A vida, o maior dom da cosmogênese.
Há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso: a irrupção da vida
O que é a vida e donde ela veio constitui uma questão permanente de cada ser humano e de cada geração durante toda a nossa história. Hoje, com os avanços da nova cosmologia, melhor, da cosmogênese (porque o universo se encontra ainda em nascimento e em expansão), dito mais simplesmente das ciências da Terra e da vida, sabemos que a expansão, a auto-organização, a complexificação e a emergência de ordens cada vez mais emaranhadas são características do Universo.
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| Detritos da explosão de uma estrela anã branca (foto, NASA) |
E a vida?
Não sabemos exatamente como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança, que é a vida. É frágil, porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje – nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas – conseguiu extingui-la totalmente.
De forma jocosa, dizia o grande biólogo E. Wilson que a vida é como “uma praga que jamais foi destruída e, parece, nunca poderá ser”.
Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, gerada do interior do caos; complexidade, oriunda de seres simples; e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.
Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas, que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio, do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 ou mais elementos da escala periódica de Mendeleiev (1834-1907).
Quando esses vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos, que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.
Ordem a partir do caos.
Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organização intrínseca do próprio universo, quando colocado fora do equilíbrio (Order out of Chaos, 1984), vale dizer, em situação de caos destritivo no interior do qual se forma o caos generativo.
Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas. Ganhou o prêmio Nobel em 1977.
Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que, combinados, permitem surgir a vida. Eles se compõem de quatro bases de nitrogênio, que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento, os quais unem os tijolinhos, formando construções, as mais diversificadas. É a biodiversidade.
Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos microrganimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como afirmou o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral Laudato Sì: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015)) e a outra, Fratelli Tutti (2020), porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).
Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera (em parte, criada pelo próprios seres vivos) com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.
Dadas estas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo, onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de uma poderosa energia relampejante vinda do céu, irrompeu a vida.
Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, dentro da galáxia espiral, Via Láctea, num canto dessa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida.
Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um subcapítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente.
Por fim, ouso dizer com o biólogo (também ganhador do Prêmio Nobel) Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme que o “Universo seria incompleto sem a vida” (The Unverse Story: from the Primordial Flaring Florth to the Ecozoic Era, N.Y.1992). Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo, tese central de Christian de Duve em seu livro, talvez o melhor sobre a história da vida, Poeira Vital: A vida Como Imperativo Cósmico (Objetiva 1995).
Portanto, a vida não seria um dom exclusivo, doado ao planeta Terra pelo universo em sua expansão e complexificação. Ela ocorre em todo o universo, sempre que se criam as condicionalidades referidas acima. Então, a vida irrompe imperativamente.
Assim, devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e redutivista.
O universo parece estar cheio de vida e é em função disso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da vida inteligente, como a nossa e a de outras em possíveis universos paralelos, consoante a teoria das cordas.
A vida é para ser celebrada, cuidada como a emergência mais alta da cosmogênese e o dom mais precioso que recebemos.
Com o cosmólogo Mark Hathawy, Leonardo Boff escreveu “O Tao da Libertação: Explorando uma Ecologia da Transformação” (Orbis 2010,) livro ganhador da medalha de ouro, em 2010, nos Estados Unidos, em nova ciência e cosmologia.












