Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Booker T. & The MG's

Booker T. & The MG's

Al Jackson, Booker T. Jones, Donald "Duck" Dunn e Steve Cropper.

Como banda residente da Stax Records em Memphis, Tennessee, Booker T. & the MG’s podem ter sido o fator mais importante para o valor duradouro da música soul daquela gravadora, sem mencionar o soul sulista como um todo. Seus grooves precisos e impecáveis ​​podiam ser ouvidos em sucessos clássicos de Otis Redding, Wilson Pickett, Carla Thomas, Albert King e Sam & Dave, e só por isso já mereceriam sua subsequente entrada para o Hall da Fama do Rock and Roll. Mas além de suas formidáveis ​​habilidades como banda residente, em carreira solo eles foram um dos principais grupos instrumentais da era do rock, gravando clássicos como “Green Onions”, “Time Is Tight” e “Hang 'em High”.

Os pilares do som de Booker T.: eram Steve Cropper, cujos riffs incisivos e econômicos influenciaram muitos outros guitarristas, e o próprio Booker T. Jones, que fornecia grande parte do groove com suas linhas de órgão etéreas. Em 1960, Jones começou a trabalhar como músico de estúdio para a Stax, onde conheceu Cropper. Cropper havia tocado com os Mar-Keys, famosos pelo sucesso instrumental de 1961 "Last Night", que estabeleceu o protótipo para grande parte do som dos MG's (e, de fato, da soul music de Memphis) com sua combinação de órgão, saxofone e guitarra. Com a adição do baterista Al Jackson e do baixista Lewis Steinberg, eles se tornaram Booker T. & the MG's. Em poucos anos, Steinberg foi substituído permanentemente por Donald "Duck" Dunn, que, assim como Cropper, também havia tocado com os Mar-Keys.

Primeiro e maior sucesso da banda: “Green Onions” (um single que alcançou o terceiro lugar nas paradas em 1962), surgiu por acaso. Enquanto improvisavam no estúdio, esperando em vão por Billy Lee Riley para uma sessão de gravação, eles criaram um clássico instrumental de soul blues em tom menor, caracterizado pelo ritmo vibrante do órgão e pelos solos de guitarra intensos. Nos cinco anos seguintes, teriam dificuldade em repetir o sucesso comercial, embora a qualidade de seus discos permanecesse relativamente alta, e a dependência da Stax em tê-los como banda da casa garantisse uma renda decente.

Álbum "Abbey Road", The Beatles.

Abbey Road: No final dos anos 60, os MG's atingiram o auge com sucessos como "Hip Hug-Her", "Groovin'", "Soul-Limbo", "Hang 'em High" e "Time Is Tight", todos presentes no Top 40 entre 1967 e 1969. Como a presença de músicos pretos e brancos os tornava uma banda birracial, os MG's deram um exemplo, de certa forma subestimado, de como bandas integradas e autossuficientes podiam ter sucesso e de como músicos negros e brancos podiam tocar soul music com influências de funk.

Como acontece com a maioria das bandas de rock instrumental, seus singles continham seu melhor material, e a música da banda é hoje melhor apreciada por meio de coletâneas. Mas seus álbuns estavam longe de ser insignificantes e, ocasionalmente, se aventuravam em territórios ambiciosos (eles fizeram uma versão instrumental completa do álbum Abbey Road dos Beatles, que intitularam McLemore Avenue em homenagem à localização dos estúdios da Stax).

Embora já fossem estrelas consagradas no final da década, o grupo começou a ter dificuldades para trabalhar junto, não tanto por problemas de pessoal, mas por dificuldades logísticas. Cropper frequentemente participava de gravações em Los Angeles, e Jones estava frequentemente ausente de Memphis enquanto concluía seus estudos musicais na Universidade de Indiana. A banda decidiu se separar em 1971, mas estava trabalhando em um álbum de reunião em 1975, quando Al Jackson foi tragicamente assassinado a tiros em sua casa em Memphis por um ladrão. Os membros restantes permaneceram ativos como artistas de gravação e músicos de estúdio nos anos seguintes, com Cropper e Dunn se juntando aos Blues Brothers por um período no final dos anos 70.

Uma das primeiras bandas inter-racial.
O Potato Hole: o MG's voltaram aos holofotes no início de 1992, quando foram a banda da casa de um extravagante tributo a Bob Dylan no Madison Square Garden. Mais importante ainda, em 1993, eles serviram como banda de apoio em uma turnê de Neil Young, que rendeu a ambos (e a Young) ótimas avaliações da crítica. No ano seguinte, lançaram um álbum de retorno, com arranjos no estilo de seus trabalhos clássicos dos anos 60, que provou que suas habilidades instrumentais ainda estavam intactas. 

Como a maioria desses trabalhos, porém, acabou não conseguindo recriar a faísca e a espontaneidade que claramente almejavam. Jones continuou com sua própria produção musical nas décadas seguintes, frequentemente contribuindo com suas habilidades instrumentais para outros artistas e ocasionalmente lançando seus próprios álbuns, como o trabalho solo de 2009, Potato Hole. O baixista Dunn, que participou intermitentemente de festivais e turnês após a virada do milênio, estava em turnê com Cropper e Eddie Floyd no Japão em maio de 2012, quando faleceu enquanto dormia em um hotel de Tóquio.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Joanne Shaw Taylor

Joanne Shaw Taylor

Taylor nasceu em Wednesbury, West Midlands, Inglaterra. Ela cresceu em Solihull e foi inspirada no início da adolescência a tocar blues depois de ouvir principalmente Stevie Ray Vaughan, Albert Collins e Jimi Hendrix. 

Ela usa principalmente guitarra Fender Telecaster, embora também use uma Gibson Les Paul. Stratocasters ele disse gostar para tocar guitarra rítmica. Adquiriu sua Telecaster principal, apelidada de 'Junior', aos 15 anos. É um modelo Esquire de 1966 modificado, comprado em segunda mão na Denmark Street em Londres, ao qual foi adicionado um captador humbucker Fender Jazz no braço (além do captador de ponte de fábrica). Além disso, ela usa uma Fender Telecaster modelo Albert Collins Signature, que foi um presente de Joe Bonamassa.

Trajetória artística e discografia.

Joanne Shaw Taylor, descoberta por Dave Stewart, do Eurythmics, aos 16 anos, conquistou um espaço impressionante no mundo do blues-rock. Após testemunhar seu notável talento com a guitarra, Stewart a convidou imediatamente para se juntar ao seu supergrupo, DUP, dando início a uma carreira musical florescente. Seu prodigioso talento na guitarra lhe rendeu elogios de vários gigantes da indústria, incluindo Jimmy Cliff, Joe Bonamassa, Stevie Wonder e Annie Lennox.

Agora com mais de 30 anos, Joanne se consolidou como uma das guitarristas mais requisitadas do rock. Seu álbum de estreia, White Sugar (2009), lançado pela Ruf Records, exibiu sua voz cheia de alma e sua excepcional habilidade como compositora, anunciando a chegada de uma nova estrela no cenário do blues-rock. A esse lançamento seguiram-se uma série de álbuns aclamados pela crítica: Diamonds In The Dirt (2010), Almost Always Never (2012), que inclui o sucesso radiofônico britânico “Soul Station”, e o álbum ao vivo Songs From The Road (2013).

Em 2014, Joanne lançou seu quarto álbum de estúdio, The Dirty Truth , pela Axehouse Records, que incluía os singles de sucesso “Mud, Honey” e “Wicked Soul”. Seu quinto álbum, Wild (2016), produzido pelo lendário Kevin Shirley, contou com apresentações de “Dyin' To Know” e “Summertime” no popular programa musical da BBC Two, Later With Jools Holland .

A trajetória de Joanne ao longo das últimas duas décadas a transformou em uma compositora prolífica, com cada um de seus aclamados álbuns superando o anterior em sucesso. Seu álbum de 2019, Reckless Heart , entrou para o Top 20 da parada de álbuns do Reino Unido, consolidando sua posição como uma das mais importantes artistas britânicas de blues-rock.

Em uma colaboração significativa, Joanne uniu forças com os produtores Joe Bonamassa e Josh Smith para seu sétimo álbum, The Blues Album , lançado pelo selo independente de Bonamassa, KTBA Records, em 2021. Este projeto impactante não apenas demonstrou o aprofundamento artístico e a evolução sonora de Joanne, como também conquistou aclamação da crítica, estreando em 1º lugar na parada de blues da Billboard. Essa conquista marcou um momento crucial em sua carreira, consolidando seu status como uma figura de destaque no gênero blues-rock.

Aproveitando esse impulso, 2022 provou ser um ano marcante para Joanne. Ela expandiu seus horizontes lançando seu primeiro DVD ao vivo, juntamente com Blues From The Heart Live , seu segundo álbum consecutivo a alcançar o 1º lugar na parada de Blues da Billboard. Isso foi uma prova de suas performances eletrizantes ao vivo e elevou ainda mais seu perfil, levando a uma estreia de sucesso na TV pública (PBS). O sucesso desses projetos não apenas solidificou sua reputação como uma artista de palco cativante, mas também ampliou seu alcance para um público mais amplo.

Dando continuidade à sua série de colaborações criativas, Joanne lançou seu oitavo álbum de estúdio ainda naquele ano, intitulado Nobody's Fool . Este álbum foi o ápice de sua jornada musical, contando com a participação de uma gama diversificada de talentos, incluindo Joe Bonamassa, Dave Stewart, Tina Guo e Carmen Vandenburg. Nobody's Fool foi uma declaração ousada de sua versatilidade musical e uma exploração de novos territórios sonoros, consolidando ainda mais Joanne como uma força dinâmica e influente no mundo do blues-rock.

Álbum Heavy Soul
Produzido por Kevin Shirley (Black Crowes, Journey, Aerosmith), o ótimo álbum de estúdio de Joanne, Heavy Soul, mergulha nas profundezas das lutas emocionais com letras poderosas e melodias comoventes. O álbum foi elogiado por sua fusão de soul-pop contemporâneo com raízes tradicionais do blues, contando com a participação de músicos talentosos como Anton Fig, Alison Presswood e Rob McNelley. Com esse disco Joanne continua sustentando a bandeira do blues viva e se mantendo como uma das figuras mais influentes do blues-rock moderno. 

Produzido também por Kevin Shirley, o álbum Black & Gold lançado em 2025, apresenta nove composições autorais, além de duas versões cover. Joanne assume os vocais principais e a guitarra, Anton Fig toca bateria, Alison Prestwood baixo, Jimmy Wallace teclados, Doug Lancio e Audley Freed guitarra; Joe Bonamassa toca guitarra em duas faixas e Savannah Madigan toca violino em outras duas. Os vocais de apoio são de Joanne, Savannah e Sheridan Gates.

Após dois álbuns focados no blues e um com uma abordagem mais suave, Joanne nos presenteia agora com uma mistura de estilos que certamente agradará; um álbum agradável de blues-rock melódico.


Sociologia: Quando a Educação Perde a Alma

Uma Visão Humanista e Espiritual
da Educação


Neoliberalismo, humanismo e espiritualidade no debate educacional contemporâneo. A educadora e espírita Dora Incontri concedeu recente entrevista ao jornal e à TV Brasil 247, na qual articula uma crítica consistente ao modelo educacional neoliberal no Brasil contemporâneo. 

A partir de uma visão humanista e espiritualista da educação, Incontri analisa a transformação da escola em espaço de desempenho, com professores submetidos a lógicas produtivistas e estudantes progressivamente tratados como consumidores. 
É a partir desse horizonte pedagógico e espiritual que se organizam os comentários e reflexões apresentados a seguir. A entrevista concedida por Dora Incontri reacende uma questão incômoda e necessária: o que restou da educação como processo de formação humana? 

Ao afirmar que “a educação foi sequestrada pelo neoliberalismo”, a educadora não formula apenas uma crítica econômica ou administrativa. Ela aponta para uma fratura mais profunda: a perda do sentido da experiência educativa. Vivemos um tempo em que a escola é crescentemente tratada como linha de montagem de competências, e o estudante como portador de indicadores mensuráveis. Nesse cenário, ensinar passa a ser sinônimo de cumprir metas, e aprender, de atingir desempenhos previamente estipulados. 

A fala de Incontri surge, assim, como contraponto humanista e alerta ético: quando a educação se submete integralmente à lógica do mercado, ela abdica de sua função civilizatória. A pedagogia sob a lógica do desempenho. A crítica central da entrevista dirige-se à substituição da formação integral por métricas de desempenho, rankings e avaliações padronizadas. Avaliar tornou-se mais importante do que compreender; medir, mais urgente do que educar. O estudante aparece menos como sujeito em formação e mais como dado estatístico. Essa lógica contrasta frontalmente com a tradição pedagógica clássica. Desde Comenius, que defendia uma educação universal orientada pela natureza do aprendiz, respeitando ritmos e etapas do desenvolvimento humano, até Pestalozzi, que insistia na integração entre afetividade, razão e ação — “coração, cabeça e mãos” — como núcleo do processo educativo, a pedagogia sempre compreendeu a educação como fenômeno complexo e integral. 

Ao converter a escola em organização gerencial, o neoliberalismo rompe essa unidade. O resultado é uma educação tecnicamente eficiente, mas antropologicamente empobrecida. O enquadramento da crítica Convém, no entanto, situar o discurso no qual a entrevista se inscreve. A crítica de Dora Incontri à educação contemporânea emerge de um enquadramento político-cultural específico, compartilhado também pelo veículo e pelo formato da entrevista. Trata-se de uma leitura fortemente marcada por uma tradição crítica ao neoliberalismo, que privilegia a análise estrutural dos efeitos do mercado sobre a escola pública. Esse enquadramento não invalida os argumentos apresentados — muitos deles amplamente sustentados por tradições pedagógicas clássicas e humanistas —, mas delimita o horizonte interpretativo da conversa. Como todo discurso situado, ele ilumina certos aspectos da realidade educacional ao mesmo tempo em que silencia outros, exigindo do leitor uma escuta crítica, contextualizada e intelectualmente responsável. Humanismo pedagógico: força e tensão. 

Ao enfatizar o vínculo afetivo entre educador e educando, Incontri recupera um núcleo essencial da pedagogia humanista. O conhecimento, nessa perspectiva, não é simples transmissão de conteúdos, mas experiência relacional, mediada pela presença, pelo tempo e pela escuta. Essa concepção dialoga diretamente com Rousseau, para quem a educação deveria favorecer o desenvolvimento das potencialidades humanas e não a adaptação precoce às exigências sociais. Educar, nesse sentido, é formar um sujeito capaz de pensar, sentir e agir com autonomia — não apenas responder a demandas externas. O desafio contemporâneo, contudo, permanece aberto: como sustentar essa visão humanista em sistemas educacionais massificados, precarizados e submetidos a pressões econômicas constantes? 

A entrevista identifica a fratura, mas deixa claro que não há soluções simplistas. Tecnologia, aceleração e empobrecimento da atenção. Outro eixo relevante da entrevista é a crítica ao uso acrítico da tecnologia na educação. Incontri alerta para o risco de que plataformas digitais, quando orientadas exclusivamente por eficiência, escala e produtividade, substituam o vínculo pedagógico por interfaces e fragmentem a atenção dos estudantes. Ensinar, no entanto, exige tempo de elaboração, silêncio reflexivo e mediação humana. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de reconhecer que ela não é neutra: molda comportamentos, reorganiza a atenção e redefine prioridades. Uma educação submetida à lógica da aceleração permanente corre o risco de perder sua capacidade de formar pensamento profundo. 

Um diálogo possível com o Espiritismo laico Embora não explicitamente espírita, a entrevista de Dora Incontri permite um diálogo fecundo com a tradição espírita em sua vertente laica, filosófica e crítica. Para Allan Kardec, a educação era elemento central do progresso humano. A instrução intelectual, desacompanhada da formação moral, poderia apenas sofisticar desigualdades e ampliar abusos. Em Obras Póstumas, Kardec afirma que o verdadeiro progresso é inseparavelmente intelectual e moral. Educar, portanto, não é apenas transmitir conhecimentos, mas preparar o espírito para o uso responsável do saber. Essa visão seria aprofundada por Léon Denis, ao defender que a educação deve formar consciências, considerando a continuidade da vida e a responsabilidade espiritual do ser humano. Sob essa ótica, uma educação capturada por métricas perde não apenas sua dimensão humanista, mas também sua vocação ética e evolutiva. Educação como responsabilidade coletiva. 

Há ainda um aspecto sociológico implícito na entrevista: ao reduzir a educação a um serviço, a lógica neoliberal desloca a responsabilidade coletiva pela formação das novas gerações. A escola deixa de ser espaço público de construção de sentido e passa a operar como prestadora de resultados. Do ponto de vista espírita — e também humanista — a sociedade é um espaço contínuo de aprendizagem moral. Indivíduos e instituições educam-se mutuamente. Quando a educação se empobrece, empobrece também o tecido social que dela depende. 

Considerações finais. A entrevista de Dora Incontri não oferece respostas prontas — e talvez esse seja seu maior mérito. Ela recoloca a educação no campo das questões essenciais: Para que educamos? Que tipo de ser humano estamos formando? Que valores orientam nossas escolhas pedagógicas? Ao articular crítica social, pedagogia humanista e abertura a uma leitura espiritual não dogmática, sua fala convida a pensar a educação como experiência de sentido, e não apenas como instrumento de adaptação ao mercado. Em tempos de aceleração, métricas e automação, a pergunta: o que restou da educação como processo de formação humana? permanece incômoda — e absolutamente necessária.

Por Wilson Garcia
@BlogCanteiroDeIdeias


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Sociologia: O genocídio da humanidade

O fracasso ético e moral 
da Humanidade

Será que ainda temos chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade?

Será que só nos resta olharmos sem indignição?

A Terra continuará a girar por milênios ao redor do Sol, mas sem nós ou apenas com os trilhões de trilhões micro-organismos no subsolo, que sobreviverão. O destino está em nossas decisões, em nossas mãos. Como salvar a nós e a vida fazendo do amor, do cuidado e da empatia os eixos estruturadoras de um novo tipo de civilização? Sem isso não teremos futuro.

Genocídio em Gaza, um crime hediondo contra a humanidade


07 de fevereiro - 2026

A nossa origem se encontra na África. Por isso, somos todos africanos. O Vale do Rift – que pode ser visto da Lua, com extensão de 3 mil km, começando no norte da Síria e chegando ao centro de Moçambique – é uma zona privilegiada. Nesse vale, se produziu uma grande divisão: de um lado, mais alto, ficaram as florestas nas quais nossos antepassados antropoides e, depois, símios superiores como os gorilas e orangotangos viviam e tinham abundância de alimentos. Não precisavam evoluir para sobreviver.

Alguns ficaram na parte rebaixada do Vale do Rift, tornada uma espécie de savana. Os nossos ancestrais neste “nordeste seco” evoluíram em seu corpo, começaram a andar em pé e, em seu cérebro, passaram a ter mais interações de seus neurônios, propiciando um pensamento inicial, no afã de buscar o necessário para a sobrevivência. Ecologicamente, a vida na savana não é tão abundante em meios de vida quanto nas demais biorregiões. Em 1974, descobriu-se um fóssil bastante completo no deserto de Afar, na Etiópia, datado de 3,18 milhões de anos. Parecia ser de uma mulher. Por isso, foi chamada de “Lucy”, nome tirado de uma canção dos Beatles, Lucy in the Sky with Diamonds.

Concluindo: a bioantropologia deixou claro que nós, seres humanos, derivamos de um ancestral comum.

Abominação da desolação.

Não era um macaco como comumente se pensa, mas um primata primitivo, que se bifurcou: por um lado, deu origem aos grandes símios, acima referidos; e, por outro, às várias fases do ser humano, como o homo habilis, depois o homo erectus e, por fim, o homo sapiens, donde nós procedemos.

A grande mudança começou com o homo habilis, há mais de 2 milhões de anos. Ele já utilizava instrumentos como pedras pontiagudas, paus aguçados e ossos grossos com os quais intervinha na natureza e facilitava a caça de animais. Mas essa intervenção não era ainda destrutiva.

Com a diferença de centenas de anos, surgiu o homo erectus, já bípede, que utilizava instrumentos mais potentes a ponto de, em grupos coordenados, caçar bovinos e até elefantes. Usou pela primeira vez o fogo, introduzindo uma verdadeira revolução cultural, passando do cru para o cozido, como foi estudado pelo antropólogo Claude Levy Strauss. Cresceu a intervenção na natureza, atingindo animais maiores, como as grandes preguiças.

Depois de ter permanecido por milênios na África, migrando de um lugar ao outro, mas sempre dentro do continente africano, começou a grande migração do homo erectus.

Emigrou para a Eurásia, para a Ásia Central, chegando à Índia, à China e até à Austrália. Mais tarde, o seu descendente, o homo sapiens, chegou às Américas por volta de 20 mil anos atrás e, a partir daí, ocupou todo o planeta.

O homo sapiens introduziu, há 10 mil anos, talvez a maior revolução na história já realizada, a única universalizada, cujas consequências perduram e se aprofundaram até os dias atuais. É a revolução do neolítico. Os seres humanos ficaram sedentários: criaram vilas e cidades. A grande invenção foi a agricultura e a irrigação, especialmente junto aos grandes rios, como Tigre, Eufrates, Nilo e Indo.

Com a agricultura, formou-se um superávit de meios de vida. Agora. começa seu processo de violência e agressão, não só contra a natureza, como vinha fazendo crescentemente até esta data, mas contra outros seres humanos. A produção agrícola produziu excedentes em boa quantidade. Isso possibilitou a guerra, pois havia reservas para alimentar os soldados. Foi neste momento que o historiador Arnold Toynbee, em sua imensa obra A Study of History, viu o surgimento do fenômeno que jamais desapareceu da face da Terra: a guerra. Começou a verdadeira “abominação da desolação”, como biblicamente se descreve o nível da destrutividade humana.

Princípio da autodestruição.

Mas a sistemática violência contra outros seres humanos e com a natureza ganhou dimensões nunca vistas antes com o processo de colonização e escravização da África, da América Latina e de outras regiões a partir da Europa. Milhões foram sacrificados. Só nas Américas, 61 milhões no espaço de um século e meio. Foi o maior holocausto da história. Houve verdadeiros genocídios, atualizados nos dias atuais, como aquele da Faixa de Gaza contra os palestinos.

A inauguração da industrialização moderna até a presente data, com as formas mais sofisticadas de dominação de pessoas e de depredação de praticamente todos os ecossistemas, utilizando a IA, propiciou o auge do uso da violência. Até criarmos o princípio de autodestruição com todo tipo de armas letais.

Devemos reconhecer que, graças às ciências e às técnicas modernas, o bem estar humano cresceu prodigiosamente. Tornou a vida mais cômoda e mais longeva, embora grande parte da humanidade seja condenada à exclusão desses benefícios. Indubitavelmente houve um progresso. Mas não devemos nos orgulhar, pois, como observou o geneticista francês André Langaney, as algas e as borboletas desenvolvera mais o DNA do que nós. Em termos de massa, os vermes da terra a possuem mais que todos nós juntos.

Não obstante este desenvolvimento cultural, em termos morais (modos de organizar a vida) e éticos (os princípios que orientam a vida) estamos ainda na pré-história. Acompanhou-nos sempre a maldade, a crueldade, a mentira intencionada e a falta de empatia, como verificamos em nossos dias. Os escândalos de pedofilia e se abusos inomináveis a jovens meninas, atestados nos arquivos de Epstein, envolvendo o presidente Trump e outros, nos testemunham o nível da degradação humana.

Somos os últimos dos seres portadores de inteligência reflexa a entrar no processo da evolução, no derradeiro minuto antes da meia-noite, se reduzirmos a idade do Universo (13,7 bilhões de anos) ao calendário de um ano. Será que ainda temos a chance de fazer predominar a bondade sobre a brutalidade, o cuidado sobre a destrutividade de nosso modo de viver?

Um insano como o presidente Donald Trump ameaça usar seu poder militar para submeter todos os países, com o risco de eliminar, por uma guerra nuclear, a vida humana. Ou, por sua incontida vontade de poder letal, seria aquele representado como Anticristo, o inimigo da vida, que poria fim à saga humana?

Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.



Festival: Jazz & Blues

FESTIVAL JAZZ & BLUES

CEARÁ

Descubra a magia do jazz e blues na serra!!

Pingo de Fortaleza e Maracatu Solar


O Festival Jazz & Blues de Guaramiranga, no Ceará, chega à sua 27ª edição em 2026. O evento gratuito acontece de 14 a 17 de fevereiro (durante o Carnaval) e reúne atrações cearenses, nacionais e internacionais, com apresentações que vão do jazz e blues a gêneros regionais e outras vertentes da música brasileira.


Atrações do festival

BANDAS E ARTISTAS