Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Feminismo: Educação sobre Misoginia.

Precisamos de uma educação que 
esfarinhe a misoginia.


‘Listas de estupráveis’: uma tendência macabra entre estudantes.
Casos foram registrados em março e abril em diferentes instituições de ensino

Quando eu estava na escola, lá nos distantes anos 1980, era comum que os meninos da turma fizessem anualmente uma lista das meninas “mais bonitas da sala”. Olhando agora, essa brincadeira machista soa inocente e boba. Parece que muitas coisas pioraram nesses 40 anos.

Agora, uma nova tendência macabra aparece em escolas e universidades: a “modinha” (com mil aspas, já que se trata de um crime) é fazer listas de “garotas estupráveis” entre as colegas. Não me atrevo a tentar entender o que esse conceito significa. O que sei, com certeza, é que estamos diante de um crime.

Estupro é uma coisa horrível, o maior terror das mulheres. E isso não pode se transformar em “brincadeira de estudantes”.

Não é exagero falar que é uma tendência. Numa pesquisa rápida, achei três denúncias de casos do tipo (isso dos que chegaram à imprensa) em pouco mais de um mês: na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba; na IFsul, de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e no colégio São Domingos, em São Paulo.

Isso é assustador em todos os níveis. Os homens e os meninos parecem ter perdido a vergonha de assumir seus lados mais misóginos e perversos. Ou será que ser estuprador virou uma coisa cool entre alguns homens? Praticar crimes sexuais parece ser prova de macheza em círculos dos mais variados.

Em março, o caso do colégio São Domingos causou choque pelo horror da lista em si e por tratar-se de meninos do 9º ano, ou seja, adolescentes menores de idade, de uma escola progressista da capital paulista.

Prêmio para criminosos sexuais.

Mas o que aconteceu em São Paulo não foi um caso isolado. Esse tipo de lista pode ser ainda mais perverso.

Na semana passada, o diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná denunciou a existência de um grupo, dentro da escola, que faria listas de “meninas estupráveis” e ofereceria dinheiro, como uma espécie de premiação, para aqueles que “conseguissem” executar os crimes, como se mulheres fossem animais numa temporada de caça.

Foram compartilhados também detalhes sobre as vítimas, como seus horários, percursos, ou seja, esse “grupo” funcionaria como uma célula de criminosos sexuais organizados.

Uma estudante teria recebido uma mensagem com prints do grupo, chamado “Ghost”, onde homens faziam planos para estuprá-la. O valor do prêmio para quem conseguisse praticar o crime seria de cerca de R$ 400. O material foi enviado para a polícia civil, que investiga o caso.

Em nota institucional, a universidade informou que “tomou conhecimento das mensagens que circulam em grupos de estudantes, a partir de uma denúncia grave envolvendo ameaça de violência sexual”. As estudantes foram avisadas pelo diretório acadêmico a “tomarem cuidado, não andarem sozinhas e evitarem sair à noite”. Imaginem o terror que estão sofrendo.

Tudo indica que os autores das ameaças seriam alunos do curso de Medicina, o que torna tudo ainda mais perigoso. Futuros médicos deveriam ser pessoas com um mínimo de decência, não criminosos. Mulheres não podem se sentir seguras nem em um consultório médico? Se você for vítima de um crime sexual, corre o risco de, no hospital, ser atendida por um criminoso do mesmo tipo? Como esses homens vão tratar mulheres se, quando olham para seus corpos, enxergam bichos a serem abatidos?

Uma lista parecida circulou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), em Pelotas, no fim de março. Um grupo de alunos criou um “ranking sexual” com fotos de 30 colegas e adjetivos misóginos. Oito deles foram suspensos e o caso também passou a ser investigado pela polícia civil.

Espero que todos os alunos envolvidos nesses casos sejam expulsos, claro. Mas isso ainda é pouco. Eles precisam responder por seus crimes de verdade.

Normalização do estupro.

O que mais assusta é a normalização de algo tão abominável como o estupro. Desde quando os jovens passaram a falar disso sem vergonha?

Pelo jeito, o momento atual, de ascensão da extrema direita, que trata mulheres como “coisas” e fala claramente absurdos como “você não merece ser estuprada”, como disse o então deputado federal Jair Bolsonaro para a também deputada Maria do Rosário (e depois foi eleito presidente!), o ódio a feministas que “precisam de um corretivo” e outros horrores fizeram com que potenciais estupradores saíssem do armário.

O aumento da misoginia, representada por grupos de red pills e incels, obviamente, também contribui para esse horror. Mulheres e meninas passaram a ser vistas (mais ainda) como ameaças, pessoas perigosas, manipuladoras, que precisam “aprender com os homens a se comportar”.

É terrível que a gente esteja em um momento desses. O que não podemos, de forma alguma, é culpar todos os avanços feministas e o empoderamento das meninas por essa suposta “fraqueza dos meninos”. Quem faz lista de colegas “estupráveis” não está “confuso” e “assustado”. Está praticando um crime, algo que não pode ser relativizado. Que as meninas sejam cada vez mais educadas a reagir e a se defender juntas.

É o que tem acontecido. Enquanto alguns jovens fazem listas de quais colegas “são mais estupráveis”, elas se unem para se proteger deles. Temos que a apoiá-las a ser cada vez mais fortes em seus “nãos”. E, obviamente, a PL contra a misoginia precisa ser aprovada, urgentemente. Parar esse horror, caros deputados, precisamos ter prioridade máxima.

Nina Lemos - 2 maio 2026


segunda-feira, 4 de maio de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Joyce Moreno

Joyce Moreno
' Passarinho Urbano '
1975

‘Passarinho Urbano’ é construído como um disco para ser escutado na íntegra, já que muitas de suas 18 faixas aparecem quase como vinhetas, curtas e certeiras, que funciona como um retrato do Brasil.

Em 1975, Joyce estava em turnê pela Itália com Vinícius de Moraes e Toquinho, quando o produtor Sergio Bardotti propôs a gravação de um disco que contemplasse certa urbanidade brasileira. Em meio à ditadura militar e à forte censura artística, Joyce escolheu um repertório de grande força política, que fala sobre a violência, a fome e a dura vida do brasileiro.

Gravado apenas em voz e violão, o álbum reúne composições de Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano Veloso, Zé Keti, Capinam, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola e Chico Buarque, em grande parte faixas que haviam sido censuradas pelo governo militar. Joyce, que é uma grande compositora, nesse trabalho assina apenas a música “Passarinho”, transformando em canção o clássico poema de Mario Quintana.

TRACKLIST:

Lado A:
1. Joya
2. De Frente Pro Crime
3. Pesadelo
4. Pelo Telefone
5. Pede Passagem
6. Marcha De IV Feira De Cinzas
7. Opinião
8. Chora Doutor
9. Quatorze Anos

Lado B:
1. A Historia Do Samba
2. O Trem Atrasou
3. Radiopatrulha
4. Acorda Amor
5. Mudando De Conversa
6. Fado Tropical
7. Bodas
8. Viola Fora De Moda
9. Passarinho


Joyce Moreno


Joyce Moreno

"...Uma das maiores cantoras de todos os tempos!... Como se não bastasse, Joyce é grande compositora e toca todo aquele violão! Eta mulhézinha danada!" - Antonio Carlos Jobim,1987.

“Joyce é um tesouro brasileiro” - Revista Downbeat, EUA, 2010.

“A capacidade musical que possui me surpreendeu quando, anos depois, ela ressurgiu tocando violão como os melhores (na terra de João Gilberto, Dori, Gil e João Bosco, isso não é pouca brincadeira), cantando com afinação precisa, compondo com imaginação harmônico-melódica original.” - Caetano Veloso, 2011.
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Breve biografia:
Nascida no Rio de Janeiro no ano de 1944, a cantora, compositora, arranjadora e instrumentista, Joyce Moreno tem em sua bagagem uma extensa discografia e cerca de 400 gravações de músicas suas por alguns dos maiores nomes da música popular brasileira, como Elis Regina, Maria Bethania, Monica Salmaso, Gal Costa, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Edu Lobo, Emilio Santiago, Boca Livre, Nana Caymmi, Zizi Possi, Elizeth Cardoso, Simone, Leny Andrade e muitos outros. 

Na área internacional, tem sido gravada por nomes de peso como Annie Lennox, Wallace Roney, Omara Portuondo, Black Eyed Peas, David Sanchez, Jon Lucien, Claus Ogerman, Gerry Mulligan, Till Brönner, Flora Purim e outros mais. 

Composições suas têm sido utilizadas em trilhas sonoras de filmes (como "O Jogador", de Robert Altman, e “Legalmente Loira”), animações (participou da trilha do anime japones “Wolf’s Rain” em parceria com a compositora japonesa Yoko Kanno), em programas de TV e em espetáculos teatrais.

Sua marca registrada foi, desde o início da carreira, a linguagem feminina na 1ª pessoa, no que foi pioneira: foi a primeira compositora brasileira a se expressar desta forma na história da MPB, abrindo caminho para um sem-número de outras criadoras que viriam depois. Recebeu 4 indicações ao Grammy Latino e tem até o momento 34 álbuns com 2 shows individuais gravados, além de compilacões e participações. 

Atualmente, seu trabalho segue também trilha internacional, com turnês mundiais a cada ano e gravações de novos discos em diferentes países, sem perder nunca sua identidade brasileira-feminina. Apresenta-se anualmente no circuito Blue Note no Japão e em festivais de jazz e em turnês na Europa, Estados Unidos e Canadá.

Multimídia:
No ano de 1997, iniciou também uma nova fase em seu trabalho, com o lançamento de seu 1º livro de crônicas, Fotografei Você na Minha Rolleyflex, uma memória sobre os bastidores da MPB do início de sua carreira, pela editora MultiMais. Escreveu também uma coluna semanal no jornal carioca "O Dia", de 1998 a 2000.

Entre 1999 e 2002, realiza um projeto seu para TV, a série "Cantos do Rio", que mostra a MPB e seus criadores pelo Rio de Janeiro. Em 2010/2011 cria e apresenta outra série para a MultiRio, ‘No Compasso da História’, a História do Brasil contada através da MPB, em 15 documentários. Em 2012, também para a Multirio, cria e apresenta a série ‘Pequenos Notáveis’, sobre a infância dos nossos grandes compositores.
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domingo, 3 de maio de 2026

Ma Rainey


Ma Rainey,

Sempre preciso de música tocando em minha cabeça. A música preenche o vazio, quanto mais música no mundo, menos vazio.

Os brancos não entendem o blues, eles o ouvem, mas não sabem de onde vem. Não sabem que é a vida falando. Você não canta para se sentir melhor, canta porque é um modo de entender a vida.

O blues o ajuda a levantar da cama pela manhã, você levanta e sabe que não está só. Têm algo mais no mundo, alguma coisa que a música adiciona. O mundo seria vazio sem o Blues. Eu pego esse vazio e o preencho com alguma coisa.

Não inventei o modo de cantar blues, ele sempre existiu, mas se querem me chamar de mãe do blues, por mim, tudo bem...


sexta-feira, 1 de maio de 2026

Histórias do Blues: Hooker, Live At Soledad Prison


John Lee Hooker e seu filho Hooker Jr., destroem o pátio da prisão de Soledad.

Uma das performances mais incríveis já realizadas na Costa Central aconteceu em uma tarde quente de verão no pátio de uma prisão, dentro do que hoje é conhecido como Centro de Treinamento Correcional de Soledad.

Era 11 de junho de 1972, e John Lee Hooker já havia conquistado merecida reputação como o bluesman por excelência. Ele era o Rei do Boogie, filho de meeiros do Mississippi, que ascendeu à fama com sua adaptação elétrica do blues do Delta. Hooker cantava blues desde o início dos anos 40, mas sua carreira ganhou impulso quando foi "descoberto" por bandas de rock inglesas que emulavam seu estilo e tocavam suas músicas. Ele se juntou ao Canned Heat para o álbum seminal "Hooker 'n' Heat" em 1970.

Em 1972, um promotor da gravadora de Hooker, a ABC Records, o convenceu a comparecer a um show na prisão de Soledad — e a gravar a apresentação para um álbum ao vivo. Ele era conhecido por aparecer de surpresa em clubes da região central da Califórnia ao longo dos anos; o promotor Steve Vagnini, avaliador do Condado de Monterey, disse que se lembra de Hooker aparecendo em sua porta certa manhã, após um show, procurando algo que havia perdido. E embora fosse natural do Mississippi e tivesse começado sua carreira em Detroit, Hooker acabou se estabelecendo no norte da Califórnia.

Hooker não foi o primeiro a se apresentar em uma prisão da Califórnia. Johnny Cash fez um show memorável na Prisão de Folsom em 1968. Três anos antes, Frank Sinatra e Count Basie entreteram os detentos da Prisão de San Quentin. Mas até a chegada de John Lee, nenhum artista de renome havia se apresentado em Soledad. (Dez anos depois, os astros do reggae Black Uhuru fizeram um show em Soledad que incluiu músicas como “Sensimilla”.)

O filho de Hooker, John Lee Hooker Jr., tinha 20 anos quando seu pai foi contratado para tocar em Soledad. O garoto tinha acabado de sair de uma prisão em Michigan; John Lee Jr. lembra que seu pai o levou para a Califórnia "para tirar aquele menino de Detroit". Músico por direito próprio, Junior se apresentava em rádios locais aos 8 anos de idade. Mas as drogas — drogas pesadas — tomaram conta de sua vida e o filho da lenda passou décadas entrando e saindo da prisão. Foi um grande acontecimento que John Lee Hooker Jr. acompanhasse seu pai no show na prisão de Soledad.

A banda estava formada com: 

John Lee Hooker – guitarra e voz
Charlie Grimes – guitarra
Luther Tucker – guitarra
Lex Silver – baixo 'fender jazz bass'
Ken Swank – bateria
John Lee Hooker Jr. – vocais (faixas 2 e 5)

“Era apenas eu saindo de um quintal e indo para outro”, disse John Lee Jr. ao Voices of Monterey Bay. “A única diferença era que eu estava livre e podia sair do quintal andando.”

John Lee Jr. não só se juntou à banda, como seu pai o colocou em destaque. A primeira coisa que o ouvinte escuta no álbum resultante, “Live at Soledad Prison”, é Junior se apresentando e apresentando a banda. E John Lee Jr. arrasou nas duas primeiras músicas, “Superlover” e “I'm Your Crosscut Saw”, enquanto seu pai permanecia nos bastidores.

“Esta era a Prisão de Soledad! O lugar era infame”, disse John Lee Jr. durante uma entrevista por telefone. Sirhan Sirhan, o assassino de Robert F. Kennedy, estava lá dentro em algum lugar. Assim como George Jackson e os outros irmãos de Soledad.

"Jamais me esquecerei da hospitalidade", disse John Lee Jr., "a hospitalidade dos prisioneiros. Eles foram muito agradecidos."