Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 13 de outubro de 2026

Tom Zé


TOM ZÉ
' o cientista da música brasileira '

Pequenos detalhes sempre mexeram com a cabeça de Antonio José Santana Martins, nascido em 11 de outubro de 1936, em Irará, interior da Bahia, a 120 quilômetros de Salvador: Como ensinar a irmã mais nova a andar de bicicleta descrevendo cada movimento conjunto do mecanismo? Como é que sinais viram letras e essas letras geram significados? A curiosidade sempre fez parte da vida de Tom Zé: tudo remoía seu pensamento, o mundo propunha problemas e alumbramentos.
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História em Cronologia Artística

Aprendeu a gostar de música ainda pequeno, ouvindo Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, samba-de-roda e os grandes cantores do rádio. Numa gaitinha, descobriu a maravilha de converter sopro em som e conseguiu tirar algumas poucas notas de Asa branca. Aos 17 anos, descobriu o violão e sua vida mudou. Ainda na adolescência, descobriu Os sertões, de Euclides da Cunha, que lhe mostrou com uma amplitude nova o que eram ele e a gente do Nordeste do Brasil, assumindo uma importância definitiva no seu pensamento.

Logo depois a música se tornou mais central em sua vida e ele compôs uma canção para o filme Jana e Joel, enquanto ainda morava em Irará. Em 1961 Tom foi trabalhar numa loja de presentes aberta pela família, mas por influência de sua tia Gilka, esposa do tio e deputado Fernando Santana, mudou-se para Salvador para se iniciar profissionalmente como músico. Logo depois tornou-se diretor de música do CPC (Centro Popular de Cultura), onde ficou até 1964. 

Aos 26 anos, em 1962, passou em primeiro lugar no vestibular da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. Teve o privilégio de ser aluno da nata da vanguarda musical européia, como H. J. Koellreutter e Ernst Widmer. Na universidade, foi um dos membros fundadores do Grupo de Compositores da Bahia (música erudita). Ainda em 1962, o jornalista Orlando Senna apresentou-o a Caetano Veloso.

Em 1964 participou do show Nós, por exemplo e Nova bossa-velha & velha bossa-nova, com Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, entre outros, que foram a semente do grupo tropicalista. Com o sucesso das apresentações, os artistas foram convidados para criar outro show no Teatro de Arena de São Paulo, intitulado Arena canta Bahia.

O ano era 1965. Tom Zé veio com Caetano para São Paulo, chegando em 11 de agosto. Apesar do êxito dos músicos baianos no eixo Rio-São Paulo, Tom Zé quis terminar seus cursos na UFBA; afinal, ganhara uma bolsa de estudos na universidade, ao pretender deixá-la por falta de recursos. Voltou para Salvador e continuou a estudar, trabalhando também como jornalista no Jornal da Bahia. Só em 1968 viria definitivamente para São Paulo.

Em 1967, depois de se formar, foi professor de Contraponto e Harmonia na própria Escola de Música e violoncelista da Orquestra Sinfônica e da Orquestra de Estudantes da universidade. Em 1968, em São Paulo, Tom Zé foi levado por Caetano a Guilherme Araújo, empresário do chamado “grupo baiano”. Guilherme sugeriu que ele, ainda conhecido pelo apelido de infância Toinzé, adotasse o nome artístico de Tom Zé. Nesse ano, o artista venceu o 4o. Festival de Música Popular Brasileira com a canção São São Paulo meu amor, ganhando ainda o prêmio de melhor letra com 2 001, parceria com Rita Lee que recebeu a interpretação dos Mutantes. 

Ainda em 68 os músicos baianos lançaram Tropicália – Panis et circensis, disco provocador, que pôs em questão a MPB. Tom participou com a faixa Parque industrial, uma crítica aos meios de comunicação de massa. Para fechar o grande ano, Tom Zé lançou seu primeiro disco epônimo, subtitulado Grande liqüidação, composto entre abril e junho. Entre os destaques, Profissão de ladrão, Catecismo, creme dental e eu, Parque industrial, Não buzine, que eu estou paquerando. Os títulos revelam o conteúdo de reflexão sobre a vida urbana, sobre a acelerada transformação de costumes na vida brasileira. 

Em 69, com Gal, Tom Zé apresentou o show O som livre de Tom Zé e Gal Costa, em São Paulo e no Rio de Janeiro.O Tropicalismo permitiu que Tom Zé levasse para o movimento sua forma de compor, sua ruptura de padrões, que juntavam o folclore riquíssimo do sertão baiano, um certo primitivismo atemporal e uma elaboração extremamente avançada, à frente de seu tempo. “Procuro fazer a antimúsica, porque se é pra fazer o que já está feito…”, dizia ele então e e diz até hoje. Isso tornou sua produção difícil de classificar, os rótulos não se colam a ela de maneira precisa, propõe problemas críticos e de conceituação.

Seu quarto disco, Todos os olhos, de 1973, comprova essa dificuldade de classificação e mostra o que Tom Zé buscava. Sem ter como enquadrar sua música, as emissoras de rádio se afastaram e levaram Tom Zé ao esquecimento por parte do grande público. Pelos próximos 17 anos sobreviveu fazendo shows em universidades pelo Brasil. Em 1975, trabalhou como ator e cantor na peça Rocky horror show, dirigida por Rubens Correia, no Teatro da Praia (Rio de Janeiro). Lançou ainda, no final da década de 70, os discos Estudando o samba(76) e Correio da Estação do Brás (78). Trabalhou alguns meses na agência publicitária DPZ.

Em 1978, em pleno ostracismo, deu um grande passo artístico, colocando sobre o palco do Teatro da Fundação Getúlio Vargas, num show memorável, os instrumentos que construiu, como o hertzé, o enceroscópio e o buzinório. O primeiro, o hertzé, antecipou o que seria, em concepção geral, o sampler.

Vende casa para desenvolver instrumentos experimentais, numa evolução musical que se estendeu por anos. Em 1984, lança Nave Maria (RGE), ponto de partida para novos caminhos musicais posteriores.

Quando Tom Zé se preparava para deixar a carreira musical, por dificuldade de sobrevivência, o músico David Byrne, de passagem pelo Rio de Janeiro, descobriu o disco Estudando o samba e, ao fundar o selo Luaka Bop em Nova York, teve Tom Zé como seu primeiro contratado. O cd The best of Tom Zé foi listado, em seu lançamento, entre os melhores discos do ano de 1990, pelo jornal The New York Times. 

Em 99 a revista Rolling stone o colocou entre os melhores discos da década. A renomada companhia de dança brasileira, o Grupo Corpo, tem dois brilhantes trabalhos de Tom Zé entre suas trilhas sonoras especialmente compostas: Parabelo (parceria com José Miguel Wisnik, 1997) e Santagustin (parceria com Gilberto Assis, 2001). Com defeito de fabricação, cd de 1998, projetou o compositor também como performer numa turnê americana. As turnês européias confirmavam autor e repertório como alvo de interesse do público e da grande crítica internacional. O cd recebeu remixes de artistas como Sean Lennon, Tortoise e Stereo Lab.

Em 2000 veio Jogos de armar, da Trama, primeiro lançamento por uma gravadora brasileira depois de mais de 20 anos. Nele estão registrados, finalmente, seus instrumentos experimentais e ousadias formais que o colocam mais uma vez como desafio à criatividade musical de seu tempo. Enceradeiras e cantos de lavadeiras nordestinas, expressões verbais contundentes e sonoridades remetendo a Cage e música medieval, recursos costurados numa força brasileira explosiva. Próximos cds: Imprensa Cantada, expressando o artista chama de jornalismo cantado, quando os acontecimentos do presente são o motor das composições. 

No próximo disco, uma opereta popular, Estudando o Pagode* – Segregamulher e Amor, as relações entre homem e mulher tomam a frente, sob a forma de duetos/duelos rítmicos e provocativos. O disco Danç-Êh-Sá – Dança dos Herdeiros do Sacrifício tem como tema rebeliões e levantes das populações negras e indígenas do Brasil, não muito destacados pela história oficial. Tom Zé “fala” desses acontecimentos num disco eminentemente musical, fortemente rítmico, cujas vocalizações são formadas unicamente por onomatopéias e sonoridades verbais, sem recorrer a versos explícitos. “Somos um país negro, somos herdeiros do trabalho e da cultura dessa raça que nos formou”, diz Tom Zé, falando sobre o Brasil. O cd foi escolhido, numa votação popular, como o melhor de MPB em 2007. 

Em 2008, lançado Estudando a Bossa, participações de Fernanda Takai, Arnaldo Antunes e outros artistas, pensamento musical de um tropicalista admirador da bossa nova. Em 2009, Pirulito da Ciência, cd e dvd ao vivo cuidadosamente elaborados por Charles Gavin (produtor, ex-Titãs), reunindo canções expressivas da carreira de Tom Zé.

Em 2010, a Luaka Bop (New York) lança a caixa Studies of Tom Zé – Explaining things so I can confuse you”, lps e cds agrupados pela aprovação da crítica internacional. Em 2012, Tropicália Lixo Lógico, apoio do projeto Natura Musical, define musicalmente o Tropicalismo. Participação de Emicida, Mallu Magalhães; Tribunal do Feicebuqui lançado em 2013, formato discográfico pouco usual, importantes participações.

Em 2014, Vira lata na Via Láctea, primeira parceria em canção de Tom Zé e Caetano Veloso. O artista compara o disco a templos românicos, em que pluralidade de ângulos se casa, musicalmente, à pluralidade de enfoques musicais das canções. 2015: nos E.U.A., site Pitchfork designa Nave Maria como marco musical dos anos 80. Em 2016, lançado Canções eróticas de ninar, que ganha o Prêmio de Música Popular Brasleira. No mesmo ano, Tom Zé lança, com parceria do desenhista Elifas Andreato (que prefere essa qualificação, recusando a de designer), o disco para crianças Sem você não A. Estimulante para a participação e a acuidade infantil, como se comprova no show do disco apresentado no Sesc Pinheiros. 


Ainda em 2016: Prêmio de melhor show da década em Portugal. Festivais WOMAD (Chile) e MIMO (Portugal). Olimpíada encerrada com Xique-Xique, pelo Grupo Corpo. Lança o disco Canções eróticas de ninar. 2017: Prêmio Faz a diferença, Música – O Globo. Exposição Tom Zé 80 anos (completados em 2016), em Salvador e Petrópolis. Prêmio música brasileira: melhor disco (Canções eróticas de ninar) e melhor canção (Descaração familiar). Lança disco infantil Sem você não A, parceria com Elifas Andreato. 

Em 2018 Tom Zé vai aos E.U.A. para conferências sobre seu trabalho, nas New York e Brown University. Exposição Tom Zé 80 anos – São Paulo. Conferências nos E.U.A., na New York University e na Brown University, sobre seu trabalho musical. Em 2019 destacam-se o Moers Festival de Vanguarda (Alemanha). Itália, lançamento da biografia Tom Zé – l’ultimo tropicalista, de Pietro Scaramuzzo. Japão, apresentações em Tóquio e no Frue Festival, em Shizuoka. Ovacionado com entusiasmo pela habitualmente comedida plateia japonesa, que o saudou calorosamente, não poupando troca de abraços não habitual no país. 

Marcante vivência artística e humana. Ressalte-se, por oportuno, ser Tom Zé o compositor que, segundo o pesquisador Assis Ângelo, mais canções compôs para São Paulo, cidade onde vive há décadas. No livro “Bertolt Brecht – Poesia” – compilação e tradução de André Vallias, a página 63 menciona Tom Zé como “o mais brechtiano dos tropicalistas”, exemplificando com sua canção “Tô”.


Tom Zé: Jesus, Floresta Amazônica

Tom Zé
' Jesus, Floresta Amazônica '

A ideia da canção em que Jesus Cristo, em uma segunda encarnação, renasce como Floresta Amazônica, passa também, de raspão, por um incidente curioso. Felipe Hirsch foi comigo à direção do Sesc, quando Danilo a exercia. Em alguns segundos, brevíssimo tempo, comentei com Danilo que queria fazer uma canção na qual Cristo escolhe renascer como floresta. Numa segunda encarnação. 

Casualmente, naquele momento Danilo estava sozinho na mesa, mas a maneira como ele olhou para os lados, foi como se me dissesse: “Você tem que guardar essa ideia em profundo segredo, até lançar a música”. Só agora, passados 3 anos, depois dos problemas da pandemia, eu consegui juntar forças para compor a canção com esse assunto. Está aqui, lançamos agora. Portanto esta canção, Jesus, Floresta Amazônica, pode ser considerada também uma homenagem ao saudoso Danilo, o mentor, através do Sesc, de uma metamorfose ampla na nossa cultura, como afirma Washington Olivetto. - Assinado: Tom Zé.

 Ficha Técnica

Mixagem: Tom Zé e Daniel Maia 
Masterização: Daniel Maia 
Tom Zé: voz 
Daniel Maia: violões e guitarras 
Cristina Carneiro: teclados 
Felipe Alves: baixo 
Fabio Alves: bateria e percussão 
Andreia Dias, Luanda Lemos, Jarbas Mariz e Daniel Maia: vocais


Letra

Salvar a humanidade Com riso ou com sacrifício Bate com majestade No peito de Jesus Cristo. Raio de forte clarão Subiu pela Sua testa Na segunda encarnação Voltará como floresta. Ele trouxe a biomimética A floresta que tem ética Que de ouro enche a maleta Sem destruir o planeta E ainda será uma modesta poupança Com umas moedas na gaveta Se livra da morte na sarjeta. 

Ôi, ôi Jesus 
Ôi, ôi amém 
Ôi, ôi, ah ah amém. 

Ôi, ôi Jesus 
Ôi, ôi amém 
Ôi, ôi, ah ah amém. 

Foi por demais precioso O cabedal que Ele trouxe Quando Jesus piedoso Na Amazônia encarnou-se. Da Amazônia coitada Não ficaria nem pista Tão longe de Deus Tão perto da onda vigarista Mas o Papa Francisco Gritou o nome de Cristo: Temos tempo pra salvar Então vamos todos lutar. 

Quando Jesus milagriza Entorta o espaço-tempo De madrugada já pisca Rascunho do testamento. O estilo de vida ocidental É como o diabo gosta O rico só quer o lucro A riqueza sobre tudo Se você quer respirar O ar sem o CO2 Lute com uis! e ois! Nunca deixe pra depois. 

Quando Ele se manifesta O amor já me sequestra Na alegria da floresta A oração vira festa. Agora a mineração Que faz de tudo um deserto Destrói a casa do índio Saúde vira um inferno Com mercúrio mata o peixe Comida que Deus nos deu Se a gente não lutar Nem Cristo pode salvar.

A Natureza nos (re)Conectando: Indígenas Isolados da Civilização.

Vestígios 
| A vida dos indígenas isolados no coração da Amazônia |
| Documentário |

No coração do sul do Amazonas, um grupo de cerca de cem pessoas nunca teve contato com o mundo moderno. São os isolados do Mamoriá Grande — caçadores-coletores do tronco Arawá cuja existência foi comprovada apenas em 2021. 

Em novembro de 2024, o jornalista Leão Serva e o fotógrafo Rogério Assis acompanharam uma expedição sigilosa da Funai à Terra Indígena Mamoriá Grande. O objetivo era ler os sinais que eles deixam para trás: redes, fogareiros, cerâmicas, galhos quebrados. Um relatório escrito na floresta.

O documentário Vestígios — A História dos Isolados do Mamoriá Grande narra essa jornada de mais de duas semanas pelo rio Purus, revelando as ameaças que cercam esses povos — garimpo, grilagem, missões religiosas — e o delicado trabalho dos indigenistas que protegem seu direito de permanecer invisíveis.



segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Jimmy Burns


Jimmy Burns 
' sotaque do Mississippi com o pulso de Chicago ' 

Burns é um guitarrista, cantor e compositor estadunidense de R&B e blues elétrico. Embora tenha nascido no Delta do Mississippi, Burns passou quase toda a sua vida em Chicago. Ele é irmão mais novo de Eddie "Guitar" Burns, outro músico de blues de Detroit.
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Biografia

James Olin Burns nasceu em 27 de fevereiro de 1943, em Dublin, Mississippi, e cresceu na plantação de algodão Hilliard, onde aprendeu a tocar violão de uma e doze cordas. Ele era o caçula de onze irmãos. Cantava no coral da igreja quando ainda morava no Delta e foi influenciado pelo blues que ouvia nas ruas. Seu músico de blues favorito era Lightnin' Hopkins. O pai de Burns era meeiro e se apresentava como cantor em shows itinerantes. 

Ainda criança, Jimmy começou a aprender guitarra. A mudança da família para Chicago, em meados dos anos 1950, colocou o jovem músico diante de um universo sonoro diferente. Na cidade, entrou em contato com grupos vocais e participou dos Medallionaires, que gravou algumas faixas de doo-wop, enquanto o soul e o R&B ganhavam cada vez mais espaço entre os jovens artistas negros de Chicago.

Essa passagem pelo soul é fundamental para compreender o estilo de Burns. Embora seja frequentemente identificado como um bluesman de Chicago, sua música nunca ficou limitada a uma única escola. O Delta que conheceu no Mississippi encontrou em Chicago o peso da guitarra elétrica, enquanto o soul e o R&B acrescentaram ao seu canto uma dimensão mais melódica e sofisticada.

Gravando principalmente solo na década de 1960, Burns lançou singles pelos selos USA, Minit, Tip Top e Erica. Ele fez turnês pelo Meio-Oeste com seu grupo de apoio, o Fantastic Epics, e com outro grupo chamado Jimmy Burns and the Gas Company até o início da década de 1970. O single de Burns de 1972, "I Really Love You", foi nomeado entre os 500 melhores singles de Northern Soul em 2000, e é procurado por colecionadores. Burns fez uma longa pausa na indústria musical após o início dos anos 1970 para criar sua família e administrar uma churrascaria.

Ele se apresentou esporadicamente até o início da década de 1990, quando iniciou uma longa residência no Smokedaddy Club de Chicago. Foi lá que o chefe da Delmark Records, Bob Koester, ouviu Burns se apresentar pela primeira vez e concordou em gravá-lo depois de ouvir apenas uma apresentação.

Leaving Here Walking: o reencontro com o mundo.

O retorno ganhou uma dimensão definitiva em 1996, quando a Delmark Records lançou Leaving Here Walking. Aos 53 anos, Burns finalmente apresentava um álbum completo que reunia sua identidade como cantor, guitarrista e compositor.

O disco é importante não apenas por marcar sua estreia em longa duração, mas porque sintetiza a amplitude de seu universo musical. A faixa-título convive com canções como “Twelve Year Old Boy”, “Miss Annie Lou”, “Whiskey Headed Woman”, “One Room Country Shack”, “Rollin’ and Tumblin’” e “Catfish Blues”.

O resultado é um blues que não tenta escolher entre Mississippi e Chicago. Burns faz justamente o contrário: aproxima as duas tradições. Seu canto tem a força narrativa do Delta, enquanto sua guitarra e seus arranjos revelam a experiência adquirida durante décadas de convivência com o soul e o R&B.

Leaving Here Walking tornou-se, assim, a porta de entrada para uma nova fase de sua carreira. O álbum foi seguido por trabalhos como Night Time Again, Back to the Delta, Live at B.L.U.E.S., Stuck in the Middle e, mais tarde, The Chicago Sessions.

Jimmy Burns tocou guitarra no álbum Snake Eyes de seu irmão Eddie, lançado em 2002. A esposa de Burns, Dorothy, morreu em 12 de fevereiro de 2010. Eles tiveram seis filhos.

A relação de Jimmy Burns com o Brasil é de muita proximidade. O bluesman já esteve se apresentado no país participando do Dipanas Blues em 2015 e retornou ao festival para sua 14ª edição, realizada em 15 de agosto de 2026, em Pará de Minas (MG), novamente acompanhado pela Bruno Marques Band. A conexão com Bruno Marques é parte importante dessa história. Guitarrista, produtor cultural e responsável pelo projeto Rota do Blues, Marques vem trabalhando há anos na aproximação entre músicos norte-americanos e a cena brasileira.

A força de Jimmy Burns está justamente nessa capacidade de transitar entre diferentes territórios do blues. Sua música carrega o sotaque do Mississippi, mas também o pulso urbano de Chicago. O soul aparece no fraseado vocal; o R&B surge na construção das canções; e a guitarra mantém viva a tradição dos bluesmen que vieram antes dele.

Álbuns de estúdio:

- Leaving Here Walking (1996) – Delmark / P-Vine
- Night Time Again (1999) – Delmark
- Back to the Delta (2003) – Delmark
- Stuck In The Middle (2011) – Velrone
- It Ain't Right (2015) – Delmark
- Full Circle (2025) – Delmark

Álbum ao vivo:

- Live at B.L.U.E.S. (2007) – Delmark

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domingo, 11 de outubro de 2026

Paul Kossoff

PAUL KOSSOFF
' um alquimista de timbres '

Existem guitarristas que conseguem tocar mais notas do que Paul Kossoff. Existem guitarristas que conseguem tocar mais rápido, com mais precisão, com maior alcance técnico e maior fluência em diversos gêneros. Nenhum deles, porém, jamais conseguiu fazer com que uma única nota sustentada soasse da mesma forma que Kossoff conseguia.

Ele tinha 20 anos, estava em um palco no Festival da Ilha de Wight diante de cerca de 600.000 pessoas, segurando uma Les Paul que havia sido reduzida à madeira crua — e tocava como um homem com o dobro da sua idade que já havia sobrevivido a algo terrível.

Esse é Paul Kossoff. Um metro e meio de altura, dolorosamente tímido fora do palco, uma força de proporções geológicas quando ligava o instrumento. Enquanto Eric Clapton e Jimmy Page colecionavam capas de revistas, Kossoff fazia algo que nenhum dos dois conseguia replicar completamente: ele fazia cada nota soar como se fosse a última que ele tocaria.

O vibrato. O sustain. A maneira como ele se entregava a um bend e o mantinha ali enquanto os amplificadores Marshall pressurizavam a sala ao seu redor. Angus Young o citou. Joe Bonamassa construiu uma carreira buscando ecos de seu timbre. Gary Rossington, do Lynyrd Skynyrd, disse sem rodeios: “Paul Kossoff foi uma grande influência. Aliás, para qualquer pessoa interessada em guitarra blues pesada naquela época, Paul era uma grande influência.”

Ele morreu aos 25 anos. Deixou para trás alguns discos e um timbre de guitarra que ninguém jamais conseguiu replicar completamente.

Este é o equipamento dele. Esta é a história por trás do som. E é por isso que ele ainda importa.
Contexto: Seis anos de violão clássico, uma noite com Clapton e tudo mudou.

Paul Francis Kossoff nasceu em 14 de setembro de 1950 em Hampstead, Londres, em uma família ligada ao teatro. Seu pai, David Kossoff, era um ator britânico renomado. A família era culta, intelectual e provavelmente não esperava produzir um dos guitarristas de blues-rock mais autênticos que a Inglaterra já viu.

Aos nove anos, Kossoff começou a ter aulas de violão clássico com Blanche Monroe. Estudou por seis anos — até os quinze — desenvolvendo a base técnica de controle dos dedos, disciplina de fraseado e consciência tonal que mais tarde se tornariam a espinha dorsal de seu estilo elétrico. Essa formação clássica não é mera nota de rodapé. Ela explica a precisão de seu vibrato, a economia na escolha das notas e a maneira como cada frase soa completa e ponderada, em vez de improvisada e descuidada.

Em dezembro de 1965, tudo mudou. Kossoff assistiu a um show de Eric Clapton com os John Mayall's Bluesbreakers no The Refectory, em Golders Green, noroeste de Londres. Ele tinha 15 anos. O que ouviu naquela noite transformou completamente sua mente. Saiu de lá querendo uma Gibson Les Paul — a mesma guitarra que Clapton estava tocando — e logo começou a trabalhar na loja de música Selmer's, na Charing Cross Road, juntando dinheiro para comprar a original.

Sua primeira Gibson foi uma Les Paul Junior de 1957 na cor TV Yellow — a mais barata que ele conseguiu encontrar. Depois veio uma Les Paul Custom de 1954 com dois captadores P-90, supostamente pertencente ao próprio Clapton. Kossoff passava horas debruçado sobre ela, transcrevendo riffs de blues, estudando cada bend, slide e vibrato que conseguia encontrar em gravações.

Em 1966, ele formou a banda de blues Black Cat Bones, que começou a se apresentar nos clubes de Londres. A banda fazia shows de abertura para o Fleetwood Mac regularmente, e Kossoff passava horas improvisando com Peter Green — outro guitarrista cuja economia e profundidade emocional deixariam uma marca permanente em sua abordagem. Na plateia de um show do Black Cat Bones, o baterista Simon Kirke ouviu algo que estava procurando e abordou Kossoff no bar depois.

Em abril de 1968, Kossoff e Kirke juntaram-se ao vocalista Paul Rodgers e ao baixista Andy Fraser para formar o Free. Kossoff tinha 17 anos. Ele tocava guitarra elétrica havia apenas dois anos. Mas soava como se fizesse isso há vinte.

Paul Rodgers, que ouviu Kossoff tocar pela primeira vez em um clube de blues em Finsbury Park, descreveu a experiência com precisão: “Ele trouxe o violão e fizemos uma jam session — uma jam de tirar o fôlego. Tocamos 'Stormy Monday Blues', B.B. King e algumas outras músicas, e foi como se o tempo tivesse parado. Quando saímos do palco, eu disse a ele: 'Cara, precisamos formar uma banda.'”

O vibrato — a assinatura inconfundível.

Esse é o mistério central de sua forma de tocar, e tudo começa com o vibrato.

O vibrato de Kossoff é uma das técnicas mais discutidas e menos imitadas na história da guitarra rock. É rápido — excepcionalmente rápido para um guitarrista de sua época, cuja maioria preferia um vibrato amplo e lento, na tradição de B.B. King. Mas também é controlado: não um tremor nervoso ou uma oscilação aleatória, mas uma oscilação deliberada e ritmicamente precisa que adiciona uma qualidade vocal, quase chorosa, às notas sustentadas.

Ele usava o dedo indicador para o vibrato, complementando-o com o anelar para maior força e controle. Em suas próprias palavras: “Eu faço o trinado com o indicador, o médio e o anelar, e o bend principalmente com o mínimo. Uso o indicador para o vibrato.” Essa não é a abordagem padrão do blues (que normalmente usa o anelar para o vibrato enquanto o indicador pressiona a corda). É uma técnica que ele desenvolveu, refinada ao longo de anos de prática deliberada, e que produz uma qualidade de movimento distintamente diferente — mais rápida, mais precisa, mais incisiva.

Simon Kirke descreveu isso simplesmente como a capacidade de "chorar cada nota". Essa é uma descrição tão precisa quanto qualquer análise técnica.

Nota sobre o tom: Seu vibrato nunca foi mero enfeite. Era o conteúdo emocional da frase, transmitido através da técnica física.

Guitarras: Burst, Customizadas e aquela que mudou de mãos com Clapton.

A história dos equipamentos de Kossoff é enganosamente simples à primeira vista — Les Paul, Marshall, e pronto — mas por trás desse resumo de três palavras reside uma história surpreendentemente detalhada de guitarras específicas com histórias específicas, escolhas de amplificadores que variaram mais do que a mitologia sugere, e um músico obcecado por vibrato que trabalhou mais no timbre do que a maioria das pessoas imagina.

As primeiras guitarras: Construindo rumo a  explosão.

Antes das famosas Les Pauls, houve uma série de instrumentos que contam a história de um adolescente trilhando seu caminho até a guitarra que o definiria. Primeiro, uma guitarra elétrica Eko 500 barata — sua primeira guitarra, com o que ele descreveu como um "acabamento dourado sem graça". Depois, a Les Paul Junior amarela, comprada após meses de economias do emprego na Selmer's. Em seguida, a Les Paul Custom de 1954 com captadores P-90 — supostamente pertencente a Clapton — que ele tocou durante seus anos com o Black Cat Bones e nos primeiros dias do Free.

A Custom apresentava um captador single-coil P-90 na ponte e um P-90 Alnico "clássico" na posição do braço. Não era o som de humbucker que ele buscava — ainda pendia mais para o lado do jazz no espectro tonal — mas o levou aos shows e o ensinou sobre a arquitetura da guitarra enquanto ele juntava dinheiro para algo melhor.

A “Kossoff Burst” — A Gibson Les Paul Standard de 1959.

Na primavera de 1969, Kossoff adquiriu uma Gibson Les Paul Standard sunburst de 1959. As circunstâncias exatas da aquisição não são claras — provavelmente uma troca, considerando suas finanças limitadas na época — mas o que aconteceu em seguida com aquela guitarra é uma das histórias de instrumentos mais documentadas e mitificadas da história do rock britânico.

Em algum momento no início de sua posse, Kossoff — ou possivelmente um proprietário anterior — removeu o acabamento sunburst do tampo de maple até expor a madeira crua e aplicou uma camada transparente. O resultado foi o que ficou conhecido como "Stripped Top" ou "Kossoff Burst" — uma Les Paul Standard com acabamento natural que exibia o tampo de maple figurado em toda a sua glória. A parte traseira conservava vestígios do acabamento marrom, e resíduos de laca vermelha na cavidade dos controles indicam que a guitarra originalmente tinha um acabamento sunburst.

Esta é a guitarra vista no Festival da Ilha de Wight em 30 de agosto de 1970, onde o Free se apresentou para um público estimado entre 600.000 e 700.000 pessoas, ao lado de bandas como The Who e Jimi Hendrix. É quase certo que seja a guitarra ouvida em “All Right Now”. E seus captadores PAF — com resistência de 8,52 kΩ no braço e 7,43 kΩ na ponte, com raros ímãs de Alnico III — são uma parte significativa do motivo pelo qual esse timbre soa da maneira que soa. Aberto, dinâmico, harmonicamente complexo e responsivo ao mais leve toque de vibrato.

A história da guitarra torna-se trágica a partir de 1974. À medida que o vício em drogas de Kossoff se intensificava, ele foi forçado a vender instrumentos para sustentar o seu vício. A Kossoff Burst foi vendida a um homem chamado Mike Gooch por £500 em setembro de 1974 — com os trastes tão desgastados que o pai de Gooch o repreendeu severamente por gastar tanto dinheiro numa guitarra tão velha. Kossoff tentou, sem sucesso, comprá-la de volta em 1975. Ele morreu em 1976 sem a ter recuperado.

Em 2012, a Gibson recriou a guitarra como uma edição limitada da Paul Kossoff 1959 Les Paul Standard, utilizando sua própria análise do instrumento original — incluindo os captadores Alnico III PAF — para capturar a ressonância e o caráter tonal específicos que a tornaram lendária.

Nota sobre o timbre: A remoção da camada de verniz original não é apenas estética. A alteração na ressonância da madeira a tornou mais aberta, mais responsiva, mais vibrante. O melhor timbre de Kossoff pode ter sido, em parte, acidental.

O “Darkburst” de 1958 — The Clapton Trade.

Por volta de julho ou agosto de 1969 — enquanto o Blind Faith estava em sua fatídica turnê pelos EUA — Kossoff trocou sua Les Paul Custom de 1954 com Eric Clapton por uma Les Paul Standard de 1958 com acabamento dark sunburst. O modelo exato da guitarra que Clapton recebeu é debatido desde então: Clapton mais tarde deu uma Les Paul Custom de três captadores para Albert Lee por volta de 1979, mas nunca foi comprovado conclusivamente se era a Custom de Kossoff ou um instrumento diferente.

O que fica claro é que o acabamento darkburst de 1958 tornou-se parte do arsenal de Les Pauls de Kossoff durante a era de "Fire and Water and Highway", adicionando mais um toque do timbre PAF do final dos anos 50 à sua paleta de estúdio. As Les Pauls darkburst de 1958 tendem a ter um caráter ligeiramente mais quente e escuro do que as flame tops mais brilhantes de 1959 — diferentes graus de ímãs Alnico, diferentes tensões dos fios no enrolamento dos captadores, variações sutis que se somam a uma sonoridade perceptivelmente diferente.

A Les Paul "Stripped Top" — A guitarra da Ilha de Wight.

Separada da Kossoff Burst acima — ou possivelmente a mesma guitarra, dependendo da versão que você consultar — existe a Les Paul com acabamento natural simplificado que Kossoff tocou na Ilha de Wight e usou na apresentação de "All Right Now" no programa Top of the Pops. 

Seu ano exato de fabricação (1958, 1959 ou 1960) permanece incerto devido à perda do número de série durante um processo de restauração. Kossoff vendeu esta guitarra em setembro de 1974 por £500 para Mike Gooch, que mais tarde a vendeu para Arthur Ramm por £1.000. Seu atual proprietário permanece anônimo.

A “Kossoff Burst” de 1959 — A guitarra quebrada e trocada.

Uma segunda Les Paul Standard de 1959 documentada, que fazia parte da coleção de Kossoff, teve um fim dramático. Ao término do último show do Free em 1972 — a noite em que a banda efetivamente se separou — Kossoff jogou a guitarra para o alto e se afastou enquanto ela caía, rachando o headstock. Ele então foi até Arthur Ramm, cuja banda Beckett havia sido a banda de abertura, e trocou a Les Paul de 1959 danificada pela Les Paul Goldtop de 1968 de Ramm, que estava no camarim. A Burst quebrada foi consertada pelo luthier londrino Sam Li, mas o conserto infelizmente fez com que o número de série original do headstock fosse perdido.

A Les Paul Custom de 1954 (Black Beauty) — A guitarra de Clapton.

Essa era a guitarra mais valiosa de Kossoff durante seus anos com o Black Cat Bones e os primeiros tempos do Free. Uma Custom pré-humbucker equipada com captadores P-90 — supostamente pertencente a Clapton — ela lhe proporcionava um timbre mordaz, com influências de jazz, que contrastava com o som mais encorpado das Standard sunburst. Ele acabou trocando-a com Clapton pela darkburst de 1958 em 1969.

Outras guitarras na coleção de Kossoff

Gibson ES-335 (braço em bloco, década de 1960) — Usada durante a era Fire and Water para timbres específicos em camadas; contribui com o caráter quente de guitarra semiacústica audível em certas faixas do álbum Free.

Gibson Les Paul Custom (meados da década de 1950, três captadores) — Uma Custom preta de três captadores usada separadamente, juntamente com as Bursts, durante as gravações de Tons of Sobs com amplificadores Marshall e Laney.

Fender Stratocaster (Branca, composta) — Um braço de Stratocaster de 1957 em um corpo de 1960 com captadores de 1964 e um escudo verde-menta. Usada no videoclipe de “My Brother Jake” (1970) e na capa de seu álbum solo Back Street Crawler. Esta é provavelmente a guitarra que Dave Murray, do Iron Maiden, comprou posteriormente por £1.400 em 1976 — um fato que diz tudo sobre o calibre dos instrumentos que Kossoff possuía.

Les Paul Burst (1958–1960) — Kossoff possuía e tocava várias 'Bursts ao longo de sua carreira, uma tigerstripe de 1958/59 usada com Black Cat Bones, uma sunburst vermelha brilhante de 1960 (vista no vídeo de “The Stealer”) e outras que passaram por suas mãos à medida que o vício o forçava a vendê-las.

Gibson Hummingbird / Guild Acoustic — Violões usados ​​para compor músicas. Em sua última entrevista para a revista Guitar Player, em 1976, ele mencionou um violão Guild que ganhou dos membros do Back Street Crawler quando estava doente, e que ele considerava o melhor violão que já havia possuído.

Gibson Les Paul Junior (TV Yellow, 1957) — Sua primeira Gibson de verdade, comprada com a economia que fez na Selmer's.


Amplificadores e Gabinetes: Marshalls, Laneys e autorais.

Durante a maior parte da carreira de Free, o amplificador de palco de Kossoff era um Marshall. 
É sabido que Kossoff e seu pai, David, construíram um de seus gabinetes Marshall sozinhos. David Kossoff, o célebre ator britânico, aparentemente ajudou o filho a construir um gabinete de alto-falante — um detalhe que humaniza consideravelmente ambos.

Nota sobre o timbre: Cabeçote Super Bass, alto-falantes de graves. É mais encorpado, escuro e cheio do que a configuração padrão de guitarra da Marshall. Isso não é por acaso — é a arquitetura do timbre de All Right Now.

PAUL KOSSOFF
Era o Espaço — Menos Como Declaração. 

O Free era um quarteto com dois dos melhores músicos do rock britânico: Andy Fraser (baixo) e Paul Rodgers (vocal). Kossoff compreendeu intuitivamente que seu papel não era preencher todas as frequências disponíveis, mas sim ocupar o espaço deixado pelos outros três e fazer com que esse espaço fosse relevante.

Seus solos são modelos de contenção. Ouça “All Right Now”, “Mr. Big”, “Fire and Water” — as linhas de guitarra são melódicas no sentido de composição, não no sentido de improvisação. Ele não está tocando escalas. Ele está cantando. Cada frase tem um início, desenvolvimento e resolução claros. Ele chega a uma nota, aplica o vibrato, a sustenta por um tempo que parece uma eternidade, e então passa para a próxima.

Essa abordagem ao espaço — deixando espaço entre as frases, permitindo que o amplificador respire, deixando que as notas sustentadas completem seu decaimento natural antes da próxima — cria a qualidade hipnótica e pressurizada que define o melhor material do Free. É fraseado de blues no sentido mais profundo: não rápido, não agitado, não demonstrativo. Simplesmente verdadeiro.

"Kossoff compreendeu que o silêncio entre as notas não é ausência. É tensão. E é a tensão que dá importância à próxima nota"