Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Ali Farka Touré

Ali "Farka" Touré

' O blues/folk do Mali '

Ali Farka Touré foi um guitarrista e cantor maliano. A sua música é uma interseção da música tradicional do Mali com o blues e o seu legado deu sentido à vida de muitas pessoas em África.

Breve Biografia:

Ali "Farka" Touré nasceu, em 1939, na vila de Kanau (noroeste do Malí). A mãe apelidou-o de Farka, que significa burro, animal bem considerado na sociedade rural africana pela sua força.

O pai foi alistado no exército francês e morreu enquanto lutava contra os nazistas na IIª Guerra Mundial. E a família mudou-se para Niafunké, cidade deserta nas margens do rio Níger.

Filho do rio, como gostava de se chamar, Ali depressa se interessou pela música e contar historias. Fez o seu primeiro instrumento a partir de uma lata de sardinha com apenas uma corda. Quando era jovem, não frequentou a escola. Foi taxista, motorista de ambulâncias fluviais e mecânico.

Arte da cultura africana.
Em 1966, conheceu o guitarrista guineense, Keita Fodeba. Depois de o ver tocar, jurou que também seria guitarrista.

Em 1968, viajou para a europa, pela primeira vez, para atuar no Festival da Juventude em Sófia (Bulgária), onde comprou a sua primeira guitarra.

Nesse ano, um amigo fê-lo ouvir alguns discos da música afro-americana: o funk de James Brown, a soul/music de Otis Redding e o blues de John Lee Hooker.

 "Quando ouvi os seus blues, a primeira coisa que pensei foi que John Lee Hooker era africano, embora não compreendesse a língua em que ele cantava", recordou Touré com gargalhadas.

Dois anos mais tarde, em Bamako, conseguiu emprego como técnico de som na Rádio Mali. Com a ajuda de Boubacar Traoré, aproveitou as horas livres para gravar as primeiras canções.

A sua música espiritual reunia as tradições sonoras das etnias Songhai, Peul e Tamascheq, cujas ínguas ele sabia desde jovem.

O seu prestígio atravessou as fronteiras da África e chegou a Paris graças à etiqueta "Sonodisc", que lançou os seus primeiros discos. Um deles chegaria até Londres.

Em 1986, Anne Hunt, co-fundadora do editora britânica "World Circuit", viajou para Bamako a fim de localizar o "pai" do blues africano. Com a ajuda de Toumani Diabaté, colocou um anúncio na rádio nacional. Farka viu a mensagem e apareceu na estação de rádio.

Farka, "filho do rio".
Em 1987, visitou Londres, onde atuou e gravou o seu primeiro álbum para a "World Circuit". Desta relação saiu uma das mais importantes discografias da África.

A mítica cidade de Timbuktu serviu de inspiração para o disco que gravou, em 1994, com o guitarrista californiano, Ry Cooder: "Talking Timbuktu".

Em 2000, no auge do sucesso, abandonou os espetáculos para ser Presidente da Câmara de Niafunké ("Primeiro, sou agricultor; depois sou artista", disse.). Estava comprometido com o futuro do seu povo e gastou muito dinheiro na agricultura.

Ali "Farka" Touré morreu a 7 de março de 2006. A sua música é uma intersecção da música tradicional do Mali com o blues. O seu legado deu sentido à vida de muitas pessoas na África.

Texto por: António José André. 
(@Esquerda)
07 de março 2022

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Betty Davis

Betty Davis
' Pioneira do Funk '

Linda, sensual e com uma voz única, Betty Davis é uma das figuras mais influentes da história do funk. Nomes hoje consagrados como Red Hot Chili Peppers, Prince, The Roots, Rick James, Outkast, Erykah Badu e Macy Gray apresentam inegável influência da música repleta de personalidade e sensualidade da cantora, e não soariam como soam hoje caso Betty Davis não tivesse existido.


História

Nascida em 26 de julho de 1945 na cidade de Durham, no estado norte-americano da Carolina do Norte, Betty Mabry (seu sobrenome de batismo) mudou-se para Nova York no início da década de 60 e lá começou a trabalhar como modelo, realizando editoriais para revistas como Seventeen, Ebony e Glamour. O trabalho como modelo a projetou no cenário de celebridades da Big Apple, e a partir de 1966 Betty passou a frequentar as festas mais disputadas da cidade. Foi nesses eventos badalados que a bela modelo topou com artistas do porte de Sly Stone, Jimi Hendrix e Miles Davis, encontros que mudaram a sua vida para sempre.

A afinidade com Hendrix e Miles foi quase instantânea. Logo transformou-se em grande amiga do primeiro, fazendo parte do seu círculo íntimo. Em relação a Miles, a amizade evoluiu para um tórrido romance e os dois acabaram se casando em setembro de 1968. Com o casamento, Betty alterou o seu sobrenome para Davis, enquanto Miles mergulhou em uma das fases mais criativas e inovadoras de sua longa carreira.

O impacto do relacionamento entre Miles e Betty pode ser sentido com bastante evidência na trajetória do mítico trompetista. O álbum Filles de Kilimanjaro, lançado em 29 de janeiro de 1969, traz uma foto de Betty Davis na capa, além de uma faixa chamada "Mademoiselle Mabry (Miss Mabry)", gravada no mesmo mês do casamento dos dois e dedicada à cantora. 

Em sua autobiografia, Miles Davis credita a Betty, sua segunda esposa, a semente fundamental que o levou a explorar novos caminhos musicais no final dos anos sessenta, apresentando-o ao rock psicodélico da Jimi Hendrix Experience e ao funk inovador de Sly & Family Stone. A influência da música de Hendrix e de Stone na obra de Miles pode ser sentida em toda a sua plenitude no fantástico álbum duplo Bitches Brew, lançado em abril de 1970. Nesse disco, Miles Davis reinventou sua música, fundindo o jazz ao rock e ao funk em um trabalho que é considerado por muitos como o responsável pela criação de um novo gênero, o Jazz-fusion.

O trompetista Miles Davis.
Betty Davis também influenciou o visual de Miles no período em que esteve casa com o músico. Seu cabelereiro e seu estilista transformaram-se também no cabelereiro e no estilista de Miles, renovando a imagem e o figurino do trompetista, que passou a desfilar com um visual que refletia as inovações sonoras que estava produzindo naqueles anos, contrastando com o modo de vestir sóbrio e elegante dos tempos de Kind of Blue, de 1959.

O casamento chegou ao fim devido aos boatos e às desconfianças de Miles a respeito de um provável caso de Betty com Jimi Hendrix, affair esse sempre negado pela cantora. O fato é que Miles e Hendrix haviam se aproximado bastante e alimentavam a ideia de gravar juntos, plano esse que não se concretizou devido à morte precoce do genial guitarrista, em 28 de setembro de 1970.

Com a separação, Betty Davis mudou-se para Londres, onde retomou a sua carreira de modelo. Os anos ao lado de Miles fizeram com que Betty, que sempre gostou de música, se interessasse ainda mais pela coisa, e ela começou a compor algumas canções ainda na Inglaterra. De volta aos Estados Unidos, rumou para Los Angeles com a intenção de gravar um álbum ao lado do guitarrista Carlos Santana, mas isso acabou não acontecendo. A cantora, então, reuniu um grupo de talentosos músicos de funk da costa oeste e, com a ajuda de feras como Neal Schon (na época na banda de Santana), Larry Graham, Sylvester e as Pointer Sisters, registrou as canções que iriam fazer parte de seu primeiro álbum.

Lançado em 1973, Betty Davis, o disco, é um clássico incontestável do funk setentista. A principal característica do play é a alquimia perfeita entre grooves cheios de balanço e guitarras pesadas, como fica claro na faixa de abertura, a antológica "If I´m Luck I Might Get Picked Up". A voz de Betty varia entre momentos mais raivosos e gritados (como na já citada faixa que abre o disco) e outros mais sensuais e sussurrados, como em "Anti-Love Song". Outros destaques são "Walkin´ Up the Road", "Your Man, My Man", "Steppin´ in Her I Miller Shoes" (que fala sobre uma jovem garota vinda do interior com grandes sonhos, mas que acaba sendo vítima da indústria do entretenimento - segundo a própria Betty, a música fala de Devon Wilson, que namorou Jimi Hendrix no período em que o guitarrista e Betty eram grandes amigos. Wilson também foi homenageada por Hendrix na canção "Angel") e "Game is My Middle Name".

O álbum gerou reações contraditórias na imprensa. Ao mesmo tempo em que elogiavam os dotes vocais de Betty e o talento dos músicos de sua banda, os críticos reclamavam das letras sugestivas, repletas de insinuações sexuais, e da própria postura de Betty Davis, sexualmente explícita. Estamos falando de uma cantora negra no início dos anos setenta nos Estados Unidos, falando abertamente de sexo.

Capa do segundo álbum.
Em 1974 chegou às lojas o seu segundo álbum, com o provocativo título de They Say I´m Different, embalado em uma capa onde Betty está vestida com um figurino que remete à mitologia egípcia. Menos rock e mais funk que a estreia, They Say I´m Different abre com a sensualíssima "Shoo-B-Doop and Cop Him", recheada pelos vocais manhosos da cantora. 

Esse segundo disco mantém a consistência do trabalho de Betty Davis e apresenta várias faixas de destaque, como a já citada "Shoo-B-Doop and Cop Him", "He Was a Big Freak", a sensacional "Don´t Call Her No Tramp", "70´s Blues", a balada "Special People" e a poderosa faixa-título.

Foi lançado apenas um single para o play, da faixa "Git in There", e a boa repercussão do álbum, aliada às performáticas apresentações ao vivo de Betty, fizeram seu nome crescer bastante entre os aficcionados pelo funk e pela então nascente cultura da dança, que levava multidões de jovens aos clubes noturnos de Nova York naquela primeira metade dos anos setenta e que culminaria, alguns anos mais tarde, com o surgimento da disco music.

O impacto positivo fez com que Betty Davis fosse contratada pela Island Records, deixando a Just Sunshine, gravadora que havia lançado seus dois primeiros discos. A estreia da cantora em uma major ocorreu com o lançamento de Nasty Gal, em 1975. O álbum mantém as características marcantes dos dois primeiros trabalhos, acrescentando marcantes tintas psicodélicas ao funk rock sensual de Betty. A capa explorava mais uma vez seu sex appeal, e o conteúdo do disco deixava isso ainda mais evidente.

Ao mesmo tempo em que caía na graça de DJs e da juventude mais mente aberta, Betty Davis sofria críticas e boicotes por parte de grupos religiosos conservadores, que não gostavam nada de sua atitude abertamente sexual e de suas performances provocativas em cima dos palcos. Betty gravou em 1976 seu quarto álbum, Crashin´ from Passion, mas o trabalho não chegou a ser lançado. Desanimada, a cantora retirou-se da cena musical.

Betty Davis em sua carreira de modelo.
Com o passar dos anos os discos de Betty Davis foram redescobertos por colecionadores de todo o mundo, e um culto em torno da cantora começou a surgir. Foram vários relançamentos remasterizados e incluem extensos encartes com muitas informações. Um fato interessante é que Crashin´ from Passion, considerado por uma grande parcela dos críticos e pelos próprios músicos que o gravaram como o melhor trabalho da carreira de Betty, não viu a luz do dia por longos 33 anos, já que foi gravado em 1976 e lançado apenas em 2009.

Betty Davis é, indiscutivelmente, uma das artistas mais influentes surgidas nos anos 1960 e 1970. Figura fundamental na transformação estética e sonora de Miles Davis, mutação essa que gerou obras-primas como In a Silent Way, Bitches Brew e Tribute to Jack Johnson, possui também uma ótima, apesar de curta, carreira solo, com discos sensacionais que merecem ser descobertos por toda e qualquer pessoa que gosta de música. Se você é uma delas, mergulhe agora mesmo em seus discos e descubra um universo repleto de balanço, groove e muita sensualidade.


Johnny Winter

Johnny Winter
' O tornado do Texas '

"Eu simplesmente gosto mais de blues do que de rock 'n' roll"

"Eu espero ser lembrado como um bom músico de blues"

"Acho que o blues estará sempre por aí... é preciso apenas uma pessoa para conscientizar as pessoas sobre o blues"

"Eu amo tocar guitarra"

"Eu posso não ser o melhor guitarrista do mundo, 
mas toco com meu coração e alma".

“ Energia incomparável e vibrante... violão acústico maravilhoso... blues visceral e intenso” – Blues & Rhythm

“Guitarra blues-rock texana cortante e extravagante” – New York Times

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John Dawson Winter III nasceu em 23 de fevereiro de 1944 no Texas. Ele foi uma lenda da música americana. Desde sua primeira aparição nas páginas da Rolling Stone em 1968, Johnny personificou o herói da guitarra blues-rock, ardente e extravagante. Entre 1968 e 1980, ele gravou quinze álbuns que definiram o gênero blues-rock, desde a potência bruta de “Rock and Roll Hoochie Koo” até a sutileza do blues acústico do Delta. Apesar do enorme sucesso, Johnny queria retornar às raízes do blues, de onde sua música rock brotou.

Em 1984, ele assinou com a Alligator Records, onde gravou os discos de blues puro que sempre sonhou em fazer. Seus três lançamentos pela Alligator, aclamados pela crítica, dois dos quais receberam indicações ao Grammy, solidificaram a reputação de Johnny como um dos maiores artistas de blues do mundo. 

A trajetória de Johnny começou quando ele tinha apenas quatorze anos. Ele e seu irmão Edgar Winter, um multi-instrumentista virtuoso, formaram o Johnny and the Jammers em sua cidade natal, Beaumont, no Texas. Com seu blues energético, o Johnny and the Jammers se tornaram um fenômeno local, vencendo concursos de talentos e eventualmente conseguindo um contrato de gravação com a gravadora Dart. 

Seu primeiro single, “Schoolboy Blues”, foi lançado quando Johnny tinha apenas quinze anos. Após a dissolução da banda, e com exceção de uma breve temporada em Chicago no início dos anos 60, Johnny tornou-se presença constante nos estúdios de gravação de Houston e Beaumont, gravando dezenas de músicas como líder e músico acompanhante. Quando não estava no estúdio, ele tocava em clubes ou participava de shows com artistas de blues em turnê, como B.B. King e Bobby "Blue" Bland, conquistando uma reputação no circuito de shows para o público negro.

No início de 1968, Johnny, agora morando em Austin, Texas, formou um trio com Tommy Shannon no baixo (que mais tarde tocou com o Double Trouble de Stevie Ray Vaughan) e Uncle John Turner na bateria. Em sua busca por shows, o trio foi rejeitado por dezenas de casas de shows, a maioria das quais simplesmente não estava disposta a contratar uma banda de blues pesado. Mas, finalmente, conseguiram uma vaga no Vulcan Gas Company, em Austin.

Estavam atraindo um bom público, mas a única opção de gravação que tinham era com Bill Josey, um empresário local que os gravou com um equipamento portátil, essas fitas apareceriam mais tarde na Imperial Records e lançado como um álbum chamado: The Progressive Blues Experiment.

Desanimado, Johnny arrumou as malas e foi para a Inglaterra. "Tínhamos acabado de gravar as faixas que a Imperial Records lançaria mais tarde em um álbum", lembrou ele. "Eu tinha ido para a Inglaterra e tive a ideia de levar a banda inteira para lá. Quando voltei, havia saído um artigo sobre mim na Rolling Stone, e todas as grandes gravadoras estavam me ligando".

Johnny logo assinou com a gravadora Columbia em um contrato milionário bastante divulgado. Embora os valores exatos nunca tenham sido revelados, o contrato de Johnny era considerado o mais lucrativo já firmado até então. Ele foi aclamado pela imprensa nacional como o candidato americano a recuperar a coroa de "rei da guitarra" dos britânicos Eric Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck.

Johnny gravou quatro álbuns clássicos com a Columbia, cada lançamento se afastando do blues tradicional e se aproximando do rock propriamente dito. Entre eles, o essencial marco do hard rock, Johnny Winter And..., seu álbum mais vendido de todos os tempos.

Em meados da década de 1970, Johnny era o artista de rock de arena número 1 em público nos Estados Unidos. Em 1974, ele começou a gravar para a Blue Sky, uma gravadora distribuída pela CBS e fundada por seu empresário, Steve Paul. Johnny não apenas lançou quatro álbuns solo pela Blue Sky, como também produziu vários álbuns de Muddy Waters, dando à lenda do blues a oportunidade de gravar para uma grande gravadora.

Dois desses álbuns, Hard Again e o sucessor, I'm Ready, ganharam prêmios Grammy. "Trabalhar com Muddy Waters me fez sentir que as pessoas finalmente estavam percebendo que eu não estava fingindo e que realmente sabia tocar blues", disse Johnny. "Senti que me estabeleci."

Após um hiato de quatro anos sem gravar, Johnny se juntou à família da Alligator Records em 1984. Seu desejo de gravar apenas blues autêntico tornou a parceria perfeita. Quando Johnny lançou Guitar Slinger, o álbum foi amplamente aclamado como o seu melhor (e mais bluesy) trabalho até então; entrou para as paradas da Billboard e da Cashbox, além de receber uma indicação ao Grammy.

No ano seguinte, Johnny lançou Serious Business. O álbum explosivo rendeu a Johnny sua segunda indicação ao Grammy com a Alligator. 3rd Degree, seu último lançamento pela Alligator, saiu em 1986. O álbum contou com vários convidados especiais e uma variedade de estilos de blues. Os integrantes originais do Johnny Winter Trio, Tommy Shannon e Uncle John Turner, assim como Mac "Dr. John Rebennack fez participações especiais.

Johnny também gravou duas faixas solo acústicas na guitarra National Steel (a primeira vez que tocou a National em estúdio desde 1977). O álbum de 2015, lançado apenas em vinil, " It's My Life, Baby – The Best Of The Alligator Records Years", reúne oito faixas clássicas desses lançamentos, apresentando uma performance brilhante e marcante após a outra.

Enquanto estava na Alligator, Johnny vivia seu sonho artístico, gravando apenas blues puro. Surpreendentemente, seus álbuns pela Alligator conquistaram espaço nas rádios de rock, e o videoclipe da música "Don't Take Advantage of Me" foi exibido na então jovem MTV por mais de seis meses. Mas, independentemente do sucesso comercial que os álbuns de Johnny pela Alligator alcançaram, eles nunca comprometeram sua fidelidade às suas raízes.

Após seus três lançamentos pela Alligator Records, a equipe de Johnny o convenceu de que ele precisava retornar ao blues-rock mais comercial e ao mundo das grandes gravadoras. Winter nunca parou de fazer turnês e gravar, embora estivesse enfrentando problemas de saúde crescentes. Ele lançou vários álbuns ao vivo e de estúdio aclamados pela crítica, mantendo-se tão requisitado como sempre.

Embora tenha continuado a levar alegria aos fãs ao redor do mundo com seus shows ao vivo e gravações, Johnny Winter nunca mais gravou com a inspiração de estar contratado por uma gravadora de blues e com o acompanhamento de verdadeiros músicos de blues de Chicago. 

It's My Life, Baby – The Best Of The Alligator Records Years encantará fãs antigos e novos, e os lembrará do intenso amor de Johnny pela tradição do blues e de seu desejo de levar o blues mais profundo e autêntico ao público mais amplo possível.

Winter faleceu em 16 de julho de 2014, durante uma turnê na Suíça. Pouco depois de sua morte, seu último álbum de estúdio, Step Back , foi lançado.



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Buddy Miles


Buddy Miles
' Multi-instrumentista, multi talentoso '

O multitalentoso baterista, cantor, compositor e produtor Buddy Miles tocou com Mike Bloomfield na banda Electric Flag e com Jimi Hendrix em sua Band of Gypsys. Após tocar com a Electric Flag ao lado do guitarrista Mike Bloomfield, Miles formou sua própria banda em 1968, a Buddy Miles Express. No mesmo ano, ele também tocou no clássico álbum duplo de Jimi Hendrix, Electric Ladyland, lançado em outubro de 1968. Miles foi um dos vários artistas convidados presentes no álbum e tocou bateria em uma longa jam que acabou sendo dividida em duas partes. Ela se tornou “Rainy Dream, Dream Away” e “Still Raining, Still Dreaming”, com “1983... (A Merman I Should Turn to Be)” inserida entre as duas faixas.
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 Band of Gypsys: Hendrix e Miles, 1970.
Band Of Gypsys e a Express:
Buddy Miles e Jimi Hendrix se conheceram em 1964, em um show em Montreal, quando Miles tinha apenas 16 anos e tocava bateria em um dos grupos de R&B com os quais excursionava na adolescência, lista que incluía Wilson Pickett e The Delfonics. 

Em 1967, Hendrix e Miles participaram de uma sessão na casa de Stephen Stills em Malibu. No ano seguinte, também tocaram juntos em Los Angeles e Nova York, antes de Miles participar como convidado na gravação do álbum Electric Ladyland da Jimi Hendrix Experience.

Após o término da banda The Electric Flag, Buddy Miles monta seu primeiro grupo solo, a Budddy Miles Express, e gravam o primeiro álbum chamado: Expressway to Your Skull. Já no segundo álbum, Electric Church, de 1969, Jimi Hendrix participa da produção em algumas faixas. Uma delas foi a magnífica jam de soul-jazz-funk “69 Freedom Special”, título supostamente sugerido pelo próprio Hendrix. A música foi composta em parceria com o guitarrista do Express, Jim McCarty, o baixista Bill Rich e o trompetista Tom Hall.

Após o fim do Express, em 1970, Hendrix e Miles formaram um novo grupo, a Band of Gypsys. A eles se juntou o baixista Billy Cox, amigo de longa data e ex-companheiro de banda de Hendrix. O grupo teve vida curta, gravando apenas um álbum ao vivo juntos, mas suas poucas apresentações ao vivo se tornaram lendárias.

Buddy Miles e Carlos Santana ao vivo, 1972.
Para seu quarto álbum solo de estúdio, We Got To Live Together, gravado em 1970 e lançado no final daquele ano, Miles escreveu a poderosa faixa-título, um verdadeiro hino funk. O LP alcançou a 14ª posição nas paradas de R&B. Durante as gravações, Miles soube da morte de seu amigo e mentor Jimi Hendrix e incluiu uma homenagem a ele nas notas do encarte.

“Alguns de nós o conhecíamos bem e todos nós conhecíamos Jimi e sua música. Sentiremos sua falta com tristeza, mas com admiração jamais esqueceremos o que ele nos deu.”

"We Got To Live Together" contou com a participação de músicos de estúdio de renome, como Andre Lewis no clavinet, Marlo Henderson na guitarra rítmica, David Hull no baixo e Billy McPherson no saxofone tenor. Assim como o restante do álbum, foi coproduzida por Miles e Robin McBride, que era produtor e executivo de A&R da Mercury Records.

"A mensagem atemporal da música nos lembra que o amor vence o ódio e que estamos todos juntos nessa coisa chamada vida"

Carreira e parcerias.

Nascido George Miles em Omaha, Nebraska, em 5 de setembro de 1947, ele começou a tocar bateria aos nove anos e se juntou à banda de jazz de seu pai, The Bebops, com apenas 12 anos. Na adolescência, tocou com vários grupos de jazz e R&B, principalmente como backing vocal de bandas como Ruby & the Romantics, The Ink Spots e The Delfonics.

Em 1966, juntou-se à turnê de Wilson Pickett, então guitarrista de blues-rock Mike Bloomfield. Bloomfield convidou Miles para se juntar à banda, Electric Flag, que estreou no Monterey Pop Festival com Buddy cantando com Jimi Hendrix; Bloomfield saiu em 1968, seguido pelo baixista. Com a seção de metais da Electric Flag a tiracolo, Miles se separou para formar seu próprio grupo, o igualmente eclético Buddy Miles Express. Contratado pela Mercury, o grupo lançou seu álbum de estreia, Expressway to Your Skull, em 1968, com a participação de seu colega do Monterey Pop, Mike Bloomfield. Jimi Hendrix assumiu a produção.

Por sua vez, Miles tocou no álbum Electric Ladyland de Jimi Hendrix e, posteriormente, participou de uma jam session com vários artistas que resultou no álbum Fathers and Sons de Muddy Waters. Hendrix também produziu o álbum seguinte do Miles Express, Electric Church, de 1969, e dissolveu sua banda de apoio, The Experience, ainda naquele ano; pouco depois, Hendrix, Miles e o baixista Billy Cox formaram o Band of Gypsys, uma das primeiras bandas de rock formadas exclusivamente por músicos negros.

Com uma sonoridade mais voltada para o blues e o funk do que os trabalhos anteriores de Hendrix, o Band of Gypsys não durou muito tempo em sua formação original; Miles saiu em 1970, sendo substituído pelo volta do baterista do The Experience, Mitch Mitchell, mas não antes de seu talento excepcional ser demonstrado no único álbum do grupo, o ao vivo Band of Gypsys. 

Após acompanhar John McLaughlin em Devotion, de 1970, Miles retornou ao papel de líder da banda e gravou seu álbum mais popular no ano de 1971, "Them Changes", que permaneceu nas paradas por mais de um ano, e a faixa-título se tornou a música de assinatura de Miles. De dezembro de 1971 a abril de 1972, Miles fez uma turnê com Carlos Santana, que resultou no álbum ao vivo "Carlos Santana & Buddy Miles! Live!", lançado pela CBS. Gravado dentro de um vulcão inativo no Havaí, o álbum vendeu muito bem, chegando ao Top 10.

Miles gravou mais alguns álbuns para a CBS, participou de uma breve reunião do Electric Flag em 1974 e, em 1975, mudou-se para a Casablanca Records para gravar dois LPs. Além de um álbum único para a Atlantic em 1981, "Sneak Attack", Miles manteve um perfil discreto na década seguinte, em parte para lidar com problemas pessoais.

Miles retornou em 1986 como a voz principal de uma campanha publicitária na TV com uvas-passas animadas em massinha cantando "I Heard It Through the Grapevine", os anúncios se provaram tão populares que uma franquia musical infantil foi criada. Assim, Miles tornou-se o vocalista principal dos California Raisins, participando de dois álbuns (principalmente covers de R&B) e um especial de Natal. Buddy Miles voltou a tocar com seu velho amigo Carlos Santana como vocalista principal do Santana durante parte do final dos anos 80, e retomou sua carreira em estúdio no ano de 1987 com o álbum Freedom. 

No início dos anos 90, Miles tocou com Bootsy Collins, tanto em carreira solo quanto como membro da banda Hardware, e em 1994, formou uma nova versão do The Express e gravou Hell and Back para a Rykodisc. Em 1997, Miles lançou o álbum Away From Home, pela Hip-O. Buddy Miles fez turnês constantes durante os anos 90 e, posteriormente, formou uma banda de blues mais tradicional chamada Blues Berries com o guitarrista Rocky Athas; o primeiro álbum da banda, Blues Berries, foi lançado pela Ruf em 2002.

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Eddie Hazel

Eddie Hazel

"Embora tenha havido guitarristas tecnicamente mais virtuosos nas fileiras do exército de guitarristas do P-Funk, Eddie Hazel é considerado pela maioria o maior guitarrista a ter feito parte do Funk Mob. Por quê? Por causa de sua habilidade única de reinventar uma música funk, sempre tocando padrões belamente emotivos e inesperados que desafiavam qualquer noção de normalidade"
(G. Clinton)


História

Edward Earl Hazel, nascido em 10 de abril de 1950 no Brooklyn, ele cresceu em Plainfield, Nova Jersey, onde cantava na igreja antes de se juntar à banda local de R&B, The Boyce Brothers. Ele aprendeu a tocar sozinho depois que seu irmão lhe deu um violão de presente de Natal, quando sua família ainda morava no Brooklyn.

Sua mãe, Grace Cook, mudou-se com a família para Plainfield (embora continuasse a trabalhar no Brooklyn) porque sentia que o Brooklyn estava se tornando um lugar inseguro para criar seus filhos. Ironicamente, Plainfield também abrigava um emaranhado de conjuntos habitacionais infestados de drogas, dos quais poucos moradores (incluindo Eddie) conseguiram escapar.

Foi em Plainfield que Eddie forjou sua amizade para a vida toda com Billy 'Bass' Nelson, o baixista original do Funkadelic. Nelson diz: “Eddie e eu tínhamos uma sonoridade parecida desde o início. Ele me ensinou tudo o que sei sobre música; tínhamos uma conexão tão forte que transcende as palavras. Não consigo descrever a dor que sinto por ele não estar mais aqui. Toquei com alguns verdadeiros gênios da guitarra ao longo dos anos, mas ninguém se comparava ao Eddie”.

Billy incentivou Eddie a se juntar ao Funkadelic em 1969, eventualmente convencendo o líder do grupo, George Clinton, a persuadir a mãe de Eddie a permitir que ele entrasse para a banda e saísse em turnê. O álbum de estreia autointitulado do Funkadelic foi lançado pela Westbound Records no início de 1970 e contou com a participação de Eddie em músicas como "I'll Bet Ya" e "Qualify & Satisfy". A fusão única de blues, acid rock e funk de Eddie está presente em todo o álbum.

Eddie também tem participação marcante no álbum de 1971 do Funkadelic, Free Your Mind and Your Ass Will Follow . A faixa-título apresenta Eddie em uma forma incrível, que se mantém ao longo de todo o álbum. No entanto, foi o álbum Maggot Brain, também de 1971 , que se provou a obra-prima de Eddie.

Eles tocaram “Maggot Brain” no funeral de Eddie Hazel na véspera de Ano Novo de 1992 em Plainfield, Nova Jersey. Foi uma despedida à altura de um verdadeiro herói da guitarra. Mais do que qualquer outra música do repertório do P-Funk, o comovente hino em tom menor estará para sempre associado a Eddie Hazel.

A música foi criada quando George Clinton pediu a Eddie que pensasse na coisa mais triste que conseguisse imaginar (a morte de sua mãe) e a tocasse em sua guitarra. O resultado foi um solo de guitarra de 10 minutos gravado em uma única tomada, que, na minha opinião, é a melhor peça de guitarra elétrica já gravada. Eddie leva o ouvinte por todas as emoções conhecidas, do medo à luxúria, do prazer à dor, da serenidade à raiva, do amor ao ódio, transformando-as em uma das performances mais comoventes e dilacerantes já gravadas.

A influência de Eddie no Funkadelic começou a diminuir a partir desse ponto devido a problemas excessivos com drogas e álcool e disputas financeiras com Clinton. Ele foi enviado para a prisão de Lampoc após uma agressão com os dentes em um avião, onde supostamente mordeu uma aeromoça enquanto estava sob efeito de Angel Dust. No entanto, ele retornou com força total para o álbum de 1974, Standing on the Verge of Getting it On . Ele coescreveu todas as músicas do álbum (os créditos de composição são dados à sua mãe, Grace Cook) e está em ótima forma na guitarra.

Eddie deixou o P-Funk em 1974 para trabalhar como guitarrista/compositor na Motown, notavelmente tocando nos álbuns dos Temptations ( A Song For You , 1975, e Wings of Love , 1976) e atuando como diretor musical de Bonnie Pointer e Chairmen Of The Board antes de retornar ao P-Funk no início dos anos 80. No entanto, ele lançou um álbum solo, Game, Dames & Guitar Thangs , em 1978 pela Atlantic Records, que contou com a participação de todo o P-Funk Mob. O álbum permanece fora de catálogo e é um item de colecionador muito procurado.

Sem dinheiro e sem teto no último ano de sua vida, Eddie voltou a morar na casa de sua mãe em Plainfield. Ele sofria de problemas estomacais crônicos há anos e, por fim, sucumbiu a uma hemorragia interna e insuficiência hepática em 23 de dezembro de 1992.

Ironicamente, ele havia começado recentemente a planejar vários projetos, incluindo uma apresentação em power trio com os ex-membros do Band of Gypsys, Billy Cox e Buddy Miles, bem como uma reunião da formação original do Funkadelic.

Com seu virtuosismo desafiando a opressão e as convenções, Eddie Hazel estabeleceu um padrão a ser seguido por todos, não apenas pelos guitarristas negros.

Capa do álbum solo de 1977.
Reflexões sobre Eddie.

Frequentemente comparado ao grande Jimi Hendrix, Eddie nunca alcançou o mesmo nível de fama e admiração pública que Jimi, sofrendo por vezes o mesmo estigma que outros grandes guitarristas negros, como Ernie Isley, sendo rotulado como um mero imitador de Hendrix. Como ele disse à revista Guitar Player: “Eu ouvia muito Jimi. Era impressionante como nossos estilos eram parecidos, mas era isso que eu sentia. Eu queria fazer da guitarra uma extensão do meu canto. Meu estilo é realmente como o de um vocalista solo tocando guitarra.”

Apesar do ambiente em que cresceu, acredito que, como muitas pessoas verdadeiramente talentosas, a personalidade de Eddie continha um elemento de autodestruição. Essa história se aplica a muitos artistas brilhantes, como o próprio Jimi Hendrix, Stevie Ray Vaughan, Jim Morrison e tantos outros. É quase como uma negação de seus próprios talentos.

Da mesma forma, a marca do verdadeiro gênio estava impressa na forma de tocar de Eddie por sua inconsistência. Como todos os grandes mestres, o nível de ambição e inventividade em sua maneira de tocar produzia resultados variados. Tocar com esse nível de intensidade gerava momentos de puro gênio inatingível, ao mesmo tempo que alguns perfeccionistas da música às vezes se incomodam com as notas desafinadas de todos os grandes como Jimi Hendrix e Eddie. Talvez o que essas pessoas não percebam é que tocar no limite é o que diferencia esses artistas. Inovação envolve correr riscos. Competência técnica tem pouco a ver com emoção e paixão ao tocar um instrumento. Eddie tocava e cantava com tanta emoção que muitas vezes era ridicularizado por outros membros da banda por chorar durante as gravações em estúdio.