazer jams com a banda The Grateful Dead e gravar com Screamin' Jay Hawkins, além de lançar discos esquisitíssimos e geniais em que misturava jazz-rock, experimentações vanguardistas e letras sobre ocultismo.

De volta à Inglaterra, Bond estava falido e com mais problemas mentais, ele ainda gravou dois discos maravilhosos com o amigo Ginger Baker em seu projeto Air Force. Excelentes discos, especialmente o "2", uma obra-prima absoluta e o mais próximo que a Inglaterra chegou de ter seu Sly and the Family Stone.

Infelizmente, o emprego com Ginger Baker não durou muito. Graham continuou usando heroína e ácido, e sua condição psicológica deteriorou a ponto de amigos o internarem em um manicômio. Em 8 de maio de 1974, Graham Bond andou até a estação de metrô de Finsbury Park, em Londres, e se jogou nos trilhos. Ele tinha só 36 anos.

Graham Bond teve uma carreira discográfica de pouco mais de dez anos, tudo é muito bom, excelente. A quem se interessar em saber mais sobre o artista, existe o livro "Unknown Legends of Rock and Roll" (1998), de Richie Unterberger, lançado há alguns meses em e-book, que traz um capítulo bem completo sobre a carreira de Graham Bond.