Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Feminismo: Dissonância Cognitiva Coletiva

Violência vicária e misoginia

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação que sustenta o patriarcado.


Matéria Revista Liberta
21/Fev - 2026

Pesquisas recentes demostram aumento da violência contra mulheres, enquanto outras formas de violência diminuem. No Brasil e no mundo, fala-se em “epidemia” de feminicídio, sem contar as habituais formas de violência doméstica e os casos de estupro (cerca de nove estupros por hora no Brasil).

O aumento da violência contra mulheres implica que a violência não é neutra, algo que a expressão “violência doméstica” acaba por camuflar.

Estamos falando de violência de homens contra mulheres. Para deixar bem claro, a violência domestica é uma prática, principalmente masculina, que tem a ver com monopólio da violência, mas também com a violência como um privilégio, ou seja, com a simples autorização para praticá-la.

Essa autorização é cultural. A violência é a própria matriz de subjetivação masculina, ou seja, dos valores e hábitos de produção da masculinidade na cultura. Enquanto homens são formados e educados pela violência, as mulheres são educadas para o cuidado. Ainda que haja exceções, essa é uma regra.
Argumento falacioso

Contra o argumento falacioso de que homens também matam homens e praticam muita violência contra homens, como se a naturalidade com que se aceita a cultura da violência masculina endógena tivesse força de verdade, podemos sempre lembrar que, de fato, homens matam homens, mas matam também mulheres e crianças.

Mulheres, por sua vez, matam, mas em parâmetros estatísticos muito inferiores e até mesmo excepcionais em relação à regra masculina. Lembrando sempre que é a exceção que estabelece a regra.

Nesse cenário, um tipo um pouco diferente de violência chamou atenção nos últimos dias. Foi a chamada “violência vicária”, que veio à tona com o caso de Thiago Machado, assassino de seus dois filhos – depois do crime, ele tirou a própria vida na cidade de Itumbiara, em Goiás.

A violência vicária é praticada para atingir a mãe cometendo violência contra seus filhos ou pessoas a ela ligadas. Trata-se de uma violência que tem algo de indireto, pois não atinge o corpo da vítima, mas atinge o corpo e a vida de pessoas amadas pela pessoa que se quer atingir.

A violência praticada por Thiago Machado não é incomum. Há inúmeros casos de homens que matam os filhos para atingir a mãe. Vicária é a destruição da vida simbólica de uma mãe, que permanecerá viva sob um eterno sofrimento calculado pelo perpetrador do crime.

Que haja pessoas que tenham condenado Thales por não ter matado a ex-mulher, e sim os filhos, sugere a naturalização da matança de mulheres e uma culpabilização que também é naturalizada. Os meninos poderiam ser poupados, a mulher não.

A culpabilização da mulher é gêmea da desinformação machista que sustenta o patriarcado. Em palavras muito simples, poucos se ocupam em ver a versão da mulher, enquanto a palavra de um homem vale apenas por ter sido dita ou escrita, como é o caso da carta divulgada do assassino-suicida.

A carta valeu como prova da verdade para muita gente, apenas porque veio a público. A presunção de verdade e inocência do homem – mesmo ele sendo explicitamente culpado de seu crime – gerou uma culpabilização da mulher, cuja condição de vítima não foi questionada pelos odiadores misóginos das redes. É a inversão do sentido, a vítima tratada como culpada, o que está em cena.
Delírio machista

O acontecimento produziu diversos atos de misoginia contra a mãe dos meninos assassinados e ex-esposa do pai-assassino. A partir da carta do assassino-suicida, a mãe foi julgada nas redes e culpabilizada por pessoas que sequer sabiam o que estava acontecendo e aceitavam, previamente, a verdade da narrativa do assassino-suicida.

Quando veio à tona que o pai-assassino é que teria traído a sua esposa, motivo pelo qual ela se separou dele, sendo, portanto, sua ex-esposa, a mesma população não veio pedir desculpas pelo erro.

De um lado, todos sabem que a desinformação é muito difícil de desfazer, ou seja, ela é sistêmica, ela cria um imaginário da verdade pelo qual a verdade significa que “uma mulher é culpada”. Esse é o núcleo da misoginia desde Eva e Pandora.

Uma mulher é a inimiga porque é a culpada de todos os males na vida dos homens. Não se imputa ao homem a loucura, a maldade e nem mesmo a responsabilidade pelos próprios crimes. Ele mata com suas próprias mãos e armas, mas no delírio machista é uma mulher que o levou a isso. Esse é o tipo de imaginário covarde promovido pelo patriarcado.

Se, de um lado, as pessoas não conseguem acessar a informação verdadeira depois de uma onda de mentiras, de fake news, de outro lado, é o julgamento prévio, é a prática da misoginia que move a turba de modo a desresponsabilizar o homem.

Assim, a população virtual realizou um verdadeiro linchamento da mãe nas redes sociais. No enterro dos próprios filhos, ela teve que ser escoltada pela polícia como uma criminosa sujeita ao justiçamento público.

Por que essa sociedade precisa culpar as mulheres para liberar os homens de suas responsabilidades se explica pelo fato de que a sociedade que odeia as mulheres é a mesma que ama e cultua os homens.

@RevistaLiberta

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

Victoria Spivey

Victoria Spivey

' Rainha Victoria '

Uma diva do blues com tino para os negócios e um talento visceral como compositora, Victoria Spivey teve uma longa carreira que a levou do papel de ingênua ao de rainha-mãe. Ao longo do caminho, foi pianista de teatro, estrela de cinema, comediante, líder de banda, empresária, organista de igreja, dona de gravadora, historiadora e uma inspiração para Bob Dylan e muitos outros. 

Spivey nasceu em 15 de outubro de 1906 (ou 12 de novembro, segundo um documento oficial) em Houston, Texas, onde seu pai e irmãos tinham uma banda de cordas. Duas de suas irmãs, Addie ("Sweet Peas") e Elton ("The Za Zu Girl"), tornaram-se cantoras de blues, mas o talento de Victoria se destacou, e a família a enviou para St. Louis para seguir carreira como cantora, assim como sua amiga de longa data de Houston, Sippie Wallace, Spivey alcançou o sucesso com seu primeiro disco, a ousada "Black Snake Blues", em 1926, e escreveu muitas outras canções para si mesma e para outros artistas. "Blues é o meu negócio" se tornaria seu lema, e ela começou a cuidar dos assuntos importantes desde cedo, processando sua editora por direitos autorais em 1928.

“TB Blues”, outro disco popular, foi um de seus muitos blues crus e melancólicos gravados pelas gravadoras OKeh, Victor, Vocalion e Decca, explorando temas sombrios, tristes ou fúnebres. Blind Lemon Jefferson, Lead Belly, John Lee Hooker e muitos outros gravaram suas canções. “You Done Lost Your Good Thing Now”, escrita com seu marido, o trompetista Rubin Floyd, foi um dueto com Lonnie Johnson, posteriormente regravado por B.B. King. 

As gravações de Spivey contaram com a participação de músicos estelares como Louis Armstrong, King Oliver, Tampa Red e muitos outros. Ela alcançou fama duradoura interpretando “Missy” no histórico filme de 1929, Hallelujah!, estrelado por um elenco totalmente negro . Ela também liderou uma orquestra e se tornou esposa e empresária do famoso sapateador Billy Adams. Assim como sua ídola Ida Cox, ela continuou a se apresentar em teatros e casas noturnas durante e após a Grande Depressão, que levou muitas outras mulheres do blues à falência.

Após viver em Moberly, Missouri, com sua irmã Addie e sua mãe, ela se mudou para Chicago e depois para Nova York, comprando uma casa no Brooklyn. Na década de 1950, cantou em clubes de jazz e tocou na igreja, mas só iniciou um retorno triunfal à carreira na década de 1960 com o apoio do aficionado por jazz e blues Len Kunstadt, que se tornou seu companheiro e empresário da gravadora que lançaram, a Spivey Records. 

Spivey e Bob Dylan, 1962.
Em 1961, Spivey também gravou para a Prestige Bluesville. Com sua reputação imponente e amizades no mundo do blues, a "Rainha Vee" conseguiu atrair muitas figuras lendárias do gênero para gravar em sua gravadora, ao mesmo tempo em que cultivava talentos promissores, incluindo Bob Dylan, que gravou com ela e Big Joe Williams em 2 de março de 1962. Dylan não escondia sua afeição por Spivey, e uma foto dos dois adorna a contracapa de seu álbum New Morning . O catálogo da Spivey Records inclui músicas da banda de Muddy Waters, Willie Dixon, Otis Spann, Lonnie Johnson, Roosevelt Sykes, Sonny Boy Williamson e muitos outros.

Spivey manteve-se uma artista reservada e carismática, excursionando pela Europa com o American Folk Blues Festival de 1963, apresentando-se no Ann Arbor Blues & Jazz Festival, no Philadelphia Folk Festival e em outros festivais, participando de diversos documentários e continuando a se apresentar em Nova York até pouco antes de sua morte por hemorragia em 3 de outubro de 1976. 

Como convém a seus feitos profissionais, coleções de seus documentos comerciais e pessoais, bem como de seus objetos pessoais, estão arquivadas na Emory University e no Rutgers Institute of Jazz Studies.



Canção do Exílio: Gonçalves Dias

 Poema Original

Canção do Exílio na revista
Ilustração Brasileira, 1922.

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O poema - Canção do Exílio
(Gonçalves Dias)

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras;
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar – sozinho – à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


LiTeRaTuRa: Gonçalves Dias

Gonçalves Dias

' O Poeta do Brasil '

Antônio Gonçalves Dias, poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, MA, em 10 de agosto de 1823, e faleceu em naufrágio, no Maixio dos Atins, MA, em 3 de novembro de 1864. É o patrono da cadeira n. 15, por escolha do fundador Olavo Bilac.

Era filho natural de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de Latim, Francês e Filosofia do Prof. Ricardo Leão Sabino.

Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando lhe faleceu o pai. Com a ajuda da madrasta pôde viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada, e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. 

Em Coimbra, ligou-se Gonçalves Dias ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo chamou de “medievalistas”. À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a “Canção do exílio”, uma das mais conhecidas poesias da língua portuguesa. Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854, fazendo apenas uma rápida viagem ao Norte em 1851. 

Em 1846 havia composto o drama Leonor de Mendonça, que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 1847 saíram os Primeiros cantos, com as “Poesias americanas”, que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os Segundos cantos e, para vingar-se dos seus gratuitos censores, conforme registram os historiadores, escreveu as Sextilhas de Frei Antão, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um “ensaio filológico”, num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. 

Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto-Alegre. Em 1851, publicou os Últimos cantos, encerrando a fase mais importante de sua poesia.

A melhor parte da lírica dos Cantos inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas sobretudo de seu caráter e temperamento. Sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do poeta ocorreu depois da publicação dos Últimos cantos. 

Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou, ao que tudo indica por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência, origem de grandes desventuras para o poeta, devidas ao gênio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira infância. Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858, em missão oficial de estudos e pesquisa. 

Em 1856, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 1857, o livreiro-editor Brockhaus editou os Cantos, os primeiros quatro cantos de Os Timbiras, compostos dez anos antes, e o Dicionário da língua Tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e 1862, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades européias.

Em 25 de outubro de 1863, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de A noiva de Messina, de Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou, no Baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta, que já se encontrava agonizante, perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.

Todas as suas obras literárias, compreendendo os Cantos, as Sextilhas, a Meditação e as peças de teatro (Patkul, Beatriz Cenci e Leonor de Mendonça), foram escritas até 1854, de maneira que, segundo Sílvio Romero, se tivesse desaparecido naquele ano, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”. O período final, em que dominam os pendores eruditos, favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreende o Dicionário da língua Tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopeia inacabada Os Timbiras, cujos trechos iniciais, que são os melhores, datam do período anterior.

Sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática “americana”, isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal, marcando assim a nossa independência em relação a Portugal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do Indianismo. 

Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo.

A obra indianista está contida nas “Poesias americanas” dos Primeiros cantos, nos Segundos cantos e Últimos cantos, sobretudo nos poemas “Marabá”, “Leito de folhas verdes”, “Canto do piaga”, “Canto do tamoio”, “Canto do guerreiro” e “I-juca-pirama”, este talvez o ponto mais alto de sua obra e de toda a poesia indianista. É uma das obras-primas da poesia brasileira, graças ao conteúdo emocional e lírico, à força dramática, ao argumento, à linguagem, ao ritmo rico e variado, aos múltiplos sentimentos, à fusão do poético, do sublime, do narrativo, do diálogo, culminando na grandeza da maldição do pai ao filho que chorou na presença da morte.

Pela obra lírica e indianista, Gonçalves Dias é um dos mais típicos representantes do Romantismo brasileiro e forma, com José de Alencar na prosa, a dupla que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.



sábado, 21 de fevereiro de 2026

YES


O arcabouço do Rock Progressivo!

' A história da fase mais criativa da banda (1968 - 1975) '
Yes foi a banda de Rock Progressivo do começo dos anos setenta mais duradouro e também mais bem sucedido, o Yes ainda tem muitas histórias pra contar. Formado em 1968, superou muitas trocas de formações com a partida de membros-chaves, mas nunca perdeu a qualidade técnica da sua música tornando-se a banda precurssora do chamado: Prog Rock.
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Eles conseguiram manter enorme base de fãs por causa de sua mistura de assustador virtuosismo, letras místicas, complexos temas musicais e belos e delicados vocais. O vocalista, Jon Anderson, iniciou na música como membro dos Warriors (que chegaram a gravar um single para o selo Decca em 1964), passou por outra banda, a Gun, antes de tentar carreira solo em 1967 (e lançar 2 singles pelo selo Parlophone). Ele estava fazendo uma curta temporada no clube londrino "La Chasse", em jun/68, quando numa noite no bar conheceu o baixista/vocalista Chris Squire, da banda Syn (que tinha contrato com o selo Deram, uma divisão da Decca). Os dois logo descobriram interesses musicais em comum (que incluíam gosto pelas harmonias vocais de Paul Simon e Art Garfunkel) e, nos dias seguintes, passaram a compor juntos.

Foi o início de um tipo de som, que incorporava belas harmonias e sólida base roqueira com ênfase no instrumental. A dupla via as demais bandas ao seu redor como tendo às vezes ótimos vocais, mas fraco instrumental, ou outras vezes o contrário, ótimos instrumentais e fracos vocais. Resolveram então combinar o melhor desses dois elementos (a inspiração inicial foi o grupo de Soul Pop Fifth Dimension). Eles recrutaram Tony Kaye para os teclados, Peter Banks (também do Syn) para as guitarras e Bill Bruford (que havia recém entrado no Savoy Brown) para a bateria.

O nome Yes foi escolhido por ser algo curto e direto, mensagem rápida. A estreia ocorreu em out/68 no clube Speakeasy, de Londres (conseguido através de Tony Stratton-Smith, empresário do Nice e, mais tarde, fundador do selo Charisma). Conseguiram ser selecionados para abrir o famoso show de despedida do Cream, em 26/nov/68, no Royal Albert Hall, o que os levou a uma temporada no clube Marquee e aparição no programa de rádio Top Gear, comandado por John Peel. Abriram para Janis Joplin (um show também no Royal Albert Hall, em abr/69) e assinaram com a Atlantic Records.

O single de estreia do primeiro álbum autointitulado YES, trouxe "Sweetness", uma canção de Anderson e Squire, e o álbum, simplesmente intitulado "Yes", saiu em nov/69. Nestas gravações já havia o som básico que caracterizaria o trabalho subsequente: harmonias vocais impecáveis, instrumental arrasador e um enfoque derivado do Folk e do erudito (diferenciando-os da onda R&B/psicodelia que dominava a cena musical da época). Também presente estava um contexto Pop (havia covers dos Beatles e dos Byrds) e elementos de Space Rock (na faixa "Beyond and Before") no que, mais tarde, eles se tornariam especialistas. Os vocais de Anderson davam à música um ar "etéreo" e a guitarra de Banks ia do Folk ao Skiffle.

O baixo de Chris Squire tinha um som enorme (proeminente feito um trovão) devido sua forma personalíssima de tocar, a bateria de Bill Bruford era complexa e os teclados de John Kaye eram ricos e melódicos. O disco era surpreendentemente coeso (dada a relativa inexperiência de todos), focado e já indicava o som multi estruturado (introduções, mudanças de texturas, timbres e volume etc.) com suítes cheias de partes que fariam mais à frente o sucesso da banda. "Every Little Thing" talvez seja o mais ousado cover dos Beatles já feito.

Em fev/70, o Yes abriu para o Nice no Royal Albert Hall já preparando o segundo álbum, "Time and a Word". Lançado em jun/70, ele trouxe a primeira mudança no line-up da banda: Peter Banks havia deixado o grupo para ser substituído pelo guitarrista Steve Howe. Howe já aparece na capa do disco (fez o primeiro show com a banda em 21/mar/70, no Queen Elizabeth Hall), mas quem realmente toca no disco ainda é Peter Banks.

Bem mais sofisticado que seu antecessor, o segundo álbum Time and a Word, incluia uma orquestra (na verdade, um overdub) em algumas faixas, o álbum evidenciou ainda mais elementos cósmicos e místicos nas composições. Mais bem produzido, com performances excelentes de Bruford-Squire-Kaye, tensão e excitação, volume amplificado, passagens trabalhadas e estendidas, o grupo ia solidificando seu som, embora eles ainda não tivessem desenvolvido a destreza para disparar mudanças de tempo. Os destaques eram "No Opportunity Necessary, No Experience Needed", um cover de Richie Havens, "Then", "Everydays", "The Prophet" e "Astral Traveller". A fama da banda continuou a crescer na Inglaterra tornando seus shows bem populares, onde foram a banda de abertura da turnê do Iron Butterfly.

Mas no terceiro álbun, The Yes Album, lançado em abr/71, a banda conseguiu capturar todo o potencial do grupo. Feito por inteiro com composições próprias, ele veio recheado de harmonias complexas e deslumbrantes, partes de guitarra/baixo com volume no talo, distorcidas e em várias camadas, bateria virtuosa e melódica, órgão Hammond com passagens rebuscadas com muitos arranjos de piano, tudo num nível bem mais expandido. A faixa "Your Move" seria a primeira canção deles a entrar no Top 40 norte-americano, "Starship Trooper" e "All Good People" davam a Howe-Squire-Bruford oportunidade de ampliar passagens instrumentais com tremenda pungência.

Algumas composições pareciam pinturas sonoras e os assombrosos vocais de Anderson remetiam a paisagens tocantes que despertavam a imaginação dos ouvintes. Enquanto, nos 2 primeiros álbuns, o Yes procurou um som próprio, em "The Yes Album" estreou-o com força total. A banda agora trabalhava em material próprio, e as estruturas já se mostraram complexas. A guitarra de Steve Howe preenchida, deixava o baixista Chris Squire e o baterista Bill Bruford livres para improvisarem. As composições ficavam extremamente complexas. Sobre tudo isso, plainava a alta e suave voz de Jon Anderson, lindas harmonias apoiadas por Squire e Howe, com as letras derivadas da ficção científica.

Entretanto, o tecladista Tony Kaye não estava muito satisfeito: seu órgão/piano buscava lugar no novo som do Yes, e a relutância em adotar um sintetizador Moog, instrumento que era novidade na época, acabaria por determinar sua saída.

No início de 1971, o Yes fez sua primeira turnê pelos EUA, abrindo para o Jethro Tull e voltaram no final daquele ano abrindo para o Ten Years After e a J. Geils Band. Com a saída de Tony Kaye em ago/71, Rick Wakeman (ex-Strawbs e David Bowie) assumiu os teclados. Wakeman era um músico bem mais extravagante que Tony Kaye, não só pelo seu jeito de tocar, mas também no número de instrumentos que usava. No lugar dos três teclados de Kaye, Wakeman utilizava vários, um arsenal que incluía Mellotron, vários sintetizadores, órgão, diversos pianos, um cravo elétrico, entre outros.

Esta formação (Anderson, Squire, Howe, Wakeman e Bruford) durou apenas 1 ano (de ago/71 a ago/72), mas é frequentemente considerada a configuração mais rebuscada do grupo. Eles compuseram o próximo álbum, Fragile, que trouxe só 4 faixas feitas por todo o grupo ("Roundabout", "The South Side Of The Sky", "Heart Of The Sunrise" e "Long Distance Runaround", todas faixas enormes com cerca de 7 e 13 minutos). O disco foi lançado em dez/71 e era centrado em 5 faixas, cada uma apresentando a individualidade de cada músico. O álbum foi um sucesso (alcançou nº. 7 na Inglaterra e nº. 4 nos EUA), impulsionado pelo single "Roundabout", primeiro grande sucesso da banda.

Vívidas texturas, inacreditáveis passagens de violão e guitarra, vocais celestiais, teclados inebriantes, baixo e baterias contagiantes, o Yes alcançava o auge de seu som, causando um impacto imenso entre a juventude. A capa do álbum foi a estréia de um estilo de artes plásticas, desenhada pelo artista gráfico Roger Dean, viraria outra marca registrada da banda, seus desenhos de paisagens surreais que evocavam imagens relacionadas com a música, estas artes se tornariam parte integrante da experiência musical do Yes. Roger Dean passaria no futuro a projetar até palco das turnês.

Instantaneamente, o Yes migrou de banda cult para fenômeno internacional. "Fragile" foi o ponto onde todos os elementos se encaixaram. A ficção científica e os elementos de fantasia que já haviam feito o sucesso no "Yes Album", voltaram com força total, fascinando toda uma geração de roqueiros, foi algo inovador. Com o baixo de Chris Squire estalando nos amplificadores, as múltiplas guitarras e violões de Steve Howe surpreendendo pelos acordes e soluções inusitadas, a montanha de teclados de Rick Wakeman criando uma sonoridade espacial e a bateria sofisticada de técnicas de Bill Bruford, parecia que o Yes flutuava do solo, tamanha era a inventividade e ambição da banda.

Embora o Yes tenha continuado a lançar compactos 45 RPM periodicamente incluindo um cover de "America", de Paul Simon, o futuro da banda claramente estava em seus álbuns. Close To The Edge, gravado na primavera de 1972 e lançado em setembro daquele ano, trouxe um álbum com apenas três longas faixas, três clássicos sonoros. As texturas musicais importavam mais do que as letras ou qualquer melodia específica, harmonização ou solo. O álbum alcançou o nº. 4 das paradas na Inglaterra. Close To The Edge disparou a mais longa turnê da carreira da banda até então.


Em retrospectiva, a banda entrou numa espiral de desintegração que só uma grande mudança de direção poderia segurar os egos da banda, depois de um disco que foi uma verdadeira obra-prima. Na época de seu lançamento (jul/72), entretanto, Bill Bruford anunciou sua saída para se juntar a outra influente banda do Prog Rock, o King Crimson, e foi substituído por Alan White, um baterista que tinha participado das sessões de gravação da famosa banda "Plastic Ono Band", álbum de John Lennon e Yoko Ono. AlanWhite já era um ótimo baterista, porém com técnicas melódicas bem diferentes das de Bill Bruford, e assim a banda entrou na turnê do novo disco diante de enorme resposta de público e retumbante aclamação da imprensa especializada.

Grande parte da turnê "Close To The Edge", assim como da turnê anterior ainda com Bruford na bateria, foram gravadas e o LP triplo chamado Yessongs foi lançado em mai/73, compilou o melhor destas gravações. "Yessongs" acabou tornando-se modelo para todos os álbuns ao vivo de Rock Progressivo: mais de 2 horas de todo o repertório de show, tudo sem cortes e extremamente bem tocado diante de tanta complexidade sonora.

O Yes tinha uma missão muito dificíl para o ano de 1973 que era produzir o sucessor de 4 álbuns clássicos. O resultado foi um LP duplo chamado Tales From Topographic Oceans, lançado em jan/74, sob enormes expectativas ele foi "disco de ouro" na pré-venda. O disco quebrou todos paradigmas artísticos anteriores, consistindo em quatro longas faixas, cada uma tomando todo um lado dos LPs. Se podemos dizer que os álbuns anteriores eram compostos de pinturas sonoras, então "Topographic Oceans" era uma série de murais sonoros pintados em vastos espaços numa escala gigante não recomendada para audições fáceis.

Em seu lançamento, críticos o classificaram como "excessivo, representando o píncaro da natureza auto-indulgente do Rock Progressivo". Originalmente inspirado pela reação de Jon Anderson a um conjunto de escritos sagrados do hinduísmo, o álbum apresentou beleza sublime em muitas partes e imensos trechos de virtuosismo hipnotizante de alta octanagem.


Apesar das excelentes vendas, oitenta minutos de música ambiciosa, suítes longas, todas maiores do que Close To The Edge e avançadas em complexidade, densidade, com títulos como "The Revealing Science Of God", que certamente fizeram o ouvinte ler notas de rodapé para entender aquilo tudo. O álbum acabou sendo um projeto desgastante para a banda, o que inclusive fez com que Rick Wakeman decidisse abandonar a banda e entrar de cabeça no seu novo projeto: "Viagem ao Centro da Terra".

Ainda assim, Topographic Oceans possuía algumas das passagens mais bonitas feitas pelo Yes e entregava música profunda e maravilhosa. Decididamente, uma viagem estranha e gloriosa, porém não indicada para todos. A banda entrou em turnê no início de 1974 tocando a maior parte do álbum no palco. Na sequência, foram revelados planos individuais de cada membro lançar um álbum solo, e vários álbuns foram lançados.

Após a saída de Rick Wakeman, em ago/74, foi anunciado que Patrick Moraz, regresso o Prog Rock trio "Refugee", substituiria Wakeman. Três meses depois, um novo álbum, Relayer foi lançado e alcançando o nº. 4 nas paradas britânicas e o nº. 5 nos EUA. Moraz acabou provando ser o substituto adequado. "Relayer" manteve as ambições musicais da banda, com suítes organizadas em seções musicais abrasivas, ritmicamente densas, rico instrumental cheio de solos e delicados vocais com letras poéticas cheias de imagens espirituais. Tudo com o objetivo de criar paisagens sonoras nas quais o ouvinte pudesse viajar.

Apesar de Patrick Moraz fazer a lição de casa, a qualidade e maestria de Rick Wakeman era imcomparável, e assim o mago retorna à banda em 1976. A banda se reuniu no Mountain Studios, na Suíça, para iniciar a gravação de Going For The One e, para tornar ainda mais evidente o clima de motivação, Rick Wakeman estava de volta, empolgado após ter ouvido algumas versões iniciais das novas músicas. O Yes estava de volta com aquela que seria mais uma de suas formações clássicas, trazendo um álbum espetacular.

Sendo mais um álbum clássico da discografia da banda, Jon Anderson é autor de quarto das cinco músicas, dividindo a co-autoria em “Turn Of The Century”, com Howe e White, e em “Awake”, com Howe. A faixa restante, “Parallels”, é uma peça não utilizada por Squire em seu álbum solo, “Fish Out Of Water”, que foi aprovada pela banda. O disco deixa o ouvinte em transe, sem saber o que fazer. Quando termina passamos alguns segundos tentando absorver o seu final.


Com muita movimentação entre seus integrantes, o Yes ainda registraria uma extensa discografia, repleta de bons discos, mas “Going For The One” nunca viria a ser superado. São inúmeros discos lançados passando por todas as mudanças do mundo da música e tendências radiofônicas. Essa, porém, é a beleza da coisa. “Wonderous Stories” foi inspirada na vivência de um dia para ser lembrado. E são raros os dias especiais assim.

Veja a Discografia Completa no Site da Banda:


Todos os membros que passaram pelo YES

Atuais: Jon Davison (vocal e violão), Steve Howe (guitarras e instrumentos de cordas), Jay Schellen (bateria), Geoff Downes (teclados em geral) e Billy Sherwood (baixo e vocais).

Ex-membros: Jon Anderson (vocal, violão ...), Chris Squire (baixo e vocais), Alan White (bateria), Rick Wakeman (teclados em geral), Bill Bruford (bateria), Trevor Horn (vocais e guitarra), Trevor Rabin (guitarra), Tony Kaye (teclados), Peter Banks (guitarra), Patrick Moraz (teclados em geral), Benoit David (vocais), Oliver Wakeman ((teclados em geral), Igor Khoroshev and Tom Brislin (teclados em geral).
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