Reflexões sobre História, Arte e Cultura.
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sábado, 22 de agosto de 2026

A escola do Blues (Buddy Guy)


A escola do Blues
 se a escola não pôde, chicago ensina!


Buddy Guy relembra a aula em que um professor disse não poder ensinar o blues que ele queria tocar ...

Aos 90 anos, lenda do blues relembra quando procurou um professor para aprender como seus ídolos tocavam e acabou descobrindo outro caminho. Buddy Guy não queria simplesmente aprender guitarra. Ele queria descobrir como fazer a guitarra falar como seus grandes ídolos do blues.

Ainda adolescente, o futuro guitarrista teve a oportunidade de fazer algumas aulas de música em Baton Rouge, na Louisiana. A expectativa era enorme. Finalmente, ele teria alguém para ajudá-lo a tocar como Muddy Waters e John Lee Hooker. Só havia um problema: o professor não sabia ensinar aquilo que Guy queria aprender.

“Não quero tocar isso”

Em uma entrevista concedida à Guitar Player em 1999, Buddy Guy relembrou o episódio.

O professor começou a aula mostrando algumas escalas. Para um estudante interessado em música, seria um caminho bastante convencional. Para Guy, porém, não era exatamente o que ele procurava.

“Não quero tocar isso; quero tocar assim”, contou o guitarrista.

Guy então apresentou ao professor os discos de Muddy Waters e John Lee Hooker que ouvia na época. A resposta veio de forma direta:

“Não posso te ensinar isso.”

Foi o suficiente para Buddy Guy perceber que teria de encontrar outro caminho.

“Então eu disse: ‘Bem, então não posso fazer aula de música!’”, o blues estava nos discos. A decisão não significou que Guy parou de aprender, foi justamente o contrário. Ele passou a prestar ainda mais atenção aos guitarristas que admirava. Queria entender como Muddy Waters tocava slide, como B.B. King atacava as notas e como nomes como Lightnin’ Hopkins e T-Bone Walker construíam seus solos.

“Se não ensinam isso na escola, preciso descobrir por mim mesmo”, relembrou.


E foi exatamente o que fez. Em vez de buscar uma fórmula pronta, Guy passou a aprender ouvindo, observando e experimentando. Essa relação quase artesanal com o instrumento seria fundamental para a construção de seu estilo. Chicago virou sua grande escola.

A mudança para Chicago, em 1957, abriu outra porta para o jovem guitarrista. Ali, Buddy Guy pôde acompanhar de perto alguns dos principais nomes do blues de Chicago. Muddy Waters, Wayne Bennett, Matt Murphy e Earl Hooker estavam entre os músicos que ajudaram a ampliar seu repertório. Guy absorvia tudo.

A experiência de observar esses artistas ao vivo, somada aos anos de prática, ajudou a transformar aquele jovem que queria tocar como seus ídolos em um guitarrista com personalidade própria. E a história ganhou uma bela reviravolta. De aluno frustrado a referência para outros guitarristas. Décadas depois, Buddy Guy se tornaria justamente o tipo de músico que outros guitarristas procurariam para entender o blues.

Eric Clapton viu Guy tocar na Inglaterra nos anos 1960 e foi profundamente influenciado por sua maneira de tocar. Mais tarde, nomes como Gary Clark Jr., John Mayer e Jonny Lang também encontrariam inspiração em seu trabalho. O garoto que não conseguiu aprender o blues na sala de aula acabou ajudando a ensinar o gênero para várias gerações. E Buddy Guy nunca enxergou o blues como algo restrito a determinado tipo de pessoa. Para ele, o mais importante sempre foi o desejo de aprender.

Aos 90 anos, a história daquela aula continua sendo um retrato curioso de sua trajetória. Guy entrou na sala querendo aprender a tocar como seus heróis. Saiu sem a resposta que esperava.

“Se você gosta de blues, você pode tocá-lo”, afirmou.

Talvez tenha sido justamente aí que começou a encontrar sua própria linguagem!

Matéria:
@GuitarLoad
por - Gustavo Morais


segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Raiz do Blues


As Raízes Históricas da Música Blues

Ao contrário do que alguns acreditam, o blues não é "música de escravos". Embora tenha sido cultivado pelos descendentes de escravisados, o blues foi a expressão e voz dos afro-estadunidenses libertos. A Grande Migração influenciou diretamente as muitas evoluções do blues. À medida que os negros se mudavam do Sul para as cidades do Norte, a música refletia o novo terreno urbano onde as pessoas estabeleciam comunidades. No entanto, a crença de que o blues surgiu da escravidão persiste até hoje, transmitida por seus predecessores, incluindo os cânticos espirituais negros, os cânticos seculares de escravos, e as canções folclóricas de milho (também conhecidas como "Field Hollers" e "Corn-Field Ditties") e a música de cordas.

As origens do blues remontam ao final da década de 1860, possivelmente o período mais violento e brutal dos Estados Unidos. A justiça pelas próprias mãos atingiu seu auge e, em 1889, o linchamento de negros aumentou drasticamente. O bluesman e a blueswoman emergiram nesse período conturbado, juntamente com as histórias de heróis populares transformadas em canções e os novos espaços onde a música seria apresentada. 

O blues falava da vida dos escravizados, mas também das experiências de homens e mulheres libertos durante os períodos da Reconstrução e das Leis de Jim Crow. Falava de fardos e descaroçadores de algodão, do bicudo-do-algodoeiro, dos bares e do sistema de parceria agrícola. A agricultura e a parceria agrícola foram os pontos de partida para a maioria dos lendários músicos de blues celebrados hoje, incluindo Charlie Patton, Rubin Lacey, Son House, Howling Wolf, Muddy Waters e o mais famoso das gerações recentes, B.B. King.

A década de 1890 marcou o surgimento do que pode ser chamado de "Homem Mau" — a encarnação da primeira versão da mentalidade do "Novo Negro". Isso descreve o homem ou a mulher negra "violentos" que desafiava abertamente a supremacia branca e era tão duro com seus pares afro-estadunidenses quanto com eles. Diferentemente da escravidão, em que os donos de plantações tinham seu próprio sistema judicial, os negros eram julgados em tribunais públicos, e os jurados, advogados e juízes eram todos brancos. Isso transformou o rebelde em um herói popular — e até mesmo em um mártir. 
Essa mudança também alterou a dinâmica das canções. 

Foi durante esse período que começamos a ouvir canções sobre homens como Stagger Lee, uma música inspirada em um assassinato real que ocorreu em 1895 durante uma discussão em um bar em St. Louis, Missouri. O caso chegou aos jornais com a manchete "Baleado no Curtis's Place". A notícia publicada na edição do dia seguinte do St. Louis Daily Globe-Democrat, dizia: “William Lyons, 25 anos, negro, operário de dique… foi baleado no abdômen ontem à noite, às 22h, no bar de Bill Curtis… por Lee Sheldon, também negro”. Inúmeras canções retrataram essa história ao longo do tempo. Uma das mais famosas foi gravada por Lloyd Price.


Na descrição do homem baleado, o autor afirma que o homem "de cor" era um operário da construção de diques. Essa referência — ao trabalho em diques — é um exemplo de letra de blues, que aparece em diversas canções. A lenda do blues do Hill Country, Mississippi Fred McDowell, por exemplo, canta sobre o trabalho em diques, aterros construídos ao longo de rios para prevenir inundações. Os diques são o método mais antigo e mais utilizado de controle de enchentes, construídos com o amontoamento de terra sobre uma superfície limpa de vegetação e nivelada. O primeiro dique ao longo do Mississippi foi construído nos primeiros anos de Nova Orleans, entre 1718 e 1727. Os operários dos diques eram responsáveis ​​por cavar, construir e manter os diques em caso de enchente. Era um trabalho muito árduo, descrito por brancos e negros como trabalho forçado em muitos casos. Outro ótimo exemplo é a canção "When the Levee Breaks", de Memphis Minnie e seu marido Kansas Joe.

Na virada do século, o bicudo-do-algodoeiro começou a devastar a indústria algodoeira do Sul dos Estados Unidos, tornando-se um dos muitos catalisadores da Grande Migração. A partir desse momento, ouviríamos muitas canções abordando o bicudo-do-algodoeiro. Uma em particular é do lendário Charley Patton, pioneiro e um dos mais influentes praticantes do Delta Blues. 

Nascido perto de Bolton, no sul do Mississippi, em 1891, Patton e sua família se mudaram para a Fazenda Dockery Farms por volta de 1900, um lugar por onde muitas lendas do blues passaram ou viveram. Em 14 de junho de 1929, Patton gravou “Mississippi Boweavil Blues”: “Vejo um pequeno bicudo-do-algodoeiro se movendo por aí, meu Deus! Você pode plantar seu algodão e não vai conseguir nem meio fardo, meu Deus.” Essa letra é um exemplo perfeito da relação entre os agricultores, o algodão e o bicudo-do-algodoeiro.

Juntamente com o bicudo-do-algodoeiro, a virada do século também trouxe as leis de segregação racial (Jim Crow). Ainda buscando reacender o trabalho escravo no Sul, supremacistas brancos estabeleceram o que ficou conhecido como fazendas-prisão, sendo a Fazenda Parchman o epicentro e também um tema popular em gravações de blues. Lendas do blues como Bukka White (Booker White) e Son House compuseram canções que retratavam a vida de negros em fazendas-prisão. Hoje conhecida como Penitenciária Estadual do Mississippi, a Fazenda Parchman era um centro de arrendamento de condenados, o que gerou o negócio de sequestrar homens negros libertos que chegavam lá para trabalhar gratuitamente.

Os arrendatários pagavam taxas ao estado e eram responsáveis ​​por alimentar, vestir e abrigar os prisioneiros que trabalhavam para eles como operários. Um negócio lucrativo tanto para o estado quanto para os arrendatários, como em outros estados, o sistema levou ao aprisionamento e a uma alta taxa de condenações por delitos menores entre homens negros, cuja população carcerária aumentou rapidamente nas décadas após a Guerra Civil. 

Injustamente acusados ​​de terem altos índices de criminalidade, os homens negros frequentemente lutavam por anos para sair do sistema de arrendamento de condenados. Foi nessas fazendas que músicos afro-estadunidenses como Leadbelly e Bukka White, que usava o nome artístico "Washington Barrelhouse White", gravaram músicas para John e Alan Lomax para o acervo de gravações de campo de música tradicional negra da Biblioteca do Congresso.

Entre meados da década de 1940 e meados da década de 1950, afro-estadunidenses migraram para o Centro-Oeste, Oeste e Nordeste dos Estados Unidos. Para alguns, essa migração não se tratava apenas de escapar do Sul ou buscar melhores condições de trabalho. Para alguns negros sulistas, era uma oportunidade de se tornarem artistas profissionais. McKinley "Muddy Waters" Morganfield, um dos músicos de blues mais célebres, que se consagrou como o pai do blues de Chicago, fez parte dessa migração. Ele trouxe consigo para Chicago um estilo tradicional de blues do Delta, aprendido na Fazenda Stovall, onde cresceu, incorporando elementos do novo ambiente urbano.

Howlin' Wolf, outra lenda do blues de Chicago e colega de gravadora de Muddy, que também migrou do Mississippi, cantava as músicas dos afro-americanos libertos recém-chegados. Wolf, nascido Chester Arthur Burnett em West Point, Mississippi, aprendeu a tocar guitarra com Charley Patton. Howlin' Wolf foi um dos primeiros artistas a administrar sua banda como uma empresa – entre outras coisas, ele pagava um salário aos membros da banda e oferecia a eles benefícios de seguro saúde.

Hoje, muitos historiadores, músicos e entusiastas negros reverenciam a música blues. Alguns interpretam canções de domínio público, apresentando melodias antigas a novos públicos, enquanto outros criam novas canções de blues que abordam as experiências atuais dos negros para refletirem o passado. Ambos prestam homenagem aos nossos ancestrais, que criaram o blues como uma expressão de suas vivências como homens e mulheres negros libertos. Essas canções são lembretes de um passado distante, mas também abordam muitos dos desafios que ainda nos impactam nesta era da Nova Segregação.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

Histórias do Blues: Waters & Stones

Muddy Waters & Rolling Stones

Muito antes do sucesso global dos Rolling Stones, um músico negro do Mississippi já havia transformado a história da música com sua guitarra elétrica e sua voz potente.

Neste vídeo, você vai descobrir quem foi Muddy Waters, o verdadeiro mestre do blues que inspirou o nome da banda britânica e cuja história foi silenciada pelo racismo e pelo apagamento.

Canal: Negritude em Letras


segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Histórias do Blues: Professor Longhair

Professor Longhair

Alligator Records

Diz-se que Nova Orleans é uma cidade onde festejar deixou de ser um passatempo casual para se tornar um estilo de vida. Ninguém entendia isso melhor do que o Professor Longhair , um dos pioneiros do rhythm & blues de Nova Orleans. Sua influência pode ser ouvida em Fats Domino, Allen Toussaint e Dr. John, entre muitos outros. Conhecido por sua mistura única de blues, jazz, calipso, ragtime e zydeco, "Fess" (como era conhecido) definiu e capturou a essência de Nova Orleans em sua música.

Nascido Henry Roeland Byrd em Bogalusa, Louisiana, em 1918, e criado em Nova Orleans, Fess começou a se apresentar ainda jovem, muitas vezes dançando na Bourbon Street para ganhar gorjetas. Além do piano, aprendeu a tocar guitarra e bateria no início da década de 1930 e integrou diversas bandas. Logo descobriu que havia maneiras melhores de ganhar dinheiro do que com a música. Trabalhou como cozinheiro, depois como boxeador e, por fim, tornou-se jogador de cartas profissional. Foi somente no final da década de 1940 que ele retornou à música.

Ele serviu no exército durante a Segunda Guerra Mundial e foi dispensado em 1943. Nesse período, liderou diversos grupos, incluindo The Mid Drifs, Professor Longhair and the Four Hairs e Professor Longhair and His Shuffling Hungarians. Estreou em gravações com este último grupo em 1949, pelo selo Star Talent. Um ano depois, formou um novo grupo e assinou com um novo selo. The Blues Jumpers gravaram para a Mercury, que lançou " Bald Head" , o único álbum de Professor Longhair a entrar nas paradas de R&B, alcançando o quinto lugar.

Longhair gravou para a Atlantic e a Federal, além de muitos selos menores, como Edd, Ron, Rip. Apesar de ter gravado clássicos como "Tipitina" , "Big Chief" e "Going To The Mardi Gras" , ele nunca obteve muita visibilidade fora da Louisiana, embora sua reputação em Nova Orleans fosse considerável. Com canções como Tipitina , Hey Now , Baby , In The Night , Big Chief e a grandiosa Going To The Mardi Gras , Fess era o rei de Nova Orleans.

Apesar de ser uma lenda da cidade, Fess foi obrigado a se sustentar voltando a jogar cartas e trabalhando como zelador em meados da década de 1960. Felizmente, ele foi redescoberto no início da década de 1970 e se apresentou no New Orleans Jazz and Heritage Festival em 1971. Ele tocou no festival todos os anos seguintes até sua morte. Fez turnês pela Europa, sendo a atração principal do Montreux Jazz Festival de 1973. Paul McCartney o levou para a Califórnia em 1975 para tocar em uma festa particular exclusiva no Queen Mary. Ele era um ídolo para pessoas que nem tinham nascido quando Bald Head fez sucesso.

De suas muitas gravações, no entanto, talvez a melhor e mais completa seja Crawfish Fiesta., gravado para a Alligator Records em 1979. Bruce Iglauer, presidente da Alligator Records, continua a história: "Eu estava ao telefone com o empresário do Professor Longhair e mencionei que adoraria gravar Fess para a Alligator. Eu adorava seu estilo excêntrico de piano, uma mistura de rumba e blues de Nova Orleans, e seus vocais selvagens e roucos; ele era um dos meus músicos favoritos. Voei para Nova Orleans e ouvi o mestre tocar todos os seus antigos sucessos e uma série de clássicos do R&B da Crescent City. Fiz uma proposta e, para minha surpresa, ela foi aceita. Cercado por amigos (incluindo Dr. John na guitarra) e se encontrando em um estúdio onde estava completamente no comando (talvez pela primeira vez), o Professor Longhair presenteou a Alligator com talvez o melhor álbum de sua longa carreira e um dos melhores já lançados pela gravadora."

O álbum foi lançado em 30 de janeiro de 1980, o dia em que o Professor Longhair faleceu.


sábado, 20 de setembro de 2025

BiOgRaFiA: Big Mama Thornton

Big Mama Thornton

Willie Mae Thornton (nascida em 11 de dezembro de 1926, Ariton, Alabama, EUA — falecida em 25 de julho de 1984, Los Angeles, Califórnia) foi uma influente cantora e compositora americana cujos vocais corajosos e estilo instrumental tiveram tremenda influência no Blues, R&B e Rock and Roll. 

Ignorada pelo público branco durante maior parte de sua vida, por conta de preconceitos e o  racismo, o trabalho de Big Mama Thornton inspirou diversos  artistas à cantar o Blues. Elvis Presley gravou uma versão arrasadora de "Hound Dog" e Janis Joplin explodiu comercialmente cantando "Ball and Chain". Essas gravações foram fundamentais para apresentar o Blues ao mundo e corroer a segregação racial.

Início da vida e música

Filha de um pastor, Thornton foi apresentada à música sacra ainda jovem. Inspirou-se em cantores clássicos do blues, como Bessie Smith e Memphis Minnie. Cantora e dançarina talentosa, gaitista autodidata, excursionou pelo sul dos Estados Unidos e pelo Circuito Chitli'n como integrante da Hot Harlem Revue de Sammy Green durante a década de 1940. Estabelecendo-se em Houston em 1948, foi influenciada por grandes nomes do blues como Lightnin' Hopkins, Lowell Fulson, Junior Parker e Clarence (“Gatemouth”) Brown.

A década de 1950 e “Hound Dog”

No início da década de 1950, Thornton começou a se apresentar com o líder da banda Johnny Otis, com quem gravou muitas canções para a Peacock Records. Entre elas, a composição de Jerrry Leiber e Mike Stoller " Hound Dog", um sucesso de R&B, número um nas paradas das rádios negras para Thornton em 1953 e um sucesso pop ainda maior em 1956 para Presley, cuja versão rock and roll deveu muito à versão original de Thornton. Alegadamente, Thornton recebeu apenas um cachê pela gravação, enquanto a versão de Presley lhe rendeu imensa fama e recompensas financeiras muito maiores.

A década de 1960 e “Ball and Chain”

À medida que o interesse pelo blues declinava, Thornton parou de gravar, mas continuou a se apresentar na área da Baía de São Francisco, onde chamou a atenção de Joplin, cuja versão do final dos anos 1960 da música escrita por Thornton “"Ball and Chain" reacendeu o interesse pela cantora de blues chamada "Big Mama" devido à sua envergadura, voz imponente e presença de palco. Embora se ressentisse do sucesso de outros artistas com suas canções, Thornton tinha muito mais respeito por Joplin, talvez porque Joplin fosse mulher e  mais explícita em reconhecer a admiração artística por Thornton.

Legado

As contribuições de Thornton para o desenvolvimento do rock and roll e da  música americana em geral encontraram seu caminho em outras formas de arte e cultura. Em 1981, Alice Walker publicou o conto "1955", que oferece uma narrativa ficcional de um jovem personagem, semelhante a Presley, que conhece um cantor de blues negro, claramente inspirado em Thornton. A cinebiografia de baz Luhrmann Elvis (2022) inclui uma cena memorável em que Thornton (interpretada por Shonka Dukureh) canta sua canção característica em um café na lendária Beale Street, em Memphis. 

Em 2024, Thornton foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll , uma honra que muitos fãs de música consideravam já merecida há muito tempo.

Big Mama Thornton & Buddy Guy • Hound Dog • 1970 • RITY Archive


quarta-feira, 23 de julho de 2025

Histórias do Blues: West Coast Blues

Charles Brown–
Blues Profundo
( A história do West Coast Blues )

Charles Brown
(Texas 1922 – Califórnia 
1999)

Brown foi um dos grandes inovadores do blues urbano do pós-guerra e um dos criadores do blues da costa oeste. Com uma voz sensual e elegante, entre 1945 e 1954 esteve permanentemente nas paradas e, de certa forma, foi o porta-voz da comunidade negra que queria prosperar e se afirmar socialmente.

Como cantor de baladas de blues, saiu de moda no final dos anos 50 e tornou-se pianista de pequenos clubes elegantes. Seu estilo não atraía mais o novo público internacional de White Blues. Ele decidiu se aposentar em uma casa de repouso, até que o guitarrista Dany Caron veio procurá-lo. Juntos gravaram excelentes discos, um deles: All My Life.
Big Mama se aventurando na bateria.

Big Mama Thornton
(Alabama 1926 – Califórnia 1984)

Grande cantora e uma das poucas mulheres do blues nas décadas de 50 e 60. Estreou ainda criança, em corais religiosos. Gravou entre 1951 e 1954 muitos temas brilhantes com a orquestra de Johnny Otis. Destaque para o sucesso de 1952 Hound Dog, posteriormente popularizado por Elvis Presley. A partir de 1957 ela caiu em desgraça e sobreviveu tocando em pequenos clubes da costa oeste.

O renascimento do blues dos anos 1960 com um público branco entusiasmado, a trouxe de volta aos palcos e ela participou do American Folk Blues Festival em 1965. Gravou com Muddy Waters, James Cotton, Luther Allison e Lightinin' Hopkins.

Quando Big Mama estava viajanda pala Europa, Janis Joplin toca Ball and Chain num show em sua homenagem. Ela retorna aos EUA e volta a gravar e fazer shows, conquista o sucesso novamente, porém o abuso de álcool e drogas cobra seu preço.

O BLUES MODERNO DA CALIFÓRNIA

Ao longo dos anos, o blues californiano continuou a ser alimentado por músicos do Texas, por grupos de rock com muitas influências do blues como Creedence Clearwater Revival, Canned Heat ou Hot Tuna durante os anos 60, e por músicos já conhecidos em outros estados que se estabeleceram na costa oeste, como George 'Harmonica' Smith, John Lee Hooker ou Charlie Musselwhite.

Artistas de destaque: George Smith, Charlie Musselwhite, Rod Piazza, William Clarke, James Harman, Mark Hummel, Gary Primich, Rick Estrin, Curtis Salgado, Mark Dufresne e Gary Smith.

George Smith

George Smith
(West Helena 1924 - Los Angeles 1983)

George Smith, especialista em gaita cromática superamplificada, que havia trabalhado em Kansas City tocando jazz, e depois em Chicago com Muddy Waters, chegou a Los Angeles em 1970. Impressionante com seu virtuosismo, criou uma escola entre jovens músicos brancos que começavam jogar naquele momento. 

Muitos ainda seguem seu estilo de salto de gaita, desenvolvendo a técnica da terceira posição.



Charlie Musselwhite



CHARLIE MUSSELWHITE

(Mississippi - 1944)

De cor branca, foi um dos melhores bluesmen na gaita. Ele teve problemas no início dos anos 80 devido a problemas com álcool e um grave acidente de carro, mas se recuperou. Continua aperfeiçoando seu estilo de tocar gaita elegante, refinado e conciso. Ele gravou álbuns de muito boa qualidade. Transmite o sentimento dos grandes músicos que conheceu.

Em Memphis conheceu Big Walter Horton e graças a ele se apresentou com Robert Nighthawk e Jhonny Young nos clubes do South Side de Chicago. Lá ele conheceu Little Walter, Rice Miller e, acima de tudo, Muddy Waters, que era seu apadrinhador. 

Ele fez amizade com outros jovens brancos que frequentavam o gueto para aprender o verdadeiro blues, entre eles: Mike Bloomfield e Paul Butterfield. Na Califórnia, ele se liberta da influência dos dois Walters, Little e Big Horton, continua a aperfeiçoar a técnica e até cria uma escola de gaita que acabará por treinar a maioria dos novos gaitistas da Costa Oeste.

Charlie Musselwhite e George Smith, ambos chegados de Chicago em 1970, foram os pilares desta escola de gaita da Costa Oeste.

WEST COAST BLUES: OS ÚLTIMOS ANOS.

Em outras áreas o blues californiano das últimas décadas produziu grandes artistas, criadores de sonoridades com o calibre de Robert Cray e Joe Louis Walker, mas não havia um estilo tão autêntico da Costa Oeste como o de Albert Collins.

Artistas de destaque: Albert Collins, Omar Shariff, Johnny Heartsman, Hollywood Fats, Frankie Lee, JJ Malone, Guitar Shorty, Hi Tide Harris, Sonny Rhodes, Smokey Wilson, Robert Cray, Joe Louis Walker, Little Charlie Baty, Craig Horton, Sherman Robertson, Ron Thompson, Theodis Ealey, Finis Tasby, Steve Samuels, Isaac Scott, Freddie Robinson, Tommy Castro, Dough McLeod, Coco Montoya, Kenny Blue Ray, Ike Cosse, Brenda Boykin, Elmer Lee Thomas, Rick Holmstrong, Debbie Davies, Jimmy Morello, South Side Slim, Rusty Zinn e Kirk Eli Fletcher.

T-BONE WALKER

T-Bone Walker
(Texas 1910 – Califórnia 1975)

Um dos grandes criadores do blues californiano, do rhythm & blues e um dos grandes inovadores no jeito de tocar guitarra no blues. Quando jovem ele foi assistente do grande bluesman do Texas, Blind Lemon Jefferson. Mais tarde, ele descobriria o mundo do jazz e a partir de 1934 começou a tocar em orquestras de swing em Los Angeles. Ele foi um dos primeiros a usar a guitarra elétrica.

A partir de 1942 ele grava com os novos selos californianos Capitol e Black & White e se tornará uma das estrelas do novo blues urbano da costa oeste. Andamentos lentos, temas sentimentais e atmosfera etérea. Voz velada e cálida com violão claro e fluído, e modais diferenciados, foi influência principal para os futuros guitarristas performáticos. Na década de 1950 gravou uma longa lista de faixas magistrais. 

Nos anos 60 foram mais difíceis. O renascimento do blues americano não estava procurando por músicos de jazz de aparência impecável como ele. John Lee Hooker então o levou para uma turnê pela Europa, e foi um sucesso, graças ao seu extraordinário som de guitarra e sua  performance de palco impactantes. De volta adaptou-se ao som mais funkeado do final dos anos 60 e manteve gravações de discos e apresentações pelo país. Fatalmente, devido ao abuso de álcool, faleceu na califórnia em meados de 1975. 

DE LOUISIANA (OKLAHOMA E TEXAS) PARA LOS ANGELES

O blues texano já foi fortemente influenciado pelas bandas de New Orleans, de western swing ou as de Kansas City; seu encontro com o sol e a doçura da vida californiana o levará a um blues descontraído, urbano e jazzístico que reflete as miragens da costa do Pacífico, os bares de Hollywood, os de Oakland e os subúrbios negros de San Francisco.

Do Delta a Chicago, de Baton Rouge a Hollywood, o blues do pós-guerra constitui um caleidoscópio vivo e colorido de uma riqueza impressionante. Praticamente todas as correntes musicais futuras iriam brotar em seus galhos a ponto da árvore do Blues quase desabar.

O blues da costa oeste é, antes de tudo, a imagem do triunfo dos negros na Califórnia.

T-Bone Walker, Amos Milburn, Charles Brown e muitos outros músicos e cantores alcançaram enorme sucesso entre os negros em toda a América. Este blues-jazz, que dá uma certa "classe" aos seus ouvintes, é menos étnico e bruto que o blues do Delta de Chicago, por isso foi ignorado por muito tempo pelos fãs brancos americanos e europeus. Mas os negros do pós-guerra, aspiravam se ver refletidos nos músicos profissionais dessa época. Impecáveis ​​e de aparência brilhante que, com seus cabelos empoderados, anéis nos dedos e ternos de ouro, personificavam a própria imagem de sucesso.

 







O West Coast Blues estava centrado no estado da Califórnia, nas áreas de Los Angeles e da baía de São Francisco. A atmosfera dos clubes de jazz e blues esquentou na década de 1940 graças à migração oriental - dos estados de Louisiana, Oklahoma e Texas - alimentada pela necessidade de mão de obra na indústria de defesa americana durante a Segunda Guerra Mundial.

A maioria dos músicos de blues mais populares estabelecidos na Califórnia eram originalmente do Texas. O musicólogo francês Gérard Herzhaft e sua enciclopédia de blues estão por trás das histórias dos músicos das páginas anteriores.