Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

CIÊNCIA: A VIDA

A vida, o maior dom da cosmogênese.
Há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso: a irrupção da vida

O que é a vida e donde ela veio constitui uma questão permanente de cada ser humano e de cada geração durante toda a nossa história. Hoje, com os avanços da nova cosmologia, melhor, da cosmogênese (porque o universo se encontra ainda em nascimento e em expansão), dito mais simplesmente das ciências da Terra e da vida, sabemos que a expansão, a auto-organização, a complexificação e a emergência de ordens cada vez mais emaranhadas são características do Universo.

Detritos da explosão de uma estrela anã branca (foto, NASA)

E a vida?

Não sabemos exatamente como surgiu. O que podemos dizer é que a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões de anos para criar as condições do nascimento desta belíssima criança, que é a vida. É frágil, porque pode facilmente adoecer e morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje – nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas – conseguiu extingui-la totalmente.

De forma jocosa, dizia o grande biólogo E. Wilson que a vida é como “uma praga que jamais foi destruída e, parece, nunca poderá ser”.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades: ordem, gerada do interior do caos; complexidade, oriunda de seres simples; e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado: a criação dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.

Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas, que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem todas as combinações e todas as transformações. Assim, não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio, do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 ou mais elementos da escala periódica de Mendeleiev (1834-1907).

Quando esses vários elementos se unem, formam o que chamamos de molécula, a menor porção de matéria viva. A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos, que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

Ordem a partir do caos.


Foi mérito de Ilya Prigogine, prêmio Nobel de química de 1977, ter mostrado que a vida resulta da dinâmica da auto-organização intrínseca do próprio universo, quando colocado fora do equilíbrio (Order out of Chaos, 1984), vale dizer, em situação de caos destritivo no interior do qual se forma o caos generativo.

Revelou também que existe uma fábrica que produz continuamente a vida. O motor central desta fábrica da vida é formado por um conjunto de 20 aminoácidos e quatro bases nitrogenadas. Ganhou o prêmio Nobel em 1977.

Os aminoácidos são um conglomerado de ácidos que, combinados, permitem surgir a vida. Eles se compõem de quatro bases de nitrogênio, que funcionam como uma espécie de quatro tipos de cimento, os quais unem os tijolinhos, formando construções, as mais diversificadas. É a biodiversidade.

Temos, portanto, o mesmo código genético de base criando a unidade sagrada da vida, dos microrganimos até os seres humanos. Todos somos, de fato, primos e primas, irmãos e irmãs, como afirmou o Papa Francisco em sua encíclica sobre a ecologia integral Laudato Sì: Sobre o Cuidado da Casa Comum (2015)) e a outra, Fratelli Tutti (2020), porque somos formados pelos mesmos 20 aminoácidos e as quatro bases nitrogenadas (adenina, timina, guanina e citosina).

Mas faltava um berço que acolhesse a vida: a atmosfera e a biosfera (em parte, criada pelo próprios seres vivos) com todos os elementos essenciais para a vida: o carbono, o oxigênio, o metano, o ácido sulfúrico, o nitrogênio e outros.

Dadas estas pré-condições, eis que, há 3,8 bilhões de anos, aconteceu algo portentoso. Possivelmente do mar ou de um brejo primitivo, onde borbulhavam todos os elementos como uma espécie de sopa, de repente, sob a ação de uma poderosa energia relampejante vinda do céu, irrompeu a vida.

Misteriosamente, ela está aí já há 3,8 bilhões de anos. No minúsculo planeta Terra, num sistema solar de quinta grandeza, dentro da galáxia espiral, Via Láctea, num canto dessa galáxia, a 29 mil anos luz do centro dela, aconteceu o fato mais importante da evolução: a irrupção da vida.

Ela é a mãe originária de todos os viventes, a Eva verdadeira. Dela descendem todos os demais seres vivos, também nós humanos, um subcapítulo do capítulo da vida: a nossa vida consciente.

Por fim, ouso dizer com o biólogo (também ganhador do Prêmio Nobel) Christian de Duve e o cosmólogo Brian Swimme que o “Universo seria incompleto sem a vida” (The Unverse Story: from the Primordial Flaring Florth to the Ecozoic Era, N.Y.1992). Sempre que se atinge certo nível de complexidade, a vida surge como um imperativo cósmico, em qualquer parte do Universo, tese central de Christian de Duve em seu livro, talvez o melhor sobre a história da vida, Poeira Vital: A vida Como Imperativo Cósmico (Objetiva 1995).

Portanto, a vida não seria um dom exclusivo, doado ao planeta Terra pelo universo em sua expansão e complexificação. Ela ocorre em todo o universo, sempre que se criam as condicionalidades referidas acima. Então, a vida irrompe imperativamente.

Assim, devemos superar a ideia comum de que o universo é uma coisa meramente física e morta, com pitadinhas de vida para completar o quadro. Essa é uma compreensão pobre e redutivista.

O universo parece estar cheio de vida e é em função disso que ele existe, como o berço acolhedor da vida, especialmente da vida inteligente, como a nossa e a de outras em possíveis universos paralelos, consoante a teoria das cordas.

A vida é para ser celebrada, cuidada como a emergência mais alta da cosmogênese e o dom mais precioso que recebemos.

Com o cosmólogo Mark Hathawy, Leonardo Boff escreveu “O Tao da Libertação: Explorando uma Ecologia da Transformação” (Orbis 2010,) livro ganhador da medalha de ouro, em 2010, nos Estados Unidos, em nova ciência e cosmologia.


Leonardo Boff

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

FEMINISMO: O que é misoginia?

Misoginia e capitalismo do ódio
A quem serve a matança de mulheres que está em curso?



O ódio às mulheres sempre existiu, mas vem se tornando cada vez mais manifesto. Essa evidência sinaliza para a terrível verdade da misoginia naturalizada e, justamente por isso, difícil de enfrentar.

A misoginia, alicerce da barbárie patriarcal, finalmente está escancarada.

Um massacre de mulheres está em curso a ponto de chamar a atenção de todo mundo. Somente lunáticos tem dúvida sobre a presença e a potência da matança, que pode avançar se não for controlada.

Há alguns dias, um desses “lunáticos” dizia que há mais mulheres matando homens do que homens matando mulheres. Certamente, além da desinformação quanto a estatísticas oficiais, o que o sujeito fazia era se capitalizar política e midiaticamente, vociferando nas redes sociais, enquanto pessoas razoáveis tentavam contestar o desequilibrado.

Notem, loucura e desequilíbrio emocional sempre foram imputados às mulheres. Lembremos que o duplo feminicida do CEFET, que matou as servidoras Allane e Layse, tinha um laudo de distúrbio psiquiátrico.

Mas, de fato, a coisa vai bem além da loucura ou do que, antigamente, chamavam de passionalidade. O capitalismo é uma evolução econômica do patriarcado. O machismo não é mais apenas um fator cultural, ele se tornou um fator econômico. Na verdade, sempre foi, mas exacerbou essa sua característica.

O homem que pratica o discurso de ódio contra mulheres nas redes engajou-se no sistema codificado, o qual vem sendo chamado de “machosfera”. Esse ódio às mulheres providencia, além de compensação emocional para homens infelizes consigo mesmos, vantagens econômicas.

Esse é também o caso do famoso “Calvo do Campari”, preso por violência doméstica, que se tornou ainda mais famoso após essa violência. Ao contrário do que seria de se esperar, em condições normais de temperatura e pressão democrática, sua violência foi capitalizada impulsionando sua presença em noticiários e redes. Aliás, tendo a ajuda da imprensa economicamente hegemônica a dar espaço para esse homem, como se ele fosse uma pessoa normal.

Imagine ganhar dinheiro fazendo o que você gosta. É disso que estamos falando, de homens que ganham dinheiro, fama e status, odiando mulheres.

Negacionismo e negócio.

Nos últimos dias, o ódio máximo que se expressa no feminicídio, se tornou o “assunto”, pelo menos na imprensa alternativa.

A imprensa conservadora evita usar a palavra feminicídio. Ela é tão evitada quanto a palavra feminismo. Mas o que realmente está sendo evitado nessa negação diante de tantas evidências?

Certamente, o que se evita é o “gênero” como calibrador social, como categoria de análise. É preciso evitar que a “naturalização” dos sexos e dos corpos seja desmontada.

É preciso evitar que o fator cultural implicado na violência de gênero seja visto e, assim, a violência cometida por homens continue sendo aceitável e perdoável, já que é natural espancar e até matar mulheres naturalmente demonizadas, como as “bruxas” da história.

A violência é que impõe às mulheres o “medo da morte violenta” num regime de ameaça constante, para que elas obedeçam e se calem e, desse modo, evitem ser mortas. Do contrário, serão tratadas como culpadas por sua própria morte.

O ódio às mulheres é necessário e, por isso, defendido e protegido. Os homens sabem disso, principalmente os que seguem em silêncio.

E as mulheres que têm consciência e lutam pelo fim das injustiças e da violência contra elas, ou seja, as feministas, são duplamente odiadas, por serem mulheres e por saberem o que está implicado nisso.

É útil saber que usamos a palavra patriarcado para definir o sistema no qual o machismo é a ideologia e a metodologia de sustentação. A misoginia é o seu fundamento místico, ou seja, o ódio às mulheres não tem outro sentido além de garantir o privilégio do “macho” matador e adorado na sua posição de matador.

O patriarcado se sustenta sobre uma equação simples: amor aos machos, ódio às mulheres. Por isso, cabe a pergunta: se não defendermos umas às outras, quem nos defenderá?

Marcia Tiburi
Formada em filosofia e artes. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras. Publicou 7 romances, entre eles Com os sapatos aniquilados, Helena avança na neve (Nós, 2023) e diversos ensaios, entre eles “Como conversar com um fascista”, “Complexo de vira-lata: análise da humilhação brasileira” (Civilização Brasileira, 2021) entre outros.


domingo, 7 de dezembro de 2025

TRAFFIC


Traffic
British Rock: 1967

' O Blues-Rock psicodélico do Traffic '

Em meados de 1967, o vocalista e tecladista do Spencer Davis Group, Stevie Winwood (nascido Stephen Lawrence Winwood em 12 de maio de 1948 em Handsworth, Birmingham, Inglaterra), o saxofonista, flautista e tecladista Chris Wood (nascido Christopher Gordon Blandford Wood em 24 de junho de 1944 em Quinton Birminghm, Inglaterra) do Locomotive, o baterista e cantor Jim Capaldi (nascido Nicola James Capaldi em 2 de agosto de 1944 em Evesham, Worcestershire, Inglaterra) e o guitarrista e cantor Dave Mason (nascido David Thomas Mason em 10 de maio de 1946 em Worcester, Inglaterra), ambos do The Hellions fizeram uma jam session no The Elbow Room, clube de Aston, Birmingham e gostaram muito do resultado.

Os quatro membros deixaram suas respectivas bandas para colocar energia total no novo projeto. Batizaram o nome da banda de Traffic, por sugestão do bateristaa Jim Capaldi que aguardava o resto da banda num cruzamento de tráfego alucinante em Dorchester. Alugaram uma casa num vilarejo rural em Aston Tirrold, Berkshire, para ensaiar e compor material novo para um repertório. Essa estratégia foi fundamental para o entrosamento e desenvolvimento do trabalho da banda.

Nesse mesmo ano, com algumas músicas na mão, a banda assinou com a gravadora Island Records onde gravou seu primeiro single, Paper Sun (composição de Winwood e Capaldi), primeiro clássico deles. O compacto fez muito sucesso no Reino Unido e ficou em quarto lugar no Canadá. Hole in My Shoe (Mason), segundo single também lançado em 1967, estourou nas Ilhas Britânicas, assim como o terceiro compacto Here We Go Round the Mulberry Bush, que fez parte da trilha sonora do filme homônimo (no Brasil, a Arte de Conquistar um Broto). No final de 1967, gravaram o álbum chamado Mr. Fantasy, que trazia como destaque a faixa Dear Mr. Fantasy (Capaldi, Winwood, Wood), Heaven is on My Mind (Capaldi, Winwood, Wood) e Dealer (Capaldi, Winwood). Pouco antes do lançamento do LP, Dave Mason se desentende com o restante da banda por direcionamento artístico.

Dave Mason rapidamente volta e a banda começa a gravar seu segundo álbum autodenominado Traffic. Destacam-se no disco as músicas You Can All Join In (Mason), Pearly Queen (Capaldi, Winwood) e Feelin’ Alright (Mason), que foi um grande sucesso nas versões de Joe Cocker, Three Dog Night e Grand Funk Railroad. Pouco antes de saírem em turnê, houve um novo desententimento entre eles, pois enquanto Mason queria continuar no viés psicodélico/eclético, o restante do Traffic preferia um som mais calcado no Folk e no Blues. Nova saída do guitarrista, fazendo com que Stevie, Chris e Jim tocassem como trio nos compromissos da banda. Nessa época, Winwood e Wood participaram das sessõe de gravação do álbum Electric Ladyland do The Jimi Hendrix Experience.

Em 1969, parecia que o quarteto tinha entrado num ententimento mútuo, o que permitiu a volta de Dave Mason no terceiro álbum do Traffic chamado Last Exit. Gravado em estúdio e ao vivo, o LP apresenta como destaque as faixas Just For You (Mason), música que Dave tinha lançado em seu primeiro single solo, após sua primaira saída do Traffic, além de Shanghai Noodle Factory (Winwood, Capaldi, Wood, Jimmy Miller, Larry Fallon) e Feelin’ Good (Anthony Newley, Leslie Bricusse).

Primeiro álbum, 1967.
Quando parecia que as coisas estavam caminhando bem, houve uma nova quebra na banda, Stevie Winwood foi convidado por Eric Clapton para formar o supergrupo que estva montando chamado Blind Faith. A banda contava com Clapton e Ginger Baker (egressos do Cream) e o baixista Ric Grech do Family. 

Dessa forma os outros membros dissolveram o Traffic e formaram outros projetos como: "Wooden Frog & Mason", Capaldi Wood & Frog com o tecladista Mick Weaver (também conhecido como Wynder K. Frog).

Em 1970, após o final do Blind Faith e participar da banda Ginger Baker’s Air Force, Stevie Winwood começou a trabalhar em seu álbum solo, John Barleycorn Must Die, que contaria com a participação de Jim Capaldi e Chris Wood. De comum acordo, resolveram tornar o projeto o quarto álbum do Traffic. Este foi o maior sucesso comercial da banda, que teve como destaque as músicas Glad (Winwood), Empty Pages (Capaldi, Winwood) e John Barleycorn (Must Die), uma música tradicional arranjada por Winwood. Nesse ano, o trio resolveu ampliar seu line up chamando Ric Grech (nascido Richard Roman Grechko em 1º de novembro de 1946 em Bordeaux, França), parceiro de Winwood no Blind Faith, para tocar baixo permanente na banda.

Em 1971, Dave Mason se reencontrou com os companheiros e o Traffic gravou o álbum ao vivo Welcome to the Canteen, se convertendo num septeto após as entradas do baterista norte-americano Jim Gordon (nascido James Beck Gordon em 14 de julho de 1945 em Los Angeles, California, EUA), ex-Derek & The Dominoes (superbanda formada por Eric Clapton) e do percussionista ganense Rebop Kwaku Baah (nascido Anthony Kwaku Baah em 13 de fevereiro de 1944 em Konongo, Gana).

Na capa do disco aparece o nome dos sete músicos, pois a United Artists recusou-se a colocar o nome Traffic (pois lembrava tráfico de drogas). Destacam-se as músicas Forty Thousand Head Men (Mason), uma releitura de Dear Mr. Fantasy (do primeiro álbum da banda) e Gimme Some Lovin’ (Spencer Davis, Steve Winwood, Muff Winwood), cover da primeira banda dos irmãos Winwood, Spencer Davis Group. O disco não vendeu o esperado  no Reino Unido e marcou a derradeira participação de Dave Mason na banda.

No mesmo ano, a banda lançou seu quinto álbum de estúdio, The Low Spark of High Heeled Boys, que tem, pela primeira vez na história do Traffic, duas faixas contando com o baterista Jim Capaldi nos vocais principais: Light Up or Leave Me Alone (Capaldi) e Rock and Roll Stew (Ric Grech, Jim Gordon). Outros destaques são a faixa-título (Capaldi, Winwood) e Rainmaker (Winwood, Capaldi). Embora tenha ficado no Top 10 das paradas dos EUA, o disco não figurou nos charts britânicos, mas deu a eles um disco de Ouro. 

Brigas internas fizeram com que Ric Grech e Jim Gordon deixassem a banda e Stevie teve que se afastar pra tratar de uma peritonite aguda. Jim Capaldi aproveitou o hiato de atividades da banda para gravar seu primeiro álbum solo, Oh How We Danced.

Em 1972, as vagas deixadas por Grech e Gordon foran preenchidas por David Hood (nascido em 21 de setembro de 1943 em Sheffield, Alabama, EUA) e Roger G. Hawkins (nascido em 16 de outubro de 1945 em Mishawaka, Indiana, EUA), respectivamente. A dupla fazia parte da cozinha da banda do legendário estúdio Muscle Shoals, verdadeira insitituição do Soul. 

Com Steve Winwood plenamente recuperado de sua doença, eles fizeram uma turnê pela america do norte no começo do ano. Em seguida, começaram as sessões do sexto álbum do Traffic, Shoot Out at the Fantasy Factory, que teve a maioria das músicas escritas pela dupla Capaldi/Winwood como a faixa-título e Roll Right Stones. O disco foi lançado no ano seguinte, mas embora tivesse sido um grande sucesso de vendas, foi massacrado pela crítica. 

Houve uma grande turnê de divulgação, contando com a participação de um tecladista extra, Barry Beckett (nascido em 4 de fevereiro de ‘943 em Birmingham, Alabama, EUA), outro integrante do estúdio Muscle Shoals. Eles aproveitaram alguns shows para gravar o segundo álbum ao vivo da banda, o duplo On The Road, lançado ainda em 1973. Apesar do êxito da turnê, Rebop Kwaku Baah, David Hood e Roger Hawkins saíram do Traffic assim que o compromisso terminou. Finalmente um trabalho da banda figurou novamente nos charts do Reino Unido.

Formação rebuscada da banda.
Em 1974, a banda lançou When The Eagle Flies, seu sétimo álbum de estúdio, contando com o baixista jamaicano Rosko Gee no lugar de David Hood. Não houve substituição para a vaga deixada por Hawkins e o Traffic voltou a contar apenas com Jim capaldi como baterista. Novamente, o disco contou com a maioria das músicas compostas por Stevie e Jim, com destaque para Something New, Graveyard People e a faixa-título. 

Em seguida, saíram em uma das mais lucrativas turnês da história da banda, com ingressos esgotados em todos os shows. Porém, a banda estava exausta fisica e emocionalmente. Stevie Winwood voltou a ter problemas recorrentes com a peritonite e Chris Wood estava sofrendo com sua luta contra a dependência química. Num show em Chicago, o tecladista chegou ao pico de sua insalubridade e teve que abandonar o palco. No dia seguinte, Chris Wood deixa a banda no meio da turnê e o restante da banda resolve cancelar os demais compromissos e dar um ponto final ao Traffic.

Stevie Winwood e Jim Capaldi partiram para bem sucedidas carreiras solo, enquanto Rosko Gee se juntou a Rebop Kwaku Baah, ex-percussionaista da banda, integrando a o CAN, banda alemã de Rock Progressivo. O batera Capaldi casou-se com a modelo brasileira Ana E S Campos em 1975 e mudou-separa o Brasil em 1977, descobrindo o cantor Marcelo (do hit Abre Coração, de autoria de Capaldi). Chris Wood, apesar de seus problemas com álcool e drogas trabalhou com seus ex-companheiros Rebop Baah e Jim Capaldi em trabalhos solos deles. O guitarrista Dave Mason trabalhou como músico de estúdio e de apoio para artistas e bandas do calibri de 
Rolling Stones, Paul McCartney, George Harrison, Jimi Hendrix, Eric Clapton, Michael Jackson, David Crosby, Graham Nash, Fleetwood Mac, Delaney & Bonnie e Cass Elliot, além do prórpio ex-colega de Traffic, Steve Winwood.

Em 1983, o Traffic perdeu dois de seus membros: Rebop Baah faleceu em 12 de janeiro, vítima de hemorragia cerebral enquanto que Chris Wood, o talentoso soprista faleceu no dia 12 de julho, vítima de pneumonia, meses após a morte de sua esposa, fato que o abalou profundamente.

Em 1994, 20 anos após o fim do Traffic, Stevie Winwood e Jim Capaldi, membros da formação clássica da banda, se reuniram para uma inusitada turnê abrindo os shows do Grateful Dead, icônica banda psicodélica dos anos sessenta. Para apoiar a banda nos shows, foram conviidados o baixista Rosko Gee, o flautista e saxofonista Randall Bramblett, o tecladista Michael J. McEvoy na guitarra e viola e o baterista e percussionista cubano Walfredo Reyes Jr, que já havia trabalhado com Carlos Santana.

Steve Winwood, Chris Wood, Dave Mason e Jim Capaldi

No mesmo ano, Winwood e Capaldi resolvem lançar um álbum inédito do Traffic, chamado Far From Home. A banda foi formada com o irlândes Davy Spillanena na gaita de foles e Mick Dolan na guitarra ritmica. Após esse trabalho cada membro voltou aos seus projetos e bandas inidividuais. Jim Capaldi fez uma turnê com Dave Mason em 1999, e, em 2001 o baterista gravou uma versão em inglês do hit Anna Julia da banda brasileira Los Hermanos, que contou com a participação de George Harrison na guitarra solo, um dos últimos trabalhos do ex-Beatle, falecido naquele mesmo ano.

Em 15 de março de 2004, o Traffic foi introduzido no Rock and Roll Hall of Fame, contando com a participação dos membros sobreviventes da formação clássica da banda: Steve Winwood, Jim Capaldi e Dave Mason, contaram com a presença de Stephanie Wood, irmã do falecido Chris Wood para receber a honraria.

Uma reunião do trio então foi cogitada desde então, mas infelizmente, no dia 28 de janeiro de 2005, Jim Capaldi faleceu, vítima de um câncer no estômago. Nesse mesmo ano foi lançado o álbum ao vivo The Last Great Traffic Jam, com vários momentos da turnê de reunião de 1994, que Stevie Winwood dedicou ao querido e saudoso amigo. 

Em 2007, aconteceu o concerto beneficente Dear Mr. Fantasy, dedicado à memória de Jim Capaldi e ao Traffic, com renda revertida para a The Jubilee Action Street Children Appeal. Além de Stevie Winwood, participaram deste evento Pete Townshend do The Who e Paul Weller do The Jam, e o evento foi lançado em 2011.


sábado, 6 de dezembro de 2025

Rock Latino: SANTANA

Banda Santana em Woodstock, 1969

Banda Santana

Com uma paixão e alma que se igualam à lendária potência sonora de sua guitarra, o som de Carlos Santana é uma das marcas musicais mais reconhecidas do mundo. Por mais de quatro décadas — desde os primórdios de Santana como um grupo pioneiro de fusão afro-latina, blues e rock em São Francisco — Carlos tem sido a força visionária por trás de uma arte que transcende gêneros musicais e fronteiras geracionais, culturais e geográficas.

Muito antes de a categoria hoje conhecida como "world music" ser nomeada, o som em constante evolução de Santana já estava à frente de seu tempo em seu apelo universal, e hoje se destaca como perfeitamente sincronizado com o cenário pancultural do século XXI. E, com uma dedicação ao trabalho humanitário e ao ativismo social que se assemelha à sua relação de longa data com a música, Carlos Santana é tanto um cidadão do mundo exemplar quanto um ícone global da música.

A banda foi formada em 1967 em San Francisco. A primeira formação consistia do próprio Santana na guitarra solo, Tom Fraser na guitarra rítmica, Mike Carabello na percussão, Rod Harper na bateria e percussão, Gus Rodriguez no contra-baixo e Greg Rolie nos vocais e teclados. Nos anos seguintes os membros do grupo foram trocados com frequência, por diversos motivos, e de 1971 a 1972 chegou a ocorrer um breve rompimento entre o grupo e Carlos Santana.

A estrela de Santana surgiu na cena musical da área da Baía de São Francisco, no final da década de 1960, que definiu uma era, com shows históricos no Fillmore e em outros locais lendários. O grupo ascendeu ao cenário global com uma apresentação épica no festival de Woodstock em 1969, o mesmo ano em que lançou seu álbum de estreia homônimo, Santana. Apresentando o primeiro sucesso de Santana no Top 10, "Evil Ways", o disco permaneceu na parada de álbuns da Billboard por dois anos e logo foi seguido por mais dois clássicos — e álbuns número 1 na Billboard — Abraxas e Santana III.

Desde então, por mais de quarenta anos e quase o mesmo número de álbuns depois, Santana vendeu mais de 100 milhões de discos e alcançou mais de 100 milhões de fãs em shows pelo mundo todo. Até hoje, Santana ganhou 10 prêmios GRAMMY®, incluindo um recorde de nove para um único projeto, o álbum Supernatural de 1999 (incluindo Álbum do Ano e Gravação do Ano por “Smooth”), além de três Latin GRAMMYs. Em 1998, o grupo foi introduzido no Hall da Fama do Rock and Roll, cujo site observa: “O guitarrista Carlos Santana é um dos verdadeiros virtuosos e guias do rock”.

Capa do segundo álbum Abraxas, 1970

Entre muitas outras honrarias, Carlos Santana recebeu o prêmio de Conjunto da Obra do Billboard Latin Music Awards em 2009 e o prêmio Billboard Century Award em 1996. Em 8 de dezembro de 2013, foi agraciado com o Kennedy Center Honors Award. A revista Rolling Stone o incluiu na lista dos "100 Maiores Guitarristas de Todos os Tempos" em 15º lugar, destacando que "o timbre cristalino e o sustain impecável de Santana o tornam um dos raros instrumentistas que podem ser identificados por uma única nota". Com o lançamento de Corazón em 2014, Santana ultrapassou os Rolling Stones e se tornou um dos dois únicos artistas na história da Billboard a emplacar pelo menos um álbum no Top 10 por seis décadas consecutivas, a partir dos anos 1960.

No outono de 2014, Carlos Santana lançou sua autobiografia "The Universal Tone: Bringing My Story to Light", que oferece uma narrativa envolvente de autodeterminação musical e autodescoberta, com histórias pessoais repletas de detalhes vívidos e lições inspiradoras.

Em 2016, Carlos se reuniu com a reverenciada formação do início dos anos 70 do Santana para lançar um álbum intitulado " Santana IV ". O álbum estreou em 5º lugar na parada Top 200 da Billboard, em 2º lugar na parada Top Current da Billboard, em 2º lugar na parada Rock da Billboard e em 1º lugar na parada Independent Albums da Billboard. Este álbum marca o décimo quarto álbum do Santana a alcançar o Top 10.

Em 2017, Carlos Santana e Cindy Blackman Santana uniram forças com os Isley Brothers (Ronald e Ernie) para lançar Power of Peace , um álbum que celebra os sons atemporais do funk, soul, blues, rock, jazz e pop. Em 2018, Carlos lançou seu primeiro MasterClass, seguido pelo poderoso e energético Africa Speaks (2019) , inspirado pelos sons e ritmos da África, considerado seu “melhor disco em décadas” (NPR) e classificado entre “os álbuns mais intensos dos 50 anos de carreira de Santana” pelo The New York Times. Recentemente, ele celebrou três marcos épicos: o 20º aniversário de seu álbum inovador Supernatural , o 50º aniversário de sua lendária apresentação em Woodstock e o 50º aniversário de sua obra-prima Abraxas .

O ano passado marcou o lançamento de Blessings and Miracles (2021), um dos álbuns mais ambiciosos, inspirados e mágicos da consagrada carreira de Santana. Com colaborações de Rob Thomas, Chris Stapleton, Steve Winwood e muitos outros, o álbum é considerado um dos melhores do ano pela American Songwriter.

“O título deste álbum vem da minha crença de que nascemos com poderes celestiais que nos permitem criar bênçãos e milagres”, diz Santana. “O mundo nos programa para sermos indignos desses dons, mas precisamos utilizar a luz, o espírito e a alma – eles são indestrutíveis e imutáveis. Esses são os três elementos principais deste álbum.”

Atualmente, Santana é a atração principal de uma residência de vários anos no House of Blues, no Mandalay Bay Resort and Casino, em Las Vegas.

Além da música, no âmbito do estilo de vida e entretenimento, a River Of Colors (ROC) obteve enorme sucesso com as marcas Carlos by Carlos Santana e Unity by Carlos Santana. Fundada em 1997, a ROC dedica-se a lançar no mercado produtos que incorporam a paixão e a integridade de Carlos Santana, e que são fiéis ao seu estilo e gosto inconfundíveis. Os empreendimentos da ROC abrangem produtos como sapatos, bolsas, chapéus, óculos, vinho espumante, cannabis e café, bem como instrumentos musicais exclusivos, incluindo guitarras elétricas e instrumentos de percussão. Os produtos da ROC são distribuídos em lojas de varejo selecionadas e online em todo o mundo.

A trajetória de Carlos Santana como intérprete e músico é complementada por uma dedicação de toda a vida ao ativismo social e a causas humanitárias. A Fundação Milagro, criada por Carlos Santana e sua família em 1998, já destinou mais de oito milhões de dólares a programas sem fins lucrativos que apoiam crianças e jovens carentes nas áreas de artes, educação e saúde. Milagro significa "milagre", e a imagem de crianças como milagres divinos de luz e esperança — dádivas para nossas vidas — é a inspiração por trás de seu nome.