Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

terça-feira, 21 de outubro de 2025

Jazz: Jimi Oliver

Jimi Oliver 

Midnight Vohage 
( Michael Brecker) 
Ao vivo

Com mais de 20 anos de experiência, Jimi Oliver encanta plateias no Brasil e no mundo com sua música instrumental de interpretação marcante, que celebra a diversidade sonora do jazz contemporâneo e da música brasileira. 

Mineiro, do Vale do Jequitinhonha, começou a tocar ainda criança influenciado pelo pai. No álbum Face to Face, criado durante sua internação para tratamento da covid-19, Jimi transforma dor em arte e mostra como a música pode curar.


Show ao vivo realizado em Brasília, na casa Thomas Jefferson. 
Banda:
Jimi Pliver - Guitarra e vozes
Son Andrade - Bateria 
Jhoninha Medeiros - Baixo acústico


sábado, 18 de outubro de 2025

BiOgRaFiA: GLENN HUGHES

Glenn Hughes
A voz mais potente do
 Rock!

"Glenn Hughes é um verdadeiro membro de banda, sempre original ao seu estilo rockeiro"

"Nenhum outro músico de rock esculpiu um estilo tão distinto, combinando os melhores elementos do hard rock, soul, blues e funk. Sua voz potente e rasgada é seu ponto mais forte. Ele é conhecido como o cantor dos cantores. Stevie Wonder disse certa vez: "Glenn Hughes é meu cantor branco favorito".
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Álbum Trapeze, 1970.
Hughes, natural de Cannock, Inglaterra, absorveu todos os tipos de influências, de Beatles ao hard rock britânico, e, principalmente, a música negra do soul e o R&B dos estados unidos. O som elegante que vinham das gravadoras como Motown e Stax deixaram uma marca nele para sempre.

A primeira grande banda da qual Hughes foi membro  alcançando certo sucesso foi o Trapeze. Junto ao guitarrista Mel Galley e o baterista Dave Holland, ele gravou os três primeiros álbuns da banda no início dos anos setenta: Trapeze (1970), Medusa (1970) e You Are The Music... We're Just The Band (1972). A sonoridade do Trapeze é repleta de grooves, fankeada e muito rock. Tudo na medida certa.

Tendo chamado a atenção na inglaterra em 1973, Glenn Hughes foi convidado para se juntar ao Deep Purple, que procurava ocupar o lugar deixado pelo baixista Roger Glover, pois a banda  estava tentando superar a saída de seu baixista e também do vocalista Ian Gillan. O  guitarrista Ritchie Blackmore, o tecladista Jon Lord e o baterista Ian Paice convidaram Glenn Hughes junto com um 
jovem vocalista promissor chamado: David Coverdale, essa formação ficaria famosa por MK III.

Jam em estúdio com Glenn Hughes ao centro, 1975.

Com o lançamento do álbum Burn (1974), o Deep Purple voltou a impressionar  e rejuvenesceu a banda com destaque para a música "Burn" que se tornou um clássico eterno do hard rock. A banda com essa formação foi a atração principal do famoso festival California Jam em 1974, diante de um público de 250 mil pessoas.

A banda gravou mais dois álbuns de estúdio, Stormbringer (1975) e Come Taste the Band (1976), e, em seu próprio jatinho chamado "The Starship", o Purple realizou  inúmeros shows nas turnês subsequentes. Após a morte pré-matura por overdose do guitarrista Tommy Bolin, que havia substituído Ritchie Blackmore no álbum Come Taste The Band, o Deep Purple fez uma parada na banda, pois estavam sem clima e desgatados para continuar.

Primeiro álbum solo, 1977.
Mudando-se para Los Angeles, Hughes gravou seu primeiro álbum solo, Play Me Out, de 1977. O álbum marcou uma mudança definitiva de estilo em relação aos álbuns anteriores de hard rock que gravou com o Deep Purple, movendo-se para uma direção mais inspirada em suas influências de funk e soul.

Após esse álbum, ele se juntou ao ex-guitarrista do Pat Travers, Pat Thrall, para formar a Hughes/Thrall, que lançou um aclamado álbum auto-intitulado em 1982.

Ao longo dos anos 80 e 90, Hughes fez inúmeras participações especiais (creditadas ou não) como vocalista, baixista e compositor em álbuns de outros artistas. Nessa época veio seu reconhecimento comercial quando foi apelidado de "A Voz do Rock", apresentando-o orgulhosamente em seu single de maior sucesso internacional, America - What Time is Love? 

À partir da década de 1990, Glenn Hughes se consolidou forte em sua carreira solo, compondo e realizando extensas turnês de apoio a vários álbuns de sucesso como: Blues (1992), From Now On... (1994), Burning Japan Live (1994), Feel (1995), Addiction (1996), The Way It Is (1999), Return Of Crystal Karma (2000), Building The Machine (2001), Songs In The Key Of Rock (2003) e Soul Mover (2005).

Glenn Hughes e Tony Iommy.
Outro momento de destaque na carreira de Hughes ocorreu no ano de 1986, quando ele trabalhou com Tony Iommi no álbum do Black Sabbath. O que era para ser o primeiro álbum solo do lendário guitarrista, acabou saindo como um disco do Sabbath. "Seventh Star", de 1986, tornou Glenn Hughes como um ex-membro na história do Black Sabbath.

Hughes e Iommi permaneceram parceiros e, em 1996, começaram a compor músicas e gravar juntos  novamente. Essas gravações foram amplamente pirateadas, mas foram finalmente finalizadas e lançadas em 2004 como: The 1996 DEP Sessions. E em 2005 viu o lançamento do álbum Fused, que foram recebidos com bastante sucesso comercial e de crítica para Tony Iommi e Glenn Hughes.

O álbum 'Soul Mover', de 2005, marcou a continuação da bem sucedida carreira solo e a parceria criativa com o baterista Chad Smith da banda Red Hot Chili Peppers, que tinha iniciado no disco ao vivo Soulfully Live in the City of Angels, de 2004. Soul Mover foi eleito o 12º melhor álbum do ano pela influente revista Classic Rock.

O álbum seguinte de Glenn, Music For The Divine de 2006, foi uma rica mistura de soul, funk e rock, que sempre influenciaram sua música. Novamente, com Chad Smith na bateria e o guitarrista também do Chili Peppers, John Frusciante, que realizou uma incrível interpretação do clássico "Nights In White Satin", muito bem recebido comercialmente pela crítica, o álbum novamente figurou entre os 20 melhores álbuns do ano pela revista Classic Rock.

Glenn Hughes e o baixo Rickenbacker.
Após a bem sucedida turnê europeia de Music For The Divine em 2006, em 2007 Hughes fez turnês de sucesso pela Rússia, América do Sul, Itália, Noruega, Bulgária, Grécia e Espanha, além de shows solo em Londres, no prestigiado Shepherds Bush Empire.

Ainda em 2007, Glenn foi atração  principal em festivais na França e na Noruega. Participou também do Rock and Roll Fantasy Camp em Nova York, que foi um grande sucesso, e também apareceu como apresentador convidado no Classic Rock Awards em 2006 e 2007. 

Outro destaque de um ano diversificado e colorido foram os 2 shows solo esgotados no famoso Whisky em Los Angeles e BB King's em Nova York.

A aparição de Glenn em Londres no show beneficente Childline foi destaque em março de 2008, onde ele tocou um pequeno conjunto de clássicos com o baterista do Deep Purple, Ian Paice. Isso foi particularmente comovente, pois foi a primeira vez que a dupla tocou junto desde os dias de glória de Deep Purple dos anos setenta. Em junho de 2008, Glenn tocou em Liverpool, Inglaterra, pela primeira vez em mais de 30 anos; um retorno triunfante e emocionante à cidade onde o Deep Purple "Mark IV" fez seu último show antes de se separarem em 1976. Outros destaques de 2008 incluem a apresentação ao vivo de Glenn no programa de rádio dos EUA Rockline e sua primeira aparição na Nova Zelândia desde 1975 com o Deep Purple, quando Glenn trouxe a casa abaixo no G-Taranaki Festival em julho.

BCC álbum de estréia, 2011.
O lançamento solo de First Underground Nuclear Kitchen em 2008 é possivelmente a declaração musical mais convincente e positiva em uma carreira distinta já repleta de destaques e marcos. Chad Smith novamente tocou bateria com toda a sua energia, e Glenn raramente - ou nunca - soou mais inspirado, escreveu com tanta graça ou cantou com tanta paixão.

Em 2010, surgiu 
outro projeto na carreira de Glenn Hughes, o "supergrupo" chamado Black Country Communion (BCC). Junto ao guitarrista de  blues-rock Joe Bonamassa, o tecladista Derek Sherinian (ex-Dream Theater) e o  baterista Jason Bonham, filho do lendário baterista do Led Zeppelin, John Bonham, a banda gravou o primeiro álbum em 20 de setembro de 2010. O álbum alcançou a 13ª posição na parada oficial de álbuns do Reino Unido e a 1ª posição na parada oficial de álbuns de rock do Reino Unido. 

Produzido e mixado por Kevin Shirley, esse trabalho elevou o padrão do rock. Diante do sucesso do primeiro álbum, em 2011 lançaram o segundo álbum chamado: Black Country Communion 2, e, em seguida o show "Live Over Europe", gravado ao vivo durante a etapa europeia de sua turnê de estreia, que alcançou o Top 5 mundialmente com lançamentos em DVD.

Power Trio furioso!
Em 2011 foi lançada sua Autobigrafia chamada: 
Do Deep Purple ao Black Country Communion.

Após uma parada no projeto BCC para que seus integrantes pudessem dar continuidade em suas carreiras solos, em 2013 Hughes forma uma novo projeto chamado: California Breed, um power trio que contava novamente com o baterista Jason Bonham, e o novato guitarrista e produtor Andrew Watt.  

Em maio de 2014 a banda lança seu primeiro álbum e segue em uma turnê. Novamento após a divulgação do álbum os integrantes fazem uma digressão para cumprir seus compromissos com suas carreiras solos.

No final de 2015 o Hall da Fama do Rock  and Roll anunciou o Deep Purple, incluindo a formação MK III, que finalmente seria incluído na lista após diversas indicações ao longo dos anos e Glenn Hughes participou do evento junto de toda banda.

O guitarrista Joe Satriani.
Em 2007, o virtuoso guitarrista Joe Satriani convida Glenn Hughes para gravar no álbum instrumental chamado:  What Happens Next, Hughes toca baixo. 

Glenn Hughes também participou do novo projeto do guitarrista Steve Vai chamado SATCHVAI e do cantor ROBBIE WILLIAMS.

No final do verão de 2019, foi anunciado  que Glenn se juntaria à banda The Dead Daisies, fazendo os vocais principais e baixo, juntando-se aos guitarristas Doug Aldrich e David Lowy com o baterista Deen Castronovo. Esse projeto já tinha contado com músicos do calibre de John Corabi, Marco Mendoza, Richard Fortus, Dizzy Reed, Frank Ferrer, Darryl Jones, Tommy Clufetos, Charley Drayton e Jon Stevens, entre outros.

O puro Hard Rock!
Em 2020 é lançado o álbum de estreia com Hughes no The Dead Daisies, "Holy Ground", que foi produzido por Ben Grosse no La Fabrique Studio no sul da França. Em 2022 foi lançado outro álbum da banda intitulado: Radiance, seguindo de shows e turnê por toda a Europa, EUA e Reino Unido.

Após um hiato de nove anos sem lançar um álbum solo, Hughes retorna com o álbum: Chosen, de 2025. Esse álbum apresenta Glenn em seu estilo mais hard rock, um disco explosivo que traz o baixista num momento incrível, um trabalho conectado de última geração, tanto do ponto de vista da composição quanto da produção. Um retorno verdadeiramente cativante!

Comentando sobre o novo álbum, Glenn Hughes declarou:
Compor músicas é algo profundamente pessoal para mim, e geralmente escrevo e gravo quando tenho algo a dizer. Já faz nove anos desde que gravei meu último álbum solo, "Resonate".

Embora tenha havido gravações e colaborações com outros artistas, desde 2016, ao compor Chosen, voltei à prancheta da minha vida, escrevendo sobre a condição humana, amor, esperança, fé e aceitação. Escrevo sobre como me sinto por dentro e não externamente. Minha vida é vivida de dentro, no momento presente. É um álbum de alimento para a alma, e nunca me senti tão grato, aqui mesmo, no planeta Terra. A música cura!

Álbum solo de Glenn Hughes, 2025.
A turnê que suportou o disco foi batizada de "The Chosen Years", e teve início em 2025 começando pela Europa.

Além das novas músicas do álbum, a turnê nos presentou com vários clássicos passando por toda carreira do músico. 

Essa turnê foi anunciada mundialmente apenas algumas semanas antes de dar início.

A Voz do Rock nunca descansa !!

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Histórias do Blues: John Lee Hooker


John Lee Hooker
' O som boogie do blues '

John Lee Hooker nasceu em 17 de agosto de 1917, no Condado de Coahoma, perto de Clarksdale, Mississippi. Ele era um de 11 filhos. Seus pais eram meeiros; ele cresceu trabalhando na fazenda de seu padrasto, William Moore, e se lembrava de ouvir Moore, um guitarrista popular local, tocando seu blues de Shreveport, Louisiana, pela casa. Hooker ficou mais impressionado com a música que ouvia do que com a perspectiva de se tornar meeiro.


"Eu não gostava de trabalhar na fazenda quando era criança", disse ele. "Nunca imaginei que a vida não era para mim"

No final da década de 1920, Hooker cantava cânticos espirituais em igrejas locais e participava de vários grupos gospel informais. Seu primeiro instrumento foi um violão caseiro de uma corda, com uma câmara de ar esticada sobre a porta do celeiro. Na infância, Hooker aprendeu os rudimentos do blues no violão de Moore e, em 1929, tocava tão bem que frequentemente trabalhava com Moore em jantares campestres, festas de peixe frito e bailes da região.


Aos 14 anos, Hooker fugiu de casa e foi para Memphis em busca de emprego. De 1931 a 1933, trabalhou como recepcionista em um cinema na Beale Street e, nas horas vagas, frequentava festas em casas de família, onde, em diferentes ocasiões, ouviu Robert Nighthawk, Eddie Love, Joe Willard entre outros.

Embora Hooker tenha dito que o estilo de blues que aprendeu reflete essa influência e os ensinamentos iniciais de Moore, sua música também é característica da região do Delta do Mississippi, onde viveu. Hooker disse: "Ninguém pode te ensinar, mas eu o observava dia e noite e tocava como ele."

Após dois anos em Memphis, Hooker mudou-se para Cincinnati para morar com parentes e foi contratado por uma empresa de drenagem de fossas e por outro teatro. Permaneceu em Cincinnati até a década de 1940 e continuou a evoluir como músico, apresentando-se ocasionalmente com grupos gospel, como The Big Six, The Delta Big Four e Fairfield Four. 

Em 1943, mudou-se para Detroit e conseguiu emprego como zelador em uma siderúrgica. Tocar música continuou sendo um hobby para Hooker; nos fins de semana, ele tocava em festas e às vezes "participava" das bandas em um dos clubes da Hastings Street, no distrito comercial central da Detroit negra.

No final da década de 1940, Hooker formou seu próprio grupo e trabalhou em vários clubes na região de Detroit. Após cinco anos em Detroit, começou a se considerar um músico profissional. Dizem que o lendário T-Bone Walker o presenteou com uma guitarra elétrica. Hooker relembrou: "Você tinha que tocar guitarra elétrica naqueles clubes, eles eram muito barulhentos. Mas que sons você conseguia fazer! Eu adorava eletricidade. Você mal precisa tocar na guitarra, e o som sai tão suave. O som elétrico é tão encantador. Eu me senti atraído por ele."

Após ouvir Hooker em uma festa em 1948, o dono de uma loja de discos de música negra o levou para conhecer Bernie Bessman, um distribuidor local de discos. Bessman ficou impressionado com o talento de Hooker e ajudou a lançar seu primeiro disco, um stomp uptempo chamado "Boogie Chillen", que rapidamente se tornou um enorme sucesso. 

Hooker conseguiu largar o emprego na fábrica e se dedicar à música. Entre 1949 e 1951, voltou às paradas de rhythm and blues com "Hobo Blues", "Crawling Kingsnake Blues" e "I'm in the Mood". Durante esses primeiros anos, Hooker continuou a gravar apenas com sua guitarra elétrica como acompanhamento.

Em 1951, Hooker começou a excursionar por locais fora de Detroit e, um ano depois, excursionou com a banda Muddy Waters. Gradualmente, ele adicionou instrumentos para criar sua própria banda e, às vezes, complementava seu som com gaita, piano, guitarra rítmica e bateria. Na década de 1950, ele gravou para uma nova gravadora de Chicago, a VeeJay, e começou a utilizar bandas maiores.

Ao longo dos anos, Hooker adaptou seu estilo musical às mudanças dos tempos, tocando folk blues e, em seguida, migrando para grupos de apoio voltados para o rock. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, tocou em cafés e trabalhou em festivais de folk e circuitos universitários. Em 1964, gravou a trilha sonora para um comercial de televisão do Comitê Nacional Democrata.

Embora Hooker conquistasse muitos fãs nos Estados Unidos, o blues ganhava cada vez mais atenção na Europa. Bandas como Rolling Stones e John Mayall & The Bluesbreakers, além de nomes como Eric Clapton, Van Morrison e 
David Bowie descobriram sua música. 

"As bandas inglesas foram as que realmente fizeram o blues crescer", disse Hooker. "O sucesso das bandas inglesas ajudou a introduzir o blues americano ao público branco nos Estados Unidos"

Legado e estilo

Ele desenvolveu seu próprio estilo de boogie de ritmo acelerado, distinto do boogie-woogie derivado do modo de tocar piano das décadas de 1930-1940. Hooker foi classificado em 35º na lista de 2015 dos 100 maiores guitarristas da Rolling Stone , e foi citado como um dos maiores vocalistas de blues masculinos de todos os tempos.

Após o divórcio de sua esposa na década de 1970, Hooker mudou-se para a região da Baía de São Francisco. Em 1989, Hooker conquistou um público maior ao lançar "The Healer", um álbum que contou com participações de vários músicos que o consideram uma influência seminal em suas carreiras — Bonnie Raitt, Carlos Santana, Robert Cray, Los Lobos, George Thorogood, Canned Heat e Charlie Musselwhite.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

MEIO AMBIENTE: A Terra é Viva!

A Terra é viva, geradora de todos os seres vivos.

A visão de Gaia está ligada a uma ética de sustentabilidade e responsabilidade.


Há um consenso na comunidade científica de que a Terra é viva. Por exemplo, num só grama de terra, ou seja, menos de um punhado, vivem cerca de 10 bilhões de micro-organismos: bactérias, fungos e vírus, conforme afirma-nos o grande biólogo E. Wilson, em A Criação: Como Salvar a Vida na Terra, (2008, p. 26). São invisíveis, mas sempre ativos, trabalhando para que a Terra permaneça viva e fértil. A Terra, assim cheia de vida, é a mãe geradora de todos os seres vivos.


Tal constatação não era evidente. Tanto para Einstein quanto para Bohr, “a vida ultrapassa a capacidade de compreensão da análise científica” (N. Bohr, Atomic Physis and Human Knowledge, 1956, cp. Light and Life, p.6). Entretanto, a aplicação da física quântica, da teoria da complexidade (Morin), do caos (Gleick, Prigogine) e da biologia genética e molecular (Maturana, Capra) mostraram que a vida pertence ao processo evolucionário, desde as energias e partículas mais originárias, passando pelo gás primordial, as grandes estrelas vermelhas, as super novas, as galáxias, o pó cósmico, a geosfera, a hidrosfera, a atmosfera e, finalmente, a biosfera.

Equilíbrio precário


Como afirma o Prêmio Nobel em biologia de 1974, Christian du Duve: “o carbono, o hidrogênio, o nitrogênio, o oxigênio, o fósforo e o enxofre formam a maior parte da matéria viva” (Poeira Vital: A Vida Como Imperativo Cósmico, 1995, cp.1).

Foi mérito especial de Ilya Prigogine, Nobel em química, em 1977, mostrar que não basta a presença dos elementos físico-químicos. Eles trocam, continuamente, energia com o meio ambiente. Consomem muita energia e, por isso, aumentam a entropia (desgaste da energia utilizável). Ele as chamou, com razão, de estruturas dissipativas (gastadoras de energia).

Mas são, igualmente, estruturas dissipativas, num segundo sentido, paradoxal, por dissiparem a entropia, pelo fato de metabolizarem a desordem e o caos do meio ambiente em ordens e estruturas complexas. Elas se auto-organizam, fugindo à entropia, produzindo negentropia: entropia negativa; positivamente: produzem sintropia (Order Out of Chaos, 1984).

O que é desordem para um serve de ordem para outro. É através de um equilíbrio precário entre ordem e desordem (Caos: Dupuy, Ordres et Désordres, 1982) que a vida se mantém (Ehrlich, O Mecanismo da Natureza, 1993, p. 239-290).

Baste-nos a referência às investigações do médico e biólogo inglês James E. Lovelock e da bióloga Lynn Margulis (Gaia, 1989; 1991; 2006; José Lutzemberger, Gaia, O Planeta Vivo – Por um Caminho Suave, 1990; Lynn Margulis, Microcosmos, 1990), que constataram a calibragem sutil entre todos os elementos químicos, físicos, entre o calor da crosta terrestre, a atmosfera, as rochas, os oceanos, todos sob os efeitos da luz solar, de sorte que tornam a Terra boa e até ótima aos organismos vivos. Ela surge, destarte, como um imenso superorganismo vivo, que se autorregula, chamado por James E. Lovelock de Gaia, nome que os gregos davam para a Terra viva.

Isso vale também para nós, humanos. Entre nós, se originam formas de relação e de vida nas quais predomina a sintropia (economia de energia) sobre a entropia (desgaste de energia). O pensamento, a comunicação pela palavra, a solidariedade, o amor são energias fortíssimas, com escasso nível de entropia e alto nível de sintropia.

Articulação sinfônica


Nessa perspectiva, temos pela frente não a morte térmica, mas a transfiguração do processo cosmogênico, que vai se revelando, com cada vez mais intensidade, em ordens supremamente ordenadas, criativas e vitais. Qual é o futuro deste processo? Não sabemos. É totalmente misterioso.

A articulação sinfônica das quatro interações básicas do universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear forte e a nuclear fraca) continua atuando, sinergeticamente, para a manutenção da atual seta cosmológica do tempo, rumo a formas cada vez mais relacionais e complexas. Muitos cientistas sustentam que elas, na verdade, constituem a lógica e o dinamismo interno do processo evolucionário; por assim dizer, a estrutura, melhor dito, a mente ordenadora do próprio cosmos.

Vale citar a famosa afirmação do físico britânico Freeman Dyson: “Quanto mais examino o universo e os detalhes de sua arquitetura, mais acho evidências de que o universo sabia que um dia, lá na frente, iríamos surgir” (Disturbing the Universe, 1979, p. 250).

O próprio ser humano é um nó de relações voltado para todas as direções. A própria Divindade se revela panrelacional, como o Papa Francisco enfatiza em sua encíclica Laudato Si’ (nº 239). Se tudo é relação e nada existe fora da relação, então, a lei mais universal é a sinergia, a sintropia, o inter-retro-relacionamento, a cooperação, a solidariedade cósmica, a comunhão e a fraternidade/sororidade universais.

Essa visão de Gaia poderá reencantar a nossa convivência com a Terra e fazer com que vivamos uma ética da sustentabilidade e da responsabilidade necessária, da compaixão e do cuidado, atitudes que salvarão a vida na Casa Comum, na Terra.

Leonardo Boff
Leonardo Boff escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

EDUCAÇÃO: Dia dos Professores

15 de Outubro

Dia dos Professores

Educação e Escolaridade

O Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.


Na semana da efeméride do “dia dos professores”, é justo lembrar da sentença sucinta de Darcy Ribeiro: a crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto. Ainda que concorde, ouso ser um pouco mais preciso que o mestre. Não é exatamente a educação que vive uma crise meticulosamente projetada; e sim a escola como instituição educativa.

Educação é um fazer constante e cotidiano, expresso nas artimanhas de se experimentar o mundo em qualquer canto: ruas, praças, feiras, universidades, quadras de escolas de samba, botequins, igrejas, terreiros, campos de futebol, florestas, livrarias, bailes, museus, festas populares etc

Não existe escola democrática sem a ideia de negociação permanente e o princípio de que não há detentores do monopólio do saber, da inteligência, da beleza estética ou da verdade. As sociedades contemporâneas são complexas e heterogêneas. A escola, por isso mesmo, deve pensar permanentemente o dissenso criativo e o convívio entre diferentes com direitos correlatos. E para isso, precisa discutir, debater e fomentar ideias.

Charles Taylor dizia que um indivíduo e um grupo de pessoas podem sofrer um dano irreparável se a gente ou a sociedade que os rodeiam lhes mostram como reflexo, uma imagem degradante, limitada e depreciada sobre eles. Frantz Fanon falava do racismo simbólico, que desqualifica saberes dos subalternos e incute a noção da inferioridade de suas culturas como verdade indiscutível.

Nada é pior para trabalhar a diversidade que o modelo de escola determinista, individualista e privatista: aquele que destaca mais o que a pessoa não sabe do que aquilo que ela é capaz de saber e ornamenta isso com o discurso da neutralidade, como se ela fosse possível. Esse modelo é especialista em destroçar a estima dos educandos e realizar a tarefa da degradação dos corpos. É a escola como fábrica de gentes doentes e desencantadas.

A escola como instituição não pode ser estruturalmente seletiva e inimiga da diversidade. Apesar disso, continuamos (com bravas exceções) nos baseando na avaliação de resultados (e não na avaliação de processos) sobre critérios supostamente objetivos – provas e testes convencionais, por exemplo. Esse modelo esconde a não aceitação da diversidade ao usar critérios fechados para avaliar diferentes.

O modelo educacional exclusivamente centrado na sala de aula é uma instituição falida (a sala de aula, de novo com exceções, é um espaço estruturado para domesticar e controlar os corpos), o processo de aprendizagem tem que dialogar com a rua, o ensino baseado em avaliações convencionais fracassou, o excesso de conteúdo é um disparate, os currículos normativos produziram conhecimentos vazios e a imposição do cânone ocidental na educação brasileira – como recorte quase exclusivo do saber – é fomentadora de preconceito, intolerância, violência e dor contra os que não se enquadram no padrão uniforme que o cânone preconiza como modelo a ser seguido.

A cereja do bolo do ataque à escola no Brasil é uma excrescência que avançou nos últimos anos resumida no bordão “escola sem partido”; lema vazio que desqualifica professoras e professores e, sobretudo, alunas e alunos, imaginando que eles sejam marionetes no processo de aprendizagem. A turma da escola sem partido é aquela que vê a educação – um campo de experiências inventivas de libertação dos mundos pela cultura – como um espaço de adestramento para o mercado e produção em larga escala de pessoas adoentadas.

Como, entretanto, promover o encontro entre a escolaridade e a educação em um contexto de precarização, sob todos os aspectos, do magistério? Temos políticas públicas efetivamente interessadas na valorização da educação, da escola, das professoras e professores e de todos os profissionais envolvidos no ambiente escolar?

É o desafio que está colocado. Não concebo missão mais urgente para a construção de um país justo, fraterno e plural: o Brasil precisa promover o encontro entre a escola e a educação como tarefa de afirmação da vida e invenção soberana do mundo.

Plataforma Instituto Conhecimento Liberta

Luiz Antonio Simas
Professor de história, educador popular, escritor, poeta e compositor. Tem mais de 30 livros publicados sobre as culturas populares do Brasil. Foi finalista do Prêmio Jabuti em quatro ocasiões e ganhador do mesmo prêmio na categoria Livro do Ano de 2016, em parceria com Nei Lopes, pelo Dicionário da história social do samba (Civilização Brasileira, 2015). Suas canções foram gravadas por artistas como Maria Rita, Marcelo D2, Rita Benneditto, Douglas Germano, Moyseis Marques, Lúcio Sanfillippo e Fabiana Cozza.