Reflexões sobre História, Arte e Cultura.

domingo, 11 de outubro de 2026

Paul Kossoff

PAUL KOSSOFF
' um alquimista de timbres '

Existem guitarristas que conseguem tocar mais notas do que Paul Kossoff. Existem guitarristas que conseguem tocar mais rápido, com mais precisão, com maior alcance técnico e maior fluência em diversos gêneros. Nenhum deles, porém, jamais conseguiu fazer com que uma única nota sustentada soasse da mesma forma que Kossoff conseguia.

Ele tinha 20 anos, estava em um palco no Festival da Ilha de Wight diante de cerca de 600.000 pessoas, segurando uma Les Paul que havia sido reduzida à madeira crua — e tocava como um homem com o dobro da sua idade que já havia sobrevivido a algo terrível.

Esse é Paul Kossoff. Um metro e meio de altura, dolorosamente tímido fora do palco, uma força de proporções geológicas quando ligava o instrumento. Enquanto Eric Clapton e Jimmy Page colecionavam capas de revistas, Kossoff fazia algo que nenhum dos dois conseguia replicar completamente: ele fazia cada nota soar como se fosse a última que ele tocaria.

O vibrato. O sustain. A maneira como ele se entregava a um bend e o mantinha ali enquanto os amplificadores Marshall pressurizavam a sala ao seu redor. Angus Young o citou. Joe Bonamassa construiu uma carreira buscando ecos de seu timbre. Gary Rossington, do Lynyrd Skynyrd, disse sem rodeios: “Paul Kossoff foi uma grande influência. Aliás, para qualquer pessoa interessada em guitarra blues pesada naquela época, Paul era uma grande influência.”

Ele morreu aos 25 anos. Deixou para trás alguns discos e um timbre de guitarra que ninguém jamais conseguiu replicar completamente.

Este é o equipamento dele. Esta é a história por trás do som. E é por isso que ele ainda importa.
Contexto: Seis anos de violão clássico, uma noite com Clapton e tudo mudou.

Paul Francis Kossoff nasceu em 14 de setembro de 1950 em Hampstead, Londres, em uma família ligada ao teatro. Seu pai, David Kossoff, era um ator britânico renomado. A família era culta, intelectual e provavelmente não esperava produzir um dos guitarristas de blues-rock mais autênticos que a Inglaterra já viu.

Aos nove anos, Kossoff começou a ter aulas de violão clássico com Blanche Monroe. Estudou por seis anos — até os quinze — desenvolvendo a base técnica de controle dos dedos, disciplina de fraseado e consciência tonal que mais tarde se tornariam a espinha dorsal de seu estilo elétrico. Essa formação clássica não é mera nota de rodapé. Ela explica a precisão de seu vibrato, a economia na escolha das notas e a maneira como cada frase soa completa e ponderada, em vez de improvisada e descuidada.

Em dezembro de 1965, tudo mudou. Kossoff assistiu a um show de Eric Clapton com os John Mayall's Bluesbreakers no The Refectory, em Golders Green, noroeste de Londres. Ele tinha 15 anos. O que ouviu naquela noite transformou completamente sua mente. Saiu de lá querendo uma Gibson Les Paul — a mesma guitarra que Clapton estava tocando — e logo começou a trabalhar na loja de música Selmer's, na Charing Cross Road, juntando dinheiro para comprar a original.

Sua primeira Gibson foi uma Les Paul Junior de 1957 na cor TV Yellow — a mais barata que ele conseguiu encontrar. Depois veio uma Les Paul Custom de 1954 com dois captadores P-90, supostamente pertencente ao próprio Clapton. Kossoff passava horas debruçado sobre ela, transcrevendo riffs de blues, estudando cada bend, slide e vibrato que conseguia encontrar em gravações.

Em 1966, ele formou a banda de blues Black Cat Bones, que começou a se apresentar nos clubes de Londres. A banda fazia shows de abertura para o Fleetwood Mac regularmente, e Kossoff passava horas improvisando com Peter Green — outro guitarrista cuja economia e profundidade emocional deixariam uma marca permanente em sua abordagem. Na plateia de um show do Black Cat Bones, o baterista Simon Kirke ouviu algo que estava procurando e abordou Kossoff no bar depois.

Em abril de 1968, Kossoff e Kirke juntaram-se ao vocalista Paul Rodgers e ao baixista Andy Fraser para formar o Free. Kossoff tinha 17 anos. Ele tocava guitarra elétrica havia apenas dois anos. Mas soava como se fizesse isso há vinte.

Paul Rodgers, que ouviu Kossoff tocar pela primeira vez em um clube de blues em Finsbury Park, descreveu a experiência com precisão: “Ele trouxe o violão e fizemos uma jam session — uma jam de tirar o fôlego. Tocamos 'Stormy Monday Blues', B.B. King e algumas outras músicas, e foi como se o tempo tivesse parado. Quando saímos do palco, eu disse a ele: 'Cara, precisamos formar uma banda.'”

O vibrato — a assinatura inconfundível.

Esse é o mistério central de sua forma de tocar, e tudo começa com o vibrato.

O vibrato de Kossoff é uma das técnicas mais discutidas e menos imitadas na história da guitarra rock. É rápido — excepcionalmente rápido para um guitarrista de sua época, cuja maioria preferia um vibrato amplo e lento, na tradição de B.B. King. Mas também é controlado: não um tremor nervoso ou uma oscilação aleatória, mas uma oscilação deliberada e ritmicamente precisa que adiciona uma qualidade vocal, quase chorosa, às notas sustentadas.

Ele usava o dedo indicador para o vibrato, complementando-o com o anelar para maior força e controle. Em suas próprias palavras: “Eu faço o trinado com o indicador, o médio e o anelar, e o bend principalmente com o mínimo. Uso o indicador para o vibrato.” Essa não é a abordagem padrão do blues (que normalmente usa o anelar para o vibrato enquanto o indicador pressiona a corda). É uma técnica que ele desenvolveu, refinada ao longo de anos de prática deliberada, e que produz uma qualidade de movimento distintamente diferente — mais rápida, mais precisa, mais incisiva.

Simon Kirke descreveu isso simplesmente como a capacidade de "chorar cada nota". Essa é uma descrição tão precisa quanto qualquer análise técnica.

Nota sobre o tom: Seu vibrato nunca foi mero enfeite. Era o conteúdo emocional da frase, transmitido através da técnica física.

Guitarras: Burst, Customizadas e aquela que mudou de mãos com Clapton.

A história dos equipamentos de Kossoff é enganosamente simples à primeira vista — Les Paul, Marshall, e pronto — mas por trás desse resumo de três palavras reside uma história surpreendentemente detalhada de guitarras específicas com histórias específicas, escolhas de amplificadores que variaram mais do que a mitologia sugere, e um músico obcecado por vibrato que trabalhou mais no timbre do que a maioria das pessoas imagina.

As primeiras guitarras: Construindo rumo a  explosão.

Antes das famosas Les Pauls, houve uma série de instrumentos que contam a história de um adolescente trilhando seu caminho até a guitarra que o definiria. Primeiro, uma guitarra elétrica Eko 500 barata — sua primeira guitarra, com o que ele descreveu como um "acabamento dourado sem graça". Depois, a Les Paul Junior amarela, comprada após meses de economias do emprego na Selmer's. Em seguida, a Les Paul Custom de 1954 com captadores P-90 — supostamente pertencente a Clapton — que ele tocou durante seus anos com o Black Cat Bones e nos primeiros dias do Free.

A Custom apresentava um captador single-coil P-90 na ponte e um P-90 Alnico "clássico" na posição do braço. Não era o som de humbucker que ele buscava — ainda pendia mais para o lado do jazz no espectro tonal — mas o levou aos shows e o ensinou sobre a arquitetura da guitarra enquanto ele juntava dinheiro para algo melhor.

A “Kossoff Burst” — A Gibson Les Paul Standard de 1959.

Na primavera de 1969, Kossoff adquiriu uma Gibson Les Paul Standard sunburst de 1959. As circunstâncias exatas da aquisição não são claras — provavelmente uma troca, considerando suas finanças limitadas na época — mas o que aconteceu em seguida com aquela guitarra é uma das histórias de instrumentos mais documentadas e mitificadas da história do rock britânico.

Em algum momento no início de sua posse, Kossoff — ou possivelmente um proprietário anterior — removeu o acabamento sunburst do tampo de maple até expor a madeira crua e aplicou uma camada transparente. O resultado foi o que ficou conhecido como "Stripped Top" ou "Kossoff Burst" — uma Les Paul Standard com acabamento natural que exibia o tampo de maple figurado em toda a sua glória. A parte traseira conservava vestígios do acabamento marrom, e resíduos de laca vermelha na cavidade dos controles indicam que a guitarra originalmente tinha um acabamento sunburst.

Esta é a guitarra vista no Festival da Ilha de Wight em 30 de agosto de 1970, onde o Free se apresentou para um público estimado entre 600.000 e 700.000 pessoas, ao lado de bandas como The Who e Jimi Hendrix. É quase certo que seja a guitarra ouvida em “All Right Now”. E seus captadores PAF — com resistência de 8,52 kΩ no braço e 7,43 kΩ na ponte, com raros ímãs de Alnico III — são uma parte significativa do motivo pelo qual esse timbre soa da maneira que soa. Aberto, dinâmico, harmonicamente complexo e responsivo ao mais leve toque de vibrato.

A história da guitarra torna-se trágica a partir de 1974. À medida que o vício em drogas de Kossoff se intensificava, ele foi forçado a vender instrumentos para sustentar o seu vício. A Kossoff Burst foi vendida a um homem chamado Mike Gooch por £500 em setembro de 1974 — com os trastes tão desgastados que o pai de Gooch o repreendeu severamente por gastar tanto dinheiro numa guitarra tão velha. Kossoff tentou, sem sucesso, comprá-la de volta em 1975. Ele morreu em 1976 sem a ter recuperado.

Em 2012, a Gibson recriou a guitarra como uma edição limitada da Paul Kossoff 1959 Les Paul Standard, utilizando sua própria análise do instrumento original — incluindo os captadores Alnico III PAF — para capturar a ressonância e o caráter tonal específicos que a tornaram lendária.

Nota sobre o timbre: A remoção da camada de verniz original não é apenas estética. A alteração na ressonância da madeira a tornou mais aberta, mais responsiva, mais vibrante. O melhor timbre de Kossoff pode ter sido, em parte, acidental.

O “Darkburst” de 1958 — The Clapton Trade.

Por volta de julho ou agosto de 1969 — enquanto o Blind Faith estava em sua fatídica turnê pelos EUA — Kossoff trocou sua Les Paul Custom de 1954 com Eric Clapton por uma Les Paul Standard de 1958 com acabamento dark sunburst. O modelo exato da guitarra que Clapton recebeu é debatido desde então: Clapton mais tarde deu uma Les Paul Custom de três captadores para Albert Lee por volta de 1979, mas nunca foi comprovado conclusivamente se era a Custom de Kossoff ou um instrumento diferente.

O que fica claro é que o acabamento darkburst de 1958 tornou-se parte do arsenal de Les Pauls de Kossoff durante a era de "Fire and Water and Highway", adicionando mais um toque do timbre PAF do final dos anos 50 à sua paleta de estúdio. As Les Pauls darkburst de 1958 tendem a ter um caráter ligeiramente mais quente e escuro do que as flame tops mais brilhantes de 1959 — diferentes graus de ímãs Alnico, diferentes tensões dos fios no enrolamento dos captadores, variações sutis que se somam a uma sonoridade perceptivelmente diferente.

A Les Paul "Stripped Top" — A guitarra da Ilha de Wight.

Separada da Kossoff Burst acima — ou possivelmente a mesma guitarra, dependendo da versão que você consultar — existe a Les Paul com acabamento natural simplificado que Kossoff tocou na Ilha de Wight e usou na apresentação de "All Right Now" no programa Top of the Pops. 

Seu ano exato de fabricação (1958, 1959 ou 1960) permanece incerto devido à perda do número de série durante um processo de restauração. Kossoff vendeu esta guitarra em setembro de 1974 por £500 para Mike Gooch, que mais tarde a vendeu para Arthur Ramm por £1.000. Seu atual proprietário permanece anônimo.

A “Kossoff Burst” de 1959 — A guitarra quebrada e trocada.

Uma segunda Les Paul Standard de 1959 documentada, que fazia parte da coleção de Kossoff, teve um fim dramático. Ao término do último show do Free em 1972 — a noite em que a banda efetivamente se separou — Kossoff jogou a guitarra para o alto e se afastou enquanto ela caía, rachando o headstock. Ele então foi até Arthur Ramm, cuja banda Beckett havia sido a banda de abertura, e trocou a Les Paul de 1959 danificada pela Les Paul Goldtop de 1968 de Ramm, que estava no camarim. A Burst quebrada foi consertada pelo luthier londrino Sam Li, mas o conserto infelizmente fez com que o número de série original do headstock fosse perdido.

A Les Paul Custom de 1954 (Black Beauty) — A guitarra de Clapton.

Essa era a guitarra mais valiosa de Kossoff durante seus anos com o Black Cat Bones e os primeiros tempos do Free. Uma Custom pré-humbucker equipada com captadores P-90 — supostamente pertencente a Clapton — ela lhe proporcionava um timbre mordaz, com influências de jazz, que contrastava com o som mais encorpado das Standard sunburst. Ele acabou trocando-a com Clapton pela darkburst de 1958 em 1969.

Outras guitarras na coleção de Kossoff

Gibson ES-335 (braço em bloco, década de 1960) — Usada durante a era Fire and Water para timbres específicos em camadas; contribui com o caráter quente de guitarra semiacústica audível em certas faixas do álbum Free.

Gibson Les Paul Custom (meados da década de 1950, três captadores) — Uma Custom preta de três captadores usada separadamente, juntamente com as Bursts, durante as gravações de Tons of Sobs com amplificadores Marshall e Laney.

Fender Stratocaster (Branca, composta) — Um braço de Stratocaster de 1957 em um corpo de 1960 com captadores de 1964 e um escudo verde-menta. Usada no videoclipe de “My Brother Jake” (1970) e na capa de seu álbum solo Back Street Crawler. Esta é provavelmente a guitarra que Dave Murray, do Iron Maiden, comprou posteriormente por £1.400 em 1976 — um fato que diz tudo sobre o calibre dos instrumentos que Kossoff possuía.

Les Paul Burst (1958–1960) — Kossoff possuía e tocava várias 'Bursts ao longo de sua carreira, uma tigerstripe de 1958/59 usada com Black Cat Bones, uma sunburst vermelha brilhante de 1960 (vista no vídeo de “The Stealer”) e outras que passaram por suas mãos à medida que o vício o forçava a vendê-las.

Gibson Hummingbird / Guild Acoustic — Violões usados ​​para compor músicas. Em sua última entrevista para a revista Guitar Player, em 1976, ele mencionou um violão Guild que ganhou dos membros do Back Street Crawler quando estava doente, e que ele considerava o melhor violão que já havia possuído.

Gibson Les Paul Junior (TV Yellow, 1957) — Sua primeira Gibson de verdade, comprada com a economia que fez na Selmer's.


Amplificadores e Gabinetes: Marshalls, Laneys e autorais.

Durante a maior parte da carreira de Free, o amplificador de palco de Kossoff era um Marshall. 
É sabido que Kossoff e seu pai, David, construíram um de seus gabinetes Marshall sozinhos. David Kossoff, o célebre ator britânico, aparentemente ajudou o filho a construir um gabinete de alto-falante — um detalhe que humaniza consideravelmente ambos.

Nota sobre o timbre: Cabeçote Super Bass, alto-falantes de graves. É mais encorpado, escuro e cheio do que a configuração padrão de guitarra da Marshall. Isso não é por acaso — é a arquitetura do timbre de All Right Now.

PAUL KOSSOFF
Era o Espaço — Menos Como Declaração. 

O Free era um quarteto com dois dos melhores músicos do rock britânico: Andy Fraser (baixo) e Paul Rodgers (vocal). Kossoff compreendeu intuitivamente que seu papel não era preencher todas as frequências disponíveis, mas sim ocupar o espaço deixado pelos outros três e fazer com que esse espaço fosse relevante.

Seus solos são modelos de contenção. Ouça “All Right Now”, “Mr. Big”, “Fire and Water” — as linhas de guitarra são melódicas no sentido de composição, não no sentido de improvisação. Ele não está tocando escalas. Ele está cantando. Cada frase tem um início, desenvolvimento e resolução claros. Ele chega a uma nota, aplica o vibrato, a sustenta por um tempo que parece uma eternidade, e então passa para a próxima.

Essa abordagem ao espaço — deixando espaço entre as frases, permitindo que o amplificador respire, deixando que as notas sustentadas completem seu decaimento natural antes da próxima — cria a qualidade hipnótica e pressurizada que define o melhor material do Free. É fraseado de blues no sentido mais profundo: não rápido, não agitado, não demonstrativo. Simplesmente verdadeiro.

"Kossoff compreendeu que o silêncio entre as notas não é ausência. É tensão. E é a tensão que dá importância à próxima nota"


sábado, 10 de outubro de 2026

Elis Regina


ELIS REGINA
' nada será como antes '

Considerada por muitos como a melhor cantora brasileira de todos os tempos. Diversas canções foram eternizadas na sua voz, entre elas: Águas de Março, Casa no Campo e Como Nossos Pais. Elis criou os gestos que se tornaram sua marca registrada, pois era uma artista muito performática no palco. Sua capacidade de transmitir os sentimentos dos inúmeros compositores que a escolhiam para interpretar suas canções era impressionante. 
______________________________________________________

Trajetória Artística

Elis Regina de Carvalho Costa nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no dia 17 de março de 1945. Começou a cantar com onze anos de idade no programa "No Clube do Guri" na Rádio Farroupilha apresentado por Ari Rego.

Em 1960 foi contratada pela Rádio Gaúcha. Nesse mesmo ano, foi eleita a “Melhor Cantora do Rádio”. Em 1961, com 16 anos, viajou para o Rio de Janeiro onde lançou seu primeiro disco "Viva a Brotolândia". Em 1964 já se apresentava no eixo Rio São Paulo. Assinou contrato com a TV Rio para se apresentar no programa "Noite de Gala", sob a direção de Luís Carlos Miele e Ronaldo Bôscoli.  Também se apresentava no "Beco das Garrafas", reduto da Bossa Nova.

Ainda em 1964, Elis mudou-se para São Paulo. Em 1965 fez a sua estreia no festival da Record com a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Elis recebeu o Prêmio Berimbau de Ouro e o Troféu Roquette Pinto. Foi eleita a melhor cantora do ano.

Entre 1965 e 1967, ao lado de Jair Rodrigues e do Zimbo Trio, Elis apresentou o programa "O Fino da Bossa" na TV Record em São Paulo. O programa gerou três discos: Dois na Bossa I, II e III. O primeiro "Dois na Bossa" vendeu um milhão de cópias. Elis Regina era conhecida não apenas pela sua grande extensão vocal como também pela versatilidade de sua voz e interpretação marcante.

Elis Regina nos anos setenta e sua relação com a política.

O posicionamento político de Elis Regina também era uma de suas marcas registradas. A cantora era uma forte crítica ao regime militar que assolou o Brasil entre 1964 a 1985.

Politizada, a cantora se pronunciava em entrevistas, televisão e, claro, na música. Entre as grandes interpretações de Elis que denunciavam a ditadura militar, estão as canções “Como nossos pais” (1976) e “O bêbado e o equilibrista” (1979).


Nos bastidores, era sabido que ela não gostava das guitarras e do som produzido pelos Mutantes e por Rita Lee. Entretanto, em 1976, quando Rita Lee foi presa enquanto estava grávida, Elis Regina foi a primeira pessoa a se pronunciar e visitar a cantora. Além disso, exigiu melhor tratamento para Rita, assim como comida e sua libertação. Após isso, ambas se tornaram amigas pessoais e de palco. Na música, elas colaboraram na canção “Doce de pimenta” e em “Alô, alô marciano”, composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho. Na vida privada, Elis Regina deu o nome de sua filha, Maria Rita, em homenagem à Rita Lee.

Elis Regina se relacionou principalmente com pessoas envolvidas com o mundo música, como é comum dos artistas, devido ao estilo de vida em comum, e teve três filhos. Ela namorou o artista Edu Lobo, com quem colaborou em diversas canções. Em 1964, começou seu relacionamento com o produtor musical Solano Ribeiro, de quem ficou noiva, porém a relação conturbada chegou ao fim.

Em 1967, casou-se com o compositor Ronaldo Bôscoli, de quem se separou em 1972. Com Bôscoli, Elis teve seu primeiro filho, João Marcelo Bôscoli. Entre 1973 e 1981, Elis viveu com o pianista e arranjador musical César Camargo Mariano. Juntos, além da parceria musical, eles tiveram dois filhos: Pedro Camargo Mariano (1975) e Maria Rita (1977).

Em 1968, Elis embarcou em uma promissora carreira internacional. No Olympia de Paris, foi ovacionada e voltou ao palco seis vezes depois do final do show. O apelido de Pimentinha foi dado por Vinícius de Moraes. A palavra exprimia a miudeza física e a personalidade explosiva da cantora, que mudava de comportamento em segundos. Era capaz de brigar aos gritos e no minuto seguinte conversar normalmente como se nada tivesse acontecido.

Elis Regina era uma artista eclética, interpretava canções de vários estilos, como MPB, jazz, rock, bossa nova e samba. Levou à fama cantores importantes como Milton Nascimento, João Bosco, Belchior e Ivan Lins. Fez dueto com Tom Jobim, Jair Rodrigues, Gilberto Gil, Chico Buarque entre outros. 

Todos os álbuns dessa década são maravilhosos, dificíl até destacar algum: Ela (1971), Elis (1972), Elis (1973), Elis (1974), Elis e Tom (1974), Falso Brilhante (1976), Elis (1977), Transversal do Tempo (1978), Essa Mulher (1979), Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980).

Cesar Camargo Mariano assumiu a direção musical, piano e arranjos da banda de Elis, unindo a força vocal da cantora a uma sofisticada mistura de samba / jazz. O músico reuniu um time de primeiríssima linha, para acompanhar Elis Regina nessa fase. Além de Cesar Camargo Mariano, no piano e teclados estão: Helio Delmiro, na guitarra; Luizão Maia, no baixo; Paulo Braga, na bateria; e Chico Batera, na percussão. Com Luizão Maia emulando no baixo o som do bumbo, que faz parecer que tem uma escola de samba inteira dentro do estúdio. O primeiro trabalho que Elis Regina realizou sob a direção de Cesar Camargo Mariano foi o álbum chamado simplesmente Elis, editado em 1972.

Fazendo um recorte da artista sob a perspectiva do feminino, ela se destacava como uma mulher à frente de seu tempo. Elis era inspiradora, expressando seus pensamentos sem hesitação, contestadora, ousada e corajosa. Uma artista que desafiava o status quo, sempre em busca de novos desafios, deixando sua marca em tudo o que realizava e rompendo com os padrões da época, consolidando-se como um ícone da música brasileira. Elis foi, e continua sendo, uma referência e inspiração para artistas de todas as gerações.

Elis Regina foi encontrada desacordada em seu apartamento no bairro dos Jardins, por seu namorado Samuel MacDowell, que arrombou a porta e tentou socorrê-la, mas ela já chegou sem vida ao hospital. Ela faleceu com apenas 36 anos, em São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1982, vítima de overdose.

Foi lançado uma nova reedição da biografia de Elis Regina com uma nova capa – Nada Será Como Antes, escrita pelo jornalista Julio Maria e lançada originalmente em 2015. Com título que suprime o “Regina” do sobrenome da cantora na capa, o livro volta ao mercado com texto revisto e ampliado, acrescido de histórias inéditas, apuradas em novas entrevistas feitas pelo autor.

Seu legado apresenta artistas contemporâneas que sempre revisitam seu repertório como Ana Canãs e Assucena, além de depoimentos e várias entrevistas e vídoes com bate papo sobre a amizade e admiração que compartilhava com o mundo. Falas potentes de Elis, onde ela se posicionava sobre temas que ainda são considerados tabus no Brasil, como o aborto, por exmplo. 

Sues filhos João Marcelo, Pedro Mariano e Maria Rita estão sempre promovendo curadorias e nos trazendo materiais e histórias novas dessa gigante artista da música brasileira!!

______________________________________________________


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Democracia Corintiana: Diretas Já! (ditadura militar)


Amarelo, sim! 
' símbolo da luta democrática na redemocratização do Brasil '

A multidão que pedia a volta da democracia no famoso comício do Vale do Anhangabaú em 1984 vestiu amarelo, assim como os atletas corinthianos que subiram ao palco.
20/09/2023 - Agência Corinthians

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o presidente do Brasil!”

Dezenas de milhões de brasileiros gritavam essas e outras palavras durante as passeatas, comícios, shows e outros eventos das Diretas Já. Gestadas em 1983, as manifestações cresceram e em 1984 tomaram o país como uma onda amarela. A cor, representativa do período e protagonista na terceira camisa corinthiana desta temporada, não foi escolhida por acaso.

O amarelo fora definido como cor oficial pelo Comitê 25 de Janeiro, que reunia diversos ativistas a favor do movimento que pedia a volta das eleições diretas para presidente do Brasil, depois de 20 anos de regime militar. Dentre os diversos motivos, o amarelo havia sido usado em outras manifestações democráticas mundo afora e tinha conexão direta com a bandeira brasileira. A proposta foi abraçada pelo comitê e levada à imprensa, que em sua maioria apoiava o movimento e passou a divulgá-la como a cor oficial das Diretas Já.

Na mesma época, a Democracia Corinthiana dava show nos estádios e nas ideias. O time vitorioso tinha uma gestão revolucionária, na qual diversas demandas do departamento de futebol eram definidas por meio do voto de atletas, técnico, roupeiro, diretores etc. Aquele modelo havia sido sugerido por Adilson Monteiro Alves, diretor de futebol da época (e atual diretor do departamento de Responsabilidade Social do Corinthians). Foi recebida com entusiasmo pela maioria da comissão técnica, que também enxergou uma forma de provocar a reflexão política do Brasil.

Não por acaso, os jogadores carregaram no uniforme mensagens estampadas em apoio às eleições, além da emblemática faixa “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”. Com esse espírito, muitos passaram a frequentar os palcos dos Comícios pelas Diretas Já, notadamente Sócrates, Wladimir e Casagrande.

Estiveram também na manifestação de 16 de abril de 1984, realizada no Vale do Anhangabaú, no centro paulistano. O narrador Osmar Santos foi o mestre de cerimônias do evento que reuniu pelo menos 400 mil pessoas – algumas contas falavam em mais de um milhão, mas a verdade é que o espaço não comportava tanta gente. 

A data marcou, de todo modo, o maior comício pelas Diretas do Brasil, contando com nomes como Fafá de Belém, Geraldo Vandré, Eva Wilma, Rita Lee e Fernanda Montenegro, e várias lideranças políticas como Lula, Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas e Leonel Brizola.

Do alto do palco, vestindo amarelo como toda a multidão, Sócrates deu a famosa declaração de que não deixaria o país caso o Congresso aprovasse a emenda parlamentar que garantiria a volta das eleições diretas.

As Diretas Já reuniram multidões Brasil afora e o apoio geral de artistas, intelectuais, jornalistas, trabalhadores e diversas parcelas de sociedade. Um movimento que está marcado na história do Corinthians e de todo o Brasil.

Fontes: Fernando Wanner; Ensinar História; Esportelândia, O Estado de S.Paulo (17/4/1984); Folha de S.Paulo (17/4/1984; 16/4/2004, 25/2/2023).


quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Rita Lee


RITA LEE
' a referência das mulheres do rock brasileiro '

Cantora e compositora conhecida como a “rainha do rock brasileiro”. Defensora dos direitos das mulheres, ela foi uma das primeiras a tocar guitarra em um palco. Dona de cabelos lisos, com franja e pintados de vermelho, a artista participou dos grupos Os Mutantes, Cilibrinas do Éden e Tutti Frutti entre as décadas de 1960 e 1970, tornando-se famosa mundialmente.
_______________________

O Mundo de Rita Lee Jones

Rita Lee Jones de Carvalho nasceu no dia 31 de dezembro de 1947, na cidade de São Paulo (SP). Vinda de uma família de classe média, na sua infância e adolescência morou no bairro paulistano Vila Mariana, onde ela afirmou já ter vivido grandes momentos. A artista estudou em um dos tradicionais colégios paulistas, o Liceu Pasteur. 

Quando era criança, Rita Lee teve aulas de piano, mas foi na adolescência que realmente passou a ter interesse na música. Também nessa época começou a compor suas primeiras canções. Assim como vários jovens da década de 1960, Rita Lee gostava de bandas de rock internacionais como The Beatles e Rolling Stones. Também admirava cantores brasileiros como Cauby Peixoto e João Gilberto, um dos criadores do estilo musical bossa nova. A cantora chegou a ingressar no curso de Comunicação Social, na Universidade de São Paulo (USP), mas abandonou a instituição para se dedicar à música.

A importância de Rita Lee como figura central na consolidação do gênero no país e como voz ativa na representação das mulheres na música, desempenhando um papel fundamental não apenas na inovação estética e sonora do rock nacional, mas também na ampliação das possibilidades de representação feminina na música. 

Sua atuação desafiou padrões e abriu caminhos para outras mulheres no cenário musical, ao mesmo tempo em que expressava, com irreverência e profundidade, as inquietações e aspirações de sua geração. Assim, sua obra permanece como referência essencial para compreender os diálogos entre música, sociedade e gênero no Brasil contemporâneo.

Rita Lee foi uma mulher de fibra, rebelde com uma causa. Ela entendeu desde cedo que as regras estabelecidas pela sociedade nem sempre são justas e que, às vezes, é preciso desafiá-las para encontrar o próprio espaço.

Ao analisar as letras de suas músicas, é possível perceber que Rita sabia da importância da igualdade de gênero, da luta pelo reconhecimento das mulheres e da necessidade de quebrar tabus. Suas canções, repletas de mensagens feministas, falam da importância da autoafirmação e da resistência feminina diante dos desafios da vida.

Sua música sempre foi um espelho de sua vida: contestadora, original, verdadeira. Rita Lee foi, e sempre será, um símbolo de força e resistência, uma inspiração para todas as mulheres que buscam afirmar-se em um mundo ainda tão desigual. Suas letras sempre foram contestadoras e livres, dizendo o que muitas mulheres achavam não poder cantar. Desafiava "os padrôes"!

Rita Lee iniciou sua carreira artística no final dos anos 60, como integrante da  banda Os Mutantes, que combinava elementos do rock psicodélico com a música popular brasileira. Junto a Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, o grupo tornou-se um dos pilares do movimento Tropicalista, movimento que contava com artistas como Gilberto Gil, Gal Costa, Caetano Veloso, Tom Zé e etc etc.... Porém, a relação de Rita com a banda, principalmente com Arnaldo Baptista, começou a se deteriorar no início da década de 1970.

O primeiro marido de Rita Lee foi Arnaldo Baptista, eles se casaram em 1971 e se separam alguns anos depois. Em 1976, Rita Lee passou a morar com o guitarrista e futuro parceiro musical Roberto de Carvalho. Eles somente se casaram no civil em 1996 e seguiram juntos até a morte dela, em maio de 2023. Rita Lee teve três filhos com Roberto de Carvalho: João, Antônio e Beto Lee. Este último também é guitarrista. A cantora também teve dois netos: Izabella e Arthur.

Rita, além de se sentir sufocada pela relação pessoal com os irmãos Baptista, também enfrentava a discriminação de gênero na indústria da música, problema ainda mais acentuado naquela época. Ela vivenciou o machismo dentro do próprio grupo, onde era constantemente subestimada e tinha suas opiniões desconsideradas por ser mulher. Como resultado, Rita passou a buscar seu próprio espaço para expressar-se artisticamente.

Em 1972, após muitos conflitos internos e desgastes pessoais, Rita Lee saiu d'Os Mutantes, dando início a uma carreira solo que se tornaria extremamente bem sucedida. Foi um período de intensa renovação e autodescoberta. Ela se reinventou como cantora, compositora e como ativista, assumindo sua voz na luta pelos direitos das mulheres e por uma sociedade mais igualitária.

Contudo, os anos de história como artista conta com um “álbum perdido” de uma banda que ela estava montando junto a outra mulher revolucionária, Lucinha Turnbull, o álbum era Cilibrinas do Éden. 

Em 1972, Rita Lee já havia gravado paralelamente aos Mutantes dois álbuns solos, Build Up, de 1970, e Hoje É o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida, de 1972, porém ambos contavam com os integrantes da banda. Após a saída definitiva dos Mutantes, Rita Lee se juntou a Lucinha Turnbull para criar a banda Cilibrinas do Éden, uma banda puramente rock com ares de folk e psicodelia. Lucinha, outra mulher emancipada, foi importantíssima para Rita nessa fase dificíl de sua carreira, além ter sido muito importante na história da música nacional, pois Turnbull é "oficialmente" considerada a primeira guitarrista brasileira.

Apesar da curta duração das Cilibrinas do Éden, as gravações do projeto serviram como ponto de partida para a banda Tutti Frutti, inicialmente chamada de Lisergia, que era formada por Luís Sérgio Carlini, Lee Marcucci e o baterista Emilson Colantonio. Contudo, Lucinha Turnbull acabou não fazendo parte do novo grupo. Na música “Menino Bonito”, que tinha um tom totalmente à lá Cilibrinas, com duas vozes e violões, a produção decidiu apagar a voz de Turnbull, deixando apenas a de Rita. Mesmo com a saída da guitarrista, a banda Tutti Frutti obteve bastante sucesso, e as músicas do projeto não lançadas da dupla cilibrinas foram reaproveitadas por ambas em seus trabalhos posteriores. O álbum ganhou uma reedição em vinil em 2023 (com tiragens e prensagens independentes/não-oficiais de colecionador), marcando os 50 anos do projeto.

A "Ovelha Negra" da MPB

Seu auge na carreira solo ocorreu durante os anos 70 e 80, quando lançou sucessos incontestáveis como "Ovelha Negra", "Mania de Você", "Lança Perfume" e "Baila Comigo". Essas músicas, além de se destacarem por sua originalidade e qualidade musical, eram repletas de mensagens de empoderamento feminino, incentivando as mulheres a serem donas de suas próprias vidas.

Em sua carreira solo, Rita Lee consolidou-se como uma das maiores artistas da música brasileira, conquistando um público fiel e marcando várias gerações com suas letras provocativas e performances vibrantes. Ela abriu caminho para que outras artistas pudessem afirmar-se em uma indústria historicamente dominada por homens.

A trajetória de Rita Lee, desde a saída d'Os Mutantes até o auge de sua carreira solo, é uma história de resistência, resiliência e transformação. Ela enfrentou o machismo, buscou seu próprio espaço e tornou-se uma das maiores vozes feministas da música brasileira, deixando um legado que transcende a arte e toca as esferas da luta pela igualdade de gênero.

Em sua extensa e prolífica carreira, Rita Lee apresentou ao Brasil – e ao mundo – uma mulher irreverente, talentosa e autêntica, cuja arte questionava normas e estereótipos. Ela foi uma pioneira, desafiando os padrões de uma indústria dominada por homens e se tornando uma das principais referências do rock nacional.

Na música "Todas as Mulheres do Mundo", desvendou a diversidade feminina. Com um ritmo cativante e versos diretos, a canção é um hino de empoderamento e aceitação. Rita convida todas as mulheres a celebrarem sua essência, suas singularidades, suas lutas e suas vitórias. Ela nos fala que ser mulher é ser múltipla, é ser única, é ser todas as mulheres do mundo.

Já em "Pagu", uma poderosa colaboração com Zélia Duncan, Rita prestou uma homenagem à notória feminista brasileira  Patrícia Rehder Galvão, conhecida como Pagu. A música reflete a irreverência e a coragem dessa mulher, que desafiou a sociedade machista do século XX, justamente como Rita fez através de sua música.

Rita Lee carregou a bandeira do feminismo não só através das suas letras, mas também por meio de sua postura diante do mundo. Com o seu talento e irreverência, ela fez história ao se tornar a primeira mulher com protagonismo numa banda de rock no Brasil, Os Mutantes, desafiando as normas de gênero de sua época.

Além disso, ela foi uma das pioneiras ao introduzir letras de teor social e político no universo do rock nacional, rompendo com os estereótipos de que o gênero musical era essencialmente masculino e de que a mulher em uma banda de rock deveria estar relegada a uma posição secundária.

Rita Lee desafiou estereótipos, abriu caminhos e celebrou a liberdade e a autenticidade feminina. Com sua voz potente, suas melodias inesquecíveis e seu espírito indomável, ela fez história na música brasileira. Agora, mesmo após sua morte, a voz de Rita Lee continua ecoando, inspirando novas gerações e perpetuando a luta feminista.

A história da música brasileira não pode ser contada sem mencionar Rita Lee. E a luta feminista também não. Afinal, ela usou sua voz, sua música e sua presença de palco para defender uma causa maior: a igualdade de gênero.

Rita Lee, a eterna Rainha do Rock brasileiro, a mulher que ousou, inovou e quebrou barreiras, será para sempre lembrada. Não só por suas músicas, mas também pela mulher que foi: forte, corajosa, rebelde e, acima de tudo, autêntica.

Rita Lee participou ativamente do movimento das 'Diretas Já' em 1984, subindo ao palco de grandes comícios ao lado de lideranças políticas e de figuras do esporte como os jogadores da chamada Democracia Corinthiana (Sócrates, Wladimir e Casagrande).

A cantora esteve presente em um dos maiores atos públicos da campanha pelas eleições diretas para presidente no Brasil, reforçando o coro popular pela redemocratização do país. Durante esse período, Rita Lee também protagonizou momentos históricos com o time do Corinthians, vestindo a camisa do clube em apresentações e unindo a música ao grito por liberdade política. 

Mesmo com o avanço da campanha das 'Diretas Já', a artista continuou enfrentando resquícios de censura do regime militar em seus trabalhos, como o álbum Bombom (1983). No ano de 1976, Rita Lee já havia passado por momentos marcantes e turbulentos em sua vida, pois virou uma prisioneira política tendo desafiando o sistema com o lançamento do álbum Entradas e Bandeiras, com a famosa música "Arrombou a Festa".

Rita Lee foi presa em 24 de agosto de 1976, durante a ditadura militar, após a polícia invadir sua casa na Vila Mariana, em São Paulo. A polícia alegou ter encontrado 300 gramas de maconha na residência da cantora, uma acusação que ela e sua defesa apontaram como forjada pelo regime. Ela estava grávida de 3 meses de seu primeiro filho, Beto Lee. Ficou detida por dois dias no Departamento de Investigações Criminais (DEIC) e depois foi transferida para o Presídio Feminino do Hipódromo, onde passou mais oito dias. A cantora Elis Regina foi ao local cobrar atendimento médico para Rita e pressionar as autoridades e a imprensa.

Embora tenha sido alvo da repressão e da censura (com diversas músicas e álbuns proibidos), Rita Lee costumava se definir de forma irônica como uma "hiponga comunista com um pé no imperialismo", preferindo o deboche e a contracultura à militância partidária tradicional da época.


Que sua voz continue a ecoar pelos quatro cantos do Brasil, inspirando novas gerações de mulheres a lutarem por seus direitos e a fazerem história, assim como ela fez. Rita Lee, eternamente em nossos corações, será sempre um símbolo de força e resistência, uma eterna referência em nossa música e nossa luta.

A artista resolveu aposentar-se dos palcos em 2012, anunciando que estava com problemas de saúde. Na época, a cantora chegou a afirmar em uma rede social: “me aposento dos shows, mas da música nunca”. Entretanto, um ano depois, chegou a participar de shows, como o que foi realizado em comemoração aos 459 anos da cidade de São Paulo.

Em 2021, a cantora revelou que estava com câncer de pulmão. Fez o tratamento e, no ano seguinte, anunciou estar curada. Desde o início de 2023, a cantora sentia-se debilitada e chegou a ser internada no final de fevereiro. Saiu do hospital no início de março. Na noite do dia 8 de maio de 2023, Rita Lee morreu em sua casa, em São Paulo capital, ao lado de sua família.

A cantora era adepta do veganismo. Teve opiniões contundentes e costumava expressá-las sempre que podia em suas entrevistas. Foi defensora dos animais e dos direitos das mulheres. Ela também gostava de se expressar por meio de suas redes sociais, o que garantirá sua arte registrada por muito e muito tempo !!
_____________________________________________________________


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Heroínas do Brasil: Antonieta de Barros


Antonieta de Barros
' mil faces de uma liderança histórica pioneira '

Em memória dos 125 anos de nascimento de Antonieta de Barros, saiba mais detalhes sobre a trajetória, as lições e o legado da professora e jornalista, que foi a primeira parlamentar negra eleita em Santa Catarina

Mais do que uma pessoa à frente de seu tempo, uma liderança que apontava horizontes para a estruturar e construir o futuro do Brasil. Esta descrição sobre Antonieta de Barros (1901-1952) ajuda a compreender a magnitude de sua trajetória, mas passa longe de fazê-lo de modo pleno.

Dizer que Antonieta de Barros foi professora, oradora, parlamentar, militante da área educacional e ensaísta não dá a dimensão do quão grande foram a sua vida e obra. Falar que ela entrou para a história brasileira por ser considerada a primeira mulher negra de Santa Catarina eleita deputada em 1934, nas eleições realizadas imediatamente após as mulheres terem conquistado o direito ao voto no Brasil, em 1932, induz ao risco de limitá-la a um determinado período histórico.

Constatar que ela foi isso tudo e muito mais ainda está aquém do seu tamanho real. Podemos dizer, sem dúvida, que a liderança foi - e continua a ser - uma daquelas figuras maiores do que a vida. Isso sem contar que conhecer a sua trajetória ajuda apresentar contrapontos importantes contra tentativas de apagamento e de revisionismo histórico sobre a presença negra em Santa Catarina.

“Sua trajetória nos ensina a olhar a sociedade brasileira sobre vários aspectos que fogem ao senso comum: mostra que, apesar da autoimagem e da imagem que a região Sul construiu, não há apenas brancos e eurodescendentes na região”, explica Surya Aaronovich Pombo de Barros, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pós-doutoranda no Instituto Caro y Cuervo (Bogotá, Colômbia) e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A docente destaca também que a sua trajetória ensina também que, “a despeito de uma ideia recorrente de que ‘pessoas negras’ estiveram apartados do universo letrado e escolar, as pesquisas das duas últimas décadas demonstram que uma parte da resistência negra foi feita pela via da educação formal.”

Superação de barreiras históricas e sociais

“Não havia processos que levassem as pessoas a ter mobilidade social. Havia privilégios: fazer parte de determinado grupo, classe social ou etnia. Então, quando ela chega à Escola Normal, ela já está rompendo com algumas barreiras. Não [significa] que não houvesse pessoas negras antes: por meio da biografia dela e dos estudos sobre ela e a irmã conhecer as outras pessoas negras.”

Esta fala de Jeruse Romão, professora escritora, militante do movimento negro e biógrafa de Antonieta de Barros e da irmã, Leonor de Barros (1904-1974), ajuda a perceber a dimensão das diversas barreiras presentes nas trajetórias de pessoas negras à época. Outro ponto diz respeito ao apagamento histórico que, por meio de dinâmicas diversas, permearam a época em que a intelectual atuou e encontram ecos nos dias atuais.

A análise que Jeruse Romão faz sobre a liderança educacional e política, que reverberou nas obras de sua autoria ‘Antonieta de Barros: Professora, escritora, jornalista, primeira deputada catarinense e negra no Brasil’ (2021) e ‘Antonieta de Barros: Discursos, entrevistas e outros textos’ (2023) mostra que o caminho trilhado por ela teve participações definitivas dos passos que sua mãe, Catarina de Barros, e sua irmã, Leonor de Barros, deram.

Aqui entra, mais uma vez, a resistência à tendência ao apagamento histórico: enquanto Catarina, a mãe, trabalhou como lavadeira para possibilitar o desenvolvimento educacional das filhas - nas primeiras décadas após a abolição da escravatura, em 1888, vale dizer -, o trabalho de Leonor, que também cursou a Escola Normal e se tornou professora, foi fundamental para Antonieta de Barros prosseguir com o propósito de democratizar e universalizar o acesso à educação.

Nesse contexto, para manter-se em Florianópolis, as duas irmãs abrem, em 1921, a escola Curso Particular Antonieta de Barros, que funcionou até a década de 1960.

Pela democratização no acesso a espaços educacionais e decisórios

A carreira parlamentar de Antonieta de Barros teve como marca incontestável a defesa da valorização e do acesso à educação. Basta dizer que a instituição de 15 de outubro como o Dia do Professor em Santa Catarina, em 1948 - e que se tornaria uma data nacional em 1963 -, foi uma pequena parte do trabalho que ela realizou dentro dessa pauta.

Temas que hoje são recorrentes no debate sobre Educação e sociedade já estavam presentes na atuação legislativa dela há quase um século. “É admirável e ao mesmo tempo perturbador notar que na primeira metade do século XX ela já defendia temas ainda urgentes como concurso público para magistério e o cargo de direção de escolas. Idem a importância da igualdade de salário entre professores e professoras; a relevância da educação de adultos; a necessidade de organização da categoria docente; a importância da aproximação entre crianças pobres e livros”, destaca Surya Aaronovich Pombo de Barros.

Nesse sentido, a atuação de Antonieta de Barros em defesa tem caráter interseccional com pautas como gênero, raça, infância, entre outros. Outros pontos passam pela valorização da docência e dos saberes prévios de estudantes, dentro da chave da democratização do acesso ao ensino.

“Antonieta foi da Comissão da Educação e da comissão que tratou do plano de carreira do funcionário público. O que vi [obra de] escrevendo, estudando e biografando foi uma mulher que está no grupo de protagonistas brasileiros e brasileiras, que entendiam a educação como um instrumento de transformação social. Algumas vezes ela me lembra muito Paulo Freire. Quer dizer: ele me lembra, pois ela veio antes”, reforça Jeruse Romão.

Ao considerar-se que a História pode rimar, os debates atuais sobre temas como permanência no Ensino Superior encontram correspondência com o acesso a estágios em nível básico para populações de grupos vulnerabilizados - de prevalência negra e periférica. Assim, Antonieta de Barros foi autora de requerimento para estabelecer o funcionamento de aulas noturnas para jovens e filhas e filhos de pessoas trabalhadoras.

Outros tópicos passaram também pela concessão de bolsas de estudos e pela oferta de merenda escolar:

“Percebe-se que ela [Antonieta de Barros] tinha uma ótica muito fina sobre a estrutura e o funcionamento da educação pública. Não era apenas sobre a sala de aula, mas também políticas educacionais, estrutura e funcionamento da escola.” (Jeruse Romão)

O poder da palavra e a vida pública como sacerdócio

Outra faceta da polivalente trajetória de Antonieta de Barros passou pelo jornalismo, uma vez que ela começou a escrever aos 23 anos textos publicados em veículos de Santa Catarina e assinando-os sob o pseudônimo Maria da Ilha, por meio do qual publicou o livro ‘Farrapos da Ilha’, em 1937.

“O nome dela não foi de resistência pela trajetória, mas sim pela ala conservadora masculina e feminina de Florianópolis que não concordava de jeito nenhum com a participação das mulheres na política, com uma ala machista que não concordava e com outra racista também, que não concordava com que as pessoas negras tivessem visibilidade. Ela enfrentou todas essas camadas pela educação e não recuou”, narra a biógrafa da intelectual.

Ao mesmo tempo em que ela usava sua coluna como canal pontual para a abordagem veemente da pauta racial, a sua atuação jornalística teve abordagem mais ampla. “Tendo a chamá-la de uma negra na imprensa”, ressalta Jeruse Romão, ao destacar o estilo de escrita da intelectual que flerta também com a verve literária. “Antonieta de Barros criou, junto com outros negros que tiveram a ideia, e compõe o Centro Catarinense de Letras, movimento de quem foi rejeitado pela Academia Catarinense de Letras, que não aceitava negros e mulheres.”

Como consequência, o afinco ao qual se dedicava a todas as áreas profissionais de sua vida a fez assumir o trabalho como se fosse sacerdócio. Isso refletia-se no fato de nem ela, tampouco Leonor de Barros, participarem de eventos comemorativos. “Elas não gostavam de exposição social e não iam a eventos públicos - apenas iam a eventos cívicos e eventos profissionais. Elas eram dadas a retirarem-se da cidade em época de férias para ir a internatos, internatos de freira e lugares isolados”, comenta a biógrafa.

Preservação da memória

Apesar da história de Antonieta de Barros ser digna da primeira prateleira de ícones da história do Brasil, o seu nome foi inserido no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria somente em 2023. Esse fato demonstra, por si só, que a sua trajetória não recebeu o devido reconhecimento por quase um século.

Pode-se considerar, então, que o reconhecimento à vida e obra da intelectual faz parte de um movimento de reparação histórica. Para se ter uma ideia, em 2024 o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), do Ministério da Educação (MEC), lançou a plataforma Antonieta de Barros, espaço que tem como objetivo reunir dados sobre investimentos, execução e monitoramento de programas e ações desenvolvidos pelo departamento.

Todavia, o legado e a memória de Antonieta de Barros estão sob constante disputa. Sua trajetória mostra, independentemente de forças políticas que tentem instrumentalizar ou cooptar a sua imagem, que o seu legado estará ligado às lutas pela universalização do acesso à educação, em especial para populações em situação de vulnerabilidade e com histórico de exclusão sociorracial. “Tenho certeza absoluta de que ela teria se colocado a favor do direito das pessoas de estarem na escola”, relata Jeruse Romão.

A memória da intelectual tem endereço reservado para a sua preservação. A saber, o prédio da antiga Escola Antonieta de Barros, situada em Florianópolis, será a sede de um museu dedicado à sua trajetória, assim como do Centro de Cultura, Memória e Arte Negra Catarinense local. Todavia, essa articulação veio acompanhada de muita luta. “Queremos consolidar o Museu Antonieta de Barros e entregá-lo para a cidade, pois ela é uma das mais importantes filhas de Florianópolis”, detalha a biógrafa da intelectual.

Combate ao revisionismo e respeito ao legado

Em tempos nos quais segmentos reacionários tentam normalizar pautas que visam eliminar ações afirmativas e retirar direitos voltados à promoção da equidade racial, como as cotas étnico-raciais, assim como o descalabro em forma do debate sobre mulheres poderem ou não votar, as histórias de ícones como Antonieta de Barros revelam-se fundamentais.

Episódios com esse teor são lembretes de que conquistas estarão sob permanente disputa e, diante disso, precisam ser defendidas, preservadas e protegidas também quando se trata de leis. Isso vale também para tópicos como a preservação mecanismos com foco na promoção da paridade numérica e de forças para candidaturas de parlamentares mulheres e negros.

“Estes são temas que pareciam já resolvidos, mas cujo retrocesso parece estar no horizonte próximo”, reforça Surya Aaronovich Pombo de Barros. Desse modo, é fundamental haver organização política para barrar proposições com esse teor. E os faróis históricos já estão no nosso horizonte. “Conhecer a trajetória de pessoas como Antonieta de Barros pode ser parte do antídoto para esse tipo de projeto.”

Assim, a sua vida e obra é fundamental para estudantes e pessoas pesquisadoras, assim como para qualquer pessoa que se interesse em aprofundar em discussões e reflexões sobre história, educação, gênero e raça no Brasil. “Seu legado está em sua própria trajetória pessoal e nas pautas que defendeu como intelectual pública, política e educadora, que ainda são urgentes e objetos de disputa sobre que sociedade desejamos ser”, pondera a professora da UFPB.

Por fim, outra lição que Antonieta de Barros deixa é sobre a sua trajetória não ser um fato isolado, por mais extraordinária e inspiradora que tenha sido. Sua mãe, Catarina, e sua irmã, Leonor, foram as suas bases e caminharam ao seu lado. Figuras históricas, como Almerinda Silva Gama (1899-1992), Coema Hemetério dos Santos (1888-?), Izolina Machado (1889-1931), Adelia de França (1904-1981), Laudelina de Campos Melo (1904-1991), Conceição Soares Lopes (1905-1990), Virgínia Bicudo (1910-2003), entre muitas outras, mostraram que a luta por direitos raciais e de gênero apenas obteve êxito graças a sonhos e esforços coletivos.

“Não é apenas sobre Antonieta de Barros, [o poeta] Cruz e Sousa ou Gustavo Lacerda, um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), que é um homem negro de Santa Catarina. Ao puxar-se a história de Antonieta, ela não vem sozinha: vêm ela e uma legião de pretos e pretas que construíram e estruturaram a história de Santa Catarina”, completa Jeruse Romão. E a construção e a estruturação nesse contexto podem ser estendidas também para a história do Brasil.

Escrito por:
Amauri Eugênio Jr.
31 de Julho de 2026