Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 23 de agosto de 2025

SHOW: Pepeu Gomes

Pepeu Gomes

| Programa Instrumental Sesc Brasil |

O guitarrista, cantor, compositor, produtor e arranjador musical, apresenta seu show instrumental eletro acústico. O show, que já vem sendo mostrado pelo Brasil, América Latina, Estados Unidos e Europa, possui repertorio eclético e universal. 

Influenciado por João Gilberto, Dorival Caymmi e Paco de Lucia, Pepeu apresenta músicas de sua autoria, e faz homenagem aos grandes mestres da música instrumental do Brasil, como Valdir Azevedo, Jacob do bandolim, Pixinguinha e Ary Barroso. 

Ficha técnica:

PEPEU GOMES guitarra 
RICARDO GUERRA percussão 
MARCELO MENDES percussão 
DIDI GOMES contrabaixo 
JORGE GOMES bateria 
FILIPE PASCUAL guitarra 
EDUARDO VIANA teclados 
DANIEL IMENES guitarra 

Produção: SIMONE SOBRINHO 

Repertório:

DINAMITE (Pepeu Gomes e Jorginho Gomes) 
XULIPE NO REGGAE (Pepeu Gomes) 
ISABELLA "EU TIVE UMA IDÉIA" (Pepeu Gomes) 
NA QUEBRADA DO GARCIA (Pepeu Gomes) 
PARA PACO DE LUCIA (Pepeu Gomes) 
ÍNDIO DO ALTO DA SILVEIRA (Pepeu Gomes) 
FIM DA FESTA (Pepeu Gomes) 
ROCK NO CARNAVAL (Pepeu Gomes).

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Ideias Anti-Racismo: Lília Guerra

Literatura Anti-Racismo

Texto de Eliana Alves Cruz: É guerra o tempo todo.


A escritora Lília Guerra e o racismo nosso de cada dia.

O líder, intelectual e imortal indígena da Academia Brasileira de Letras Aílton Krenak, há alguns anos, no primeiro episódio do ótimo documentário Guerras do Brasil, dirigido por Luiz Bolognesi, falou algo perturbador e antológico: “Nós estamos em guerra. Eu não sei por que você está me olhando com essa cara tão simpática. O seu mundo e o meu mundo estão em guerra. Os nossos mundos estão todos em guerra. A falsificação ideológica que sugere que nós temos paz, é pra gente continuar mantendo a coisa funcionando. Não tem paz em lugar nenhum. É guerra, em todos os lugares, o tempo todo”.

Como esse “tempo todo” é algo que não passa no Brasil e os fatos parecem se entrelaçar de maneira irônica, uma escritora que tem “guerra” no sobrenome, participante da programação principal da Flip em 2025, foi a prova da verdade proferida por Krenak.

Lília Guerra, autora dos excelentes livros “O céu para os bastardos” e “Perifobia” subiu no palco principal da Festa Literária de Paraty, a FLIP, a mais famosa do país, aquela que deu origem a todas as outras neste formato. Finalizado o evento, já em casa, ela recebe um contato da organização, informando que pousada deu falta de um lençol e uma manta no quarto em que ela estivera.

Lília estava sendo alvo da suspeita de um furto.

Em suas palavras, no texto que escreveu para desaguar todo o caos interior que se instala quando algo assim acontece: “Pelo que entendi, a pousada solicitava reembolso do valor correspondente aos itens apontados como ausentes no quarto onde estive, após a checagem padrão. A produção da Festa foi contatada porque era responsável pela minha estadia e me colocou a par da situação. Me disseram que duvidavam muito que isso houvesse realmente ocorrido. Porém, que se tivesse sido assim, eu só precisava confirmar e eles providenciariam o ressarcimento”.

São tantas camadas de erro que é até difícil começar a enumerar, mas vamos aprofundar aqui na conjunção adversativa “porém”. A dúvida é um tapa na cara. Não apenas de Lília, mas de todos e todas nós que crescemos apontados como possíveis cometedores de delitos, contravenções, atos fora da lei, violências. A dúvida é a certeza da dureza que é escapar da lógica colonial que fixou cada pedra do chão da cidade de Paraty, parte do Caminho do Ouro e um dos epicentros da riqueza colonial brasileira.

Lília entrou pela porta da frente, como resultado da projeção que conquistou com sua escrita importante, necessária, bonita. Sentou-se na cadeira do centro do palco com a imagem de Carolina Maria de Jesus, uma inspiração e um incentivo, estampada no peito. Realizou um desejo de muitos escritores e escritoras em todo o país, para alegria de quem a ama, considera e admira. Para contentamento de todos nós, escritores e escritoras negros e negras, que por décadas sem conta estivemos alijados destes espaços dados à intelectualidade brasileira. Um evento que nos últimos nove anos vêm buscando dar voz e espelhar a produção literária tão diversa do país. Aí, como diz o pema do Drummond, no “meio do caminho tinha uma pedra”, no meio da fala tinha um “porém”.

Lília prosseguiu em seu desabafo.

“(…) Suponho que deva ser uma ocorrência corriqueira, dada a naturalidade com que me foi comunicada. Para mim? Um piano de cauda descendo uma ladeira de patins. Inacreditável.

(…) Recebi pedidos de desculpas, sim. Pelo equívoco, pela condução desacertada, pelo incômodo, pela comunicação falha. Pela falta de assertividade, pelo desencontro de informações, pela demora no retorno. Pelo desconforto, pela gravidade. Acreditei na sinceridade de todos esses pedidos e os aceitei. Tanto que, em determinado momento, me flagrei elaborando como agir, de modo a não parecer julgadora, intolerante, injusta, transgressora do Pai Nosso, inflexível ou incompreensiva. Não deixei de pensar que somos todos passíveis de erros e procurei administrar o tempo para ouvir quem achou por bem se manifestar. Eu mesma não tenho muito mais a dizer.

Livro: O Céu para os Bastardos, Lília Guerra.

Decidi compartilhar a experiência porque as Festas e Festivais, Feiras e acontecimentos literários seguirão ocorrendo e isso é muito bom! Desejo que se expandam! Que se realizem em todos os cantos do Brasil. Que alcancem o povo! E acredito que haverá mais pessoas como eu transitando por esses eventos. Nas curadorias, mediações. Nas mesas e, sobretudo, nas plateias. (…) É preciso aprender a conviver com a gente nesses meios. Estamos aí!”

Sim, querida Lília, estamos aí, mas é bom nunca esquecer aquelas pedras que pavimentam Paraty e todos os espaços neste país. Ouçamos Drumond:

“Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra”

E levemos a sério o alerta de Krenak: “É guerra, em todo lugar, o tempo todo”.

Eliana Alves Cruz é carioca, escritora, roteirista e jornalista. Foi a ganhadora do Prêmio Jabuti 2022 na categoria Contos, pelo livro “A vestida”. É autora dos também premiados romances Água de barrela, O crime do cais do Valongo; Nada digo de ti, que em ti não veja; e Solitária. Tem ainda dois livros infantis e está em cerca de 20 antologias. Foi colunista do The Intercept Brasil, UOL e atuou como chefe de imprensa da Confederação Brasileira de Natação.

Plataforma ICL de Comunicação.
https://iclnoticias.com.br/e-guerra-o-tempo-todo-lilia/


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

AfRoBeAt: Femi Kuti - Live at North Sea Jazz Festival

Femi Kuti 
| Full Concert |
| Live at North Sea Jazz Festival | 
| 1999 |

Uma breve biografia da família Kuti.

Fela Kuti

Músico mundialmente famoso, Fela Kuti (1938-1997) foi preso por usar a música para criticar o governo militar da Nigéria nas décadas de 1970 e 1980. No dia 15 de outubro, data de seu nascimento, celebra-se o Fela Day, dia de homenagens ao criador do afrobeat.


Desde 1976 ele foi detido pelo menos cinco vezes. Em 1977, sua casa foi incendiada e membros de sua família ficaram gravemente feridos quando centenas de soldados o prenderam. Em setembro de 1984, Fela foi preso novamente, desta vez sob a alegação de ter tentado exportar ilegalmente moeda estrangeira. Ele foi condenado a cinco anos de prisão em novembro de 1984.

A Anistia Internacional começou a fazer campanha pela libertação de Fela, considerando que seu julgamento foi injusto e que ele foi preso apenas por seu ativismo político. Cartas de apoio para a campanha começaram a chegar em 1985.

Após meses de pressão de nossos ativistas e simpatizantes do músico, ele foi libertado da prisão em 24 de abril de 1986. Dois meses depois, ele foi um dos destaque no nosso show “Conspiracy of Hope” – turnê pelos EUA com U2, Sting, Peter Gabriel, Lou Reed e Joan Baez.

Em 2010, o show Fela! estreou em Londres, trazendo a história e música de Fela Kuti para uma nova geração. Seu filho, Femi, enviou a seguinte mensagem para o público do show:

“Meu pai, Fela Kuti, foi libertado da prisão em 1986, depois que a Anistia Internacional passou a considerá-lo um prisioneiro de consciência. Eu sou uma das milhares de pessoas cuja vida tem sido diretamente afetada pelo trabalho da Anistia Internacional.”

Femi Kuti

Olufela Olufemi Anikulapo Kuti mais conhecido por Femi Kuti, é um músico nigeriano nascido em Londres e criado em Lagos. Ele é o filho mais velho do pioneiro do afrobeat, Fela Kuti e neto de Funmilayo Ransome Kuti, um militante político, ativista dos direitos das mulheres e tradicional aristocrata.

A carreira musical de Femi começou quando ele começou a tocar na banda de seu pai, o Egypt 80. Em 1986, Femi começou sua própria banda, Positive Force, e começou a se estabelecer como um artista independente do enorme legado de seu pai.

O primeiro disco de Kuti leva seu próprio nome e foi lançado em 1995 pela gravadora Tabu/Motown, seguido três anos mais tarde pelo álbum Shoki Shoki, que foi bastante aclamado pela crítica. Em 2001, ele teve a colaboração de Common, Mos Def e Jaguar Wright no álbum Fight to Win, um esforço para sua música chegar a um público mais amplo, e começou uma turnê dos Estados Unidos com Jane's Addiction. Em 2004, ele abriu o The Shrine, seu próprio clube, onde gravou o álbum Live at the Shrine.

North Sea Jazz Festival
9 DE JULHO DE 1999
 • TUINPAVILJOEN • Haia, Holanda.

Olufela Olufemi Anikulapo Kuti (nascido em 16 de junho de 1962), popularmente conhecido como Femi Kuti, é um musicista nigeriano nascido em Londres e criado em Lagos. Ele é o filho mais velho do pioneiro do Afrobeat Fela Kuti e neto do ativista político, ativista dos direitos das mulheres e aristocrata tradicional Funmilayo Ransome-Kuti.

Setlist: 
1 Truth don die 
2 Beng beng beng 
3 What will tomorrow bring 
4 Victim of life
5 Blackman know yourself
6 Look around
7 Sorry Sorry
8 Eregele
9 Scatta head


SaMbA: Martinho da Vila

Angola do Samba

A incrível história de Gonçalves, o menino de Angola que atravessou o oceano atlântico para o Brasil, sozinho, só para encontrar Martinho da Vila. 

O menino de Angola
Fã do sambista, garoto cruzou o oceano escondido em avião da TAP aos 10 anos de idade, e emocionou o país com sua história.

Uma história digna de cinema marcou a trajetória de Martinho da Vila com Angola: na década de 1980, um menino angolano viajou clandestinamente para o Brasil apenas para tentar morar com o sambista. O pequeno Gonçalves Antônio Sobrinho, de apenas 10 anos, embarcou sozinho em um voo da TAP em Luanda e desembarcou no Rio de Janeiro determinado a encontrar seu ídolo.

A ligação de Martinho com Angola é antiga e profunda. O cantor visitou o país pela primeira vez em 1969, ainda sob domínio colonial, e participou de diversas turnês culturais nos anos seguintes. Em 1980, durante uma excursão ao lado de nomes como Chico Buarque, Clara Nunes e Dorival Caymmi, o sambista conheceu Gonçalves, um garoto esperto e encantado por sua música, que passou a segui-lo durante toda a viagem.

— Ele sempre pedia para ir junto, e eu deixava. No fim, ele disse que queria me visitar no Brasil. Falei brincando que era só perguntar por mim em Vila Isabel — relembra Martinho.

A brincadeira virou realidade. Pouco depois da turnê, Martinho precisou ser internado no Rio por recomendação médica. E, enquanto se recuperava, um episódio inusitado surpreendeu o país: Gonçalves chegou ao Brasil escondido em um avião, enganou a imigração dizendo que a mãe vinha logo atrás e ainda pegou um táxi no aeroporto, pedindo para ir até a casa de Martinho da Vila — com apenas uma palavra anotada na mão: “Grajaú”.

Sem saber o endereço exato, o taxista levou o garoto até a Rádio Globo, onde o locutor Haroldo de Andrade fez um apelo público. A então companheira do cantor, Lícia Caniné, a Ruça, foi até a emissora e reconheceu o menino, que havia convivido com o grupo durante a turnê.

Com autorização judicial, Gonçalves passou um fim de semana com Martinho em Duas Barras, interior do Rio, antes de ser encaminhado de volta a Angola pelo Juizado de Menores. No breve período em que esteve com a família do cantor, passeou pela cidade, conheceu o Pão de Açúcar e se divertiu com os instrumentos musicais da casa.

— Era preciso ficar de olho o tempo todo. Ele saía andando, curioso com tudo — conta Martinho.

Após o retorno do menino ao seu país de origem, os dois perderam o contato. Mas o episódio reforçou ainda mais a relação de Martinho da Vila com Angola. O sambista seguiu sendo um elo entre os mundos cultural e musical dos dois países, gravando álbuns como Canto Livre de Angola (1982), participando de festivais internacionais e lançando livros como Kizombas, andanças e festanças (1992).

Mais recentemente, entre abril e maio deste ano, Martinho voltou ao país africano com o show Canto Livre de Angola, em celebração aos 50 anos da independência. A turnê agora chega ao Rio de Janeiro, com apresentação marcada no Circo Voador, reunindo sucessos do artista e homenagens à música africana.

— Vai ser um show alegre, pra todo mundo cantar e dançar junto — afirma Martinho.

Canal Negritude em Letras

terça-feira, 19 de agosto de 2025

HiStÓrIaS Do ReGgAe: Ritmos de Jah

A história do
 Reggae

Vamos contar um pouco da velha história do reggae ou do ritmo de Jah e saber como ele saiu de uma ilha de proporções medianas e ganhou tamanha importância na cultura mundial. O reggae é visto  como uma forma musical que surgiu juntamente com a Jamaica independente e emancipada da Inglaterra. Por isso o idioma falado na ilha é o britânico. A famosa ilha caribenha de população nativa composta pelos índios arawak, que a chamavam ilha de Xaymaca – Terra das Primaveras –, e tal denominação foi a única herança que deles restou, transformada na então Jamaica.

A ilha foi “descoberta” por Colombo em 1494 e ficou sob domínio espanhol até 1660, quando foi tomada por piratas ingleses como Harry Morgan, mais tarde feito governador da nova colônia. Relegada a ser mais um fornecedor de cana-de-açúcar e outras matérias-primas, a ilha foi, por 250 anos, um dos muitos destinos dos africanos tirados à força de suas terras para trabalhar nas plantações do Novo Mundo. A grande maioria veio da costa ocidental do continente africano, de etnias como a dos Ibos, Coromantee, Hausa, Mandingo, Nagô e Yorubá. As tradições destes povos foram preservadas na Jamaica que se dedicam a práticas religiosas chamadas por lá de kumina ou pocomania, parecidas com as que temos nas crenças afro-brasileiras, como o candomblé. 

Ska

A música que vinha de seus tambores teve uma influência direta sobre o reggae, como pode ser ouvido em canções como “Rastafari is”, de Peter Tosh, ou no canto tradicional “Rastaman Chant”, gravado pelos Wailers no álbum “Burning”. As canções tradicionais têm o formato de chamado-e-resposta, base de todos os estilos da música africana. A música popular européia, na forma das quadrilhas e canções trazidas pelos ingleses e os intrumentos trazidos por estes, como a rabeca, também teve o seu papel na evolução musical jamaicana.

A fusão desses estilos e sua forma musical aparentada com o calipso que usa uma grande variedade de instrumentos, como o banjo, flautins e o violão, muitos deles artesanais como flautas e “saxofones” de bambu. Ainda hoje existem bandas de mento na ilha, a mais famosa delas é a Jolly Boys, que chegou inclusive a gravar um reggae com Lee Perry, a bela “Concious Man”.

Em Kingston ou Spanish Town o som que mais agradava no final dos anos 50 era o rhythm & blues americano, que reverberava nas ruas através dos sound-systems, então um simples toca-discos ligado a uma ou duas caixas de som, mas que tinha potência suficiente para colocar todos para dançar. As músicas gravadas então nos precários estúdios disponíveis tentavam imitar o estilo americano. 

Isso mudou em 1961 com o lançamento de “Oh Carolina”, uma tentativa do produtor e dj Prince Buster de misturar os sons com que havia tomado contato nos rituais rastafari com o vocal do Blues, algo totalmente diferente do que se ouvira até então. O sucesso foi enorme e pela primeira vez na Jamaica os tambores afro ganharam o rádio. Era o início de um movimento de revalorização da identidade cultural da ilha batizado de Ska.

Steve Barrow chamou o ska de “declaração de independência musical jamaicana” , um estilo que nasceu ligado ao período de grande entusiasmo e afirmação dos valores culturais locais. Ao mesmo tempo que os discos de rhythm & blues ficavam cada vez mais difíceis de se achar, a Jamaica fervilhava de talentos musicais. O novo ritmo começou a surgir espontaneamente e apesar de muitos disputarem o título de “pai” do ska, como Prince Buster, Clue J, Coxsonne Dodd e outros, ele foi na verdade uma criação coletiva, como costuma acontecer nesses casos. O ska se impôs como um estilo tocado por grandes conjuntos, com destaque para o naipe de sopros.

Os Skatalites eram a banda principal, composta pelos saxofonistas Tommy McCook  e Roland Alphonso, o trombonista Don Drummond e outros instrumentistas, era a banda de estúdio mais rodada de Kingston. Eles tocaram com os maiores talentos que emergiam na cena jamaicana, como Bob Marley, Peter Tosh, Lee Perry, Jimmy Cliff, Toots Hiberts and The Maytals e muitos outros.

A Jamaica se transformou em um laboratório sociocultural vivo e dinâmico, tocado, entre outros fatores, pelo ritmo da música. Por tudo isso, no verão de 1966, o ska seria substituído no coração do público da ilha por uma nova batida, o rocksteady!

Rocksteady 

Nome dado ao ritmo que dominou as paradas jamaicanas entre o ska e o surgimento do reggae, mais exatamente entre o fim de 66 e a metade de 68. No entanto pode-se dizer que, na verdade, trata-se do primeiro formato do estilo reggae.

É geralmente aceito que teria sido justamente um cantor, Hopeton Lewis, o primeiro a pedir aos músicos para desacelerar o ritmo do ska para que fosse possível encaixar a letra de uma canção. Nesta gravação histórica, que resultaria no sucesso ‘Take it Easy’, o pianista Gladstone Anderson teria comentado que aquele era um balanço mais regular, mais firme (rock steady), batizando o novo ritmo. No final de 66, outras canções apareceram retomando o andamento do rhythm & blues de Fats Domino, tão popular na ilha nos anos 50 e aproveitando a batida persistente em que o ska se baseava, criando um som diferente de tudo o que havia sido ouvido antes e que seria a base para tudo o que se faria depois.

A introdução da guitarra e do baixo elétricos em meados dos anos 60 pode ser considerada como um evento fundamental que tornou possível esta mudança no cenário musical jamaicano. Eles permitiram que os músicos criassem linhas de baixo mais ágeis, que serviriam como base para o rocksteady e também para o reggae. 

Bob Marley chegou a comentar que os instrumentistas ligados ao ska, que tinham como referência musical o jazz e rhythm & blues, abriram caminho para novos músicos, mais influenciados pela soul music e pelo rock n’roll. Assim, os metais (saxofone, trombone, trumpete etc), que eram a base do ska, foram para o segundo plano, dando espaço para que os outros instrumentos e a voz dos cantores sobressaíssem. Seja como for, logo o rocksteady caiu nas graças dos novos frequentadores dos dancehalls, um público mais jovem e ansioso por um música que cantasse a vida urbana de uma Jamaica que se modernizava rapidamente.

Na época em que o rocksteady começou, Bob Marley estava nos Estados Unidos tentando juntar dinheiro para fundar seu próprio selo de gravação. Logo que ele voltou, no mesmo ano de 1966, juntou-se novamente aos Wailers e gravou alguns rocksteady para Coxsonne Dodd, como “Rocking Steady”, mas foi com “Nice Time” e “Put it on”, de Marley, que o grupo se manteria no topo e se incluiria na galeria dos grandes grupos harmônicos que começaram naquele tempo. 

Peter Tosh também adicionaria boas canções à fase rocksteady dos Wailers como a primeira versão de “I’m the toughest” (outra ‘rudie song’) e suas primeiras louvações rastafari, como “Rasta shook them up” (sobre a visita do imperador da Etiópia, Haile Selassie I, também em 1966).

Algumas das principais características associadas ao reggae começaram com o rocksteady. Musicalmente as bases foram estabelecidas por instrumentistas como Lynn Taitt e Leroy Sibbles, criando os ‘riddims’ (bases instrumentais) que seriam continuamente reutilizados, desde o roots até a atual era digital. 

Os temas que o reggae exploraria em suas letras, como as mensagens de cunho social, as referências à Bíblia, as louvações a Jah (como “The Israelites”, um dos primeiros grandes sucessos internacionais da música jamaicana, que era um típico rocksteady) também se estabeleceram naquele período. Até mesmo as letras que exploram o tema sexual chamadas de ‘slackness’ tiveram sua origem naquela época, em canções como “Fatty Fatty”, dos Heptones ou na série de compactos “Censored”, creditada a um certo Lloydie and The Lowbites.

Fontes para este artigo: Steve Barrow – Rough Guide to Reggae, K. Chang e W. Chen – Reggae Routes, Jammin Reggae Archives (fotos), Dance Crasher (fotos).

Reggae

Considerado por muitos como a era de ouro da música jamaicana, o período correspondente ao Roots Reggae (1968-1985), marcou a diversificação e a expansão do ritmo de Jah para novas fronteiras musicais e geográficas.

O reggae propriamente dito foi batizado em 1968, com a canção “Do the Reggay”, de Toots Hibberts e os Maytals. Atualmente, esse período inicial do ritmo de Jah é chamado de roots reggae. Existem muitas versões para a origem do nome reggae, entretanto a mais aceita é a que este seria uma adaptação da palavra “ragged”, que indica uma roupa suja e rasgada ou a pessoa que a usa. O nome é uma indicação clara das origens do reggae, que nasceu nos barracões de zinco das favelas jamaicanas, em um período de intensa experimentação musical, absorvendo as contribuições do ska e do rocksteady e canalizando tudo em um novo gênero musical.

O disco da gravadora anglo-jamaicana Pama Records, de 1969, foi um dos primeiros a usar a palavra Reggae na capa.

Artistas como Aston “Familyman” Barret, Leroy “Horsemouth” Wallace, Earl “Chinna” Smith, Max Romeo, entre outros, buscaram marcar presença alterando a interpretação do ritmo. O que eles fizeram foi dar mais importância à bateria e à guitarra na mixagem, elaborar linhas de baixo mais pulsantes e menos melódicas e cantar de forma mais áspera. Mais uma vez a situação econômica, social e cultural da ilha teve influência marcante, pois a principal mudança ocorreu nas letras, que estavam mais impacientes, menos inocentes e mais contundentes que as do rocksteady.

As expectativas por uma vida melhor, alimentadas no calor da independência da Jamaica, não estavam se cumprindo, o êxodo rural se intensificava, o desemprego aumentava e as condições de trabalho não melhoravam. Os artistas se tornavam porta-vozes da desilusão e da raiva do povo e influíam no direcionamento destes sentimentos. O movimento religioso conhecido como rastafari também alcançou grande repercussão entre a população carente e os artistas do reggae. O forte comprometimento com a denúncia e com a transformação social, juntamente com a mensagem religiosa, se tornaram os fundamentos do reggae.

Em termos musicais, as primeiras canções que anunciaram a nova tendência foram clássicos como “People Funny Boy”, de Lee Perry, “Nanny Goat”, de Larry Marshall e “No More Heartaches”, dos Beltones, que aceleravam um pouco a batida do rocksteady sem chegar ao andamento frenético do ska. A canção de Perry usava efeitos sonoros como choro de bebê e garrafas se quebrando, deixando claro que os técnicos de som e produtores iriam interferir mais no resultado final do que antes. 

Muitas comunidades com forte influência da cultura rural, que ainda ouviam bastante o "mento", diretamente ligado à matriz africana, reforçaram o ritmo. Cantores como Eric Donaldson e Justin Hinds faziam parte desta leva, com fortes laços com o interior da ilha. Ao mesmo tempo, estava em gestação entre outros músicos e produtores um novo estilo, mais cosmopolita, que iria fazer com que o reggae alcançasse finalmente o público fora da Jamaica.

Até o início dos anos 1970, o ritmo de Jah estava restrito à sua terra natal e às comunidades jamaicanas encravadas nas grandes cidades inglesas, americanas e canadenses. Na mesma época em que o reggae nascia na Jamaica, os artistas exilados também começaram a produzir música, principalmente na Inglaterra, onde uma forte cena foi construída desde o final dos anos 1960 por nomes como Dandy Livingstone, Laurel Aitken e Winston Groovy. 

Esta conexão inglesa se tornou uma ponte para o mercado internacional, que seria finalmente atingido com a ascensão do grupo conhecido como Bob Marley and The Wailers. Em 1971, depois de sete anos de carreira na Jamaica e sem conseguir com a música mais do que o minimamente necessário para a sobrevivência, os Wailers (Bob Marley, Peter Tosh e Bunny Wailer) juntaram algum dinheiro e fizeram apresentações pela Inglaterra, onde seu trabalho era razoavelmente conhecido. Lá foram abandonados pelos organizadores da excursão, mas conseguiram se salvar graças a um contato com o anglo-jamaicano Chris Blackwell, dono da gravadora Island.

O grupo assinou um rápido contrato com a gravadora Island e gravou na Jamaica as bases de um disco que foi trabalhado desde a concepção visando uma audiência específica: o público de rock. Para tanto foram realizadas várias adaptações no reggae roots. “Catch a Fire”, foi gravado como uma unidade, enquanto que os álbuns de muitas faixas lançados na Jamaica eram na verdade compilações de compactos. 
Canções antigas como “Stir it Up”, de Marley e “Stop that Train” , de Peter Tosh, foram regravadas e outras foram compostas especialmente para o disco. 

O álbum se tornou a gênese de um novo estilo do reggae. Porém o processo de adaptação do ritmo jamaicano ao gosto da audiência roqueira acabou também por influir na relação de Marley com Peter Tosh e Bunny Wailer. Blackwell queria promover o primeiro como a cara do grupo, pois queria divulgá-lo à maneira das bandas de rock (que sempre tinham um vocalista principal) e também porque achava o formato do trio vocal ultrapassado. A mudança de nome para Bob Marley and The Wailers foi o sinal de que o produtor conseguiu o seu intento. Os dois companheiros se sentiram deixados de lado e logo sairiam dos Wailers, deixando Marley livre para se tornar o primeiro superstar da Jamaica. 

O lado bom do rompimento deles foi que Tosh e Bunny também ganharam condições de desenvolver um trabalho solo excepcional, embora não tenham alcançado o sucesso comercial do antigo parceiro.

O primeiro álbum de Bob Marley and The Wailers por uma grande gravadora estabeleceu novos padrões para o reggae. Ele praticamente criou um novo estilo, que o dub poet Linton Kwesi Johnson chamou de “reggae internacional” . É o modelo adotado por artistas oriundos dos Wailers como Peter Tosh, alguns dos herdeiros diretos de Marley, como os filhos Ziggy, Julian e Demian, além de artistas e grupos que estão na ativa hoje, como Burning Spear, Culture, Black Uhuru, Third World, Aswad e Steel Pulse.

Na segunda metade dos anos de 1970 apareceram os “Rockers”, novos artistas como o instrumentista Augustus Pablo, o baterista Sly Dunbar e os cantores Johnny Clarke e Hugh Mundell. Eles tentaram responder à internacionalização do reggae radicalizando a forma de tocar e os temas abordados nas letras, desacelerando o ritmo musical (aproximando-se do rocksteady) e afiando ainda mais as palavras. Curiosamente a maioria não esteve presente no filme “Rockers”, lançado em 1978. 

Como este filme mostrou, a filosofia rasta estava no auge, fazendo com que muitos artistas se convertessem à causa. Inspirados por ela, grupos como Ras Michael and the Sons of Negus e o de Count Ossie faziam dos tambores nyabinghi, tocados nas celebrações rasta, a base do seu som. O rastafarianismo também influenciou as letras de músicas de praticamente todos os artistas do roots e suas cores (vermelho, dourado e verde) e seus símbolos, como o leão de Judah e a estrela de David, adornavam as capas dos discos e compactos que saíam na época.

A década de 1970 foi a época de maior investimento externo na indústria musical jamaicana, fazendo com que esta repercutisse ainda na cena mundial, tornando o reggae uma força inspiradora para a combalida música popular ocidental. Nesta época o reggae começou a ser ouvido em discos de mega-grupos de rock como os Rolling Stones e Led Zeppelin, passando pelos iconoclastas do punk, como The Clash e The Slits. Artistas como Gilberto Gil no Brasil, Sonny Okusun na Nigéria e Alpha Blondy na Costa do Marfim, se renderam 
ao ritmo.

Em 1985, os primeiros reggaes eletrônicos ganharam definitivamente a simpatia do público jamaicano, fazendo com que muitos artistas reggae se adaptassem à nova música moderna como, o Culture, Ethiopians, Melodians e Cables. A partir de então qualquer reggae que não usasse sintetizadores como base principal passou a ser conhecido como roots, colocando sob a mesma denominação tanto o reggae internacional, quanto o roots original.

O valor cultural, a força musical e a mensagem do roots reggae jamais serão esquecidos e representam hoje muito do que o ritmo de Jah pode oferecer ao mundo, mas não tudo. Transformar tão bela manifestação em um dogma cultural é negar a sua essência e enfraquecer o seu impacto nas gerações vindouras. Viva o roots ! Longa vida ao reggae!

Fontes para este artigo: Steve Barrow – Rough Guide to Reggae, K. Chang e W. Chen – Reggae Routes, Davis e Simon -Reggae Bloodlines, David Katz – People Funny Boy, Virgin Encyclopedia of Reggae.

(Matéria retirada do Portal Geledés: https://www.geledes.org.br/)

Alguns artistas de Reggae:
BUNNY WAILER
PETER TOSH
GREGORY ISAACS
JIMMY CLIFF
DENNIS BROWN
JUDY MOWATT
MARCIA GRIFFITHS
JOE HIGGS
JOHN HOLT
JUSTIN HINDS
JACOB MILLER
BURNING SPEAR
BERES HAMMOND
MAX ROMEO
SUGAR MINOTT
HUGH MUNDELL
JUNIOR MURVIN
IJAHMAN
ERIC DONALDSON
OWEN GRAY
JACKIE EDWARDS

Algumas bandas de Reggae:
BOB MARLEY AND THE WAILERS
TOOTS AND THE MAYTALS
STANLEY BECKFORD AND STARLIGHTS
BLACK UHURU
THE HEPTONES
THE PIONEERS
THE CONGOS
THE MEDITATIONS
THE MELODIANS
THE ABYSSINIANS
THE GLADIATORS
THE ITALS
THE ETHIOPIANS
ISRAEL VIBRATION
CULTURE
WAILING SOULS
MIGHTY DIAMONDS