Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

sábado, 28 de março de 2026

Humble Pie

' Da essência do Blues para a construção da nova sonoridade do Rock Clássico Britânico '

Quando o Humble Pie surgiu há meio século, eles abriram caminho como os principais precursores de uma nova geração de blues-rock orgânico e impactante, que ajudaria a definir a era do jeans e dos baseados no início dos anos 70. Seus álbuns clássicos inquestionáveis, como o aclamado álbum ao vivo de 1971, Performance: Rockin' the Fillmore, e o sucesso comercial de 1972, Smokin', permanecem verdadeiros pilares do rock clássico, influências fundamentais para gerações de artistas, de Aerosmith a Van Halen, de Quiet Riot a Black Crowes, de Rival Sons a Dirty Honey e muitos outros.

História e discografia da Banda:

Quando o cantor Steve Marriott saiu furioso do palco do Alexandra Palace, em Londres, em 31 de dezembro de 1968, com sua banda extremamente popular, The Small Faces — a banda que, ainda mais do que o The Who, definiu literalmente o espírito Mod em toda a Inglaterra em meados da década de 60 —, foi o fim de uma era para o pop psicodélico britânico, o final para os Small Faces e o momento do Big Bang para o Humble Pie.

Com apenas 22 anos na época, a primeira ligação de Steve Marriott após sair do palco naquela fatídica véspera de Ano Novo foi para seu protegido de 19 anos, o guitarrista e vocalista Peter Frampton, de talento excepcional e rosto angelical — então integrante da popular banda de pop-rock The Herd — a quem Steve havia apadrinhado recentemente. 

A guitarra e a voz de Frampton, juntamente com o baterista prodígio de 17 anos Jerry Shirley, da banda The Apostolic Intervention, da Immediate Records, e o baixista/vocalista de primeira linha do Spooky Tooth, Greg Ridley, ajudaram a levar o Humble Pie para o tipo de terreno soul-rock de alta octanagem que o Led Zeppelin — cujo vocalista, Robert Plant, era um notável admirador de Steve Marriott — estava explorando em seu álbum de estreia, produzido por Glyn Johns, lançado no início daquele ano.

O Humble Pie lançou dois álbuns em 1969, As Safe As Yesterday Is e Town & Country, seguidos por um terceiro álbum homônimo (e estreia pela A&M Records) em 1970, frequentemente chamado simplesmente de “The Beardsley Album”, devido à sua capa ilustrada por Aubrey Beardsley. 

Clássicos em todos os sentidos, os discos são declarações abrangentes que abraçam o tipo de folk-rock com raízes em grupos como The Band (“Every Mother's Son”, “Earth & Water Song”), bem como o tipo de épicos de rock melancólicos e majestosos que ecoavam bandas pós-psicodélicas como Pink Floyd (“Live With Me”) e uma abordagem mais funk do potente proto-riff-rock de grupos como Black Sabbath e Blue Cheer (“One Eyed Trouser Snake Rumba”, “Red LIGHT Mama, Red Hot”).

Mas mesmo após várias turnês bem-sucedidas pelos EUA para promover esses álbuns, e o aclamado álbum Rock On no início de 1971, foi o álbum Performance: Rockin' the Fillmore daquele ano, com seus destaques estrondosos — incluindo “I Don't Need No Doctor” e “Stone Cold Fever” — que catapultou o Humble Pie para o que David Gilmour certa vez descreveu como “a superliga”. Apresentando os solos futuristas de blues modal de Peter Frampton, os timbres poderosos da guitarra Les Paul/Marshall de Steve Marriott e o vocal emotivo e estratosférico, além de uma seção rítmica ao vivo incendiária com Shirley e Ridley, o álbum, que rapidamente recebeu a certificação de Ouro, foi uma coroação instantânea.

Seu sucessor, o fantástico e cheio de estilo Smokin', de 1972, gravado e mixado no Olympic Studios por Alan O'Duffy — que acabara de impressionar o mundo do rock e do teatro musical com seu trabalho pioneiro no álbum do elenco de Jesus Christ Superstar — marcou a saída de Peter Frampton para sua carreira solo, onde logo se tornaria um astro, e a chegada de David “Clem” Clempson, cujo trabalho de guitarra feroz, porém refinado, nas bandas Bakerloo e Colosseum, ícones do prog rock, já indicava que ele estava totalmente preparado para assumir o posto.

Ele conseguiu. Os timbres incríveis do wah-wah de Clempson e seus solos, floreios e ornamentos de blues progressivo, habilmente musicais e nunca improvisados, se encaixaram perfeitamente com os acordes dinâmicos do órgão Hammond e os vocais arrebatadores de Marriott, além da base rítmica ainda mais minimalista e focada no groove de Ridley/Shirley. Aumente o volume de “Hot & Nasty”, “The Fixer” ou da atemporal “30 Days in the Hole” para sentir a atmosfera vibrante, divertida e funky que emanava do lendário estúdio de gravação da Olympic.

Em 1973, lançaram Eat It, e a banda começou a apresentar um relacionamento menos harmonioso, em grande parte devido ao fim do casamento de Marriott com a modelo Jenny Dearden, seu rápido declínio no vício em drogas e álcool e a eventual dissolução da banda em 1975. Steve Marriott morreu tragicamente em um incêndio em sua casa aos 44 anos, em 1991. Greg Ridley faleceu de câncer aos 62 anos, em 2003. Shirley tocou com Fastway, John Entwistle, Joey Molland (do Badfinger) e muitos outros. Clempson trabalhou com Andrew Lloyd Webber, Jack Bruce, B.B. King e muitas outras personalidades renomadas.

Contudo, após um período de inatividade, a banda persistiu em diversas reformulações, reuniões parciais e novas versões, com Shirley, Ridley e/ou Marriott aliados a músicos renomados como Bobby Tench, Jim Leverton, Charlie Huhn, Anthony Jones e Dave “Bucket” Colwell.

De fato, seria Colwell — parte da formação da década de 2000 com Shirley, Ridley e Tench, que produziu o excelente álbum de 2000, Back on Track — a quem Shirley incumbiria de formar uma nova encarnação ao vivo do Humble Pie para levar o material querido e o espírito visceral do grupo aos palcos de todo o mundo.

Dave “Bucket” Colwell toca em bandas desde os 16 anos, começando na era do pub rock britânico. Ele passou a fazer turnês e gravações, com passagens por bandas como Samson, Adrian Smith & Project e Bad Company. Ao longo de doze anos, dividiu e ocupou sozinho a posição de guitarrista de seu amigo Mick Ralphs, desde a turnê Holy Water em 1990 até o álbum Merchants of Cool e a turnê com Paul Rodgers em 2002. O atual líder da banda Humble Pie Legacy planeja lançar seu terceiro álbum solo, Chasing Satellites, sob o nome artístico Buckets Rebel Heart, ainda este ano.

Colwell recrutou sem hesitar o baixista de R&B Ivan “Funkboy” Bodley (Sam Moore, The Shirelles), o baterista Bobby Marks (Dokken, Joe Lynn Turner) e o mais recente integrante, o vocalista Jim Stapley, para abraçar, ampliar e dar vida ao legado da banda. “Todos nós temos um grande amor e orgulho pelo Humble Pie”, diz Shirley, agora com 71 anos, “e isso inclui os membros originais, suas famílias e tudo o que conseguimos alcançar. É óbvio que ninguém jamais substituirá Steve, Peter ou qualquer outro membro da banda. Meu objetivo é manter intacto o legado do Humble Pie como uma das maiores bandas de rock ao vivo, ao mesmo tempo que satisfaço a necessidade das gerações de nossos queridos fãs de desfrutarem novamente de nossa música tocada ao vivo por músicos de classe mundial.”

Dave “Bucket” Colwell reflete: “Eu tinha lido sobre esse supergrupo na Melody Maker e fui vê-los no Hyde Park, em Londres, no dia 3 de julho de 1971. Aquele show mudou minha vida e influenciou o que eu queria fazer. A maioria das músicas tocadas naquele dia está no álbum 'Rockin' the Fillmore' e representa as faixas mais poderosas, emocionantes e com mais alma do Rock n' Roll Pie. Tendo me juntado ao Humble Pie com Jerry, Greg Ridley e Bobby Tench em 2000, eu sabia em primeira mão o efeito que a música da banda tem no público. Muitos fãs nunca tiveram a oportunidade de ver a formação original, então, como uma nova encarnação, estamos dando continuidade ao legado, vendo a alegria que ele traz, o que é uma honra.

Jim Stapley é um cantor e guitarrista extremamente talentoso. Trabalhei com ele por vários anos, principalmente com Kenney Jones, que o comparou a cantores com quem tocou em bandas como Steve Marriott, Rod Stewart e Paul Rodgers. Ivan Bodley interpreta as linhas de baixo, o carisma e a energia de Greg. Bobby Marks demonstra elegância e a facilidade de um músico experiente em todos os gêneros. Ele tem a difícil missão de substituir o baterista Jerry Shirley, membro fundador da banda. O fato de agora ocupar esse lugar, com o aval de Jerry, diz muito, e sim, ele é muito barulhento!

O cantor Jim Stapley relembra: “Aos 16 anos, ganhei uma coletânea pirata do Humble Pie da minha primeira banda. Eles estavam me apresentando aos tipos de cantores e músicas que influenciavam suas composições. Eu vinha aprendendo a cantar ouvindo discos de grandes nomes do Soul e da Motown, como Otis Redding, James Brown, Marvin Gaye, Al Green, Aretha Franklin, The Temptations, Etta James, etc., mas sentia que nunca conseguiria chegar perto do som deles. Eles eram inatingíveis.

Quando ouvi Steve Marriott cantar pela primeira vez, fiquei completamente impressionado. Comecei a tentar imitar as notas, o vibrato, a atitude que o tornavam tão grandioso. Novamente, nunca senti que conseguiria chegar perto, mas a voz dele, entre as desses inatingíveis mencionados, era uma luz guia para o que um verdadeiro cantor deveria ser: poderoso, autêntico, único e capaz de conectar com o público.” 

O baixista Ivan “Funkboy” Bodley, que já tocou com 52 artistas do Hall da Fama do Rock and Roll, também é membro do Hall da Fama do Blues. Ele relembra: “Cresci ouvindo e amando música Soul e Rhythm & Blues. Para mim, o Humble Pie é simplesmente uma banda de soul extremamente barulhenta tocando covers de Ray Charles, Ashford & Simpson, Dr. John, Ann Peebles, etc. É evidente, pela escolha dos covers, que os fundadores do Humble Pie e eu compartilhamos essa mesma obsessão, o que torna a música deles muito especial para mim.” 

Ele passou 13 anos na estrada como baixista e diretor musical de Sam Moore, membro do Hall da Fama do Rock and Roll e integrante da dupla Sam & Dave. Ele continua: “Quando recebi a ligação para entrar no Humble Pie, fiquei um pouco preocupado que o Jerry achasse que eu era musicalmente muito versátil ou que não era um roqueiro dedicado o suficiente. Não é que eu não seja um roqueiro. É só que tive que fazer muitos trabalhos diferentes na minha vida para pagar o aluguel. 

Em um dos nossos primeiros e-mails, o Jerry me disse: 'Qualquer um bom o suficiente para Sam & Dave é bom o suficiente para o Humble Pie!' Meus olhos se encheram de lágrimas. Foi aí que percebi o quanto eles eram fãs de soul music e o quanto o Jerry apreciava como minhas habilidades poderiam contribuir para a banda.”

O baterista Bobby Marks comenta: “O que eu adoro nesse repertório é o rock em sua forma mais pura – as músicas, e as partes, são pesadas, com influência do blues e, o mais importante, sensuais. A música desliza. Eu adoro! Poder dar continuidade a esse legado é muito importante. 

O Humble Pie é uma parte tão significativa da história do rock and roll, e nós vimos e ouvimos em primeira mão o quão importante essa banda e essas músicas são para as pessoas. Conseguir falar a linguagem universal da música, fazer as pessoas felizes. Entendam que isso é algo poderoso. Respeitem isso e, o mais importante, entreguem o melhor todas as noites.”

Com a banda prestes a começar a turnê e um vasto repertório de músicas para tocar noite após noite, cada um tem uma faixa ou momento favorito específico que destaca. Bodley compartilha: “Há um momento perto do final de 'I Don't Need No Doctor' em que há uma espécie de falso final após o solo de guitarra. Quando Bobby dá a contagem para a banda voltar ao riff principal, o público sempre enlouquece. É como uma explosão todas as vezes. O prédio inteiro e todas as pessoas nele vibram exatamente na mesma frequência naquele momento. É uma coisa linda de se ver.” O baterista Marks simplesmente afirma: “Parece clichê, mas todas as músicas são uma alegria de tocar. Como baterista, você realmente não pode pedir mais do que essas músicas para tocar todas as noites.” O guitarrista Colwell acrescenta: “Eu gosto especialmente de 'Four Day Creep', pois é uma abertura incrível no álbum Fillmore, bastante singular.”

Humble Pie Legacy.

A banda sairá em turnê em setembro com o título "Jerry Shirley Presents: Humble Pie Legacy – 50 Years of Smokin'". Shirley comenta: "Depois de muito tempo reunindo cuidadosamente uma banda tão maravilhosa, com músicos de primeira linha, com a ajuda de Dave 'Bucket' Colwell, meu diretor musical e líder da banda, que usou suas habilidades de recrutamento, estou muito feliz com o resultado e mal posso esperar para vê-los e ouvi-los brilhar nos palcos ainda este ano." 

Olhando para o futuro, o vocalista Stapley compartilha: “Tendo passado anos tocando com caras como Bucket, Kenney Jones e Rick Wills, e tendo composto, me apresentado e sido amigo próximo de Mollie – uma das filhas de Steve – é óbvio para mim que o legado do Humble Pie é importante e influente. Não me passa despercebido que o lugar central no palco está completamente vazio, onde Steve Marriott costumava ficar. Não consigo nem tentar ocupar esse lugar, ninguém consegue. Mas vou me esforçar ao máximo para tentar… As músicas merecem, a banda merece, e todos que se apaixonaram pela música do Humble Pie, mas nunca tiveram a oportunidade de vê-los ao vivo, também merecem… Então, sem pressão… (engole em seco).”



MúSiCa AfRiCaNa: AfroCubism

AfroCubism
' Las Maravillas de Mali e Cuba '
Quem conhece a curiosa história das gravações do Buena Vista Social Club em Havana, em 1996, sabe que a intenção original era gravar uma colaboração entre músicos cubanos e malianos. Quando os africanos ocidentais não puderam comparecer, o fato de um dos álbuns mais inspiradores, bem-sucedidos e lendários ter sido gravado em seu lugar se deve à perspicácia da equipe de produção, ao rico talento musical disponível em Cuba e a uma extraordinária dose de sorte.
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História e Trajetória:

Mas e quanto ao conceito original de Cuba Mali? AfroCubism (2010), lançado cerca de 14 anos depois, é algo próximo da ideia original.

O trio principal de músicos inclui o cantor e guitarrista cubano de guajiro Eliades Ochoa, cujo perfil cresceu enormemente graças ao sucesso do Buena Vista Social Club. Também conta com os músicos malianos Bassekou Kouyaté, mestre do alaúde ngoni, e o lendário guitarrista Djelimady Tounkara, líder da célebre Rail Band.

Nick Gold, do World Circuit, encontrou uma janela de oportunidade para gravar em dezembro de 2008, quando, por coincidência, quase todos os músicos estavam em turnê na Espanha com suas próprias bandas. Apenas o guitarrista Djelimady Tounkara precisou ser trazido do Mali, e os músicos finalmente se reuniram – doze anos depois do planejado originalmente – no estúdio Sonoland, em Madri.

Juntam-se a eles o Grupo Patria de Eliades, uma das bandas mais antigas e reverenciadas de Cuba, o lendário cantor griô malinês Kasse Mady Diabaté, o inovador tocador de balafon Lassana Diabaté e o gênio da kora Toumani Diabaté, que também integrou o elenco da World Circuit, gravando com Ali Farka Touré em 2004.

Velocidade e espontaneidade eram as palavras de ordem. "Depois de tanta espera, no final tudo se encaixou de forma incrivelmente rápida e fácil", diz Gold, que produziu o álbum com o engenheiro de som Jerry Boys ao seu lado. Dezessete músicas foram gravadas em cinco dias, com todos os músicos tocando juntos em uma mesma sala e com o mínimo de overdubs. Uma segunda sessão foi realizada sete meses depois e rendeu mais nove músicas.

O álbum resultante, com 14 faixas, é muito mais do que músicos tocando o material uns dos outros, sendo uma verdadeira convergência do pensamento musical da África Ocidental e de Cuba – daí o título AfroCubismo. Isso se deve, em grande parte, à maneira como os músicos cubanos constroem sua música, mantendo espaços claramente definidos para a improvisação.

Eliades Ochoa e seu grupo Cuarteto Patria, que ele liderava desde 1978, foram a espinha dorsal musical disso. Eles conheceram Compay Segundo em 1986 e gravaram o álbum Chanchaneando com ele, que incluía a versão original de 'Chan Chan'. Eliades fez turnês frequentes com o Buena Vista, mas também gravou vários álbuns em seu próprio nome e faz turnês com o Cuarteto Patria.

Toumani Diabaté é um dos músicos mais importantes da África, proveniente de uma longa linhagem de mestres da kora e músicos hereditários. Com apenas 21 anos, gravou seu primeiro álbum, Kaira, em 1986, o primeiro álbum de música solo para kora e o início de uma notável carreira internacional. Desde 2004, gravou uma série de trabalhos para a World Circuit, incluindo dois álbuns vencedores do Grammy de duetos de kora e guitarra com Ali Farka Touré, a coleção de kora solo The Mandé Variations (2008) e o duo de kora com seu filho Toumani & Sidiki (2014).

O tocador de ngoni Bassekou Kouyaté também vem de uma família de músicos e começou a tocar em festas de casamento locais. Ele trabalhou com a Orquestra Simétrica de Toumani e também gravou com Ali Farka Touré, antes de criar seu próprio grupo, Ngoni Ba (Grande Ngoni), um quarteto de ngoni com sua esposa e vocalista Amy Sacko, com quem gravou seis álbuns.

O veterano cantor Kasse Mady Diabaté (1949-2018) se apresentou com a orquestra Super Mandé e tornou-se vocalista principal do grupo National Badema (anteriormente conhecido como Las Maravillas de Mali), que trabalhou por oito anos com músicos cubanos em Cuba. Kasse Mady foi recrutado para dar ao grupo um som mais característico do Mali. Ele lançou quatro álbuns solo de música tradicional antes de falecer, aos 69 anos, vítima de um AVC.

Um dos melhores guitarristas da África, Djelimady Tounkara juntou-se à agora lendária Rail Band no início dos anos 70, tocando no Buffet Hotel de la Gare em uma formação que incluía os cantores Salif Keita e Mory Kante. Ele permaneceu como arranjador e guitarrista principal da Rail Band durante seus anos de glória e em seu posterior renascimento como Super Rail Band. Ele participou de todas as gravações da Rail Band e lançou vários álbuns solo.

Lassana Diabaté é reconhecido como o melhor tocador de balafon (xilofone maliano) de sua geração. Nascido na Guiné, em uma família de virtuosos do instrumento, cresceu estudando-o no estilo tradicional do país antes de se mudar para o Mali, onde pôde desfrutar da maior liberdade com que o balafon é tocado. Atualmente, ele lidera o Trio Da Kali, que gravou Ladilikan com o Kronos Quartet em 2017.

Não apenas um mestre do tamani (tambor falante), Baba Sissoko também é igualmente hábil em tocar ngoni, kamelngoni e outros instrumentos de percussão. Em 1991, ele fundou o Baba Sissoko & Taman Kan, incorporando influências tradicionais do Mali com blues, jazz e rock. Ele tocou ngoni no álbum solo Echu Mingua (2005) do percussionista cubano Angá Díaz. E trabalhou por muitos anos com o líder de banda malinês Habib Koité.

Quando finalmente foi lançado, AfroCubism recebeu grande aclamação: "A colaboração afro-cubana de primeira linha que Buena Vista deveria ter sido", relatou a MOJO, "emocionante e impecavelmente produzido", disse o Boston Globe. Houve muitos shows por toda a Europa e América do Norte.

A frescura e a espontaneidade do AfroCubismo recebem um aval final na faixa de encerramento, "Guantanamera", provavelmente a canção cubana mais regravada. Leva algum tempo para perceber o que ela é, e é lúdica e elegante, vinda do trio de músicos Eliades, Bassekou e Djelimady, que poderiam ter gravado o álbum original.


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Meio Ambiente: Só depende de Nós!

Noite Estrelada - Van Gogh (1889).

Depende de nós impedir que as atuais crises virem tragédias.

"Não tememos a noite sombria de nosso tempo porque amamos as estrelas"

São muitos , atualmente, que perderam a esperança de que, no quadro atual sinistro, tenhamos ainda algum futuro. Há demasiada maldade, genocídio a céu aberto e vergonhosamente feito por aqueles que o praticam, Israel e os Estados Unidos da América, ainda escandalosamente apoiados por alguns países europeus, nomeadamente pela Alemanha, esquecida do holocausto nazista.

Assistimos, estarrecidos, a uma grande nação, aquela que dispõe de mais meios de destruição em massa e até de aniquilação da vida sobre a Terra, a Rússia, arrasar uma nação vizinha com grandes tradições culturais e os famosos e sábios contos rabínicos, a Ucrânia. Terrível está sendo a guerra dos USA e Israel contra o Irã, destruindo uma das civilizações mais antigas, com uma ferocidade que não escolhe seus alvos, tudo é atacado, incluindo escolas de meninas.

Acresce ainda a absurda acumulação de fortunas em pouquíssimas mãos, pois, oito pessoas possuem, individualmente, a riqueza equivalente ao que possuem 4,7 bilhões de pessoas. Nestes, não se nota nenhuma sensibilidade humana face a seus semelhantes, tratando-os como zeros econômicos, descartáveis e considerados sub-humanos: os milhões que vivem nas periferias das grandes cidades do Norte Global (só nos EUA, vivem 30 milhões de pobres) e enchem, aos milhões, as metrópoles do Sul Global.

Abstenho-me de referir à grave ameaça da Sobrecarga da Terra, com severos limites da produção de bens e serviços que sustentam a vida (precisamos hoje já de 1,7 Terras). Nem mesmo do crescente aquecimento global do planeta que, se até 2030-2035, não for detido no máximo de crescimento de 1,5ºC, com referência à era industrial (1850-1900), causará uma inexorável dizimação de vidas na natureza e na humanidade.

Como ainda ter esperança num drama destas proporções? Entendemos as preocupações de analistas do curso do mundo que dizem: não é impossível que tenha chegado a nossa vez de desaparecer do processo da evolução, como centenas e centenas de espécies já desapareceram.

Por isso, sou pessimista, porque a realidade é péssima. No entanto, me declaro um pessimista esperançoso. Esperançoso porque, se somos Terra que sente, pensa, ama e venera, temos a resiliência que a Terra mostrou nas 15 dizimações de vidas que sofreu ao longo de sua história de 4,5 bilhões de anos. A vida nunca sucumbiu. Depois de cada dizimação, atestam vários historiadores da vida Terra, como Christian de Duve (Poeira Cósmica: A Vida como Imperativo Cósmico, 1995), ela, como que se vingando, produziu uma biodiversidade maior do que aquela que foi ceifada.

Como dizia o poeta alemão Friedrich Hölderin: “Lá onde há perigo, cresce também o que salva” (“wo aber Gefahr ist, wächst auch das Rettende”). O nosso perigo é inegável. Mas, considerando que o ser humano é um projeto infinito, dotado de mil virtualidades, ele saberá face ao grande perigo forjar chances de salvação.

Sabidamente, a história da vida não é linear. Ela dá saltos. O improvável pode se fazer provável. E o inesperado pode acontecer. Era seguramente improvável que um negro, Barack Obama, dada a discriminação que sempre sofreu pelos supremacistas brancos, chegasse à presidência dos EUA. E chegou. Quem poderia imaginar que, numa sociedade machista como a brasileira, uma mulher se tornasse presidenta do Brasil, Dilma Rousseff? E chegou.
Seres cooperativos e sensíveis

Tenho a convicção que animava o paleontólogo e místico Pierre Teilhard de Chardin de que a humanidade, num momento grave de sua história, especialmente sabendo que poderá se autodestruir, cairia em si e se daria conta de seu lugar no conjunto dos seres e de sua responsabilidade pelo futuro da vida. Daria um salto quântico em sua consciência e definiria um outro rumo à sua história. Far-se-ia a guardiã e a cuidadora de sua sagrada herança, a Terra, e de todos os seus ecossistemas com os seres que neles habitam. Perceberia que é parte e parcela da natureza, confraternizada com os demais irmãos e irmãs nela presentes. Amaria e ornaria a Casa Comum na qual todos caberiam com suas diferenças, mas numa profunda unidade.

Isso está dentro das possibilidades humanas. Somos seres naturalmente cooperativos e sensíveis face aos mais vulneráveis. Em nosso profundo, como dado objetivo, atestado pela new science, somos seres espirituais, capazes de identificar aquela Energia de Fundo (Aquele Ser que faz ser todos os seres) que tudo penetra e sustenta. James Watson comprovou que, em nosso DNA, está o amor, a força maior do universo (DNA: O Segredo da Vida, 2005). Com todas estas positividades, vamos ainda fazer uma dolorosa travessia até chegarmos a uma forma amorosa e fraterna de convivência.

Não estamos diante de uma tragédia anunciada, mas no coração de uma crise de nossos fundamentos, que vai nos acrisolar, purificar e permitir um salto, habitando um mundo que, juntos, podemos fazer existir sustentavelmente. Depende de nós impedir que as atuais crises virem tragédias.

Por isso, não tememos a noite sombria de nosso tempo, porque amamos as estrelas, nossas irmãs. Esperamos a aurora que se anuncia.

Matéria escrita, 28 março de 2026.
@Revista Liberta

Leonardo Boff
Escreveu: A Busca da Justa Medida (I e II), Vozes 2023; A Oração de São Francisco: Uma Mensagem de Paz para o Mundo Atual, Vozes 2014; Fundamentalismo, Terrorismo, Religião e Paz, Vozes 2009.


Feminismo: Misoginia

O que é a misoginia?
' O problema que ninguém quer encarar '

"O capitalismo produz os corpos dos operários e dos empresários dos quais ele precisa para se sustentar como sistema" M. Weber

"O patriarcado produz os corpos dos homens, das mulheres e dos gêneros dos quais ele precisa para poder se sustentar"

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Plano de aula.

A misoginia não é um fenômeno isolado, ela é parte de uma construção histórica profunda que ainda molda a sociedade. Nesta aula, Marcia Tiburi explica como o patriarcado se formou ao longo do tempo e como ele sustenta práticas, valores e violências que continuam impactando a vida das mulheres até hoje, incluindo o feminicídio. 

No curso Misoginia e Feminicídio, a filósofa Marcia Tiburi analisa as raízes culturais, sociais e políticas da violência de gênero, mostrando como ela se manifesta no cotidiano e nas estruturas da sociedade. A proposta é ampliar o entendimento sobre o tema e provocar uma reflexão crítica sobre o mundo em que vivemos.




sexta-feira, 27 de março de 2026

Heavy Metal: Black Pantera


Black Pantera
' Orgulho e Resistência! '

O trio de Minas Gerais construiu seu reconhecimento nacional e internacional ao unir thrash, hardcore e groove metal a letras contundentes sobre questões sociais e raciais, transformando seus shows em experiências intensas, políticas e explosivas.
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Trajetória da banda:

O power trio formado por Rodrigo "Pancho" Augusto (bateria) e pelos irmãos Charles Gama (guitarra e vocal) e Chaene da Gama (baixo e vocal) superaram várias bandas e artistas vencendo o Prêmio BTG da Música Brasileira na categoria "Artista de Rock".

Sobre o nome da banda veio em homenagem à Martin Luther King, que repetiu diversas vezes em seu discurso histórico a frase: "Eu tenho um sonho", na Marcha sobre Washington, protesto que exigiu direitos iguais para pessoa negras e brancas nos Estados Unidos. Décadas depois, a frase também fez parte da história do Black Pantera.

O trio, que escolheu usar o nome do grupo político que tinha os mesmos objetivos que Luther King, mas com a possibilidade de autodefesa armada, nasceu de um sonho cultivado por anos no coração do guitarrista.

"Eu já tinha esse sonho na cabeça, realmente era um sonho ter uma banda preta de representatividade ativa para caramba", conta Charles.

A questão racial nunca passou despercebida para o músico: seus pais conversavam sobre o tema em casa e, a partir disso, desde cedo o jovem aprendeu a perceber o racismo estrutural (em piadas e em documentários sobre violência contra negros estadunienses) e a reagir quando ele cruzava o seu caminho. "Troquei soco com moleque na escola por conta disso, porque eu realmente não aceitava", lembra.

Crescendo com essa consciência e com gosto pelo rock, Charles curtiu as bandas que fizeram sucesso nos anos 2000, como System Of A Down, Linkin Park e Evanescence, em meio a um incômodo de não se ver representado num cenário musical predominantemente branco:

"Eu caçava super-heróis pretos, artistas pretos, mas dentro do rock, que era aquilo que eu amava tanto, era difícil (...) Foi difícil estar na roda da galera, ou nas bandas tocando, era difícil demais ser uma pessoa preta ali, querendo se ver, ver iguais a você fazendo isso e não tinha. Então, quando eu comecei a banda, foi por um desejo que já estava em mim desde muito jovem".

Aos poucos, o jovem foi conhecendo outras figuras do rock e ficou fascinado quando descobriu Jimi Hendrix e Lenny Kravitz: dois homens negros que ostentavam seus cabelos crespos e guitarras potentes nas mãos.

Depois de muitos anos cantando em uma banda cover de heavy metal, o músico passou um ano estudando guitarra e trabalhando nas próprias composições para transformar o sonho, que já considerava Rodrigo e Chaene como futuros parceiros, em realidade. Apesar de não comprarem a ideia de imediato, a dupla foi conquistada depois de ouvir as primeiras gravações de Charles.

De Uberaba (BR) para o mundo.

Black Pantera fez sua estreia nos palcos internacionais antes mesmo de tocar em qualquer capital brasileira. Em 2016, depois de dois anos tocando pelo interior de Minas Gerais, os músicos foram convidados para tocar na edição francesa do festival Afropunk depois de conhecer os organizadores do evento pelas redes sociais.

Além de superar as dificuldades financeiras típicas de todo artista iniciante que não conta com patrocínio, a banda também ultrapassou a barreira do idioma. As letras em português não foram um empecilho para que os mineiros conquistassem os palcos da França, por onde passaram outras vezes antes de receberem convites para grandes shows em sua terra natal.

"A gente voltou para o Brasil, fomos para Europa mais uma vez e aí a coisa começou a caminhar para cá, porque, na verdade, quando a gente foi para Europa, a gente nem São Paulo tinha trocado ainda. A gente não tem feito nenhuma capital no Brasil, a gente toca só em Uberaba e algumas pequenas cidades da região aqui", conta Charles.

No estúdio.

Depois do ponta pé inicial com o lançamento do "Project Black Pantera" (2015), um álbum que apresenta uma sonoridade agressiva que mistura elementos de Crossover Thrash, Hardcore Punk e Metal. Com 12 faixas, o trabalho aborda temas sociais críticos, como racismo, política e desigualdade. 

Depois veio o álbum "Agressão" (2018), o disco consolidou a sonoridade da banda, que mistura elementos de hardcore, metal, punk e thrash. 

O terceiro álbum de estúdio da banda mineira, lançado em 11 de março de 2022, último com a gravadora Deckdisc, é considerado um divisor de águas na carreira do trio, consolidando-os como um dos principais nomes do cenário pesado brasileiro contemporâneo.

PERPÉTUO é o quarto álbum de estúdio da banda, lançado em 24 de maio de 2024 pela gravadora Deck. O disco marca uma fase de exploração da sonoridade afro-latina, unindo o tradicional crossover thrash e hardcore do trio com influências musicais descobertas após uma viagem ao Chile. 

Destaques do Álbum: Temática Ancestral: O título e as composições resgatam a ancestralidade e celebram a cultura preta e a resistência, mantendo o ativismo lírico característico do grupo. A faixa-título "PERPÉTUO" ganhou um videoclipe dirigido por Carol Borges, lançado em agosto de 2024. Outro single de destaque é "Provérbios", que apresenta refrão em espanhol.

Festivais.

Em 2022, A partir do disco "Ascensão" (2022), que marcou o início de uma nova fase para banda, a banda se consolida no Brasil e mais participações em shows no exterior, o trio fez sua estreia no Rock in Rio e, nos anos seguintes, passou por todos os grandes festivais do país.

Depois de tocar Lollapalooza 2023, Black Pantera celebrou seus 10 anos de história cantando a premiada "Tradução" ao lado de Dona Guiomar, mãe de Charles e Chaene, no palco do Rock In Rio 2024. Uma turnê que passou por 20 cidades brasileiras e shows nos Estados Unidos e México. 

O trio gravou o primeiro audiovisual na véspera do Dia Consciência Negra, no Rio de Janeiro. Na estréia no festival The Town, a banda trouxe novidades em seu show carregado de energia num dia perfeito para os fãs de rock.

Dona Guiomar deve ser uma mãe muito orgulhosa com o sucesso dos filhos Charles e Chaene Gama.
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