Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Vanguarda Paulista


CULTURA, ARTE E MÚSICA:  A VANGUARDA PAULISTA

Otávio Fialho, Mário Manga,
Eliete, Bozo Barretti, 
Arrigo Barnabé e 
Azael Rodrigues.
História e Ideologia

A Vanguarda Paulista foi mais do que um movimento musical, foi também uma postura estética e política diante do mundo. Emergindo entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, em um Brasil que começava a ensaiar seus primeiros passos rumo à redemocratização, consolidou-se como uma resposta complexa a um tempo igualmente complexo. Seus integrantes, em grande parte formados e atuantes em São Paulo, optaram por não seguir os caminhos já trilhados pela indústria fonográfica ou pela MPB hegemônica. Preferiram inventar os seus próprios.

Foi um movimento marcado por uma multiplicidade de vozes e percursos, mas com um ponto comum: o desejo de romper com as convenções, experimentar novas formas e afirmar uma liberdade criativa que, naquele momento histórico, carregava um enorme peso simbólico. Estávamos saindo de uma ditadura, mas ainda convivíamos com seus fantasmas — e a arte tornava-se um dos espaços privilegiados de contestação.

O rótulo foi criado por jornalistas e críticos musicais da cidade, tanto por seu aspecto de vanguarda, quanto, no caso da segunda denominação, como referência a um dos tempos onde os experimentalistas apresentavam suas obras: o Teatro Lira Paulistana, situado na rua Teodoro Sampaio, bairro de Pinheiros, e que posteriormente transformar-se-ia em selo musical e editora.

O Teatro Lira Paulistana.
A figurasmais conhecidas da Vanguarda foram Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção; representando o pessoal da Vila Madalena. Do outro lado do rio, o grupo “Pracianos”, a partir da iniciativa de Dari Luzio, lança os artistas Pedro Lua, Le Dantas e Cordeiro, Paulo Barroso. O movimento destaca diversos artistas como Grupo Rumo, diversas cantoras, tais como Suzana Salles, Tetê Espíndola, Eliete Negreiros, Vânia Bastos e Ná Ozzetti, cantores como Hermelino Neder, e grupos como o Premeditando o Breque, Patife Band e Língua de Trapo.

Arrigo Barnabé nunca tocou no teatro Lira. A banda que o acompanhava não cabia no pequeno palco. Arrigo Barnabé, um dos principais expoentes da vanguarda, conta que a intenção era se tornar popular. No entanto, os obstáculos impostos pelo mercado na época acabaram por restringir o alcance daquela nova música. O teatro Lira não era balada, era um espaço onde o foco principal era aquilo que estava acontecendo no palco. Era o artista, não outras coisas. As pessoas não ficavam conversando, não tinha garçom”, conta Wilson Souto Jr., um dos sócios-proprietários do Lira. Hoje o Teatro Lira é só uma lanchonete.

Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.
A ideologia política

É verdade que a Vanguarda Paulista não foi um movimento explicitamente panfletário. Mas a política estava lá — nas escolhas estéticas, na recusa ao formato pronto da canção radiofônica, na valorização da autonomia artística. Havia uma postura crítica em relação ao mercado e à lógica do consumo, mas também um posicionamento frente à realidade social brasileira: desigual, autoritária, excludente.

Muitos artistas do movimento abordaram, em suas letras, temas urbanos, o cotidiano caótico das grandes cidades e a violência simbólica e material que atravessava a vida das pessoas. Mas o faziam de maneira sofisticada, muitas vezes com ironia, recorrendo a recursos de linguagem que exigiam escuta atenta. O discurso não vinha mastigado — fazia parte de uma construção estética que convidava à reflexão.

Nesse sentido, havia uma clara sintonia entre forma e conteúdo. As músicas não seguiam estruturas tradicionais. Os arranjos desafiavam expectativas. Ritmo, harmonia e melodia muitas vezes pareciam se desencontrar, apenas para se reencontrar de modo inesperado. Isso também era político: tratava-se de questionar não apenas o que se dizia, mas como se dizia.

Ná Ozzetti, Suzana Salles,
Eliete Negreiros e Vânia Bastos, 1987.
Raízes e inspirações criativas

Boa parte dessa efervescência passou pela Universidade de São Paulo, especialmente pela Escola de Comunicações e Artes (ECA). Ali, o Departamento de Música (CMU) foi tanto espaço de formação quanto de embate. Alguns artistas da Vanguarda Paulista estudaram ali — Arrigo Barnabé, Helio Ziskind, Mario Aydar, Pedro Mourão, entre outros — e tiveram contato direto com o ambiente acadêmico, ainda que nem sempre de forma pacífica.

Como aluno do Departamento na época, pude vivenciar de perto esse convívio. Havia uma relação ambígua entre os músicos e a instituição. De um lado, uma estrutura acadêmica ainda bastante presa a tradições e convenções musicais, ou então alinhada à vanguarda erudita europeia e seus compositores emblemáticos — Pierre Boulez, Luciano Berio, Karlheinz Stockhausen, György Ligeti entre outros. De outro, jovens inquietos, experimentando novas linguagens e questionando os limites entre o “erudito” e o “popular”. Os atritos eram inevitáveis, mas produtivos. Houve contaminação mútua. A universidade oferecia um espaço de reflexão, enquanto os artistas trouxeram à academia uma dose de ousadia e desconstrução que a sacudia.

Documentário sobre o Grupo RUMO.
A estética do movimento

A estética da Vanguarda Paulista pode ser compreendida como uma estética da colisão: entre tradição e ruptura, entre o erudito e o popular, entre a canção e o ruído, entre o drama e o humor. Músicas como Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé, são exemplos emblemáticos desse hibridismo — onde uma espécie de ópera de vanguarda se cruza com o cotidiano urbano, o atonalismo dialoga com a canção e a crítica social emerge como pano de fundo distorcido.

O grupo Rumo, por sua vez, explorava a fala cotidiana como matéria-prima da canção, com arranjos refinados e um certo didatismo provocador. Já Itamar Assumpção, com sua poesia afiada, seu carisma incendiário e sua linguagem singular, desafiava qualquer tentativa de categorização. Sua obra era, ao mesmo tempo, política, visceral e esteticamente inovadora.

Fernando Guimarães, Lira Paulistana.
Alternativos e  produções independentes

A Vanguarda Paulista marca também a consolidação do chamado “disco independente” (surgido no Brasil na primeira metade dos anos 1970). Embora não tenham sido decisões articuladas, artistas do underground paulistano, criam micro-empresas e praticamente ”abrem suas próprias gravadoras”. Dari Lúzio, um dos pioneiros do movimento, inspirou-se no artista carioca Antonio Adolfo e seu LP ”Feito em Casa”; Dari criou seu selo EKO Produções Artísticas e laçou o LP ”Bastardo”. 

Ao mesmo tempo Arrigo Barnabé bancava a produção do seu LP inaugural, Clara Crocodilo, por falta de interesse das grandes gravadoras. A partir daí, “produções independentes” tornaram-se marca registrada dos “alternativos”. Na Vila Maria, os Pracianos, artistas que se reuniam na Praça Santo Eduardo, a famosa Praça Maldita, a partir da iniciativa independente de Dari Lúzio, partem para suas próprias produções: Pedro Lua lança o Compacto Duplo Regae Livre, pelo selo EKO; Lé Dantas e Cordeiro criam o selo Raízes e lançam o LP Brincadeira Manhã e Paulo Barroso lança o LP Vozes da Cidade.

Banda Ísca de Polícia.
Uma cidade como palco: O legado que segue pulsando

São Paulo foi mais do que cenário — foi matéria viva do movimento. A cidade, com sua diversidade cultural, suas contradições e seu caos criativo, alimentava as canções, os conflitos e as performances da Vanguarda. Casas de show como o Lira Paulistana, espaços alternativos, universidades e até estúdios caseiros e salas de ensaio formavam a rede onde tudo acontecia. Havia um sentimento coletivo de urgência criativa, mas também de resistência simbólica.

Apesar de seu alcance relativamente restrito à época — mais cultuada em nichos do que pelas grandes massas —, a Vanguarda Paulista teve um impacto profundo. Influenciou não apenas músicos, mas também críticos, acadêmicos e artistas de diversas áreas. Contribuiu para a abertura da música brasileira, mostrando que era possível fazer arte fora das amarras do mercado e das convenções de gênero.

Hoje, revisitar esse movimento é também revisitar uma fase intensa da história cultural brasileira. Um momento em que música e pensamento andavam juntos, em que estética e política não se separavam, e em que criar era, acima de tudo, um ato de liberdade.


terça-feira, 5 de maio de 2026

MPBrasileira: Discos do Brasil - Um riquíssimo catálogo da música brasileira!

DISCOS DO BRASIL
' Um site com a mesma riqueza da música brasileira. '

Uma discografia Brasileira por Maria Luiza Kfouri, 'Mana'.

Você é muito bem-vindo ao site Discos do Brasil.

Antes de começar a navegá-lo, é preciso que você saiba que esta Discografia é baseada em minha discoteca particular, que comecei a formar em 1965, aos 11 anos de idade, fascinada diante da movimentação musical que eu acompanhava pela televisão e pelos diversos espetáculos a que era levada em São Paulo.

Aqui você vai encontrar as discografias completas de muitos artistas surgidos com a Bossa Nova ou depois dela – como, por exemplo, as de João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gilberto Gil, Baden Powell, Maria Bethânia, Paulinho da Viola – e, ainda, as de Dorival Caymmi, Noel Rosa e Cartola. Outros grandes nomes de todos os tempos da música brasileira estão aqui, mesmo que suas discografias não se apresentem completas.

Tenha sempre em mente que este trabalho não traz “A” discografia do Brasil e, sim, “UMA” discografia brasileira com um recorte muito pessoal.

Além dos títulos dos discos, dos anos em que foram lançados, das músicas que os compõem e de seus autores, esta discografia tem como grande diferencial o fato de listar os músicos acompanhantes, as faixas em que tocam e cada um dos instrumentos que estão tocando.

Nos casos em que a ficha técnica não especifica a participação do músico por faixa, dediquei-me ao lento e meticuloso trabalho de ouvir cada uma delas para identificar todos eles (nos discos em que isso acontece sempre há uma observação). Quanto aos arranjadores, também estão relacionados por disco – quando seus nomes aparecem na ficha técnica – e por faixa – quando a ficha traz essa especificação.


O site permite uma navegação simples, possibilitando o acesso às informações pelo título do disco, ou pelos nomes do intérprete, da música, do compositor, do arranjador, do músico e, até, por alguma participação especial que o disco tenha. É possível, também, conhecer as parcerias entre os compositores


Você pode, ainda, ouvir as músicas por 30 segundos. E por que somente 30 segundos? Em respeito aos direitos dos autores, dos cantores e dos músicos. Uma seta aparece ao lado do nome da música e, ao clicar nela, você ouve um trecho da faixa.

Este site estará em permanente construção, pois será constantemente atualizado com os lançamentos e também com aqueles discos que, por qualquer impossibilidade, ainda não estejam aqui.

Discos do Brasil entrou na rede em maio de 2005, com pouco mais de 4 mil discos catalogados. A partir de fevereiro de 2010, o site passou a contar com mais de 6 mil discos, 1.866 intérpretes principais, 44.652 músicas, 16.049 músicos, 2.537 arranjadores e 10.233 compositores registrados. Em dezembro de 2020, são 7.482 discos, 2.424 intérpretes principais, 56.017 músicas, 53.428 músicos, 3.321 arranjadores e 12.028 compositores registrados. E o trabalho continua.

Espero que você o aprove e que, por meio dele, possa aprofundar seus conhecimentos sobre a grande música que esse país produz.
(Maria Luiza Kfouri)
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Sobre a autora:
Nascida em São Paulo, quatro anos antes da Bossa Nova, Maria Luiza Kfouri é jornalista e musicóloga.

Foi coordenadora musical da Rádio Gazeta FM (SP) em 1988, ano em que a emissora recebeu – da Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA) – o prêmio de melhor programação musical. Entre 1989 e 1995, foi diretora da Rádio Cultura AM de São Paulo, onde co-dirigiu e co-produziu as séries “Noel Rosa, as Histórias e os Sons de uma Época” (1991); “Elis. Instrumento: Voz. Uma Travessia em 6 Tempos” (1992) – prêmio APCA; “Vinícius. Poesia, Música e Paixão” (1993) – prêmio APCA; “Caymmi por Ele Mesmo” (1994) – prêmio APCA.

Maria Luiza é autora da “Cronologia” e “Discografia” que estão na segunda parte do livro “Furacão Elis”, lançado originalmente em 1985.

Em 2004 escreveu os capítulos “Breve Histórico do Violão” e “Grandes Mestres” do livro “Violões do Brasil”, projeto organizado por Myriam Taubkin que envolve, ainda, um CD duplo e um DVD.

Em 2005 escreveu o capítulo “História”, do livro “Um Sopro de Brasil”, projeto também organizado por Myriam Taubkin.

Em 2020, continua a atualizar constantemente o site, escreve sobre música brasileira e, devido à quarentena imposta pela pandemia do coronavírus, participa de inúmeras “lives”.

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Feminismo: Educação sobre Misoginia.

Precisamos de uma educação que 
esfarinhe a misoginia.


‘Listas de estupráveis’: uma tendência macabra entre estudantes.
Casos foram registrados em março e abril em diferentes instituições de ensino

Quando eu estava na escola, lá nos distantes anos 1980, era comum que os meninos da turma fizessem anualmente uma lista das meninas “mais bonitas da sala”. Olhando agora, essa brincadeira machista soa inocente e boba. Parece que muitas coisas pioraram nesses 40 anos.

Agora, uma nova tendência macabra aparece em escolas e universidades: a “modinha” (com mil aspas, já que se trata de um crime) é fazer listas de “garotas estupráveis” entre as colegas. Não me atrevo a tentar entender o que esse conceito significa. O que sei, com certeza, é que estamos diante de um crime.

Estupro é uma coisa horrível, o maior terror das mulheres. E isso não pode se transformar em “brincadeira de estudantes”.

Não é exagero falar que é uma tendência. Numa pesquisa rápida, achei três denúncias de casos do tipo (isso dos que chegaram à imprensa) em pouco mais de um mês: na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba; na IFsul, de Pelotas, no Rio Grande do Sul; e no colégio São Domingos, em São Paulo.

Isso é assustador em todos os níveis. Os homens e os meninos parecem ter perdido a vergonha de assumir seus lados mais misóginos e perversos. Ou será que ser estuprador virou uma coisa cool entre alguns homens? Praticar crimes sexuais parece ser prova de macheza em círculos dos mais variados.

Em março, o caso do colégio São Domingos causou choque pelo horror da lista em si e por tratar-se de meninos do 9º ano, ou seja, adolescentes menores de idade, de uma escola progressista da capital paulista.

Prêmio para criminosos sexuais.

Mas o que aconteceu em São Paulo não foi um caso isolado. Esse tipo de lista pode ser ainda mais perverso.

Na semana passada, o diretório acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Paraná denunciou a existência de um grupo, dentro da escola, que faria listas de “meninas estupráveis” e ofereceria dinheiro, como uma espécie de premiação, para aqueles que “conseguissem” executar os crimes, como se mulheres fossem animais numa temporada de caça.

Foram compartilhados também detalhes sobre as vítimas, como seus horários, percursos, ou seja, esse “grupo” funcionaria como uma célula de criminosos sexuais organizados.

Uma estudante teria recebido uma mensagem com prints do grupo, chamado “Ghost”, onde homens faziam planos para estuprá-la. O valor do prêmio para quem conseguisse praticar o crime seria de cerca de R$ 400. O material foi enviado para a polícia civil, que investiga o caso.

Em nota institucional, a universidade informou que “tomou conhecimento das mensagens que circulam em grupos de estudantes, a partir de uma denúncia grave envolvendo ameaça de violência sexual”. As estudantes foram avisadas pelo diretório acadêmico a “tomarem cuidado, não andarem sozinhas e evitarem sair à noite”. Imaginem o terror que estão sofrendo.

Tudo indica que os autores das ameaças seriam alunos do curso de Medicina, o que torna tudo ainda mais perigoso. Futuros médicos deveriam ser pessoas com um mínimo de decência, não criminosos. Mulheres não podem se sentir seguras nem em um consultório médico? Se você for vítima de um crime sexual, corre o risco de, no hospital, ser atendida por um criminoso do mesmo tipo? Como esses homens vão tratar mulheres se, quando olham para seus corpos, enxergam bichos a serem abatidos?

Uma lista parecida circulou no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul), em Pelotas, no fim de março. Um grupo de alunos criou um “ranking sexual” com fotos de 30 colegas e adjetivos misóginos. Oito deles foram suspensos e o caso também passou a ser investigado pela polícia civil.

Espero que todos os alunos envolvidos nesses casos sejam expulsos, claro. Mas isso ainda é pouco. Eles precisam responder por seus crimes de verdade.

Normalização do estupro.

O que mais assusta é a normalização de algo tão abominável como o estupro. Desde quando os jovens passaram a falar disso sem vergonha?

Pelo jeito, o momento atual, de ascensão da extrema direita, que trata mulheres como “coisas” e fala claramente absurdos como “você não merece ser estuprada”, como disse o então deputado federal Jair Bolsonaro para a também deputada Maria do Rosário (e depois foi eleito presidente!), o ódio a feministas que “precisam de um corretivo” e outros horrores fizeram com que potenciais estupradores saíssem do armário.

O aumento da misoginia, representada por grupos de red pills e incels, obviamente, também contribui para esse horror. Mulheres e meninas passaram a ser vistas (mais ainda) como ameaças, pessoas perigosas, manipuladoras, que precisam “aprender com os homens a se comportar”.

É terrível que a gente esteja em um momento desses. O que não podemos, de forma alguma, é culpar todos os avanços feministas e o empoderamento das meninas por essa suposta “fraqueza dos meninos”. Quem faz lista de colegas “estupráveis” não está “confuso” e “assustado”. Está praticando um crime, algo que não pode ser relativizado. Que as meninas sejam cada vez mais educadas a reagir e a se defender juntas.

É o que tem acontecido. Enquanto alguns jovens fazem listas de quais colegas “são mais estupráveis”, elas se unem para se proteger deles. Temos que a apoiá-las a ser cada vez mais fortes em seus “nãos”. E, obviamente, a PL contra a misoginia precisa ser aprovada, urgentemente. Parar esse horror, caros deputados, precisamos ter prioridade máxima.

Nina Lemos - 2 maio 2026


segunda-feira, 4 de maio de 2026

DiScOs InCrÍvEiS: Joyce Moreno

Joyce Moreno
' Passarinho Urbano '
1975

‘Passarinho Urbano’ é construído como um disco para ser escutado na íntegra, já que muitas de suas 18 faixas aparecem quase como vinhetas, curtas e certeiras, que funciona como um retrato do Brasil.

Em 1975, Joyce estava em turnê pela Itália com Vinícius de Moraes e Toquinho, quando o produtor Sergio Bardotti propôs a gravação de um disco que contemplasse certa urbanidade brasileira. Em meio à ditadura militar e à forte censura artística, Joyce escolheu um repertório de grande força política, que fala sobre a violência, a fome e a dura vida do brasileiro.

Gravado apenas em voz e violão, o álbum reúne composições de Milton Nascimento, Edu Lobo, Caetano Veloso, Zé Keti, Capinam, Paulo César Pinheiro, Paulinho da Viola e Chico Buarque, em grande parte faixas que haviam sido censuradas pelo governo militar. Joyce, que é uma grande compositora, nesse trabalho assina apenas a música “Passarinho”, transformando em canção o clássico poema de Mario Quintana.

TRACKLIST:

Lado A:
1. Joya
2. De Frente Pro Crime
3. Pesadelo
4. Pelo Telefone
5. Pede Passagem
6. Marcha De IV Feira De Cinzas
7. Opinião
8. Chora Doutor
9. Quatorze Anos

Lado B:
1. A Historia Do Samba
2. O Trem Atrasou
3. Radiopatrulha
4. Acorda Amor
5. Mudando De Conversa
6. Fado Tropical
7. Bodas
8. Viola Fora De Moda
9. Passarinho


Joyce Moreno


Joyce Moreno

"...Uma das maiores cantoras de todos os tempos!... Como se não bastasse, Joyce é grande compositora e toca todo aquele violão! Eta mulhézinha danada!" - Antonio Carlos Jobim,1987.

“Joyce é um tesouro brasileiro” - Revista Downbeat, EUA, 2010.

“A capacidade musical que possui me surpreendeu quando, anos depois, ela ressurgiu tocando violão como os melhores (na terra de João Gilberto, Dori, Gil e João Bosco, isso não é pouca brincadeira), cantando com afinação precisa, compondo com imaginação harmônico-melódica original.” - Caetano Veloso, 2011.
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Breve biografia:
Nascida no Rio de Janeiro no ano de 1944, a cantora, compositora, arranjadora e instrumentista, Joyce Moreno tem em sua bagagem uma extensa discografia e cerca de 400 gravações de músicas suas por alguns dos maiores nomes da música popular brasileira, como Elis Regina, Maria Bethania, Monica Salmaso, Gal Costa, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Edu Lobo, Emilio Santiago, Boca Livre, Nana Caymmi, Zizi Possi, Elizeth Cardoso, Simone, Leny Andrade e muitos outros. 

Na área internacional, tem sido gravada por nomes de peso como Annie Lennox, Wallace Roney, Omara Portuondo, Black Eyed Peas, David Sanchez, Jon Lucien, Claus Ogerman, Gerry Mulligan, Till Brönner, Flora Purim e outros mais. 

Composições suas têm sido utilizadas em trilhas sonoras de filmes (como "O Jogador", de Robert Altman, e “Legalmente Loira”), animações (participou da trilha do anime japones “Wolf’s Rain” em parceria com a compositora japonesa Yoko Kanno), em programas de TV e em espetáculos teatrais.

Sua marca registrada foi, desde o início da carreira, a linguagem feminina na 1ª pessoa, no que foi pioneira: foi a primeira compositora brasileira a se expressar desta forma na história da MPB, abrindo caminho para um sem-número de outras criadoras que viriam depois. Recebeu 4 indicações ao Grammy Latino e tem até o momento 34 álbuns com 2 shows individuais gravados, além de compilacões e participações. 

Atualmente, seu trabalho segue também trilha internacional, com turnês mundiais a cada ano e gravações de novos discos em diferentes países, sem perder nunca sua identidade brasileira-feminina. Apresenta-se anualmente no circuito Blue Note no Japão e em festivais de jazz e em turnês na Europa, Estados Unidos e Canadá.

Multimídia:
No ano de 1997, iniciou também uma nova fase em seu trabalho, com o lançamento de seu 1º livro de crônicas, Fotografei Você na Minha Rolleyflex, uma memória sobre os bastidores da MPB do início de sua carreira, pela editora MultiMais. Escreveu também uma coluna semanal no jornal carioca "O Dia", de 1998 a 2000.

Entre 1999 e 2002, realiza um projeto seu para TV, a série "Cantos do Rio", que mostra a MPB e seus criadores pelo Rio de Janeiro. Em 2010/2011 cria e apresenta outra série para a MultiRio, ‘No Compasso da História’, a História do Brasil contada através da MPB, em 15 documentários. Em 2012, também para a Multirio, cria e apresenta a série ‘Pequenos Notáveis’, sobre a infância dos nossos grandes compositores.
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