Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Blues & Soul: IRMA THOMAS

Irma Thomas

' A Rainha do Soul '

Reconhecida como a inigualável "Rainha da Soul de Nova Orleans", a cantora Irma Thomas figura entre as maiores e mais duradouras embaixadoras musicais do R&B da cidade. Embora nunca tenha alcançado o sucesso comercial nacional de contemporâneas como Aretha Franklin e Etta James, graças a uma série de clássicos dos anos 1960, incluindo "Time is On My Side" e "Ruler of My Heart", Thomas ainda assim respira a mesma aura singular na mente de muitos aficionados por música soul. 

Graças à sua ética de trabalho incansável e álbuns como Soul Queen of New Orleans (1978), The New Rules (1986) e The Story of My Life (1997), Thomas continua sendo uma fonte de profundo orgulho e inspiração para Nova Orleans. Ela levou para casa o Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo com After the Rain (2006) e reforçou sua influência duradoura ao colaborar com Galactic em Audience with the Queen (2025).


Nascida Irma Lee em Ponchatoula, Louisiana, em 18 de fevereiro de 1941, na adolescência cantava no coral de uma igreja batista, chegando a fazer um teste para a Specialty Records aos 13 anos. Um ano depois, deu à luz seu primeiro filho, casou-se com o pai da criança e, posteriormente, teve outro filho antes do divórcio. Aos 17 anos, casou-se novamente, desta vez com Andrew Thomas, tendo mais dois filhos antes de se divorciar novamente, tudo antes dos 20 anos. 

Mantendo o sobrenome do segundo ex-marido, Thomas começou a trabalhar como garçonete no Pimlico Club, em Nova Orleans, ocasionalmente participando de apresentações com o líder da banda Tommy Ridgley. Quando o dono do clube a demitiu por passar mais tempo cantando do que servindo mesas, Ridgley concordou em ajudá-la a conseguir um contrato com uma gravadora, agendando testes com as gravadoras locais Minit e Ronn. Esta última lançou seu ousado single de estreia, "You Can Have My Husband (But Don't Mess with My Man)", na primavera de 1960, e o disco rapidamente alcançou a 22ª posição na parada R&B da Billboard. No entanto, Thomas acusou Ronn de reter royalties e, após mais um trabalho para a gravadora, "A Good Man", ela assinou brevemente com a gravadora Bandy, lançando "Look Up" em 1961 antes de se transferir para a Minit.

O primeiro lançamento de Thomas pela Minit, "Girl Needs Boy", inaugurou uma colaboração com o compositor e produtor Allen Toussaint que continuaria durante todo o seu período com a gravadora; embora nenhum de seus seis singles pela Minit tenha sido um grande sucesso, cada um era brilhante, em particular "It's Raining" de 1962 (memoravelmente regravada pelo cineasta Jim Jarmusch para seu clássico cult Down by Law) e "Ruler of My Heart" do ano seguinte, retrabalhada por Otis Redding como "Pain in My Heart". 

A Imperial Records adquiriu a Minit em 1963, e o contrato de Thomas foi incluído no acordo. Seu primeiro single pela gravadora, a intimista e crua "Wish Someone Would Care", capitalizou os amplos recursos da Imperial para alcançar o Top 20 da Billboard, enquanto seu lado B, "Break-a-Way", composto por Jackie DeShannon e Sharon Sheeley , tornou-se um grande sucesso nas rádios de Nova Orleans, acumulando posteriormente versões cover de cantoras como Beryl Marsden e Tracey Ullman. O single seguinte, "Anyone Who Knows What Love Is (Will Understand)", foi ainda melhor, uma balada magnífica com uma das performances vocais mais refinadas de Thomas, mas não fez sucesso. 

Da mesma forma, seu lado B, "Time Is on My Side", composto por Jerry Ragovoy, tinha seus fãs, entre eles a banda The Rolling Stones, que alcançaram um enorme sucesso com uma versão cover praticamente nota por nota. Thomas encerrou 1964 com duas entradas modestas nas paradas, "Times Have Changed" e "He's My Guy", ambas compostas por Van McCoy. Para trabalhos subsequentes, incluindo "I'm Gonna Cry Till My Tears Run Dry" e "The Hurt's All Gone", ela chegou a viajar para Nova York para gravar com o produtor de sucesso Ragovoy, mas apesar do prestígio dos envolvidos, seu sucesso comercial diminuiu e, após o fracasso nas paradas de "It's a Man's-Woman's World", produzido por James Brown em 1966, a Imperial rescindiu seu contrato.

Em seguida, Thomas assinou com a Chess Records, viajando para o lendário estúdio Fame de Rick Hall em Muscle Shoals para gravar "Cheater Man" em 1967. Nem esse disco, nem seu sucessor, "A Woman Will Do Wrong Charted", fizeram muito sucesso, mas seu terceiro single pela Chess, uma versão de "Good to Me" de Redding, alcançou uma posição modesta nas paradas de R&B em 1968. Isso não foi suficiente para prolongar o contrato de Thomas com a Chess, e ela passou os anos seguintes fora do estúdio.

Após a devastação causada pelo furacão Camille, ela mudou-se com a família para Oakland, Califórnia, em 1969, estabelecendo-se posteriormente em Los Angeles. Durante esse período, Thomas sustentou os filhos trabalhando na loja de departamentos Montgomery Ward, retornando aos palcos em 1971 com o lançamento de "Full Time Woman" pelo selo Cotillion. Mais tarde naquele ano, lançou também "Save a Little Bit" pelo pequeno selo Canyon, seguido em 1972 por "I'd Do It All for You". Thomas voltou em 1973 com "These Four Walls" pela Roker, seguido por três singles pelo selo Fungus: "You're the Dog (I Do the Barking Myself)", "In Between Tears" e "Coming from Behind". Ela retornou a Nova Orleans em 1976 e, um ano depois, lançou "Hittin' on Nothin'" e uma regravação de "Breakaway" para o álbum The Soul Queen of New Orleans, lançado pela Maison de Soul. 

Em 1980, Thomas lançou Safe with Me pela gravadora RCS , um LP que buscava atualizar seu som para se aproximar do R&B da era disco. Foi o último disco que ela gravou por seis anos.

Nesse ínterim, Thomas intensificou sua agenda de shows. Com o marido e empresário Emile Jackson, ela inaugurou o Lion's Den, um clube em Nova Orleans onde se apresentava regularmente como atração principal, e também fez turnês pela Europa, onde seus discos ainda recebiam bastante atenção nas rádios. Em 1985, foi convidada pelo produtor da Rounder Records, Scott Billington, para gravar um álbum de retorno. The New Rules foi lançado no ano seguinte, recebendo críticas positivas e vendendo bem. The Way I Feel chegou às lojas em 1988 e, com Live! Simply the Best, de 1991, Thomas recebeu sua primeira indicação ao Grammy. No ano seguinte, lançou True Believer e, em 1993, seu primeiro trabalho gospel, Walk Around Heaven.

Ela esperou até 1997 para lançar seu próximo álbum secular, The Story of My Life, atribuindo o atraso nas entrevistas à dificuldade em encontrar material apropriado para sua idade e sensibilidade. Thomas mudou radicalmente de rumo em 1998 com Sing It!, que a uniu às fãs devotas Marcia Ball e Tracy Nelson; dois anos depois, foi lançado My Heart's in Memphis: The Songs of Dan Penn, com Thomas interpretando tanto clássicos de Penn ("I'm Your Puppet", "Woman Left Lonely") quanto composições originais.

After the Rain, lançado em 2006, rendeu a Thomas seu primeiro Grammy de Melhor Álbum de Blues Contemporâneo. Simply Grand foi lançado pela Rounder Records em 2008 e apresentou Thomas em um formato acústico acompanhada por diversos pianistas, incluindo Dr. John, Ellis Marsalis, Randy Newman e outros. Um EP, For the Rest of My Life, foi lançado em 2013. Em 2025, Thomas uniu forças com o grupo de groove de Nova Orleans, Galactic, para o álbum comemorativo Audience with the Queen.

Série heroínas do Brasil: ESPERANÇA GARCIA

Esperança Garcia
Reprodução: Valentina Fraiz.

— Carta De Esperança Garcia Na Íntegra. — “Eu sou uma escrava de Vossa Senhoria da administração do Capitão Antônio Vieira do Couto, casada. Desde que o capitão lá foi administrar que me tirou da fazenda algodões, onde vivia com o meu marido, para ser cozinheira da sua casa, ainda nela passo muito mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que cai uma vez do sobrado abaixo peiada; por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar há três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Peço a Vossa Senhoria pelo amor de Deus ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar ao procurador que mande para a fazenda aonde me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.”

O ano era 1770 e uma mulher negra, mãe, escravizada, escreveu uma carta em 6 de setembro, endereçada ao governador da capitania do Piauí. Em ato de insurgência às estruturas que a desumanizavam, ela denunciava as situações de violência que ela, as companheiras e seus filhos sofriam na fazenda de Algodões, região próxima a Oeiras, a 300 quilômetros da futura capital, Teresina.

O documento histórico é uma das primeiras cartas de direito que se tem notícia. É um símbolo de resistência e ousadia na luta por direitos no contexto do Brasil escravocrata no século XVIII – mais de cem anos antes de o Estado brasileiro reconhecê-los formalmente.

Esperança Garcia possivelmente aprendeu a ler e escrever português com os padres jesuítas catequizadores. Após a expulsão dos jesuítas do Brasil, pelo marquês de Pombal e a passagem da fazenda para outros senhores de escravo, ela foi transferida para terras do capitão Antônio Vieira de Couto. Longe do marido e dos filhos maiores, usou a escrita como forma de luta para reivindicar uma vida com dignidade.

A carta foi encontrada em 1979 no arquivo público do Piauí, pelo pesquisador e historiador Luiz Mott. Em reconhecimento da importância histórica do documento escrito por Esperança, atendendo às reivindicações do movimento negro no Piauí, a data de 6 de setembro foi oficializada como o Dia Estadual da Consciência Negra, em 1999. Em setembro de 2017, duzentos e quarenta e sete anos depois da escritura da carta, através de solicitação da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra do Piauí, Esperança Garcia foi reconhecida pela OAB/PI como a primeira advogada piauiense.

Estátua de Esperança Garcia.
A narrativa de Esperança é marcada pela indignação e a coragem de resistir. Denuncia os maus tratos, o autoritarismo e requer o direito de viver livre de violência para si e para os outros. É uma singular expressão da luta por direitos humanos que nasce das senzalas, das ruas, dos lugares onde as sujeitas historicamente oprimidas se insurgem por liberdade e igualdade.

Conhecer, lembrar e compartilhar a voz de Esperança Garcia é um imperativo para a luta contra o racismo e por igualdade de gênero, raça e classe no Brasil. É também alimento para a força e coragem de resistência do povo brasileiro ao perigo de uma única história, a do colonizador. É peça fundamental para compor as memórias de luta e resistência do povo negro e construir as caixas amplificadoras de vozes historicamente silenciadas.

afrofile
Educação e memória
afro-brasileira.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Humanidade: Onde estão as pessoas humanas?

Por que a escolha pela guerra e pelas armas?

Indiferença ao sofrimento humano: potências abandonam milhões de pessoas

ONU afirma que "indiferença global" inviabiliza ajuda aos que vivem em crise humanitária profunda

Revista Liberta
13 dez 2025

A ONU precisa, em 2026, de apenas 1% dos gastos destinados pelos governos para armas para sair ao resgate de 87 milhões de pessoas que vivem uma crise humanitária profunda. Constrangida e indignada, porém, ela não sabe se irá conseguir reunir o dinheiro.

Acampamento de refugiados no Sudão (AFP).

Nesta semana, a entidade apresentou seu orçamento e seu programa para as operações humanitárias no próximo ano. Mas, diante do que ela descreve como sendo uma “indiferença global ao sofrimento humano”, o alerta é sobre os cortes profundos no compromisso de governos europeus, dos EUA e de outras grandes economias para garantir ajuda aos mais necessitados.

“Este é um momento de brutalidade, impunidade e indiferença”, disse o chefe humanitário da ONU, Tom Fletcher. Para ele, 2025 foi marcado pela “ferocidade e intensidade dos assassinatos, o completo desrespeito ao direito internacional e níveis horríveis de violência sexual”.

Fletcher está convencido de que o sistema internacional criado para proteger civis está “em retrocesso”, corroído por distrações, polarização política e orçamentos de ajuda cada vez menores. “Nossas antenas de sobrevivência foram entorpecidas pela apatia”, alertou.
Crises invisíveis

Sua mensagem é dura e direcionada aos governos de todo o mundo.

“Estamos sobrecarregados, com poucos recursos e sob ataque”, disse. “E dirigimos a ambulância em direção ao incêndio. Em nome de vocês. Mas agora também nos pedem para apagar o fogo. E não há água suficiente no tanque. E estamos sendo alvejados”, alertou.

Em 2025, a ONU havia feito um apelo por US$ 45 bilhões, mas recebeu apenas US$ 12 bilhões. “Quando os políticos se gabam de cortar a ajuda”, disse Fletcher, “somos forçados a escolher quem vive e quem morre.”

Sob o governo de Donald Trump, Washington reduziu suas doações humanitárias de US$ 11 bilhões, em 2024, para US$ 2,7 bilhões, em 2025, segundo dados da ONU. O resultado tem sido milhões de pessoas sem acesso a remédios, abrigo ou ajuda.

Mesmo as maiores e mais notórias crises continuam criticamente subfinanciadas em 2025.

A Ucrânia, por exemplo, recebeu apenas 48,7% dos fundos necessários; o Território Palestino Ocupado, 40%; e o financiamento para a resposta no Sudão está em 35,4%, uma queda acentuada em relação aos 69,3% registrados em 2024.

Enquanto isso, outras crises “invisíveis” são ainda mais negligenciadas.

O apelo da ONU para a República Democrática do Congo recebeu apenas 22% do financiamento necessário, enquanto os apelos do Iêmen e da Somália estão ambos em 24%.

Em função da queda vertiginosa do financiamento, as organizações humanitárias estão sendo forçadas a reduzir drasticamente a assistência e a proteção às pessoas em crise. Serviços vitais – como alimentação e saúde de emergência, água, saneamento e programas de proteção – estão sendo reduzidos ou suspensos, deixando milhões de pessoas em maior risco de doenças evitáveis, desnutrição e deslocamento.

As consequências dos cortes de financiamento são potencialmente fatais para milhões de pessoas que lutam para sobreviver. No Iêmen, uma das emergências nutricionais mais graves do mundo, Global Nutrition Cluster (GNC), relatou, em setembro, que os cortes de financiamento forçaram o fechamento de 377 centros de atendimento ambulatorial e de 2.376 centros de distribuição de alimentos suplementares, deixando milhões de mães e crianças sem apoio vital.

Escolhas de vida ou morte.

Para 2026, a ONU estima que 230 milhões de pessoas precisarão de ajuda. Mas o plano não dará conta de todos. A entidade busca pelo menos US$ 23 bilhões para auxiliar 87 milhões de pessoas em alguns dos contextos mais perigosos do mundo – incluindo Gaza, Ucrânia, Sudão, Haiti e Mianmar. Mas a esperança é a de que US$ 33 bilhões possam ser arrecadados para ajudar 135 milhões de pessoas.

Diante de um realismo dolorido, a ONU decidiu escolher prioridades e focar seus recursos sobre “escolhas angustiantes de vida ou morte”.

No topo da lista de prioridades para 2026, estão Gaza e a Cisjordânia, onde a ONU busca US$ 4,1 bilhões para socorrer três milhões de pessoas. A ONU ainda está solicitando US$ 2,9 bilhões para 20 milhões de sudaneses.

Ela promete pressionar os governos a abrirem seus cofres públicos. Mas Fletcher admite que, se isso fracassar, a organização recorrerá de forma mais incisiva à sociedade civil, às empresas e aos cidadãos.

Para a ONU, não é verdade que o mundo rico esteja sendo “generoso demais” com os mais pobres, como líderes populistas têm afirmado.

“Não estou pedindo às pessoas que escolham entre um hospital no Brooklyn ou um hospital em Kandahar”, disse. “Estou pedindo ao mundo que gaste menos com defesa e mais com apoio humanitário”, explicou o chefe do serviço humanitário.

Seu cálculo é tão simples quanto brutal: o valor solicitado pela ONU para salvar 87 milhões de pessoas representa pouco mais de 1% dos gastos militares globais anuais.

Jamil Chade
Jornalista paulistano radicado na Suíça desde 2000 e correspondente na Europa há mais de 20 anos. Com passagens por mais de 70 países, já presidiu a Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça, integra a rede de especialistas da Transparência Internacional e colabora com veículos como BBC, CNN, Al Jazeera e France24. Autor de cinco livros — dois finalistas do Prêmio Jabuti — foi eleito duas vezes o melhor correspondente brasileiro no exterior pelo Prêmio Comunique-se.




Histórias do Blues: Albert Collins

Albert Collins


Nunca houve, e talvez nunca haja, um bluesman como Albert Collins. "O Mestre da Telecaster" nasceu em 1º de outubro de 1932, em Leona, Texas. Primo do lendário Lightnin' Hopkins, Collins surgiu com um som e estilo de blues únicos, caracterizados por uma combinação de eco gélido, notas altas estridentes e sustentadas, um ataque ultra-percussivo da mão direita e uma afinação de guitarra em tom menor inédita (ensinada a ele por sua prima Willow Young). 

Profundamente influenciado por T-Bone Walker, John Lee Hooker e Gatemouth Brown, Collins absorveu os sons do Mississippi, de Chicago e, principalmente, do Texas. Ele formou sua própria banda em 1952, lotando casas de shows em Houston. 

No início da década de 1960, os instrumentais de "cool sound" de Collins, como o sucesso de vendas Frosty (gravado com um jovem Johnny Winter e Janis Joplin presentes no estúdio) e os sucessores Sno Cone e Thaw Out, dominavam as rádios de R&B. Logo ele estava dividindo o palco com seus ídolos Gatemouth Brown e T-Bone Walker.

Então, em meados da década de 60 (após se mudar do Texas para Kansas City e depois para a Califórnia), Collins entrou para o mundo do rock 'n' roll, lançando três álbuns produzidos por membros do Canned Heat e começando a tocar no circuito psicodélico de São Francisco. 

Mas o maior sucesso de Albert veio depois que ele assinou com a Alligator em 1978 e gravou Ice Pickin'. O álbum ganhou o prêmio de Melhor Álbum de Blues do Ano no Festival de Jazz de Montreux e foi indicado ao Grammy. Seus álbuns seguintes pela Alligator ajudaram Collins a conquistar todos os prêmios que o mundo do blues tinha a oferecer. E, junto com Johnny Copeland e Robert Cray (que decidiu seguir carreira como músico de blues depois de ver Collins tocar em seu baile de formatura do ensino médio), Collins gravou o álbum Showdown!, vencedor do Grammy.

Mesmo depois de se consolidar como um dos maiores nomes do blues moderno, Collins nunca se deixou levar pela fama para seus fãs e amigos, e jamais se acomodou. E nunca largou o volante de seu velho ônibus de turnê, que tanto amava dirigir. Junto com sua banda, The Icebreakers, os shows ao vivo de Collins — impulsionados por sua presença de palco vibrante — tornaram-se testemunhos lendários do poder do blues. 

Com sua morte prematura em 1993, Albert Collins deixou um legado no blues que continua a surpreender e encantar fãs do gênero em todo o mundo.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

PROCOL HARUM

Procol Harum

' O pré Rock Progressivo '

Procol Harum é, sem dúvida, uma das bandas que deram início ao que viria ser o Rock Progressivo. Em 1967, o single "A Whiter Shade Of Pale" foi um sucesso imediato e com isto, a ideia evoluiu para o estúdio. A música era feita em torno de uma eclética mistura de blues-rock com temas eruditos. Com o pianista/cantor Gary Brooker e o letrista Keith Reid criando todo o repertório da banda, as coisas evoluíram rapidamente. Lançadas as faixas "A Whiter Shade Of Pale" e "Conquistador", eles ficaram populares, pois com esses singles superaram em vendas todos os outros artistas daquele ano.

David Knights, Gary Brooker, Mattew Fisher, Ray Royer e Bobby Harrison.

O nome da banda já é motivo de curiosodade. Os integrantes dizem ter homenageado o gato de um amigo o empresário da banda que se chamava Procol Harum. O nome do gato, no entanto, acredita-se ser uma fuzão da frase procul harun, procul, sendo latim para "além" ou "afar", e Harun, sendo um nome árabe derivado do hebraico Aharon.

As origens do Procol Harum são de uma banda de escola chamada The Paramounts, que contava com os membros o pianista Gary Brooker, o guitarrista Robin Trower, o baixista Chris Copping, o cantor Bob Scott e o baterista Mick Brownlee. Após conseguirem um certo sucesso nos clubes jovens locais tocando covers dos hits de R'n'R, Brooker, então com 17 anos, assumiu a função de vocalista. Por volta de 1962, eles conseguiram fazer uma temporada no Shades Club, em Southend (cidade-natal da banda), Essex, Inglaterra. Brownlee saiu no início de 63 e foi substituído por Barry J. Wilson, que respondeu a um anúncio no semanário Melody Maker. No final de 1963, Copping foi quem resolveu sair para seguir a Leicester University e foi substituído por Diz Derrick.

Gary Brooker e Keith Reid.
Uma fita demo com uma gravação de "Poison Ivy", cover dos The Coasters, e "Further On Up The Road", cover de Bobby Bland, levou-os a um teste na EMI. O resultado foi um contrato com o selo Parlophone Records e a chance de gravarem com o produtor Ron Richards, famoso por gravações com The Hollies. 

O primeiro single dos Paramounts, "Poison Ivy", lançado em jan/64, alcançou o nº. 35 nas paradas britânicas. Eles também conseguiram um importante empurrão dos Rolling Stones, com quem trabalharam no programa de TV "Thank Your Lucky Stars", onde os Stones citaram os Paramounts como sua banda favorita de R&B inglês. 

Infelizmente, nenhum dos subsequentes singles pela Parlophone conseguiram sucesso e, em meados de 1966, os Paramounts foram reduzidos a trabalharem como banda de apoio para artistas como Sandy Shaw e Chris Andrews. Em setembro de 1966, a banda se separou: Derrick largou a música, Trower e Wilson passaram a tocar com outras bandas e Gary Brooker decidiu seguir carreira como compositor. Foi quando Brooker firmou parceria com o letrista Keith Reid, que ele conheceu através de um conhecido mútuo, o empresário Guy Stevens. 

Na primavera de 1967, eles conseguiram reunir um conjunto de canções prontas e começaram a procurar uma banda para tocá-las. Um anúncio no Melody Maker levou-os a formarem uma banda inicialmente chamada The Pinewoods (com Brooker como pianista/cantor, Matthew Fisher no órgão, Ray Royer na guitarra, Dave Knights no baixo e Bobby Harrison na bateria). A primeira gravação, produzida por Denny Cordell, foi em cima de uma poesia surreal de Reid chamada "A Whiter Shade Of Pale", que Brooker musicou com influência da "Suite nº. 3 em Ré Maior", de Johann Sebastian Bach. Mas foi quando a gravação estava pronta para ser lançada que o Pinewoods foi rebatizado de Procol Harum. 

Capa comemorativa do primeiro álbum.
No início 1967, a banda tocou "A Whiter Shade Of Pale" no Speakeasy Club, em Londres, enquanto Cordell conseguiu o lançamento do single pela Decca inglesa, em seu selo Deram. Denny Cordell, no mesmo selo, tinha a banda The Moody Blues que estavam a procura de um single de sucesso com um par de gravações no mesmo estilo pré-progressivo. Lançaram: "Nights In White Satin" e "Days Of Future Passed". 
Exatamente, por causa dos dois grupos e desses três grandes sucessos, a Deram Records seria para sempre lembrada como um selo que abriu as portas para o chamado Rock Progressivo.

Denny Cordell enviou uma cópia de "A Whiter Shade Of Pale" para a Rádio London, lendária transmissora "pirata" da Inglaterra que competia com a estatal BBC, que detinha o monopólio das transmissões. Assim passaram a ser ainda mais ouvidos pelos jovens e demais bandas. Na sequência, o Procol Harum fez seu show de estreia em Londres abrindo para o The Jimi Hendrix Experience no Saville Theater, em junho de 1967. 

A canção alcançou o topo das paradas britânicas e lá ficou por seis semanas, fazendo do Procol Harum um dos únicos seis artistas na história da música britânica a alcançar o nº.1 em seu primeiro lançamento, nem mesmo os Beatles conseguiram esta proeza. No mês seguinte, o single alcançou o nº. 5 nas paradas norte-americanas, com vendas ultrapassando mais de um milhão de cópias e seis milhões no mundo inteiro.

Royer e Harrison foram sacados da banda e substituídos pelos companheiros de Paramounts, Robin Trower na guitarra e B.J. Wilson na bateria. A formação clássica agora estava pronta, e um segundo single, "Homburg", foi gravado. A faixa foi bem nas paradas britânicas mas a ideia era um álbum de estreia. Chamado de "Procol Harum", o disco estourou na Inglaterra e nem "A Whiter Shade Of Pale", nem "Homburg" foram incluídas nele. A versão norte-americana, no entanto, abria com "A Whiter Shade Of Pale" para impulsionar as vendas. Em ambas versões, o álbum trouxe ainda a primeira versão para "Conquistador". 
As composições do disco era uma mistura de rock psicodélico, blues e influências eruditas, preenchidas por letras fantasmagóricas, uma ótima presença do órgão de Matthew Fisher e a refinada guitarra de Robin Trower. Todas as canções foram compostas pela dupla Brooker/Reid exceto "Repent Walpurgis" (de Matthew Fisher).

Formação clássica com as entradas de
Robin Trower (g) e B.J. Wilson (d).
O segundo álbum, "Shine On Brightly", foi lançado em setembro de 1968. O destaque era a faixa épica "In Held 'Twas in I" de 18 minutos que transitava no que bandas como The Nice e The Moody Blues estavam produzindo. Esse álbum é hoje considerado um dos primeiros rascunhos do Rock Progressivo. Contendo canções que remetiam ao final de 1967, passagens psicodélicas e muito virtuosismo, serviu para ampliar esse concito de progressivo, moderno. No mês seguinte, eles tocaram no Miami Pop Festival para 100 mil pessoas ao lado Chuck Berry, Canned Heat, Fleetwood Mac e Turtles, entre outros.

No início de 1969, David Knights e Matthew Fisher deixaram a banda após o término da gravação do terceiro álbum, "A Salty Dog". Entretanto, foi aqui onde eles conseguiram mostrar quão seus talentos poderiam varrer espectros musicais: do blues ao R&B, da psicodelia ao erudito. Ao contrário da estreia gravada apressadamente e do segundo disco feito para aproveitar a onda de sucesso, "A Salty Dog" foi gravado com calma e tempo, dando à banda a chance de desenvolver completamente suas ideias. A faixa-título, por exemplo, é uma das melhores canções que o Procol Harum fez e uma das melhores de todo o Rock Progressivo, um exemplo perfeito em cinco minutos de letras e música combinando para formarem juntos uma peça de performance ao mesmo tempo ousada e sútil. "Juicy John Pink" era outra faixa soberba no estilo Country-Blues (antes da 2ª Guerra Mundial), enquanto "Crucifiction Lane" era Soul Music no matador estilo de Otis Redding e "Pilgrim's Progress" trazia um trabalho virtuoso nos teclados. Os temas das letras eram na maioria náuticos, a própria capa era cópia de uma famoso pacote de cigarros. O u
so de orquestra, com produção de Matthew Fisher que canta em três faixas e Robin Trower que canta em uma, começaram a se mover para uma direção diferente marcaram também esse trabalho.

Chris Copping (baixista) entrou no lugar de Knights (recriando a line-up dos Paramounts). Outra turnê pelos EUA aconteceu e o Procol Harum foi tornando-se uma popular banda na seara do Progrock, capaz de atingir um tipo de ouvinte que gostava de artistas como Emerson, Lake & Palmer ou King Crimson. O estilo chamativo de Robin Trower passou a dar destaque na banda, tanto quanto o cantor/pianista Gary Brooker. O órgão majestoso era outro componente fundamental do som da banda, junto com a rebuscada guitarra blueseira de Trower e as letras não usuais, estranhas, sombrias de Reid e a voz de Brooker.

Estética psicodélica.
Após a saída de Fisher, o grupo seguiria uma linha mais direta de rock, ainda que Trower se mantivesse como uma atração entre os fãs. "Home", o próximo álbum, foi lançado em junho de 1970, aparecendo no nº. 34 nos EUA e no nº 49 na Inglaterra. Talvez o trabalho mais hard-rock até então, puxado pelos soberbos vocais de Gary Brooker e principalmente pela guitarra de Robin Trower mais pesada em alguns momentos. O baterista B.J. Wilson vale uma resenha sozinha, um baterista genial, técnico, que trabalha muito bem as frases de bateria, ele incorpora características de Ginger Baker com Ringo Starr, porém com seu talento e estilo inconfundíveis. Percebam na faixa "About To Die", a bateria é simplesmente linda. David Copping tocou órgão no lugar de Fisher e isto fez com que o som ficasse mais enxuto, exceto na faixa "Whaling Stories" com Robin Trower gastando sua guitarra. Este disco marcou o fim do contrato com o selo Regal Zonophone (EMI) e logo eles migrariam para a Chrysalis, na Inglaterra.

Em 1971, após o lançamento do seu quinto álbum Broken Barricades, Robin Trower deixa a banda para formar o seu próprio "power trio". Ele foi substituído por Dave Ball, enquanto Alan Cartwright, um antigo colega de banda de Wilson na banda de Freddie Mack, assumiu o baixo de Copping, que permaneceu no órgão. 

Foi quando o grupo precisando se inovar embarcou em um ambicioso projeto: um álbum ao vivo, em conjunto com uma orquestra sinfônica de 52 músicos e um coral de 24 vozes. O repertório foi cuidadosamente escolhido, e as músicas tiveram seus arranjos refeitos (com exceção de A Salty Dog, que já tinha orquestra na sua versão de estúdio, e não foi mexida), para um formato mais grandioso, com orquestra e coral, além de alguns itens a mais (como um solo de guitarra em Conquistador, que não existia originalmente). Vale destacar que o guitarrista Dave Ball tocou muito nessa apresentação.

O show ocorreu no Jubille Auditorium, em Edmonton, no Canadá, e contou com a orquestra sinfônica da cidade e um coral chamado Da Câmera Singers. Os arranjos de orquestra foram feitos pelo líder Gary Brooker, auxiliado pelo convidado Jim Parker.

A abertura, com Conquistador, já conquista o ouvinte logo de cara. A bela melodia original se mostra perfeita para abrir o show. A introdução com orquestra, o solo de guitarra no meio, e as várias intervenções de orquestra tornam a música mais grandiosa, e esta acabou se tornando a sua versão definitiva.

Capa do álbum ao vivo com Orquestra.
A seqüência se dá com a fantástica Whaling Stories, com suas diversas variações, e alguns momentos apoteóticos, como a passagem de orquestra para o solo de guitarra, e o lindo encerramento, onde Gary Brooker canta acompanhado do coral.

Depois, a emocionante A Salty Dog, que enche o teatro de emoção. O show segue com a roqueira All This and More, que ganha força com a orquestra.

Encerrando o espetáculo, uma versão absolutamente fantástica de In Held Twas In I, usando todos os recursos da orquestra e do coral, e criando um arranjo inesquecível neste épico de 19 minutos.

The Concert With the Edmonton Symphony Orquestra mostra uma abordagem pouco comum na união entre grupo e orquestra. Ambos se tornam um só, e a orquestra aumenta e muito o brilho e a grandiosidade das canções, chegando a passar a impressão de que estas já seriam originalmente assim. É um álbum impecável do início ao fim, que merece ser conhecido por qualquer pessoa que goste de música progressiva.

Este álbum fez um sucesso tão grande quando saiu que pegou a banda de surpresa. Não havia uma turnê programada, e a demanda os fez passar quase todo o ano de 1972 promovendo o álbum. Foi, para muitos, o ápice da carreira do Procol Harum. 

Curiosamente, essa formação da banda só ficou junta neste período: Gary Brooker nos vocais e piano, Chris Copping no órgão, Alan Cartwright no baixo, BJ Wilson na bateria com Dave Ball na guitarra, que sairia do grupo logo após a turnê sendo substituído por Mick Grabham.

A banda continuou a lançar excelentes álbuns por décadas, realizaram muitos shows e a gravar grandes eventos ao vivo lançados para o público. Muitas mudanças foram realizadas na formação da banda ao longo dos anos, mas sempre mesclando com muita qualidade o rock, o sinfônico, o progressivo e o blues-rock. A banda só viria a encerrar as atividades no ano de 2022, após a morte do seu único membro constante em todas as formações, Gary Brooker.